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Entrevistas
06/08/2006
Crédito consignado para casa própria
Entrevista do
Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal O Globo
Por Flávia Barbosa, Martha Beck e Sergio Fadul
BRASÍLIA.
Formulador histórico de programas econômicos para o PT, o ministro da
Fazenda, Guido Mantega, já pensa na agenda para eventual segundo mandato
do presidente Lula. Sem esconder as pretensões de continuar no cargo,
afirma que a nova tônica da economia deve ser o crescimento. Há quatro
meses no posto, diz que é com esta orientação que o governo lançará,
em 15 dias, um pacote de estímulo ao crédito habitacional, com a criação
do crédito consignado para financiamento da casa própria. De formação
heterodoxa, surpreende ao defender que o Estado não tem necessariamente
que ampliar investimentos. Mas nega uma guinada em seu pensamento.
Especialistas
alertam que o controle das contas públicas está sob riscos. O ritmo
crescente dos gastos não é preocupante?
GUIDO
MANTEGA: A resposta é não. É natural que se tenha alguns aumentos de
despesas. O gasto com pessoal em relação ao PIB está estável. Eu
desafio vocês: olhem 2003, 2004 e 2005. Até caiu em relação ao PIB. Só
em 2006 vai subir um pouco. Estão criando falsas idéias.
Mesmo
diante dos aumentos concedidos ao salário-mínimo e aos servidores?
MANTEGA:
Mesmo com tudo isso, os gastos com o funcionalismo estão sob controle. Não
é possível imaginar que vai dar aumento para o funcionalismo abaixo da
inflação. Num governo que se diz de centro-esquerda, num governo
progressista como o nosso, arrochar salário de funcionalismo... é só o
que faltava. O presidente Lula definiu um critério de política salarial
que diz: olha, no meu governo não tem sentido que eu tenha dado aumentos
abaixo da inflação. Além disso, por exemplo, aumentamos em 50% o
efetivo da Polícia Federal e elevamos os vencimentos. Você não tem um
funcionário de alto nível motivado se ele não ganhar mais e, portanto,
sem estar sujeito às tentações do vil metal. Isso deu resultado e se
deve a termos um funcionalismo mais robusto.
A
oposição incluiu numa medida provisória um reajuste de 16,5% para os
aposentados que ganham acima do mínimo. Isso gerou uma troca de acusações
e aí foi a vez de o governo dizer que o ajuste fiscal ficaria em
perigo...
MANTEGA: Tendo acabado de negociar 5% de aumento com os aposentados, vem
uma medida que foi gestada pela oposição, cujo único objetivo não é
beneficiar os aposentados, é criar um constrangimento para o governo ou
desequilibrar as contas públicas. Acho engraçado ver a oposição
falando em equilíbrio fiscal e propor uma medida que, se efetivada,
poderia desequilibrar em R$ 8 bilhões as contas. Por isso que o
presidente vetou e vetará quantas vezes for preciso.
Analistas
avaliam que a meta de superávit primário está sendo alcançada às
custas dos lucros das estatais, mas nada garante que os resultados vão se
repetir. Eles estão corretos?
MANTEGA: As estatais estão cumprindo a sua parte. Você viu como está o
preço do petróleo. É uma festa. Não tem chance de a Petrobras ter redução
de lucratividade. Além do que, é vendedora dos novos tipos de energia. O
setor de gás e petróleo é o que mais investe e vai continuar tendo
lucros elevados. Não há nenhuma razão para retirar do cálculo do
resultado fiscal a performance das estatais, que estão sob nova gestão.
Outro
ponto de apoio do ajuste fiscal é o aumento da carga tributária. É possível
mantê-la neste patamar?
MANTEGA:
É verdade que a carga fiscal cresceu expressivamente de 1995 a 2002 por
aumento de tributos. Só que a partir de 2003, 2004, o aumento de arrecadação
se deu por motivos virtuosos, que são o aumento da atividade econômica,
da formalização da economia e da eficiência da máquina arrecadatória.
As empresas estão pagando mais Imposto de Renda, pois há muito tempo não
lucravam tanto. O governo está reduzindo alíquotas, a renúncia fiscal
entre 2003 e 2006 é de R$ 19 bilhões. Houve uma elevação, porém
chegamos no topo da montanha e estamos descendo. Estamos na direção
certa, diminuindo tributos.
Então,
não há risco de descumprimento da meta de superávit de 4,25%?
MANTEGA: Eu garanto que vamos fazer o primário porque eu tenho a chave do
cofre, eu controlo a receita todo dia. Se eu for responsável pela política
fiscal no próximo governo, continuarei entregando os 4,25% do PIB nos próximos
quatro anos. E o compromisso mais importante é o de reduzir a relação dívida/PIB.
Tendo em vista as condições que o país estabeleceu, muito mais sólidas,
com redução do risco-país, inflação baixa, teremos redução gradual
das taxas de juros, de modo que vamos chegar ao déficit nominal zero. A
relação dívida/PIB, hoje na casa dos 50,6%, estará em 44,2% em 2009.
E o
déficit na Previdência, como resolvê-lo?
MANTEGA:
As despesas de Previdência são as que mais vêm subindo porque sofrem
influência do mínimo. Agora, está sendo feito um trabalho de gestão
como nunca se fez no Brasil, que consiste em reduzir os gastos, diminuir
fraudes. No início do ano, a previsão de déficit era de R$ 50 bilhões.
Mas agora já trabalhamos com R$ 41 bilhões.
Os
investimentos não deveriam ser o destino de uma parte maior dos impostos
arrecadados?
MANTEGA:
O investimento público subiu muito este semestre em relação ao passado.
Em 2005 já foi maior do que em 2004. Temos procurado fazer mais obras
rodoviárias e na infra-estrutura portuária porque são necessárias para
viabilizar um crescimento maior da economia. Agora, é um volume
expressivo? Não é. Mas estamos em outros tempos. O Estado vai diminuindo
seu papel como investidor e abrindo espaço para o setor privado. Isso é
uma tendência não só no Brasil, mas em todos os países capitalistas.
O
senhor acha que o Estado não tem mais que investir tanto?
MANTEGA:
O Estado brasileiro investe menos da metade do que investia nos anos 60 e
70. Você tinha um capitalismo incipiente, sem condições de fazer
investimentos em infra-estrutura, então as estatais faziam diretamente.
Hoje, tem que abrir espaço e dar condições para que o setor privado faça
o investimento. O Estado tem que fazer o que o setor privado não faz
porque não tem condições ou rapidez. O empresário administra bem
concessões como estradas e ferrovias, por exemplo.
O
senhor está com um viés neoliberal, defendendo um Estado menor...
MANTEGA: Não tem nenhum viés neoliberal. Pode escrever aí que eu sou um
desenvolvimentista. Eu não falei que o Estado não tem que investir. O
Estado tem que recuperar rodovias e, muitas vezes, tem que abrir novas em
lugares onde o setor privado não faria, como a BR-101 Norte. No dia em
que o setor privado quiser fazer tudo isso, o Estado não precisa fazer.
A
economia praticamente se livrou da indexação dos preços. A inflação não
assusta mais?
MANTEGA:
Quando você passa a ter uma inflação abaixo de 5%, ela deixa de ser
relevante. O cidadão e o agente econômico olham para outros parâmetros.
Uma inflação de 4%, 3,5% significa que em alguns setores os preços não
estão subindo ou que há um barateamento. O grande avanço que vamos ter
na economia é deixar de nos preocuparmos com algumas variáveis que foram
um pesadelo para o país nos últimos anos, como inflação, juros e dívida.
Os
juros no Brasil estão entre os mais altos do mundo, mesmo assim o senhor
afirma que não são mais um pesadelo?
MANTEGA:
Tudo isto vai saindo da pauta. Vamos olhar para outras coisas mais
importantes. Os juros também, à medida que vão baixando. Daqui a pouco
a questão dos juros vai deixar de ser o foco no noticiário. A questão
fiscal também é outra questão que vai deixar de ser tema. As pessoas só
falam dos assuntos que são problemáticos. Então o pessoal vai ter que
inventar outros temas porque esses vão ficando velhos.
O
que vai entrar na pauta?
MANTEGA:
A potencialização do crescimento. O Brasil deixa de ser um país de
crescimento de zero a 4% para ser um país de crescimento de 5% a 10%. É
como faixa de imposto. Só que aqui é positiva. Estamos na iminência de
mudar de país emergente pouco dinâmico para mais dinâmico. A partir do
ano que vem, o Brasil está habilitado a crescer mais de 5%.
O
senhor fala em potencializar o crescimento. Que medidas a Fazenda tomará
para apressar isso?
MANTEGA:
Estamos estudando um conjunto de medidas para impulsionar o crédito
habitacional. O setor está indo de vento em popa, mas muito aquém
daquilo que é feito em escala internacional. O volume de crédito para
construção civil hoje no Brasil chega a 2% ou 3% do PIB. Em outros países,
como a Espanha, chega a 30% ou 40% do PIB.
Que
medidas vão ser adotadas?
MANTEGA:
Vamos permitir a utilização do crédito consignado (com desconto na
folha de pagamento) para habitação. Isso vai permitir que as pessoas façam
contratos de longo prazo para comprar a casa própria a custos menores
porque a operação terá menos risco. Além disso, vamos dar permissão
para os bancos operarem com taxas de juros fixas de fato, eliminando a TR
(Taxa Referencial) da correção dos financiamentos.
O
senhor vem repetindo que é preciso reduzir o spread bancário. Como fazer
com que essa intenção chegue aos consumidores?
MANTEGA:
O crédito impulsiona toda a economia e é fundamental para manter o
patamar de investimento acima de 20%, necessário a um crescimento acima
de 5%. Devemos anunciar medidas como o crédito consignado para as
pequenas empresas e estímulos à redução dos spreads a partir de eficiência
operacional. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica já foram orientados
nesse sentido. O cadastro positivo, que está no Congresso, também será
muito importante.
Quais
as prioridades para a Fazenda na eventual reeleição do presidente Lula?
MANTEGA:
Vamos dar continuidade à política econômica que temos, porém numa nova
fase, porque é bem-sucedida. A primeira fase foi de consolidação da
economia, e nela o crescimento foi menos intenso porque você estava se
ocupando dos equilíbrios monetário e fiscal e da redução da
vulnerabilidade. Como tudo isso foi conquistado, agora entra uma nova
fase. Isso vale para qualquer governante que vem por aí: é a fase de
potencialização do crescimento.
O
senhor mais uma vez vai escrever o programa econômico para o candidato
Lula. O que será prioridade?
ANTEGA:
Por ordem de importância, é a reforma tributária. Temos muito a avançar,
principalmente na área dos tributos estaduais. Eu me dedicaria a isso.
Existem conflitos, mas podemos contorná-los. Criando o fundo de compensação
de ICMS de exportações, você poderia conseguir aprovar a reforma tributária.
Isso acaba com a guerra fiscal, que é muito nociva para o país. Aí
depois vem a reforma trabalhista. Agora, em primeiro lugar, a reforma política,
ela é fundamental.
E
uma nova reforma da Previdência?
MANTEGA:
Neste momento, não. Vejo a necessidade de medidas de gestão importantes
que estão sendo tomadas. Vamos examinar adiante se será preciso fazer
reformas. Neste momento, eu não faria essa proposição, mas isso não
quer dizer que nos anos futuros não se coloque essa necessidade. A
realidade muda.
Para
um segundo mandato do presidente Lula, o senhor apóia a idéia de uma
meta de crescimento?
MANTEGA:
Não é possível definir isso. Quando você estabelece uma meta de inflação,
já está levando em consideração uma meta de crescimento, que está
implícita, só que você não pode fixar as duas coisas porque uma amarra
a outra. Quando definimos a meta de inflação, poderíamos ter definido
uma meta de 2%, aí estaria implícito um crescimento menor. Definimos uma
meta de 4,5%, então está implícito um crescimento maior porque a política
monetária terá que ser menos austera. Em termos de crescimento, vamos
ultrapassar a barreira dos 5% a partir do ano que vem, pode ser até 6%.
Semana
passada, o governo adotou mudanças nas regras cambiais. Qual a
expectativa para a cotação do dólar?
MANTEGA:
O conjunto de medidas vai ter uma repercussão em 30, 60, 90 dias. O câmbio
estar em R$ 2,18 é virtude das exportações. É impossível ter uma equação
em que o país é muito bem-sucedido na área comercial e nos fundamentos
e achar que vai ter uma moeda desvalorizada. O país tem uma moeda fraca
quando ele é fraco. Quando um país gera confiança a moeda se valoriza.
O governo vai continuar se esforçando para que o câmbio não descambe
para um patamar inadequado, mas dentro das regras do câmbio flutuante.
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