Pronunciamentos

15/08/2006

Discurso do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, na cerimônia de lançamento da sexta edição do Anuário Valor 1.000 e entrega do Prêmio Empresa de Valor 2006

Eu me sinto muito feliz por poder participar desta cerimônia de lançamento da sexta edição do anuário Valor 1.000.

Agradeço o convite para estar aqui esta noite e a oportunidade de me encontrar, mais uma vez, com as principais lideranças empresariais do País.Felicito o Valor Econômico pela iniciativa de produzir e lançar, regularmente, o anuário Valor 1.000.

O anuário oferece uma excelente radiografia do desempenho de nossas empresas e um conjunto de informações fundamentais para a tomada de decisão dos agentes econômicos.

 Faço questão de parabenizar as empresas apontadas como campeãs em seus respectivos setores de atuação e, também, é claro, a campeã das campeãs, escolhida como a EMPRESA DE VALOR 2006.

 Neste momento que estamos vivendo, o reconhecimento do esforço e da determinação das empresas brasileiras tem um significado especial.

 Nesta era da chamada globalização, na qual o nosso país finalmente se integrou, não como mero coadjuvante, mas como protagonista, são muito maiores as exigências e os desafios que se apresentam às empresas brasileiras.  

 A concorrência se torna cada vez mais acirrada não apenas para aquelas que já atuam no exterior, mas também para aquelas que enfrentam, aqui mesmo no Brasil, a competição com produtos e serviços importados.

 Com mais razão, portanto, devemos comemorar e valorizar o sucesso que as empresas brasileiras têm alcançado aqui e nos mercados internacionais.

Hoje temos a feliz conjunção de uma política econômica e de comércio exterior pró-ativa e mais ousada com a criatividade e a determinação da nossa iniciativa privada. Graças a essa convergência virtuosa, estamos nos fortalecendo em velhos mercados e, ao mesmo tempo, abrindo e conquistando novos mercados.

  Nos últimos três anos, é sempre importante lembrar, as exportações brasileiras cresceram a um ritmo de 25% ao ano, ou seja, muito mais depressa do que o comércio internacional como um todo.  

Como resultado desse crescimento acelerado, nossas vendas ao exterior duplicaram de 2003 para cá e temos obtido superávits comerciais inéditos em nossa história. E ainda há pessoas falando em falta de dinamismo....

 O fato é que temos tido saldos positivos em conta corrente nos últimos três anos e que a redução da vulnerabilidade externa do Brasil – posta à prova no mais recente episódio de turbulência internacional – é hoje um fato amplamente reconhecido, por agentes econômicos e analistas de todo o mundo.

A expressão concreta desse reconhecimento tem sido a queda vertiginosa do risco-país, que despencou da casa dos 2.500 pontos base no ano de 2002 e, batendo recordes, chegou agora a pouco mais de 200 pontos.

Isto quer dizer que o Brasil tem agora acesso à poupança externa por um custo bem menor, e que cairá ainda mais à medida que nos aproximamos do chamado ‘grau de investimento’.

Em pleno ano eleitoral, temos títulos governamentais com vencimento em 2045 e as empresas brasileiras conseguem colocar até mesmo títulos perpétuos.

Outra feliz combinação, aliás, pois a queda do nosso risco-país coincide com um momento no qual temos, aqui dentro, a menor taxa básica de juros nominal desde a implantação do real, bem como a menor TJLP da história, de 7,5% ao ano.

De modo geral, o custo do investimento no Brasil está sendo reduzido. Mas precisa continuar a cair.

E é justamente sobre investimento que eu quero falar aqui com a liderança do empresariado brasileiro.

Senhoras e Senhores,

Eu não costumo ler discursos escritos. Em certas situações, no entanto, como esta noite, quando é preciso ser mais breve, trazer algumas idéias anotadas ajuda a evitar dispersões e a manter o foco do que se quer dizer. 

Por isso mesmo, numa variante da velha frase sobre o cinema latino-americano, eu vim aqui hoje com um papel na mão e uma idéia na cabeça.

E qual é a idéia que eu gostaria de compartilhar com as senhoras e os senhores?

É simples. É a idéia de que as senhoras e os senhores estão aqui hoje, que as suas empresas estão no anuário Valor 1.000, porque acreditaram no Brasil, porque confiaram no potencial de retorno de investir em nosso país, porque apostaram nas muitas e extraordinárias possibilidades oferecidas pela economia brasileira.

As suas empresas estão aqui esta noite porque puseram a ousadia à frente da timidez, a confiança à frente do ceticismo, a inovação à frente da reprodução, a inquietação criadora à frente do conformismo.

E nisso há uma forte identidade, por menos clara que pareça, entre quem, como as senhoras e os senhores, escolhe a atividade empresarial e aqueles, como eu, que se dedicam à vida pública.

O que nos une é o desejo de fazer, de mudar, de fazer parte da transformação.

Eu sei, como todos aqui também sabem, que a iniciativa privada brasileira – juntamente com as empresas estrangeiras que atuam em nosso país – foram capazes de perseverar e de vencer, apesar das circunstâncias adversas que caracterizaram a nossa economia em nosso passado recente.

Tenho pensado muito sobre isto nos últimos dias, sobretudo ao refletir sobre o que diria hoje aqui.

Tenho recordado a expressão usada por Keynes para caracterizar o modo intuitivo com que os empreendedores tomam suas decisões de investir ou não, diante de incertezas sempre presentes em maior ou menor grau.

O grande Keynes – sei que estou correndo o risco de ser rotulado amanhã nos jornais como Keynesiano (a marca de desenvolvimentista eu já assumi) – falava, como sabem, do ‘espírito animal’ dos empresários.

Pois bem, me ocorreu sugerir, a propósito, que, após longos anos forçados de dedicar boa parte desses instintos a lutar contra as adversidades e pela sobrevivência, teria chegado a hora de se resgatar, em toda a sua plenitude, esse ‘espírito animal’ do empreendedor brasileiro.

Não se trata de defender a volta de um suposto capitalismo selvagem. Muito pelo contrário, pois caminhamos na direção oposta, na direção de um capitalismo civilizado e mais equilibrado.

Trata-se, isto sim, de defender que, recuperada a saúde da economia brasileira, e em meio ao melhor momento de sua história recente, estão dadas as condições para o pleno exercício da arte de investir, produzir e vender.

E mais: nestes dias em que o Brasil , depois de décadas de confusão e estagnação, começa a viver um novo ciclo de desenvolvimento, é indispensável que comecemos também, o quanto antes, um novo ciclo de investimento.

Vinte anos atrás, a decisão de investir aqui envolvia freqüentemente alguma dose de temeridade – quando não envolvia, ao mesmo tempo e por isso mesmo, mecanismos de socialização dos eventuais prejuízos.

Hoje, embora a ousadia sempre faça parte de toda decisão de empreender, o ato de investir, longe de ser um gesto temerário, torna-se cada vez mais um desafio necessário.

Senhoras e Senhores,

Até para completar o meu argumento, vou-me permitir recordar alguns dados e tendências mais marcantes de nossa atual conjuntura econômica.  Dados e tendências que explicam porque eu insisto na afirmação de que estamos vivendo um novo ciclo de desenvolvimento.

Por saber que todos aqui têm uma vivência cotidiana e direta das transformações recentes da economia brasileira, não preciso projetar números e gráficos. Peço apenas que, ao ouvirem as minhas palavras, por favor as confiram com seus respectivos power points de memória.

Quais são as principais características do novo ciclo de desenvolvimento do Brasil?

São elas: crescimento sustentável; consolidação dos fundamentos macroeconômicos; expansão do mercado interno e externo; redução das desigualdades.

Paremos um instante para refletir sobre cada um desses avanços, que são ao mesmo tempo conquistas e desafios permanentes.

Em que momento de nossa história recente um Ministro da Fazenda – apesar de sua obrigação de ser um otimista de ofício – poderia vir aqui afirmar tais progressos com bases tão sólidas para fazê-lo?

Se eu lhes posso falar em crescimento sustentável, por exemplo, é porque a expansão de nossa economia, embora ainda menos veloz do que gostaríamos, se baseia em três pilares em cuja solidez este governo tem posto muito empenho.

Em primeiro lugar, se baseia na estabilidade de preços. Hoje temos uma inflação da ordem de 4% ao ano e as expectativas do mercado indicam que as metas fixadas para 2006 e 2007 serão alcançadas. A cultura inflacionária vai deixando de fazer parte da vida brasileira.

Em segundo lugar, baseia-se na responsabilidade fiscal. Há 8 anos produzimos um superávit primário acima de 3%. A propósito, podem estar certos: a meta de superávit primário de 4,25% do PIB será rigorosamente cumprida, e a dívida pública, que começou a cair desde 2004, continuará a diminuir.

Em terceiro lugar, como já disse, baseia-se na redução da vulnerabilidade externa. Além dos dados positivos que mencionei antes, vale lembrar que a relação entre a dívida externa líquida e as exportações – uma das principais medidas da vulnerabilidade externa – é a mais baixa desde que começou a ser calculada, há mais de trinta anos.

Graças à solidez desses fundamentos, e ao inabalável compromisso da política econômica com a sua preservação, nosso crescimento, além de sustentável, é também ‘acelerável’.

Além disso, podemos comemorar o fato de que não apenas voltamos a crescer, mas temos agora um novo tipo de crescimento. Um novo modelo que vem promovendo a conjugação feliz da expansão do PIB, com o aumento e a formalização do emprego. A combinação do crescimento da produtividade com a elevação da massa real de salários. Da dos juros em queda, com a inflação também declinante. Da expansão do crédito com o aumento dos investimentos. Do crescimento significativo do mercado interno com a intensificação das exportações e do comércio exterior como um todo.

Um novo modelo graças ao qual – e também a programas sociais maiores e melhores – o crescimento econômico começa finalmente a gerar inclusão social.

A concentração de renda, que é uma triste marca do Brasil, vem caindo e continuará a cair.

 As desigualdades, embora ainda enormes, estão diminuindo.

As manchetes dos jornais anunciam uma mobilidade social, ascendente, como há muito não se via entre nós – se é que algum dia se viu. Milhões de compatriotas nossos, beneficiados pelo aumento de sua renda, se tornam consumidores não apenas de mais alimentos, mas também de produtos industrializados de maior valor.

Essa é uma transformação que as senhoras e os senhores estão vivenciando diretamente em suas empresas.

Sabem, por conseguinte, que, cada vez mais, podemos com razão falar no Brasil em consumo de massa. E esse não é um dado irrelevante, sobretudo quando se trata de um país com quase 190 milhões de habitantes.  

Senhoras e Senhores,

Meu tempo está terminando. Antes de concluir quero deixar clara a minha consciência de que embora o Brasil tenha obtido grandes conquistas nos últimos anos, muito, muito mesmo ainda resta por fazer.

Ao próximo governo, qualquer que seja, caberá perseverar no enfrentamento e superação dos nossos grandes desafios.

Mas eu quero destacar hoje aquele que me parece ser o desafio econômico fundamental que o Brasil tem diante de si: aumentar o investimento de modo tal que sejamos capazes de romper a barreira dos 5% de crescimento do Produto Interno Bruto e sustentá-lo por longo espaço de tempo.

E além de ultrapassarmos a barreira dos 5%, precisamos dar outro salto: passarmos da fase do investimento em modernização para outra em que o foco estará na expansão da atividade produtiva.

Para isso, teremos de aumentar a própria taxa de investimento, destinar uma parcela maior desses recursos ao desenvolvimento de nossa infra-estrutura e reduzir ainda mais o custo financeiro de investir.

O governo tem adotado medidas importantes nesse sentido, e está determinado a prosseguir com mais reformas voltadas para o mesmo objetivo.  

Mas o papel mais importante cabe e caberá à iniciativa privada.

É nesse desafio que penso quando falo da necessidade de resgatar e mobilizar, em sua plenitude, toda a competência e o talento do empreendedor brasileiro. Competência e talento que celebramos aqui esta noite.

É nisso que penso quando falo em recuperar o ‘espirito animal’ do empresário brasileiro. É preciso resgatar a ousadia, sobretudo a ousadia no investir.

O governo, eu lhes garanto, continuará a ser ousado, responsavelmente ousado, como tem sido, na adoção e implementação de políticas que tornem o ambiente econômico mais favorável e seguro para o investimento privado e para o melhor funcionamento das forças de mercado.

Por isso, e pelos resultados que o nosso país vem alcançando nos últimos tempos, eu me sinto à vontade para lhe fazer aqui um chamado à ousadia. Como sabem melhor do que eu, empreender é ousar.

E o Brasil precisa hoje, mais do que nunca, de suas empresas e, sobretudo, de seus empreendedores.

Muito obrigado a todos.

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