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Pronunciamentos
28/03/2006
Discurso
do Ministro Palocci na cerimônia de posse do Ministro Guido Mantega
Meu caro Presidente Lula,
Meu caro Ministro Guido Mantega,
Meus ex-colegas ministros,
Minhas senhoras, meus senhores
Durante
três anos e 86 dias ocupei com muita honra o posto de Ministro de Estado
da Fazenda do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, saio
com a consciência tranqüila e a certeza de um dever honesta e
corretamente cumprido em benefício do Brasil. Saio com a mesma humildade
com que vim para o Ministério da Fazenda. Eu, um médico sanitarista da
minha querida Ribeirão Preto. Homem público desde os 20 anos de idade.
Um brasileiro como tantos outros, filho de filhos de imigrantes pobres,
mas altivos. Guardo profunda fé na democracia e no respeito às pessoas,
às leis e na dedicação integral ao progresso das instituições de meu
país.
Vim
para o Ministério da Fazenda com a altivez e a simplicidade dos que lutam
de peito aberto, com a máxima transparência, para que o momento atual
seja melhor do que o anterior, de modo que o futuro possa ser um pouco
melhor do que a nossa época terá sido. Assim se fez e assim se faz a
longa estrada da democracia. Assim se define a longa rota da convivência
civilizada entre os homens. Respeito pelo próximo, aceitação das opiniões
contrárias, convivência pacífica, determinação de propósitos; esses
são valores que aprendi na minha vida. Esses são valores que a meus
filhos procuro transmitir, mesmo diante de toda a aspereza da vida pública.
O
maior legado de minha passagem pelo Ministério da Fazenda, alguns hão de
dizer, terá sido a estabilização da economia brasileira. Outros talvez
vejam o aspecto da construção de bases sólidas para o crescimento econômico
por décadas seguidas. Poderão apontar, ainda, que este tem sido o período
em que, após décadas, um governo brasileiro conseguiu começar a reduzir
o intolerável abismo social existente entre ricos e pobres.
Eu
não quero exagerar feitos nem realizações. Vejo simplesmente o fato
objetivo de que hoje temos um Brasil muito melhor do que há três anos.
Vejo um país melhor do que há uma ou duas décadas. Este caminho foi
construído por muitos, neste e em outros governos, por brasileiros da
maior qualidade humana, política e moral.
Vejo
um país com as contas externas arrumadas como nunca. Vejo números
excepcionais do balanço de pagamentos. Constato que a principal fonte de
instabilidades do Brasil desde, pelo menos, o último pós-guerra foi
controlada a ponto de, se não estar definitivamente superada, ter se
tornado quase residual. Afinal, o governo do Presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, ao qual tive a honra de servir, conseguiu tirar o Brasil da
unidade de terapia intensiva do Fundo Monetário Internacional. Conseguiu
reduzir a dívida externa do país de mais de 230 bilhões de dólares, no
começo de 2003, para cerca de 180 bilhões de dólares, hoje. Conseguiu
colher números nunca antes alcançados no comércio exterior, tanto nos
fluxos de mercadorias como nos superávits comerciais.
Vemos
um país com metas de inflação projetadas e efetivamente alcançadas e
com expectativas de inflação para o futuro dentro das metas
estabelecidas pelo governo. Isso traz resultados positivos, sobretudo,
para as pessoas mais pobres. Não vemos turbulências, remarcações de
preços todos os dias. Não vemos os salários corroídos a cada dia. Ao
contrário, vemos uma recuperação inédita no poder de compra dos salários
frente à cesta básica, vemos a retomada da renda das famílias, vemos o
salário mínimo no ponto mais alto das últimas mais de duas décadas.
Estas
são realizações das quais posso me orgulhar de ter ajudado o Presidente
Lula a conseguir. Mas nada é mais valoroso do que a criação de cerca de
100 mil empregos formais por mês nestes últimos anos. O Brasil, com toda
certeza, está caminhando para dias melhores, para a frente e para o alto.
Para
quem enfrentou, como eu enfrentei nesses últimos meses, o círculo
infernal das suspeições e dos pré-julgamentos, a tentação talvez
fosse a de dizer como o poeta italiano: lascia dire le genti, e sigue il
suo corso (siga o seu curso e não olhe para trás). Certamente, o verso
do poeta serve para um sentimento que nutro. O de não levar mágoa nem ódio
no coração. Nem mesmo contra alguns que, até bem próximos de nós,
aceitam palavras que não são as nossas quanto a fatos recentes que, ou são
pura acusação, ou são ilações e denúncias sem substância, sem
materialidade em fatos. Jamais patrocinei nesses três anos malfeitorias
com os recursos públicos, nem atentei, de nenhuma forma, contra a
democracia e as
instituições de meu país.
Do
meu ponto de vista, o principal legado que tentei criar não foi a obra
econômica em si nem os compromissos sempre mantidos da palavra empenhada,
dos contratos preservados. O que mais me encheu de confiança é a certeza
de ter procurado um novo caminho para a convivência serena e civilizada
entre contrários. Uma nova trilha para o exercício da tolerância e da
colaboração. O Brasil tem uma longa, longuíssima, tradição de oposições
ferozes, de pactuações sempre recusadas. E em que pesem as nossas tradições
de cidadãos cordiais, no plano social, nossas instituições políticas
estão cravadas de rancores. E isso tem criado grandes dificuldades para o
avanço institucional do país.
Talvez
eu tenha falhado nesta minha crença da convivência pacífica. Talvez ela
seja ingênua. Talvez ela não tenha ainda lugar em nosso tempo. Mas eu,
mesmo assim, prefiro ter uma visão otimista de que isso é possível num
país que tem abismos sociais tão grandes a superar. Minha fé no Brasil
e nas pessoas continua inabalável.
Solicitei
ontem o meu afastamento definitivo do Ministério da Fazenda. Penso que
foi a melhor maneira de contribuir com o país e com o presidente Lula,
frente ao quadro conflituoso e tenso. Na vida pública, há momentos de
afirmar e momentos de recuar. Temos que ter tranqüilidade de identificar
esses momentos.
Quero
pedir permissão a todos vocês para fazer um agradecimento muito especial
à minha equipe do Ministério da Fazenda e de todos os órgãos
vinculados. São pessoas de extraordinária capacidade de trabalho e
dedicação ao serviço público. Devo a eles muito das realizações econômicas.
Agradeço imensamente ao presidente Lula, que confiou-me uma das mais
desafiadoras tarefas de seu governo. Foi a tarefa mais difícil, mas também
a mais honrada de toda a minha vida pública. Penso que dei o melhor de
mim para o meu país. Certamente cometi erros. Nem de longe me considero
infalível.
Mas
digo ao presidente Lula que não me arrependo nenhum minuto de ter
dedicado 25 anos de minha vida pública ao seu projeto político.
Agradeço
a tranqüilidade, o apoio e o sacrifício de toda a minha família, sem a
qual não teria sido possível realizar o meu trabalho e conviver com as
adversidades.
Saio
feliz pelo dever cumprido, saio feliz com os tantos amigos que fiz dentro
e fora do governo. Mas saio feliz, principalmente, por ter deixado uma
contribuição para a melhoria da vida de milhões de pessoas pobres, cuja
mesa, hoje, é mais farta do que antes.
Desejo
todo sucesso ao ministro Guido Mantega. Não torcerei para ele fazer o
mesmo que fiz. Tenho certeza de que fará mais e melhor. Desejo todo o
sucesso ao presidente Lula. A tarefa de melhorar socialmente o Brasil é
gigantesca. Só pode ser liderada por homens que, como Vossa Excelência,
conhecem tão profundamente a realidade das pessoas, que sabe que o
caminho das conquistas não é feito de atalhos fáceis, ou de fórmulas mágicas,
mas de tempo, de paciência e perseverança.
Muito
obrigado
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