Pronunciamentos

14/08/2006

Discurso do ministro da Fazenda, Guido Mantega, na cerimônia de entrega do Prêmio FGV de Excelência Empresarial - lido pelo secretário de Política Econômica, Júlio Sérgio Gomes de Almeida

Lamento muitíssimo que, em função de compromissos que me obrigaram a permanecer em Brasília, não tenha podido viajar a São Paulo esta noite para participar da cerimônia de entrega do Prêmio FGV de Excelência Empresarial.   

Sinto grande orgulho por pertencer aos quadros da Fundação Getúlio Vargas, a uma instituição que tantos serviços tem prestado ao desenvolvimento do Brasil.  

Fiz questão, portanto, de pedir ao Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, não apenas que me representasse, mas que lhes fizesse chegar a mensagem que eu havia preparado para esta ocasião.  

Quero agradecer ao Professor Carlos Ivan Simonsen Leal, nosso Presidente, e ao Professor Luiz Guilherme Shymura, Diretor do Instituto Brasileiro de Economia, o convite com que me quiseram distinguir e que muito me honrou.  

Quero, também, felicitar as empresas premiadas. Que o seu sucesso e o seu exemplo sirvam de inspiração para as outras tantas organizações vitoriosas que integram o setor privado nacional.    

Senhoras e Senhores,  

Desde que assumi o Ministério da Fazenda, tenho-me dedicado com prioridade ao esforço que o governo do Presidente Lula vem realizando no sentido de garantir as condições para que o crescimento sustentável seja, cada vez mais, um dado central e permanente da realidade do Brasil.           

Para quem, como eu, sempre se dedicou ao estudo do desenvolvimento, e, na vida pública, à defesa da causa do desenvolvimento, é motivo de realização fazer parte de um governo que tem no desenvolvimento o objetivo maior de sua política econômica.

Além disso, é uma circunstância particularmente feliz para mim que eu possa dar a contribuição que me cabe por estar à frente da pasta da Fazenda em um momento tão positivo da história econômica brasileira.

Como o Ministro da Fazenda é visto como um otimista por dever de ofício, sei que muitas vezes as pessoas tendem a encarar a sua fala com alguma dose de ceticismo. Por isso mesmo, sempre que possível recorro a fatos e números concretos para de falar das transformações que o Brasil está vivendo.

Hoje, no entanto, em função do formato da cerimônia e do tempo mais breve, quero, sobretudo, compartilhar com Vocês alguns pensamentos que se consolidaram com as minhas experiências como Ministro do Planejamento, Presidente do BNDES e que agora, na condição de Ministro da Fazenda, eu sinto ainda mais a necessidade de debater .  

Antes de chegar lá, até por uma questão de seqüência lógica, é preciso que eu retome os pontos principais do que tenho dito nos últimos meses.  

Minha mensagem central tem sido, e continuará a ser, que, em termos econômicos e sociais, o Brasil é hoje um país diferente, um país muito melhor.  

Vai ficando claro, até mesmo para os mais reticentes e céticos, que estamos vivendo o início de um novo ciclo de desenvolvimento. Estamos transitando do rol dos países emergentes relativamente menos dinâmicos, para o universo dos países emergentes de dinamismo mais elevado.  

Como não trouxe comigo gráficos e tabelas, peço que reflitamos juntos sobre o que estou dizendo. Verão que se trata de expressões e conceitos que, se antes povoavam os discursos sobretudo como metas e aspirações, hoje correspondem a fatos objetivos.  

Em que se baseia esse novo ciclo de desenvolvimento do Brasil?

 Em primeiro lugar, recorrendo a um desses conceitos-chave, baseia-se no crescimento sustentável. E por que podemos dizer que o atual crescimento é sustentável? E eu acrescentaria: por que podemos dizer que, além de sustentável, ele é ‘acelerável’?  

Nosso crescimento é sustentável e ‘acelerável’, perdoem-me o neologismo, porque está sendo construído sobre bases sólidas. São elas a estabilidade de preços, a responsabilidade fiscal e a redução da vulnerabilidade externa.  

Vamos a alguns poucos números que, sobretudo para os menos jovens, falam por si mesmos e me ajudam a explicar porque insisto em dizer que este é um outro Brasil.  

Em primeiro lugar, me refiro à estabilidade de preços. Hoje temos uma inflação anualizada da ordem de 4% e a expectativa do mercado aponta para um IPCA de 3,74% em dezembro. E existe amplo consenso de que as metas de inflação serão atingidas, não apenas em 2006, mas, desde já, também em 2007.  

Ou seja, em poucas palavras, o Brasil deixou de ser o país da inflação. Superamos a cultura inflacionária crônica da qual ficamos prisioneiros durante décadas a fio.  

No terreno das contas públicas, mais boas notícias. Pela primeira vez, o nosso país foi capaz de produzir superávits primários por 8 anos consecutivos.

E não vamos relaxar. A meta de 4,25% para o superávit primário este ano será rigorosamente cumprida, ao contrário do que ainda temem alguns analistas e participantes do debate político nacional. A dívida pública, por sua vez, embora ainda elevada e onerosa, interrompeu um ciclo de nove anos de expansão e vem diminuindo desde 2004, com tendência de queda adicional nos próximos anos.  

Mas talvez a grande conquista que todos juntos alcançamos – governo e agentes econômicos – foi a superação do calcanhar de Aquiles que a vulnerabilidade externa representava para o Brasil.  

Comprovando o que disse antes sobre a elevação do dinamismo de nossa economia, as exportações continuam a demonstrar um desempenho vigoroso e, nos últimos doze meses, alcançaram 128 bilhões de dólares, o dobro do que tínhamos há apenas três anos. O superávit comercial está na casa dos 45 bilhões de dólares. O saldo em conta corrente é positivo desde 2003 e a relação entre a dívida externa líquida e as exportações – que caiu de 3,6 em 1999 para 0,6 – é a mais baixa desde que o indicador passou a ser calculado.  

Como expressão-síntese dos progressos alcançados nesses três pilares da sustentabilidade do nosso crescimento, o risco país despencou – não há verbo mais preciso – literalmente despencou de 2002 para cá – caiu da estratosfera dos quase 2.500 pontos-base, batendo sucessivos recordes, e se encontra está agora por muito pouco acima dos 200 pontos. Estamos próximos de alcançar o chamado ‘grau de investimento’.  

Em resumo, não se trata apenas de discurso de Ministro da Fazenda. Estamos, sim, falando de uma economia que a cada dia se torna mais forte e saudável. De uma economia cuja solidez e cujas boas perspectivas de progresso são reconhecidas aqui dentro e em todo o mundo.  

E uma prova cabal disso, dessa percepção positiva, é justamente o fato de que, a 45 dias das próximas eleições – muito diferente do que aconteceu quatro anos atrás – o Brasil siga navegando em águas calmas, mesmo quando alguns países emergentes são afetados por turbulências internacionais.  

E mais. Não apenas voltamos a crescer, mas temos agora um novo tipo de crescimento. Esse novo modelo tem sido capaz de promover a combinação virtuosa da expansão do PIB, com o aumento e a formalização do emprego. A conjunção feliz do crescimento da produtividade com a elevação da massa salarial real. Da redução dos juros, com a queda da inflação. Da expansão do crédito com o aumento dos investimentos. Do crescimento significativo do mercado interno com a intensificação das exportações e do comércio exterior como um todo.  

Um novo modelo cuja marca mais forte tem sido aquela que todos queríamos e buscávamos há tanto tempo: como fruto de todas essas combinações virtuosas, o nosso crescimento começou a gerar inclusão social e a assegurar a redução das desigualdades.  

Esse é – e continuará a ser nos próximos anos – o desafio-síntese para o Brasil. Libertar a nossa sociedade das deficiências e mazelas que explicam a pobreza em que ainda vive boa parte de nossos compatriotas.  

É preciso ter sempre consciência, no entanto, de que, nessa luta, que é a grande meta desenvolvimento nacional, embora tenha havido avanços importantes, muito, muito mesmo ainda está por fazer.  

Senhoras e Senhores,  

Estamos reunidos hoje para celebrar a excelência empresarial brasileira. Excelência que – aliada ao talento, vigor e criatividade de nossos trabalhadores – está na origem do desenvolvimento econômico do País e de muitos dos progressos que acabo de mencionar. 

Aliás, como tenho dito, é um tributo à empresa brasileira e às empresas estrangeiras que atuam aqui o próprio fato de haverem conseguido sobreviver e vencer em meio às condições fortemente adversas pelas quais passamos em décadas recentes.

Mas agora é preciso virar a página. É necessário encerrar esse capítulo que poderíamos chamar de “A Era da Resistência”

A realidade mudou e continua a mudar, felizmente para melhor. É chegada a hora, portanto, de as empresas brasileiras começarem a escrever um novo capítulo de sua história, de nossa história que se poderia intitular “Tempos de Ofensiva”

É essa a idéia que queria compartilhar aqui com Vocês, com lideranças de peso de nossa iniciativa privada, no contexto de evento promovido por um dos grandes centros do pensamento econômico nacional.

Com um grau de imprecisão que os meus alunos não deixariam passar na sala de aula, recorro a duas noções presentes no pensamento de Schumpeter, e de outros teóricos do desenvolvimento, que me parecem úteis: a das mudanças desequilibradoras e a do empresário inovador.

 A primeira pode soar estranha na boca de um Ministro da Fazenda do Brasil. Afinal, depois de décadas buscando equilíbrio em diversas frentes – nos preços, nas contas públicas, nas contas externas – tais equilíbrios deveriam ser, como de fato são, conquistas cuja preservação continuará a ocupar boa parte das energias dos responsáveis pela condução da política econômica. 

Mas é justamente por havermos conquistado esses equilíbrios fundamentais que agora temos condições de pensar em avançar do equilíbrio medíocre dos últimos 20 anos,  para outras e mais vantajosas condições de equilíbrio.

O equilíbrio, a estabilidade não são valores em si mesmos. Eles valem, sobretudo no caso de um país em desenvolvimento como o Brasil, não pelo que permitem em termos de preservação, mas, fundamentalmente, pelo que favorecem em matéria de transformação – em matéria de progresso e desenvolvimento.

O desenvolvimento econômico, por sua própria essência, produz desequilíbrios e desloca o estado de equilíbrio anteriormente existente. E a força propulsora dessas mudanças, desses saltos de um estado de equilíbrio para o próximo, na formulação de Schumpeter, é justamente o empresário inovador, cuja ação se dá, sobretudo, por meio do investimento.

E é exatamente dessa contribuição que o Brasil precisa. Temos um parque produtivo vigoroso e moderno, mas falta ampliar investimentos capazes de atender aos novos desafios e oportunidades que se apresentam.

Afinal, como vimos, estão dadas agora as condições para que o empresariado volte a encarar o futuro com confiança.

É justamente essa confiança, que permite ao empresário pôr em prática as qualidades que o caracterizam e distinguem: a capacidade de vislumbrar oportunidades, e a coragem de ousar investir em sua realização.

 Ousadia, no entanto, não é, nem pode ser, sinônimo de temeridade. Por isso mesmo, por havermos conquistado duramente condições de maior estabilidade e, portanto, de maior segurança, os empreendedores do Brasil e os nossos parceiros de outras partes do mundo podem agora libertar as suas intuições criativas, que Keynes chamou de “espírito animal”.

O novo ciclo de desenvolvimento do País enseja, e ao mesmo tempo pressupõe, um novo ciclo de investimento.

As condições são hoje as melhores que se viram em mais de vinte anos.

Estou convencido de que não podemos deixar passar este momento histórico. 

Estou seguro de que o empresariado brasileiro, e seus parceiros internacionais, saberá mobilizar o melhor de seu talento, de seus meios, de sua visão no cumprimento do papel absolutamente fundamental e insubstituível que lhe cabe na realização do desenvolvimento, que volta a ser a marca deste grande país.

 Obrigado a todos.

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