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Entrevistas
03/09/2006
Ministro
afirma que superávit primário será de 4,25% se Lula for reeleito
Entrevista do
Ministro da Fazenda ao jornal Correio Braziliense
Por João Bosco M. Salles, Pedro Lobato, Raul Pilati e Heberth Xavier
Da equipe do Correio e do Estado de Minas
Arrocho fiscal é pra valer
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, assumiu o cargo no fim de março deste ano. O fato de ser um ministro tampão e ter menos de um ano à frente da equipe econômica, por si só, já indicava as suas dificuldades em dar uma “cara” nova ao Ministério da Fazenda. Naquele dia, o dólar fechou em alta de 1,75%, mesmo depois de o novo ocupante do cargo garantir que não era gastador nem aventureiro. Hoje, após cinco meses, sua equipe é bem diferente da do antecessor.
Chamou, por exemplo, o ex-diretor-executivo do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, para ser o novo secretário de Política Econômica. Mostrava, assim, que tentava dar um tom menos ortodoxo a uma pasta que foi muito criticada pelo conservadorismo em suas decisões. Na primeira entrevista após assumir o cargo, Mantega fez questão de dizer que era um desenvolvimentista. Na última quinta-feira, em entrevista exclusiva, o italiano de Gênova radicado no Brasil repetiu: “Confirmo que sou um ministro desenvolvimentista”, afirmou. “Desde os 5 anos eu já lia livros de Celso Furtado”, brincou.
Apesar disso, Mantega afirma que o ajuste fiscal é para valer. Se Lula for reeleito, e ele continuar à frente da Fazenda, diz que o superávit primário de 4,25% do PIB será mantido. Doutor em economia pela USP, Mantega sempre usa o condicional quando fala de eleições. Mas isso não o impediu de cometer um ato falho ao analisar o governo desde 2003, quando afirmou: “Nesses primeiros quatro anos”. Com bom humor, corrigiu-se de imediato. A seguir, os principais trechos da entrevista.
CORREIO BRAZILIENSE e ESTADO DE MINAS — A política econômica do
governo Lula é baseada nos três pilares do 2° governo FHC: câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação. Se o presidente for reeleito, o que será mantido?
GUIDO MANTEGA — Nesses quatro anos, a preocupação foi eliminar desequilíbrios, fortalecer os fundamentos macroeconômicos e criar as condições para o crescimento sustentável. Podemos dizer que conseguimos vencer os desafios que nos foram colocados: a inflação era 12% e será inferior a 4% este ano. As contas públicas estão equilibradas. A vulnerabilidade externa, que era talvez a maior ameaça naquela época, foi vencida. Hoje, o cenário é completamente diferente, com desafios novos. O Brasil não é mais vulnerável como em 2002 . Atualmente, temos mais de US$ 70 bilhões em reservas próprias. Acho que isso é inédito na história do país. E pretendemos, caso o presidente Lula seja reeleito, continuar fazendo superávit primário e cumprindo a responsabilidade fiscal.
E o que muda?
Nosso desafio principal é fazer com que o crescimento caminhe para um patamar acima de 5%. Temos que crescer mais do que isso nos próximos cinco anos. E as condições concretas permitem pensar em crescimento acima de 5%, porque os pilares estão sólidos, os fundamentos estão colocados. Como a inflação está sob controle, a política monetária não precisa ser tão rigorosa quanto nesses anos todos. Aliás, já está deixando de sê-lo. Desde setembro do ano passado, a Selic (taxa básica de juros), começou a cair. Essa redução se estende até agora…
O tripé da política econômica será mantido?
Sim. Agora vamos para uma nova fase, a de potencializar o crescimento, que será mais acelerado. Mas a responsabilidade fiscal tem que ser mantida até atingir uma dívida/PIB compatível. Podemos falar que, nos próximos quatro anos, se formos governo, vamos manter o superávit em 4,25% do PIB. A política fiscal tem que continuar sendo uma política rigorosa, séria, com ajustes feitos doa em quem doer. Com a queda dos juros, o superávit de 4,25% nos permitirá zerar o déficit nominal.
O senhor aposta no mercado interno para a recuperação?
O mercado externo continua bem, apesar das ameaças de desaceleração da economia americana. Essa desaceleração vai acontecer, mas pouco. Em vez de crescer 4%, 4,5%, vai crescer 3%. Ou seja, não vai desestabilizar a economia mundial. Os produtos brasileiros continuam indo muito bem no mercado internacional, continuamos aumentando as importações, os preços das nossas commodities continuam altos, caminhamos para um superávit de US$ 42 bilhões, US$ 43 bilhões.
O senhor se diz desenvolvimentista. Em um eventual novo mandato, e se o senhor for mantido no cargo, qual seria a marca de um ministério comandado por um ministro desenvolvimentista?
Sou desenvolvimentista desde pequenininho. Desde os 5 anos lia os livros de Celso Furtado (risos)…. Não entendia nada, evidentemente, mas procurava lê-lo. Não mudei minhas idéias. Mas, nos primeiros anos do governo, havia certas dificuldades, desequilíbrios que precisavam ser sanados. É difícil você ter um desenvolvimento sustentável com inflação alta. Isso acaba sendo de curto prazo: a economia cresce, mas a inflação também cresce, e aí precisa desacelerar. Aí entra a política monetária. Muita gente acha que ela foi conservadora, mas precisava baixar o patamar inflacionário. É claro que houve algum sacrifício por parte do crescimento. A diferença é que, agora, não precisamos mais de uma política monetária tão rigorosa. Alcançamos o objetivo, um patamar de inflação de 4% ao ano.
Muitos dizem que a inflação baixa de hoje é decorrente do câmbio, com o real valorizado em 2005 e 2006. Se houver uma depreciação da moeda brasileira, podemos enfrentar problemas com inflação?
Acho muito difícil uma desvalorização significativa. O Brasil ganhou um novo status. Antes, era frágil do ponto de vista de comércio exterior. Hoje, é sólido e, portanto, a moeda se valoriza. Teremos oscilações, pois o câmbio é flutuante. Temos é que impedir que haja um exagero.
Seria saudável aumentar um pouco as importações?
Sim, mas isso tem que ocorrer a partir do aumento do investimento. Temos que aumentar a taxa de investimento para ter um crescimento econômico saudável, equilibrado. Ela está aumentando, mas gostaria que aumentasse mais. Já estamos com 21% do PIB de investimento. A queda da Selic viabiliza uma série de empreendimentos que estavam travados.
A meta de superávit primário de 4,25% do PIB este ano será cumprida?
Com certeza absoluta. Algumas variáveis econômicas nós não dominamos. Qual será o crescimento do PIB este ano? Em torno de 4?%. Mas, se vai ser 3,9%, 4,1%, eu não posso jurar, ninguém pode. O superávit primário eu posso garantir, porque eu tenho a chave do cofre. Eu não libero, não pago.
O senhor também garante uma redução dos gastos correntes?
O governo se propõe a isso ao longo dos próximos anos. Garanto que essa redução, como proporção do PIB, vai ocorrer. E mantendo os investimentos e os programas sociais. É muito fácil fazer ajuste fiscal do tipo arrasa quarteirão. O difícil é compatibilizar a responsabilidade juntamente com a manutenção de programas. Mas o gasto corrente em relação ao PIB vai cair, pode escrever. Em torno de 0,1 ponto percentual a 0,2 ponto por ano. Isso dá de R$ 2 bilhões a R$ 4 bilhões por ano.
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