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Pronunciamentos
28/06/2006
Discurso
do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, na cerimônia de entrega dos
prêmios "Maiores e Melhores" da Revista Exame
São
Paulo, 28 de junho de 2006
Eu
me sinto especialmente feliz por poder participar uma vez mais deste
evento As Melhores e Maiores promovido pela revista Exame,
que reúne anualmente os principais líderes da iniciativa privada
brasileira.
Agradeço,
portanto, o convite que me fizeram os organizadores, e, em particular, o
senhor Roberto Civita, que há tantos anos tem comandado a atuação e o
desenvolvimento do Grupo Abril.
Saúdo,
também, os senhores Mauro Calliari, Diretor-Geral das revistas Veja e Exame; Alexandre
Caldini, Diretor-Superintendente da Exame,
bem como Giancarlo Civita, Vice-Presidente Executivo do Grupo Abril.
Felicito,
em especial, as empresas premiadas. Minha homenagem à São Paulo Alpargatas, escolhida como a melhor do ano.
Que
todas elas sirvam de exemplo e inspiração àqueles que futuramente haverão
de subir neste palco para receber os prêmios a que terão feito jus por
seu desempenho.
Senhoras e senhores,
Por
sua dimensão, por seu significado, esta ocasião envolve algum grau de
formalismo, de solenidade. E é natural que assim seja.
Apesar
disso, eu gostaria de aproveitar este momento tão especial para falar às
senhoras e aos senhores com um espírito que terá menos um tom de
discurso, e mais, eu espero, o sentido de uma conversa.
Há
dias eu venho pensando no que diria aqui na noite de hoje, dentro do
limite de quinze minutos que me foi delicadamente sugerido pela organização.
Mas
foi na manhã de ontem que eu me deparei com o título de uma matéria de
jornal que achei perfeito como ponto de partida.
Dizia
o título: “Juro é o mais baixo desde
1994”
. Seguia-se o texto com a informação de que, embora o Banco Central
reconheça que os juros ainda têm espaço para cair, o consumidor está
pagando taxas menores e tendo um prazo mais longo para quitar seus empréstimos.
Os
juros mais baixos desde o início dessa série estatística do Banco
Central em julho de 1994, ou seja, desde a implantação do real.
Por
detrás desse dado está a verdadeira notícia, mais facilmente compreensível
para aqueles de nós que já éramos adultos nos anos setenta e oitenta do
século passado.
A
meu ver, a verdadeira notícia é que, nos mais diversos planos, mas em
particular no terreno da economia, vivemos hoje
em um outro Brasil
, um Brasil melhor.
Não
pretendo com isto transformar uma frase jornalística, e um conjunto de
dados estatísticos, em discurso político.
Mas
me ocorreu que, para ressaltar essa que eu considero a notícia maior, o
editor poderia ter escolhido outro título para a matéria.
A
manchete que o editor poderia ter lançado seria: “Em meio à turbulência
nos mercados financeiros internacionais, o Brasil baixa juros e melhora
seu ‘rating’”. Hoje
mesmo a Fitch melhorou o ‘rating’ do Brasil de BB- para BB.
Por
que eu insisto que este é um outro Brasil?
Para
responder, sugiro que paremos um instante para recordar o passado e
indagar o que acontecia antes.
A
cada perturbação ou crise na esfera internacional, as autoridades
brasileiras eram obrigadas a tentar compensar esses abalos de confiança.
Faziam
isso sobretudo por meio de elevações repentinas e radicais das taxas de
juros.
Se
se vivia um momento de expansão da atividade, éramos forçados a
sacrificar a possibilidade de crescimento.
Se,
pior ainda, já se atravessava período de estagnação, o remédio, ainda
assim, era frequentemente o mesmo e tendia a agravar a situação.
Era
o preço que pagávamos por deficiências reais de nossa economia,
acentuadas por percepções que, presas a más lembranças, muitas vezes
tardaram em reconhecer progressos efetivos.
Se
me permitem a imagem automobilística, a resposta quase sempre envolvia
freadas violentas e, em alguns casos, verdadeiros cavalos-de-pau.
Essas
manobras excediam os limites normais da condução da política econômica
e impunham custos elevados que se expressavam, sobretudo, na freada do
crescimento.
Para
compensar a falta de confiança na solidez de nossa economia, e à luz de
seu histórico de imprevisibilidade, o mercado cobrava seguidas demonstrações
de arrojo de seus condutores.
Daí
o significado dos dados e notícias dos últimos meses, dos últimos anos.
Cada
vez mais, o comportamento da economia brasileira, de seus agentes e
reguladores, é percebido como maduro, consistente, estável e previsível.
A
propósito, vale a pena ressaltar o fato de que as próximas eleições
presidenciais não despertam hoje temores e inseguranças, aqui ou lá
fora, como as que marcaram outros pleitos.
Em
plena Copa do Mundo, é bom sinal que nossas ansiedades coletivas estejam
voltadas sobretudo para os imponderáveis do futebol, e não da economia.
Por
isso eu insisto: se é indiscutível que ainda temos um longo caminho a
percorrer, também é inegável, em comparação com o panorama das décadas
anteriores, e mesmo com anos bem mais recentes, que vivemos hoje em um
Brasil muito distinto.
Acabou-se
a era dos ciclos interrompidos, das freadas violentas, dos cavalos-de-pau
e eventuais capotagens.
Vivemos
em um Brasil no qual, seguramente, estamos assistindo, após décadas de
instabilidade e incerteza, ao começo de um novo ciclo de desenvolvimento.
Senhoras
e senhores,
Viemos
aqui esta noite para celebrar a excelência da empresa, do empreendedor e
dos trabalhadores do Brasil.
É
essencial ressaltar este fato. Afinal, se estamos vivenciando o surgimento
de um novo ciclo do desenvolvimento nacional, isto se deve em grande
medida à capacidade que tiveram os homens, mulheres e as organizações
que formam nossa economia, de responder com rapidez e eficiência à
melhora das condições internas e externas para sua atuação.
Internamente,
souberam aproveitar os benefícios derivados da consolidação dos
fundamentos macroeconômicos.
Souberam
compreender a importância da manutenção da estabilidade dos preços, da
austeridade fiscal e do ajuste das contas externas, entre outros avanços
essenciais.
Ao
tratar deste ponto, aliás, quero fazer duas observações que me parecem
necessárias.
Em
primeiro lugar, reafirmar o compromisso absoluto e inabalável do governo
com a disciplina fiscal. Diferentemente do que se vê em certas notícias
e análises, as metas fiscais já fixadas serão mantidas e rigorosamente
cumpridas.
É
bom que não haja qualquer dúvida sobre isto.
Em
segundo lugar, a própria natureza deste evento me leva a esclarecer, uma
vez mais, que o aumento de arrecadação de impostos nos últimos três
anos se deve ao crescimento da economia, à maior formalização da
atividade econômica e à expansão dos lucros das empresas.
E
se deve também ao aperfeiçoamento da administração tributária.
Não
se deve à adoção de maiores alíquotas, nem tampouco a mudanças nas
bases de cálculos dos tributos.
Ao
contrário, a arrecadação tem crescido apesar da adoção de importantes
medidas de desoneração tributária cujo valor, ao longo dos últimos
dois anos e meio, alcançou o total de aproximadamente 19,2 bilhões de
reais.
O
Brasil todo sabe que o controle da inflação, a disciplina fiscal e o
aprimoramento das contas externas são condições indispensáveis ao
crescimento mais acelerado e sustentável, com distribuição de renda e
diminuição das desigualdades sociais.
Este
último objetivo é um dado chave deste novo ciclo que o País vive agora.
Pela
primeira vez em nossa história recente, conseguimos superar o falso
dilema que os economistas de minha geração tanto discutiram. Era como se
tivéssemos de escolher entre duas alternativas: crescimento ou distribuição.
Aumentar o bolo antes para repartir depois, ou dividir logo para mais
tarde crescer.
Hoje
a economia cresce de modo consistente, a taxas próximas de 4% ao ano,
embora ainda não no ritmo mais forte que gostaríamos, e as parcelas mais
pobres da população estão colhendo desde já os frutos desse progresso.
A
taxa de desemprego vem caindo de forma sistemática. De 2003 para cá,
foram criados cerca de quatro milhões de empregos com carteira assinada.
A
massa salarial cresce fortemente a partir de 2004, em ritmo superior aos
5% anuais.
O
aumento da capacidade de consumo, que resulta do crescimento e da
estabilidade dos preços, vem sendo reforçado pelo desencadeamento de uma
verdadeira revolução na área do crédito.
O
crédito consignado em folha é apenas a face mais visível dessa revolução,
favorecida por reformas muitas delas promovidas pelo governo.
Os
números falam por si: a média mensal das operações de crédito a
pessoas físicas saltou de menos de 32 bilhões de reais em 2003 para
quase 44 bilhões em abril deste ano.
O
aumento da renda dos consumidores e o acesso mais fácil e menos oneroso
ao crédito produzem, entre outros resultados, a expansão do comércio
varejista e, conseqüentemente, maior demanda por produtos da indústria e
do setor de serviços, que aumentam seus investimentos.
Esse
ciclo virtuoso – resultado em boa medida da contribuição criativa e
dedicada de nossos empresários e trabalhadores – tem-se beneficiado das
políticas sociais do governo
Essas
políticas, além de melhorarem a repartição da renda, têm também
ajudado a expandir o poder aquisitivo da população.
Desde
2004, as transferências do governo federal às famílias têm crescido a
taxas superiores a 8% ao ano e beneficiam dezenas de milhões de
brasileiros mais necessitados.
O
fato é que, como parte desse novo ciclo de desenvolvimento do qual venho
falando hoje, estamos realizando um sonho da minha e de outras gerações
de economistas e cidadãos brasileiros.
Estamos
conseguindo incorporar ao nosso mercado interno milhões de brasileiros
que antes se achavam excluídos dos benefícios do processo econômico.
Essa
é uma mudança que não se vê apenas nas estatísticas, mas que já se
faz sentir claramente no cotidiano dos brasileiros e das nossas empresas,
nos mais diversos setores da economia.
É
uma transformação da qual a maioria dos participantes deste evento terá
uma vivência pessoal, diária e direta.
Finalmente,
em um país com mais de 180 milhões de habitantes, podemos falar cada vez
mais, com crescente amparo na realidade, em consumo de massa.
Podemos
nos orgulhar de termos uma economia de mercado que, neste novo ciclo de
desenvolvimento, avança no sentido de efetivamente integrar o conjunto de
nossa população à vida econômica nacional.
Senhoras
e senhores,
Como
acabo de dizer, o aumento da capacidade de consumo de amplos setores da
população é um aspecto fundamental do novo ciclo de desenvolvimento que
estamos vivendo.
Por
isso mesmo, este ciclo representa a superação de um outro falso dilema
alimentado por sucessivas gerações de economistas brasileiros, entre
elas a minha.
Eu
me refiro ao debate em torno da precedência do mercado interno sobre o
mercado externo, ou vice-versa. Apresentavam-se como alternativas, de um
lado, a linha “Exportar é o que importa”, para invocar um lema de
tempos passados, e, do outro lado, a idéia de produzir aqui para vender
aqui, substituindo importações.
Era
um debate do qual muitos de nós participamos com as melhores intenções,
até porque ele envolvia também questões de justiça social.
Hoje
temos ao mesmo tempo um mercado interno em expansão e uma presença no
comércio internacional de bens e serviços que vem crescendo em ritmo
acelerado.
De
2003 para cá, dobramos o valor de nossas exportações.
Nos
últimos três anos, obtivemos saldos comerciais elevados – hoje na casa
dos 45 bilhões de dólares ao longo dos últimos doze meses – e
resultados positivos em transações correntes que permitiram a redução
do endividamento externo e a melhora dos indicadores de vulnerabilidade
externa para níveis inéditos na história econômica recente do País.
A
relação entre dívida externa e exportações, por exemplo, um indicador
chave de vulnerabilidade, é agora a menor dos últimos 35 anos.
Em
outras palavras, o Brasil foi capaz de diminuir os riscos de ser mais
duramente afetado por situações adversas no ambiente externo não pela
via do fechamento, da menor presença nos fluxos econômicos
internacionais, mas, ao contrário, por meio de um desempenho mais
vigoroso e competitivo no comércio mundial.
A
propósito, cabe aqui talvez comentar uma crítica que se tem feito no
sentido de que o Brasil não teria aproveitado como deveria o ciclo
indubitavelmente favorável vivido pela economia internacional nos anos
mais recentes.
Prefiro
não entrar na discussão comparativa do crescimento de economias
emergentes, pois esse debate envolve simplificações e generalizações
que comprometem o seu rigor.
Basta
mencionar que as exportações brasileiras estão crescendo nos últimos
três anos a taxas superiores a 20% ao ano, mais do que o dobro do
crescimento de 10% ao ano do comércio mundial.
Não
deixa de ser irônico que foi justamente no momento das turbulências das
últimas semanas, quando os analistas começam a indagar-se sobre o futuro
da atual era de bonança na economia mundial, que se pôde comprovar, uma
vez mais, o alcance das transformações qualitativas realizadas pela
economia brasileira.
E
foi também importante que a turbulência tenha deixado claro que essas
transformações são reconhecidas pelos agentes econômicos
internacionais.
Aí
está a evolução do chamado risco-país, que literalmente despencou de
2003 para cá – embora ainda carregue o peso de preconceitos oriundos de
um passado já superado.
A
queda impressionante do adicional de risco que nos é cobrado traduz esse
reconhecimento de que, enquanto a economia mundial cresce, o Brasil tem
tratado de buscar crescer mais depressa e, simultaneamente, de reforçar
sua capacidade de sustentar o seu desenvolvimento, mesmo em conjunturas
externas menos favoráveis.
Senhoras
e senhores,
Hoje
em sua vigésima-terceira edição, este evento já se deu em contextos os
mais variados de nossa história econômica recente.
O
fato de haverem conseguido sobreviver e vencer em meio às condições
mais adversas, a tanta instabilidade e incerteza, é um tributo à empresa
brasileira e às empresas estrangeiras que atuam aqui.
Inversamente,
também merece reconhecimento a circunstância de que, por muito tempo
voltadas para lutarem pela sobrevivência em ambiente por vezes hostil à
atividade produtiva, nossas empresas tenham sabido rapidamente
corresponder ao desafio de se ajustarem a um novo contexto de progressiva
estabilidade macroeconômica e crescente exposição à concorrência
externa.
O
Brasil é uma economia de mercado. Cabe ao setor privado, por conseguinte
aos seus empresários e trabalhadores, o papel de ator central na construção
do desenvolvimento nacional.
Ao
poder público, em suas diversas instâncias e esferas, cabe o esforço
permanente no sentido de propiciar as melhores condições possíveis à
atuação dos agentes econômicos.
Isso
se faz seja por meio de políticas dirigidas ao aprimoramento do ambiente
macroeconômico, seja através da discussão e adoção de leis, normas e
outros tipos de regulamentação, enquadramento e incentivo ao
funcionamento da economia.
Também
ao poder público cabe, entre outros, um papel fundamental como promotor
do desenvolvimento econômico e social, como indutor de políticas de
desenvolvimento regional, como formulador e agente de esforços voltados
para uma repartição mais eqüitativa e justa dos benefícios do
desenvolvimento.
No
caso do governo do Presidente Lula, este foi o sentido principal do
mandato que recebeu da maioria dos brasileiros e esta sempre foi, também,
a expectativa daqueles brasileiros que não lhe deram o seu voto, bem como
da comunidade internacional.
Promover
desenvolvimento com justiça social, redução da pobreza e da
desigualdade. Esse é, e sempre foi, o grande sonho do Brasil. A chave
para a superação de nossos maiores problemas. O desafio para que
possamos ocupar o lugar que julgamos caber ao nosso país no concerto das
nações.
Senhoras
e senhores,
Nesta
noite em que celebramos e premiamos a excelência da empresa brasileira,
de nossos empreendedores e trabalhadores, podemos também comemorar o fato
de vivermos hoje o período ao mesmo tempo mais positivo e promissor das
últimas décadas da história econômica brasileira.
Insisto
na combinação dos dois adjetivos: positivo e promissor, presente e
futuro.
Afinal,
é sempre útil recordar que, no passado, houve momentos de intensa mas
passageira euforia, cuja reversão resultou em frustração, ceticismo e
desconfiança. Todos nos lembramos deles – e, em certo sentido, ainda
pagamos por eles.
Agora,
ao contrário, os avanços estão consolidados e existe um amplo
compromisso da sociedade, dos agentes econômicos e das lideranças políticas
com a sua preservação.
Pela
primeira vez em muito tempo, esses avanços dão consistência e
credibilidade à noção de que, como tenho insistido em dizer-lhes esta
noite, o Brasil começa, sim, a viver um novo ciclo de desenvolvimento.
Este
é um entendimento que fiz questão de compartilhar hoje com as mais
importantes lideranças do setor privado nacional, não apenas no
cumprimento de meu papel de Ministro da Fazenda, mas, sobretudo, como
cidadão.
Apoiado
em dados objetivos do desempenho de nossa economia, que todos aqui
conhecem, quis expor a visão de que o Brasil tem diante de si, neste
momento, as condições e a oportunidade para realizar, como já começou
a fazer, suas mais legítimas aspirações de desenvolvimento e progresso.
Esta
é a minha convicção sincera. Esta é a mensagem que queria compartilhar
nesta ocasião tão feliz e importante.
Muito
obrigado a todos.
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