Entrevistas

08/10/2006

Vamos ter uma política monetária mais flexível
Com inflação em queda, ministro prevê juros menores e defende adoção de um redutor para gastos públicos

Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal O Globo

Flávia Barbosa e Martha Beck
BRASÍLIA

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está acostumado a eleições. Esta é sua quinta, desde 1989, sempre ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva. Por isso, parte para a ofensiva apresentando as três diretrizes de um eventual segundo mandato: redução da carga tributária, diminuição da burocracia e contenção de gastos. Pelo menos, em seu gabinete, os sinais de austeridade são evidentes: o ministro se acomoda numa cadeira com estofado rasgado. Ele disse já haver acordo no governo para a adoção de um redutor de despesas obrigatórias a partir de 2007 e defendeu programas de gestão na Saúde e na Previdência Social. E foi enfático ao garantir que há todas as condições para os juros baixarem.

O GLOBO: O segundo turno foi uma surpresa?

GUIDO MANTEGA: Já estou acostumado com emoções fortes. Não tem campanha tranqüila. É muito difícil uma eleição passar em brancas nuvens. Ninguém deixou de trabalhar intensamente. Mas a bomba veio de fora, o Exocet nos pegou de surpresa. O dossiê (contra o PSDB) alterou o resultado certamente. 
Senão (Lula) teria ganho por 15% de diferença.

O GLOBO: Quais são as diretrizes econômicas de Lula em um segundo mandato?

MANTEGA: Responsabilidade fiscal, combate à inflação e redução da vulnerabilidade externa.Não há razão para mudar.E vamos fazer uma política monetária mais flexível.

O GLOBO: As condições para manter juros em queda persistirão?

MANTEGA: Claro. A inflação está abaixo de 3%. Ninguém tem dúvida hoje de que a inflação está domada, temos 2006 e 2007 tranqüilos. Isso dá espaço para que a política monetária continue sua trajetória de flexibilização e é um dos pilares para um crescimento mais acelerado que haverá a partir de 2007.Estamos reduzindo a Selic há um ano, a TJLP, todas as taxas de juros brasileiras.

O GLOBO: Mas muitos analistas acham que o cenário externo não será este céu de brigadeiro a partir de 2007. O senhor não acredita em riscos?

MANTEGA: A avaliação mais realista é a de que podemos ter alguma desaceleração da expansão dos EUA em 2007. Mas isso nos afeta pouco.

O GLOBO: Por quê?

MANTEGA: Temos as exportações crescendo 16,8% por ano. Se crescerem 12%, não faz grande diferença. Temos um mercado interno que se robustece pelo estilo de desenvolvimento que implantamos, que cria emprego, gera massa salarial.Então, compensamos. E a vulnerabilidade do Brasil é a menor de todos os tempos.Quando assumimos (2002), tínhamos US$ 15 bilhões de reservas e devíamos US$ 20 bilhões só para o FMI. Liquidamos esses pagamentos e temos hoje US$ 74 bilhões em reservas, que semana que vem serão as maiores da história. E agora elas são nossas, não capital volátil como em 1998. A situação é absolutamente inédita. O governo que pegar essa situação deve beijar os pés de seu antecessor.Vai ser difícil o Lula beijar os seus próprios pés.

O GLOBO: Por que os analistas não enxergam um 2007 de crescimento forte como o senhor?

MANTEGA: As condições nunca foram tão favoráveis. É agora. Até o petróleo caiu, não vai precisar fazer reajustes de combustível. Nós caminhamos para um juro real próximo de países emergentes, que não pode ser mais do que 4% ou 5%. No passado, esse era um país arriscado, com contas públicas desequilibradas. Subimos um degrau. Dá para subir mais um.

O GLOBO: Por que o Brasil não consegue atrair investimentos? Analistas citam problemas regulatórios, carga tributária...

MANTEGA: Eu concordo em parte com o diagnóstico. O nosso desafio é multiplicar o investimento, de fato. O que fazer? A primeira coisa é custo financeiro. Essa primeira lição de casa nós estamos fazendo.

No setor de energia elétrica, fizemos o marco regulatório. O modelo anterior nos levou a uma crise violenta em 2001. A área de ferrovias está tendo um investimento inédito, empresas lucrativas. Há um mito no Brasil de que as agências reguladoras não funcionam. O governo anterior deixou uma confusão, agências feitas às pressas. Não definiu recursos, quadro funcional, atribuições. Definimos e demos mais dinheiro.

O GLOBO: Então, qual é a amarra?

MANTEGA: Falta reduzir a carga tributária. O governo já está fazendo isso. É uma desvantagem para o investidor brasileiro, que precisa ter carga menor e estrutura tributária mais fácil. O produtor passa de um estado para o outro por causa de ICMS. Essa confusão tem que acabar. Colocamos como prioridade uma reforma tributária que simplifique.

O GLOBO: Isso passa só pela unificação do ICMS ou, ainda, pela criação de um Imposto de Valor Agregado (IVA)?

MANTEGA: Num estágio mais simples, passaria pela unificação do ICMS. Numa versão mais sofisticada, passa pelo IVA, mas demora mais para implementar. Num terceiro estágio, passa pela nota fiscal eletrônica conjunta, das receitas estaduais e federal.

GUIDO MANTEGA: “As condições nunca foram tão favoráveis. Até o petróleo caiu, não precisa fazer reajustes”

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