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Entrevistas
08/05/2006
Juros baixos e desenvolvimento é o plano de Mantega
Entrevista do
Ministro da Fazenda Guido Mantega à Revista IstoÉ
O ministro da Fazenda diz que representa o pensamento do presidente e afirma que chegou a hora de os bancos darem sua contribuição
Por Hugo Studart
Foto:
Paulo Fridman/Corbis

Sob controle:
Guido Mantega nega gastos públicos exagerados
no ano eleitoral |
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Guido
Mantega exala felicidade no principal gabinete do quinto andar do
Ministério da Fazenda. Desabotoa o paletó, mexe no controle
remoto do ar-condicionado, ironiza os adversários, ajeita o
quadro de Manabu Mabe, olha a cada cinco minutos para uma tela
eletrônica onde se movem constantemente os índices da Bovespa,
do dólar e do risco Brasil. Guido Mantega sorri o tempo inteiro.
“Já me sinto muito à vontade no Ministério”, confidencia.
“Até decorei o nome das minhas quatro secretárias e três
motoristas.” Alçado há 40 dias ao comando da economia, ele
acha que chegou a hora de impor seu próprio estilo. “Chegou a
hora de falar menos de juros e começar a falar de
desenvolvimento”, foi logoavisando, na tarde da quinta-feira 4,
em entrevista exclusiva a ISTOÉ. Mas como falar em crescimento se
a última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central
fala em manter parcimônia para
conter a inflação? “Opresidente do Banco Central não
pode |
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pensar de forma
diferente do presidente da República”, ataca, referindo-se a
Henrique Meirelles. A ordem do dia é consolidar o crescimento. A
questão é saber o que Mantega vai fazer de concreto para
garantir tal índice. Na manhã da sexta-feira 5, ele deixou seu
gabinete refrigerado em Brasília e desembarcou em São Paulo para
manter uma reunião com os representantes dos maiores bancos
privados brasileiros. Na pauta, forçá-los a baixar imediatamente
o crédito ao consumidor. “Chegou a hora de os bancos privados
darem sua contribuição à economia”, disse. Enfim, Guido
Mantega começa a mostrar a que veio:
ISTOÉ – Quais mudanças
o sr. pretende implementar na política econômica de Antônio Palocci?
Guido Mantega – A
grande diferença entre o Mantega e o Palocci é o peso e o cabelo. O
Palocci tem mais peso do que eu. E muito mais cabelo.
ISTOÉ – O Palocci
manteve por mais de três anos uma política defensiva, enquanto o sr.
passou todo esse tempo cobrando mais ousadia.
Mantega – Na verdade,
se há uma mudança em curso, é decorrência da fase que se encontra o País.
Na primeira fase, a do Palocci, se deu uma maior atenção à recuperação
dos fundamentos econômicos. Mas agora já há condições de priorizar a
pauta do desenvolvimento.
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ISTOÉ – Como
se faz isso?
Mantega – A
parte da política monetária teve até agora um certo
conservadorismo, que é um viés natural do Banco Central. Eu
entro numa fase em que vamos colher os frutos daquilo que foi
plantado. Hoje, nós temos uma situação fiscal que nunca
tivemos, com a inflação abaixo da meta. Se foi feito um esforço,
já foi feito, acabou. Se foi excessivo, eu não sei lhe dizer. Só
sei que agora estamos na fase da colheita. A minha vantagem é
essa. O desenvolvimento já se |
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Foto:
Joédson Alves

"É hora de colocar em segundo
plano a pauta da política monetária. O ideal é que nem falássemos
mais em juros" |
| torna uma
realidade, se transformou na nossa pauta central. Estamos na fase
de colocar em segundo plano a pauta da política monetária, que
vai perdendo importância à medida que os juros vão caindo. O
ideal é que nem falássemos mais em juros no País. |
ISTOÉ – Mas
continuamos com os juros mais altos do mundo.
Mantega – Tudo bem,
então digo que chegou a hora de falar menos de juros. Mas enquanto os
juros estiverem caindo, como agora, está todo mundo satisfeito. Deixa os
juros irem caindo. Quanto mais eles vão caindo, mais eles deixam de ser
assunto da ordem do dia. Nos outros países você não fica falando de
inflação a toda hora, você só fala daquilo que vira problema.
ISTOÉ – O sr. e o presidente do BC, Henrique Meirelles, estão
em caminhos opostos?
Mantega – A maioria
interpretou a ata do Copom como conservadora. Eu diria que é uma ata
cautelosa, que vai examinar os vários indicadores da economia. Se for
isso mesmo, tudo bem. Pode examinar, desde que continue baixando os juros.
O BC tem a obrigação de examinar como anda a inflação com toda
cautela. Mas eu posso garantir que este ano nós estamos com os preços
administrados numa situação muito favorável. É o primeiro ano em que
esses preços ficam abaixo da média da inflação medida pelo IPCA.
Portanto, estamos com um cenário muito favorável.
ISTOÉ – O sr. está avisando ao BC que não é hora de ter
parcimônia
no crescimento?
Mantega – Não, não
é hora. Acho que no início do governo podíamos ter parcimônia, mas
agora a meta é atingir um crescimento entre 4% e 4,5% em 2006 e chegar a
5% em 2007. É daí para mais.
ISTOÉ – O sr. está querendo subordinar Meirelles à Fazenda?
Mantega – O
presidente do Banco Central não pode pensar diferente do presidente da
República, e eu estou expressando o pensamento do presidente da República.
O presidente Lula já disse: nós agora temos que olhar para o
crescimento. A ordem do dia é consolidar o crescimento. As políticas
todas do governo têm que ser orientadas nessa direção. E eu, como o
ministro da Fazenda, tenho que orientar as ações do governo e viabilizar
esse crescimento.
ISTO É – Quais medidas serão tomadas para viabilizar esse
crescimento?
Mantega – Vamos
primeiro pelas forças que estão impulsionando o crescimento, em especial
o setor externo. O governo terá que tomar medidas efetivas na área de
infra-estrutura para facilitar o transporte e o embarque de mercadorias.
Ferrovias, portos, rodovias, tudo isso tem de ser melhorado. Também está
sendo criada uma zona de exportação. Vai funcionar assim: se o empresário
instala uma fábrica que vai exportar 80% da produção, ele fica isento
de praticamente todos os tributos. Essas zonas serão em qualquer lugar,
podem ser implantadas onde quiserem. É quase uma zona franca.
ISTOÉ – O sr. vai olhar para o consumidor?
Mantega – Há muito
que o governo está olhando. Tanto que uma das forças que estão
impulsionando o atual crescimento é essa quase revolução no crédito ao
consumidor. É muito mais do que o crédito consignado. Estão oferecendo
carro em 72 prestações.
ISTOÉ – Mas são linhas de crédito especiais. A taxa real de
juros ao consumidor e o cheque especial permanecem impraticáveis.
Mantega – É verdade,
o Brasil é campeão não só de taxa básica do Banco Central, a Selic,
mas também temos um outro pódio, temos os maiores spreads do mundo. É a
taxa de risco que os bancos cobram pelos empréstimos, 16%, 17% em média.
Eu acho que poderíamos reduzir. É claro que os banqueiros têm várias
demandas, várias explicações para esses spreads. Mas eles poderiam ser
mais agressivos na redução, existe espaço para isso. Os bancos captam
dinheiro pela Selic e depois emprestam para seus clientes. Ora, a Selic já
baixou 3%, 4% em termos reais nos últimos meses e continuam caindo. Eles
poderiam estar repassando isso para o consumidor. E se algum banco privado
repassou, fez menos do que deveria.
ISTOÉ – Vem aí alguma medida para enquadrar os bancos?
Mantega – Eu quero
discutir com eles. Estou indo conversar com a Febraban para tentar convencê-los
a baixar os spreads. Nós aumentamos muito a segurança do crédito, como
a nova Lei de Falências e as mudanças na legislação habitacional.
Chegou a hora de os bancos darem a contrapartida.
ISTOÉ – O sr. planeja flexibilizar a meta de inflação para
2007, de forma a facilitar o crescimento?
Mantega – A meta
permanecerá em 4,5%. É uma meta que permite o crescimento econômico. Não
tem sentido subi-la. Nem pretendo baixá-la. Não vamos fazer nenhuma
loucura de querer perseguir uma inflação suíça.
ISTOÉ – E os gastos públicos? Eles estão explodindo.
Mantega – Não está
explodindo nada. O que tem de diferente é que este é um ano eleitoral,
quando você gasta mais no primeiro semestre e menos no segundo. Mas os
gastos estão sob controle, tanto que o superávit até abril foi de
4,38%. É um bom nível de gastos, é sinal de que a máquina está
funcionando, os investimentos estão sendo feitos, o Bolsa Família está
sendo posto em prática.
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Foto:
Joédson Alves

"O Alckmin falou em
aumentar o superávit. Ele vai acabar com o Bolsa Família?"
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ISTOÉ – O que o sr.
acha da proposta da equipe de Palocci de aumentar o superávit primário
para fazer o ajuste de longo prazo?
Mantega – Esse superávit
atual, de 4,25% do PIB, ajuda a viabilizar o crescimento gradual nos
moldes que estamos pensando, de 4,5% em 2006, 4,75% em 2007, 5% em 2008 e
de 5,25% em 2009. O desenho adequado é esse. Eu acho que 4,25% é
suficiente. Nem mais, nem menos. Tinha gente que achava melhor aumentar o
superávit ao infinito. Tem até um certo candidato à Presidência
falando nisso. Eu sou contra, porque prejudicaria as outras atividades.
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ISTOÉ – Qual
candidato?
Mantega – O Geraldo
Alckmin. Ele andou falando em aumentar o superávit primário. Parece que
depois mudou um pouco o discurso. Se o Alckmin aumentar o superávit, eu só
quero saber de onde ele vai tirar o dinheiro para as demais necessidades.
Será que ele vai acabar com o Bolsa Família? Ou não vai mais aumentar o
salário mínimo? Ou vai deixar de fazer investimentos, desistir da
rodovia 163? O exagero fiscal que a ortodoxia econômica gostaria de
praticar pode levar a uma redução do nível de atividades e ao
agravamento dos problemas sociais.
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