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Entrevistas
06/08/2006
Mantega diz que vai apertar os bancos
Ministro afirma não entender por que instituições ainda não reduziram seus juros e que compulsório não é desculpa
Entrevista do
Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal
Folha de S. Paulo
Por Guilherme Barros
O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, não gostou das declarações feitas
na semana passada por Marcio Cypriano, presidente da Febraban (Federação
Brasileira dos Bancos), em que defendeu a redução do depósito compulsório
como condição para os bancos baixarem os juros ao consumidor. "Há
espaço para a queda do "spread" no setor privado sem mexer no
compulsório", disse o ministro. Para Mantega, o governo já cortou a
Selic em cinco pontos percentuais, e, até agora, essa redução não foi
repassada para os consumidores. Disse, ainda, que o governo tomou diversas
iniciativas, como a nova Lei de Falências, que também não surtiram
efeito. "E os bancos exibem enormes lucros." Mantega disse que o
governo prepara novas medidas para incentivar os bancos a baixar os juros.
Entre elas, a criação do "cadastro positivo", que prevê a
criação de uma lista de pessoas com bons antecedentes que poderiam ter
acesso a empréstimos com juros menores. Outra seria a extinção da
cobrança aos bancos do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que serve
para ressarcir correntistas até o limite de R$ 20 mil por CPF diante da
quebra de bancos. O fundo já possui R$ 9,5 bilhões em caixa, volume
considerado suficiente para cobrir uma emergência. Mantega também
pretende forçar os bancos oficiais a baixar mais o juro para aumentar a
competição. Leia entrevista.
FOLHA
- O que o sr. achou da reivindicação da Febraban de o governo baixar o
depósito compulsório para reduzir os juros para o consumidor?
GUIDO
MANTEGA - Eu acho que há espaço para a redução do
"spread" do setor privado sem que haja mudanças no compulsório.
A Selic já caiu cinco pontos percentuais, e isso não foi repassado para
o consumidor. Ao mesmo tempo, os bancos exibem enormes lucros.
FOLHA
- O governo pode tomar alguma medida para ajudar a baixar o
"spread"?
MANTEGA
- O governo pode tentar agilizar o processo de aprovação do
"cadastro positivo", mas vale lembrar que o governo já
implementou várias medidas que aumentaram a segurança no sistema de crédito
e isso já poderia ter se refletido num "spread" menor. Entre as
medidas, a nova Lei de Falências e a alienação fiduciária.
FOLHA
- Mas por que os "spreads" não caem?
MANTEGA
- É uma boa pergunta. Eu também gostaria de saber do sistema financeiro
por que o "spread" não cai. Não adianta dizer que é o compulsório.
Ele já existia, estava nesse patamar de agora, mas sem todas essas
medidas que ajudaram a fortalecer o setor.
FOLHA
- O sr. não gostou da reivindicação dos bancos. MANTEGA - A tendência
é sempre colocar toda a culpa nas costas do governo. O governo tem que
baixar a tributação, o governo tem que reduzir o compulsório, mas o
governo tomou várias iniciativas que deram solidez ao setor e, ao meu
ver, já são suficientes para a redução do "spread", a começar
pelo corte da taxa Selic.
FOLHA
- O sr. tem discutido com os bancos essa questão?
MANTEGA
- Tenho me reunido com eles e eles alegam o aumento da inadimplência, o
compulsório, a cunha fiscal para não baixar o "spread", mas
tudo isso já existia. A legislação hoje é mais favorável ao setor. O
volume de crédito aumentou, houve diluição de custos no sistema, e
ainda houve o corte na Selic, e o "spread" não caiu.
FOLHA
- O que o governo pretende fazer?
MANTEGA
- O governo está buscando reduzir os "spreads" das suas
instituições, o que é uma maneira de aumentar a competição no
sistema. Das medidas que foram demandadas pelo setor, além do cadastro
positivo, há uma que pode ser tomada, que é reduzir o Fundo Garantidor
de Créditos. Os bancos têm que pagar um percentual do seu faturamento
para o FGC, que é aquele fundo criado para garantir que, se uma instituição
quebrar, o cliente tem garantido até R$ 20 mil em sua conta. Os bancos
alegam que o saldo dessa conta já atingiu R$ 9,5 bilhões e não houve
nenhum problema e, por isso, defendem que baixe essa alíquota. Isso pode
ser feito.
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