Entrevistas

11/06/2006

Juros devem manter queda, diz Mantega
Para ministro da Fazenda, nenhuma economia no mundo consegue crescer com taxas na casa de 16% ou 17% ao ano
Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal Folha de São Paulo

Por Sheila D' Amorim, enviada especial a São Petersburgo

Três meses depois de assumir o comando da equipe econômica, o ministro Guido Mantega (Fazenda) diz que seu maior desafio é garantir crescimento da economia acima de 4% em 2006. Confiante, diz acreditar que o cenário internacional não será um problema. A turbulência, para ele, é "passageira" e não terá forte impacto sobre o Brasil. Nem mesmo a sinalização do Banco Central de que poderá interromper a trajetória de queda nos juros o preocupa. A permanecer o cenário atual, avalia, os juros devem se manter em baixa, porque a "inflação no Brasil continua em queda, e não houve repercussão dessa turbulência [externa]". Para Mantega, nenhuma economia no mundo é capaz de crescer com juros de 16%, 17% ao ano. Mas ele ressalta que o juro médio no Brasil está abaixo disso porque é preciso considerar também outras taxas, como a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), atualmente em 8,15% ao ano. Após uma agenda que incluiu conversas reservadas com o secretário do Tesouro americano, John Snow, e o ministro das Finanças russo, Alexey Kudrin, uma visita a um dos maiores museus do mundo e um coquetel oficial com direito a apresentação de balé, o ministro conversou com a Folha na noite de sexta-feira. Mantega está em São Petersburgo (Rússia), como convidado, para o encontro dos ministros da Fazenda do G8, o grupo formado pelas oito economias mais industrializadas e a Rússia. A reunião serve como preparação para o encontro dos presidentes que acontecerá no mês que vem.

FOLHA - O governo brasileiro está aparentemente tranqüilo com o cenário internacional. Isso foi compartilhado nas discussões com outros países aqui na Rússia?

GUIDO MANTEGA - Não tenho percebido preocupação nos ministros da Fazenda de outros países. Conversando com o secretário do Tesouro americano e o ministro das Finanças da Rússia, percebemos que não há maiores preocupações.

FOLHA - A elevação dos juros anunciada pela Turquia não pode ser o início de um processo de alta nas economias emergentes?

MANTEGA - A Turquia é um país particularmente frágil diante da crise porque tem déficit em transações correntes e precisa de capital externo para fechar as suas contas. Isso não significa alta dos juros internacionais.

FOLHA - Mas o Brasil conta com capital externo para vender títulos de longo prazo e melhorar o perfil da dívida interna. Daí a atuação do Tesouro nas últimas semana. Esse não é um canal de contágio do país?

MANTEGA - De fato, do ponto de vista dos títulos brasileiros, essa turbulência acarretou uma elevação da taxa de juros de longo prazo, pelo menos momentaneamente. Também obrigou o Tesouro a atuar para dar liqüidez para investidores de longo prazo e manter a confiança deles nos títulos brasileiros. Mas considero isso uma situação circunstancial e passageira.

FOLHA - Não há risco de afugentar os investidores?

MANTEGA - Não. Foi necessária [a atuação do Tesouro Nacional] para mostrar que eles têm saída no caso de uma situação mais complicada. Pelo resultado da tentativa de recompra [de títulos da dívida externa, realizada na semana passada], podemos ver que o interesse por títulos brasileiros continua muito forte.

FOLHA - A operação ficou abaixo do que esperava o governo.

MANTEGA - Foi um sucesso no seguinte sentido: anunciamos recompra de até US$ 4 bilhões e foram fechados negócios de apenas US$ 1,1 bilhão. Significa que o que oferecemos não foi aceito pelos detentores dos títulos brasileiros que preferiram ficar com o papéis. Isso demonstra confiança nos títulos brasileiros. Foi um sucesso desse ponto de vista.

FOLHA - Na última ata do Copom, o Banco Central sinalizou que pode parar a redução da taxa de juros. Com o cenário positivo que o sr. vem traçando para o Brasil, não é precipitado falar em interromper a queda da Selic?

MANTEGA - Não li a ata do Copom, mas, pelas informações que obtive por telefone, a ata foi até mais flexível do que a anterior. Isso é uma questão de interpretação. As atas nunca são muito precisas na indicação do que vai ser feito nos próximos meses. Mas, pelo que ouvi, não sinaliza que [o Banco Central] vai deixar de reduzir os juros nem que fará o contrário.

FOLHA - Com os juros atuais e o cenário externo, vai dar para crescer os 4,5% que o sr. vem apostando?

MANTEGA - Primeiro, quando se fala em juros no Brasil todo mundo pensa na Selic, que é taxa de curto prazo, mas ela é apenas um dos vários juros que são praticados no país. Temos visto uma redução geral das taxas de juros no Brasil. Além da Selic, temos a TJLP, que também vem caindo e, portanto, é conveniente para os investidores. Se não fosse isso, não teríamos crescimento de 4% a 4,5% neste ano. Nenhuma economia no mundo consegue crescer com juros de 16%, 17% ao ano. Se fizer uma taxa média da economia brasileira, ela será inferior à taxa de 15,25% ao ano que é a Selic.

FOLHA - Do ponto de vista fiscal, os reajustes do funcionalismo público anunciados pelo governo e a aprovação pela Câmara de um aumento maior para as aposentadorias não vão deteriorar o resultado fiscal do próximo ano?

MANTEGA - Caso se consolide esse reajuste nas aposentadorias que ganham mais de um salário mínimo, haverá um abalo nas contas públicas brasileiras de algo como R$ 7 bilhões ou R$ 8 bilhões a mais de despesa. Isso pode causar um desequilíbrio orçamentário e comprometer as metas de superávit. Mas essa lei ainda vai ter de tramitar no Senado, e acredito que deve cair.

FOLHA - Qual o maior desafio pela frente?

MANTEGA - Meu desafio é conseguir um crescimento acima dos 4%, com recorde de emprego neste ano.

FOLHA - Mas os ventos externos não estão a seu favor.

MANTEGA - Não acredito que essa turbulência passageira venha a perturbar a realização desses objetivos. Isso não me traz nenhuma preocupação.

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