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Entrevistas
08/05/2006
Mudança de
foco
Entrevista
com Guido Mantega concedida à Revista CartaCapital, publicada em 07 de maio
Guido
Mantega diz que os famigerados juros deixarão de ser o prato principal da
economia brasileira
Por
Luiz Gonzaga Belluzzo e Márcia Pinheiro
Há
um mês no comando do Ministério da Fazenda, Guido Mantega exibe uma
desenvoltura de quem está em casa. E, como dono de casa, ele recebeu
CartaCapital na quinta-feira 4 para uma entrevista. Exibiu um discurso
seguro ao afirmar que a política monetária deixará de ser o foco da
economia de agora em diante. Se há uma disputa entre a Fazenda e o Banco
Central de Henrique Meirelles, Mantega parece fiar no seu taco. Os juros
vão continuar em queda, segundo ele, pois a pauta hoje é
desenvolvimento, a despeito da última Ata do Copom, que insinuou um ritmo
mais cauteloso na queda dos juros daqui para a frente. Deixa transparecer
uma crítica velada ao fato de o BC ter mirado o centro da meta da
inflação em 2005, o que contribuiu para o crescimento medíocre da
economia brasileira.
Mantega
não fará nem um décimo a mais do superávit primário de 4,25% ao ano,
diferentemente de seu antecessor, Antonio Palocci. Mostra-se sensivelmente
desconfortável com o nível do câmbio, que exerce "efeitos
deletérios" sobre alguns setores da economia. Mas é um otimista.
Espera que as importações e a queda da taxa Selic naturalmente resultem
na desvalorização do real. Insiste que não haverá crise com a
Bolívia, por causa das últimas medidas de Evo Morales, porque o Brasil
tem monopólio de compra de gás do país. Exalta as conquistas do Brasil
no tocante às contas externas e parece disposto a continuar à frente da
Fazenda, se o presidente Lula for reeleito. Não confessa, mas a sua
oratória visa o futuro. A seguir, os principais trechos da entrevista com
o ministro.
CartaCapital:
A economia brasileira fez um ajuste no setor externo importante, com a
ajuda da situação internacional bastante favorável. Agora, queremos
saber se o Brasil vai crescer um pouco mais, se termos taxas de juros mais
baixas e um câmbio competitivo?
Guido
Mantega: Foi feito um ajuste externo que nos colocou em uma situação
muito favorável, do ponto de vista da nossa vulnerabilidade. Era o nosso
grande calcanhar-de-aquiles. A mudança que foi feita não é pontual.
Claro que a economia internacional ajudou. Mas, houve uma modificação
estrutural, porque hoje o Brasil tem outra inserção na globalização.
Houve avanços na produtividade, na competitividade das empresas e na
mudança da mentalidade do empresário brasileiro. O presidente Lula fez
uma política mais ousada de comércio exterior, desafiou o jogo
estabelecido do G-8 (grupo que engloba as oito nações mais ricas do
mundo). Mesmo com o câmbio de hoje, que é muito valorizado, penaliza a produção
e a
exportação, o País ainda continua a ter uma expansão das
exportações.
CartaCapital:
Mas foi muito em função dos altos preços das commodities.
Guido
Mantega: Não, há conquistas nos setores de ponta. Os manufaturados
ainda lideram as exportações: derivados de petróleo, indústria
automobilística e aeronáutica. Não somos meros exportadores de bens
primários.
CartaCapital:
O câmbio nesse nível está estimulando que as empresas saiam daqui. A
Volkswagen é um exemplo, mas há outras companhias dispostas a migrar a produção
para outros países.
Guido
Mantega: Não estou dizendo que o câmbio nos deixa em uma situação
confortável. O que digo é que não foi o câmbio que impulsionou essa
inserção do Brasil no mercado internacional. Mesmo com esse câmbio desfavorável,
com todas as conseqüências que vocês mencionaram - com as quais eu
concordo -, o País continua expandindo a exportação. É claro que
considero essa uma situação anômala. Que precisamos caminhar para um
outra situação. De todo modo, o cenário hoje mostra o vigor da economia
brasileira no mercado externo. Dá até para sobreviver com um câmbio a 2
reais, imagina se o câmbio estivesse a 2,50. Estaríamos fazendo a festa. Nós vamos caminhar para isso.
CartaCapital:
O nível de juros e câmbio no Brasil é uma anomalia, mesmo se comparado
aos demais países emergentes.
Guido
Mantega: Vocês concordam que a valorização do câmbio acontece
também por causa do bom desempenho da balança comercial brasileira?
Quarenta e cinco bilhões de dólares (de superávit) causam um impacto
forte. Acho que os juros tiveram o seu papel (na sobrevalorização do
real). Mas é o somatório dos juros e bom desempenho das exportações.
É diferente do tempo do seu Gustavo Franco, que tinha de atrair capitais
para fechar as contas do País. Hoje há um excesso de dólares pela
eficiência do setor exportador.
CartaCapital:
Uma política de crescimento de longo prazo é incompatível com essa
política atual de juros e de câmbio. Porque há muito capital externo
que se aproveita para ganhar com o diferencial das taxas de juro interna e
externa. É a arbitragem. Tem muito investimento em renda fixa.
Guido
Mantega: Todos os recursos que entraram com a isenção dos
estrangeiros (da CPMF e do IR) na compra de títulos públicos vieram em
busca de papéis de longo prazo, o que é uma coisa positiva. Mas eu
queria voltar na questão do crescimento. Nós crescemos não tanto quanto
gostaríamos. Em 2003, não dava para crescer. Havia um rombo nas contas
públicas, uma dívida elevada, uma inflação, no pico, de 17% ao ano. Em
2004, foi satisfatório. O País cresceu 4,9%. Em 2005, houve uma
decepção. Mas neste ano vamos crescer de 4% a 4,5%. Já elevamos a
média em relação ao governo anterior.
CartaCapital:
Essa oscilações de taxas de crescimento ocorrem em razão da política
macroeconômica.
Guido
Mantega: Houve uma mudança na dinâmica de crescimento. Isso se deve
ao conjunto de condições: aumento de produtividade, queda do desemprego,
elevação de produção. Se não fosse o deslize de 2005, acho que poderíamos
ter crescido 5%. Mas houve aquele excesso de juros que eu já deixei
público. Nós teríamos três anos com crescimento entre 4% e 5%. Já
engatamos em um ciclo de crescimento. Nós (neste governo) fizemos uma
espécie de transição. O País ficou praticamente 25 anos estagnado.
Tinha inflação alta, dívida externa elevada e uma estrutura de crédito
ruim. Demos um grande salto. Hoje, se reduzirmos os juros e melhorarmos o
câmbio, está dando um crescimento sustentado.
CartaCapital:
O senhor assumiu a Fazenda há um mês. O que muda com o seu comando?
Guido
Mantega: O que muda é a fase que estaremos. Teremos passados os
ajustes e nos encaminhamos para a pauta de desenvolvimento.
A
pauta está colocada: estamos olhando para o desenvolvimento. Fizemos um
esforço para baixar o patamar inflacionário. Foi praticada uma política
monetária - talvez, mais agressiva -, que reduziu a a média do aumento
dos preços do pico de 17% para os 4,5% de hoje. Claro que há um trade
off (troca). Sacrificou-se um pouco o crescimento. Poderia ter sido
feita outra escolha. O México e o Chile fizeram outras escolhas.
CartaCapital:
Qual a sua escolha?
Guido
Mantega: Agora não interessa a minha escolha. A coisa já está
feita. Alcançamos o controle da inflação. Vamos olhar para o futuro.
CartaCapital:
Com juro real (descontada a inflação) de 11% ao ano?
Guido
Mantega: O juro está caindo, desde setembro do ano passado. E vai
continuar caindo nas próximas reuniões do Copom.
CartaCapital:
Muito se discute sobre a política de metas da inflação. Qual é a
sua avaliação?
Guido
Mantega: A política de metas é eficiente. Só que ela pode ser
operada de formas diferentes. Por exemplo, você tem o centro da meta de
inflação e margem (limites máximo e mínimo de oscilação), e pode
operar olhando só o centro da meta e buscando atingir o seu objetivo em
um período mais curto. Foi o que aconteceu no Brasil. A escolha das
autoridades monetárias brasileiras foi derrubar a inflação mais
rapidamente e olhar para o centro da meta, sem usar a margem de
flexibilização. A tendência agora é uma política monetária menos
rígida. Tudo isso tem de nos conduzir a uma política mais flexível. O
esforço foi feito para isso. Nós pagamos o preço. Poderíamos ter tido
um crescimento maior. Mas, hoje, a inflação está baixa. Isso nos
qualifica para a taxa de juros cair. O mais importante é que há um
fortalecimento do mercado interno, por causa do aumento da massa salarial,
da elevação do nível de emprego, da recuperação do salário médio e
há outra estrutura de crédito no País.
CartaCapital:
Mas o crédito mostra sinais de retração.
Guido
Mantega: A política monetária foi moldada na época da inflação
alta. Houve duas grandes anomalias: uma dívida interna de curto prazo e
indexada. Depois, aconteceu a indexação do dólar. Agora, essa estrutura
está se modificando. Acabou a dívida cambial e estamos caminhando a
passos largos para um alongamento com títulos prefixados, que é o sonho
de todos nós, que estudamos política monetária. Em vez de subir 1 ponto
porcentual para exercer efeito (de retração) sobre a demanda, será
possível elevar só 0,25 ponto porcentual, como nos Estados Unidos. Isso
elimina o efeito riqueza. Hoje, quando o Copom aumenta os juros, há um
efeito em duas direções: por um lado, contraem-se alguns setores , por
outro, há uma expansão da demanda de alguns setores. Os que têm renda.
Isso é um grande avanço. Daqui para a frente, a política monetária
será mais eficaz.
CartaCapital:
O Banco Central tem ciência disso? Porque, depois da última Ata do Copom,
o mercado considerou que a autoridade monetária será mais conservadora.
Guido
Mantega: A Ata do Copom só coloca alguns bois na linha, algumas
ressalvas, mas não diz claramente o que vai fazer.
CartaCapital:
Mas, mesmo que a Selic caia 0,75 ponto porcentual a cada reunião, isso
seria suficiente para o câmbio caminhar para um patamar mais justo?
Guido
Mantega: Infelizmente, existe ainda uma diferença grande entre o juro
do real e o juro do dólar. O importante é que estamos na direção correta.
Se houver uma continuidade na queda dos juros, que acho que haverá -
eles(do Banco Central) escolheram o gradualismo -, se continuar nesse
ritmo, alcançaremos um ponto satisfatório. Podemos até discutir se o
timing está correto ou não. Mas a direção está correta.
CartaCapital:
Falando da parte fiscal, os números mostram que o ritmo do aumento das
despesas do governo central tem sido maior que o da arrecadação. Os
analistas apontam esse descompasso como uma das fragilidades que precisam
ser sanadas. Ou seja, cortar gastos.
Guido
Mantega: Acho curioso isso, porque nós (do governo) passamos três
anos sendo criticados porque não executávamos o Orçamento. Saíam
notícias: ah, eles não gastaram nada. Aí, quando a gente executa, vêm
falando que estamos gastando demais. Primeira questão: a arrecadação
não bateu no limite. Está aumentando, porque o PIB está crescendo. As
empresas estão tendo lucros fabulosos, os bancos e o setor produtivo. E
pagam Imposto de Renda. Em 2005, fomos até surpreendidos. Na Receita
Federal, houve até 15 bilhões de reais a mais de arrecadação, porque
as empresas estão indo bem. Em segundo lugar, está em curso um combate
à sonegação. Está havendo uma formalização da economia brasileira.
Aí todo mundo diz: Ah, mas vocês não vão fazer superávit primário
além de 4,25% do PIB. Ora, eles estavam mal acostumados. O meu antecessor
queira fazer mais que 4,25%. Ele não estava mirando 4,25%. Estava mirando
4,5%. Ele segurava a despesa, e é bom qualificar por quê, senão as
pessoas pensam que é gastança. Trata-se de investimento: saúde,
educação, construção de estradas, Bolsa Família - que é um programa
belíssimo - e Previdência.
CartaCapital:
Vemos uma diferença do senhor em relação ao seu antecessor. O
senhor mira o número. Os 4,25% e ponto.
Guido
Mantega: Não tem como errar. Quando se libera o Orçamento, só se
libera o que permite uma economia de 4,25%. Na semana que vem, faremos um
contigenciamento (corte) de 20 bilhões de reais. Isso pode ser feito a
cada mês. Temos uma previsão de receita, mas, se houver necessidade,
pomos o pé no freio.
CartaCapital:
Na gestão anterior, o discurso oficial era de que câmbio flutuante
flutua. E não havia intenção de intervenções no nível do dólar.
Qual é a sua margem de atuação?
Guido
Mantega: Estava com esperança de que, com o aumento das
importações, haveria uma pressão baixista menor. Está acontecendo uma
mudança pequena. O ritmo de importação aumentou. Enquanto há
importação de máquinas e equipamentos modernos, que o Brasil não
produz, a um custo baixo, aí perfeito. Mas já existe substituição de
alguns produtos fabricados aqui.
CartaCapital:
Em máquinas agrícolas, estamos perdendo mercado. Como se quebra esse
círculo cambial?
Guido
Mantega: Eu prefiro não quebrar nada. Prefiro que caminhemos para
outro ponto de equilíbrio. De fato, estou preocupado com o câmbio nesse
patamar. Eu não sei se a queda da taxa de juros continuada, combinada com
o aumento das importações, pode trazer uma mudança nessa trajetória do
câmbio. O dólar chegou a um nível que causa prejuízos a vários
setores. Causa efeito deletérios sobre a agricultura. Depois, o próprio
governo paga o pato, com recomposição de dívida dos agricultores e
subsídios. Por isso, é uma preocupação. Por outro lado, não queremos
mudar as regras de câmbio flutuante. Ele tem suas vantagens.
CartaCapital:
Existe no Brasil uma extrema concentração na política monetária e ela
não tem condições de cuidar de todos os aspectos da economia.
Guido
Mantega: A política monetária agora vai deixar de ser o centro. De
certa forma, ela conduziu o rumo da economia até agora. Deu o tom. Deu o
ritmo. Agora, como conseguimos chegar a um objetivo, ela tem de deixar de
ser o centro da política econômica. Isso não quer dizer que vamos
deixar a inflação voltar, nada disso. Mas chegou a um patamar
satisfatório. O esforço já foi feito. Vamos aproveitas esse sacrifício
e colocar a política monetária em segundo plano, de modo a vitalizar o
crescimento. Estamos entrando nesta segunda fase, que é pauta de
desenvolvimento.
CartaCapital:
A nacionalização das petrolíferas na Bolívia trouxe muita apreensão
entre os investidores, particularmente a Petrobras. Qual é a visão da
Fazenda?
Guido
Mantega: O caso da Bolívia não tem nenhuma repercussão maior no
Brasil. Pode ter nas contas da Petrobras, mas perto do que a empresa tem
ganhado, com as vantagens que tem tido com o aumento do preço do
petróleo - foi a companhia que mais lucrou em 2005, 23 bilhões de
reais -, vai perder quanto na Bolívia? Se a Bolívia cessar o
abastecimento de gás para o Brasil, o Evo Morales vai cair, pois perderá
25% da receita do país. Estão fazendo tempestade num copo d' água. Não
vai acontecer nada aqui. Morales está cumprindo uma promessa de campanha.
Estava no programa dele: nacionalização do subsolo boliviano. Mas ele
vai negociar com a Petrobras, evidentemente, e nós vamos discutir a
questão do preço. Existe um tribunal de arbitragem, em Nova York, que
foi estabelecido pelas partes. Morales não tem força para fazer nada
diferente. O Brasil tem, usando um termo antigo, um monopsônio
(monopólio por parte do comprador) na aquisição do gás. Para a
Bolívia fornecer o gás, tem de vir para cá, não tem conversa.
CartaCapital:
Se Lula for reeleito, e se convidado, o senhor continuaria no comando do
Ministério da Fazenda?
Guido
Mantega: Não estamos pensando em reeleição. O que estamos pensando
é que 2006 seja o melhor ano do governo Lula do ponto de vista
econômico. Com crescimento, expansão de emprego e aumento da renda.
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