Entrevistas

08/10/2006

Lula quer cortar impostos, diz Mantega
Ministro ataca Serra e Malan e critica "aloprados" do PT, que teriam feito governo perder "eleição que estava ganha'

Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal Folha de S. Paulo

Presidente já pediu estudos sobre desoneração, diz Mantega; objetivo é fazer reforma tributária a fim de elevar investimentos

O ministro Guido Mantega (Fazenda) já recebeu ordens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para começar um eventual segundo mandato cortando tributos para aumentar a taxa de investimentos do país. Para isso, prepara um programa de desoneração e um projeto de reforma tributária.

Depois de uma semana tumultuada em que Mantega abriu a polêmica do segundo turno das eleições ao criticar a oposição durante entrevista no prédio do Ministério da Fazenda, ele diz que não faz campanha e é apenas da área técnica. Mas não se furta a responder a questões políticas.

Em entrevista à Folha, ele defendeu mais agilidade no PT para punir os culpados, reconheceu que os "aloprados" fizeram o governo perder "uma eleição que estava ganha" -nos seus cálculos, com 15% de vantagem- e credita a realização do segundo turno à vontade da mídia aceita pelo eleitorado. "Acho que a imprensa queria segundo turno."

Na entrevista, ele não poupa o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB), pelo esquema dos sanguessugas e ataca o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan.
A seguir, os principais trechos da entrevista.

FOLHA - Quais as principais medidas do plano de desoneração tributária que o senhor está preparando?

GUIDO MANTEGA - O Brasil precisa crescer a taxas mais elevadas. Para isso, é preciso que aumente o nível de investimento. Isso significa redução dos custos financeiro, tributário e de infra-estrutura. Do ponto de vista financeiro, estamos no caminho certo. O crédito vai continuar aumentando, e os juros, baixando.

FOLHA - E o custo tributário?

MANTEGA - Os problemas são dois: o tamanho da carga e a natureza da tributação. São [necessárias] duas coisas: a reforma tributária e a programação de redução de tributos.

FOLHA - O que será desonerado?

MANTEGA - Não vamos nos precipitar e dizer que vamos fazer uma desoneração geral da economia. Vamos fazer um estudo e um planejamento.

FOLHA - Já começaram as discussões?

MANTEGA - Começarão nesta semana, na reunião da Câmara de Política Econômica. Mas o presidente já deu prioridade a isso. Mandou-me fazer estudos porque quer reduzir tributos.

FOLHA - Há medidas previstas para este ano?

MANTEGA - Temos de decidir neste ano se a gente toca adiante o projeto de reforma do ICMS que está no Congresso ou se fazemos uma reforma mais ambiciosa, que é um IVA nacional. Quero abrir a discussão. O grande obstáculo são os governadores, que terão ganhos e perdas.

FOLHA - Quando o sr. conversará com eles?

MANTEGA - Assim que definirmos o quadro eleitoral. O ideal será começar 2007 já com o projeto definido.

FOLHA - O sr. poderá receber ao final do ano uma carta do presidente do Banco Central dizendo que eles erraram e a inflação ficou abaixo do piso da meta...

MANTEGA - Eles não escrevem necessariamente que erraram. Eles vão escrever assim: "Olha, ela foi menor por uma série de razões que fugiram do nosso controle. O petróleo caiu, a gente esperava que subisse, a gasolina não aumentou". Em geral, a carta tem explicações. Não sei se vou aceitá-las.

FOLHA - O que significa não aceitar as explicações?

MANTEGA - É brincadeira.

FOLHA - O sr. está dedicado à reeleição do presidente Lula?

MANTEGA - Eu? Não.

FOLHA - O cenário político com integrantes do PT sendo investigados o decepciona?

MANTEGA - O cenário político me parece bastante favorável. Nunca tivemos uma democracia tão ativa. E democracia tem conflito, discussão, corrupção e tudo isso que estamos vendo. Sinto-me feliz por estar num governo que foi o que mais combateu a corrupção, que é tão velha quanto a civilização. O importante são os instrumentos que a sociedade possui para combatê-la. O Brasil avançou muito.

FOLHA - Quais foram os avanços?

MANTEGA - Orgulho-me da Polícia Federal. Nem vamos comparar com o governo anterior porque senão iremos humilhar. A Controladoria Geral da União faz um trabalho muito importante.

FOLHA - Mas a PF é acusada pela oposição de esconder informações...

MANTEGA - Isso é jogo político. Todo mundo sabe que uma investigação não se faz do dia para a noite, a menos que se queira cometer irregularidades e injustiças. O "timing" da polícia e do Judiciário não é o mesmo da política. É um equívoco dizer que a polícia não atuou. Assim como pegou os sanguessugas, pegou o tal do Abel [o empresário Abel Ferreira], o pessoal do partido que faz as acusações. Tem ex-ministro envolvido, que é poupado.

FOLHA - Mas o ex-ministro Humberto Costa, do PT, também aparece entre os envolvidos...

MANTEGA - Não começou com o Humberto Costa, começou com o senhor Serra [José Serra] e isso está lá. Só que, na televisão, passa o quê? Passa o dinheiro, e não esse DVD que está todo mundo sabendo. Por que passa uma coisa e não a outra?

FOLHA - O sr. acha que as redes de televisão estão tendo um comportamento partidário?

MANTEGA - Acho que algumas. Não quero generalizar. Não é toda a imprensa. Há uma forçação de barra em alguns casos favorecendo mais um candidato do que o outro.

FOLHA - O governo sabe o nome de quem sacou o dinheiro?

MANTEGA - Claro que não. A Polícia Federal já teria revelado.

FOLHA - O dossiê foi decisivo para o segundo turno?

MANTEGA - Claro que sim. Mas houve uma certa manipulação. O Aécio Neves [governador de Minas Gerais] não foi ao debate e ninguém explorou isso. O Lula não foi e procurou-se fabricar uma imagem negativa. Usaram pesos diferentes.

FOLHA - No caso do presidente Lula, o eleitor não cobrava mais explicações do que de Aécio Neves?

MANTEGA - Acho que a imprensa queria segundo turno. É só ler os editoriais da Folha. Eu leio os editoriais, leio o que o diretor da Redação escreve.

FOLHA - Então não há nenhum recado do eleitor para o PT ou ao presidente Lula?

MANTEGA - O eleitorado talvez tenha aceitado o que a imprensa queria. A mídia certamente tem muita influência, tanto que se fala em "quarto poder". Acho que a divulgação não é equilibrada. Deveriam ter colocado o dinheiro, mas também a outra parte. Tem muito mais provas de que o PSDB está envolvido com os sanguessugas do que o PT. Isso não elimina a responsabilidade para o lado de cá. Não protejo ninguém, nem os meus correligionários do PT.

FOLHA - O senhor acha que um governo Geraldo Alckmin seria ruim para a economia?

MANTEGA - Não posso dizer isso no papel de ministro da Fazenda. Seria bom que ele explicitasse qual é o programa econômico e social dele. Se ganharmos, os 4,25% do PIB de superávit vão continuar. Vamos acelerar o crescimento e manter os programas sociais. Fui criticado porque falei que não tinha clareza no programa do meu adversário, mas não faço como meu antecessor aqui, chamado Pedro Malan, que disse que, se o PT não seguisse a orientação econômica, iríamos para a catástrofe, para a "argentinização". Pelo contrário, tenho dito que nunca a economia esteve tão sólida.

FOLHA - O sr. se diz um técnico, mas dar a entrevista no prédio do Ministério da Fazenda não foi fazer campanha?

MANTEGA - Não. Não fiz campanha política. Provocaram-me e respondi. A economia está madura e, seja qual for o presidente, não vai acontecer nada.

FOLHA - A demora em definir o afastamento do PT dos envolvidos no escândalo do dossiê atrapalha a candidatura Lula?

MANTEGA - Acho que isso deveria acontecer o mais depressa possível. Tínhamos uma eleição ganha, há três semanas. Íamos ganhar com 15% de vantagem. Aí vieram com essa história e deu um revertério na campanha. Lula não teve benefício. É óbvio que ele não sabia, porque, se soubesse, iria matar quem inventou essa história.

FOLHA - O sr. vai fazer campanha?

MANTEGA - Não tenho característica de cabo eleitoral. Acho que contribuo melhor dando sobriedade e mantendo a economia sob controle.

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