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Notas
Oficiais
26/10/2005
Discurso do
Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, na Conferência da OCDE
"Investimento para o desenvolvimento: ações concretas"
Rio de Janeiro, 25 de
outubro de 2005
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É com grande
satisfação que dou as boas-vindas, em nome do Governo brasileiro, a
acadêmicos e especialistas no tema do crescimento e desenvolvimento
da OCDE e outras instituições internacionais. Estou seguro de que
esse conjunto de experiências e expertises fornecerá excelente
oportunidade para uma troca de informações e uma discussão aberta e
crítica sobre as políticas e os mecanismos que favorecem o
investimento privado doméstico e estrangeiro e, em última
instância, o crescimento e o desenvolvimento. Queria também
registrar meu profundo apreço pelo trabalho, de grande sucesso, do
Senhor Donald Johnston.
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A OCDE,através
deste tipo de Conferência anual, tem procurado facilitar o diálogo
entre o que sabemos teoricamente dos determinantes do investimento
privado e os problemas práticos encontrados por empresários e
investidores em grandes países emergentes e da própria OCDE. Os
formuladores de política no Brasil, que têm dado especial ênfase a
esse tema na última década, acompanham com atenção os resultados
desse intercâmbio..
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Teórica e
empiricamente, sabemos hoje que entre os principais fatores na
decisão de investir encontram-se: (1) a percepção de estabilidade
macroeconômica, inclusive de preços, redutora de incertezas e
formadora de expectativas de crescimento de longo prazo; (2) o
potencial de renda e demanda da economia, reforçado pelo grau de
abertura de mercado e pela solidez das contas externas; (3) o custo do
capital em suas numerosas dimensões; (4) as condições de crédito e
liquidez e (5) a percepção de solidez e previsibilidade das regras
institucionais que garantem contratos e estabilidade sócio-política.
Esta Conferência examinará em detalhe, nos painéis dos próximos
três dias, cada uma dessas dimensões. Quero brevemente lembrar como
nesses últimos anos o Brasil, na prática, vem construindo essas
condições, fortalecendo, assim, as perspectivas de crescimento
sustentável de longo prazo.
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No que toca
à estabilidade macroeconômica, não existem mais muitas
dúvidas hoje sobre o comprometimento do Brasil com o controle da
inflação e a manutenção de uma política fiscal que visa a uma
redução consistente do endividamento do setor público. Aprendemos
com os diversos choques de origem financeira que, nos últimos anos,
afetaram a economia mundial e a nossa também. Avançamos
institucionalmente com a Lei de Responsabilidade Fiscal e conseguimos
superar esses choques enfrentando cada um dos obstáculos ao
crescimento sustentado, diminuindo nossas vulnerabilidades externas,
sempre atentos ao objetivo da preservação do meio ambiente e
atribuindo a necessária prioridade ao desenvolvimento social.
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Um dos
principais ganhos da estabilização que consolidou no Brasil um
ambiente favorável ao investimento foi a queda estrutural da
inflação que, por muito tempo, impediu a elevação do produto e a
melhora na distribuição de renda, e que, há mais de uma década, se
encontra sob controle. Esse sucesso na estabilização de preços
deve-se à combinação de políticas ficais com um regime de metas de
inflação e uma gestão eficiente da política monetária. Esse
cenário assegura, de forma clara e transparente, um horizonte
estável para o planejamento de longo prazo das empresas.
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O
endividamento do Estado muitas vezes foi fonte de incertezas e de
risco, tanto para o próprio setor público, quanto para o setor
privado. Com o estabelecimento de metas consistentes para o superávit
primário, o governo reforçou seu compromisso com o equilíbrio
fiscal, refreando a expansão das despesas públicas. Assim, o avanço
do déficit da previdência social, desafio comum a diversos outros
países, tem sido objeto de constante atenção do governo com medidas
que propiciam, entre outros resultados, a melhora no gerenciamento da
receita e dos benefícios. Podemos citar, como exemplos, a
unificação dos órgãos responsáveis pela arrecadação tributária
da União e o trabalho de diminuição das filas nos locais de
atendimento e melhora da informação cadastral dos beneficiários.
Mas, na área da previdência, há um longo e importante trabalho a
ser realizado.
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No que diz
respeito à abertura da economia brasileira, nossas empresas
aprenderam a trabalhar com um nível de proteção decrescente e maior
concorrência externa. Além disso, a mudança do regime cambial e os
ganhos de estabilidade macroeconômica reforçaram essa
transformação estrutural no seu comportamento em relação às
oportunidades oferecidas pelo comércio internacional. Nosso fluxo de
comércio passou de um patamar histórico de cerca de 15% do PIB, até
meados dos anos 90, para 30% hoje. Como observado nas revisões da
nossa economia feitas pela OCDE, que vão se tornando cada vez mais
regulares no processo de crescente intercâmbio com a instituição,
revertemos um déficit de conta corrente de cerca de 30 bilhões de
dólares em 1998 para um superávit de mais de 12 bilhões de dólares
nos últimos doze meses, uma reversão de mais de 6 pontos percentuais
do PIB. Testemunho da flexibilidade básica de nossa economia e vigor
de nossas empresas e trabalhadores, esse ajuste se deu sem recessão
ou maiores deslocamentos na economia, ou qualquer descontinuidade no
cumprimento dos nossos compromissos internacionais.
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Mais do que
simplesmente olhar para o nosso expressivo desempenho exportador, ou o
saldo comercial de 40 bilhões de dólares, é preciso entender que se
trata de uma mudança fundamental na percepção dos nossos agentes
sobre os benefícios de uma maior inserção na economia global, com o
aproveitamento dos seus ganhos de produtividade e desenvolvimento
tecnológico. Verificou-se também nos últimos anos uma grande
diversificação de nossa pauta de exportações, tanto em termos de
produtos (hoje os manufaturados correspondem a 56% do que exportamos),
quanto de destinos o que protege nossa economia contra variações
localizadas da conjuntura internacional, ao mesmo tempo que a insere
nos mercados com tendência secular de maior crescimento. O resultado
natural desse processo é a significativa redução dos nossos
indicadores de vulnerabilidade externa financeira, que se expressam na
forte queda da relação dívida externa/PIB e do "risco
país", e uma exitosa emissão internacional em moeda local –
isto é, em Reais – de papéis com prazo de 10 anos.
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Estamos
também empenhados em aumentar as possibilidades do comércio
internacional através da Rodada de Doha na OMC, na qual esperamos que
os maiores sócios da OCDE façam os esforços necessários para
proporcionar uma maior abertura e acesso aos seus mercados,
compatibilizando suas declarações e recomendações de sentido
liberalizante com ofertas de abertura que permitirão aos países
emergentes refletirem sobre as áreas com maiores possibilidades de
avanços recíprocos, para o benefício mútuo de todos os
participantes da próxima Reunião Ministerial de Hong-Kong no final
deste ano.
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A América
Latina tem expressivas e concretas possibilidades de expansão, dado o
porte e diversidade do conjunto de nossas economias e a diversidade e
energia de seu povo. O progresso institucional de vários de nossos
vizinhos, assim como o diálogo franco e fraterno entre os nossos
governos, auguram o sucesso dessa empreitada.
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O Brasil,
mais especificamente, manteve-se ao longo dos últimos anos entre os
principais destinos de investimento estrangeiro direto (IED), com
fluxos em torno de 3% do PIB, equivalentes, nos últimos 12 meses, a
18 bilhões de dólares.
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Há inúmeros
fatores explicativos dessa situação: o tamanho e o potencial de
nosso mercado interno, a estabilidade econômica, a competitividade de
nossas exportações e a capacidade, percebida cada vez mais pelas
grandes empresas, de abrigarmos pólos globais de produção, pesquisa
e desenvolvimento. O regime de regulamentação do investimento
estrangeiro também tem sido fundamental, tendo em vista que está em
vigor há mais de 40 anos e se mostrou estável e aberto nesse
período. Há poucas exceções ao tratamento nacional para os
investimentos estabelecidos de acordo com as leis brasileiras, o que
confere segurança aos investidores em relação à não adoção, por
parte do governo, de medidas discriminatórias. O Brasil tem uma longa
história de respeito ao investimento, doméstico e externo. Por algum
tempo nas duas últimas décadas, essa vantagem foi obscurecida por um
desempenho macroeconômico menos consistente do que o desejável. No
entanto, a sólida política econômica que vem sendo implementada
permitiu, nos dois últimos anos, acelerar o ritmo de geração de
empregos formais para mais de 100,000 vagas ao mês, bem como um
substancial aumento da lucratividade das empresas brasileiras e
estrangeiras instaladas aqui. Os lucros em 2004 foram os mais altos em
duas décadas.
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Essa
evolução não se deve, devo esclarecer, apenas a medidas
macroeconômicas. Uma série de reformas institucionais, dentro de
nossa agenda microeconômica, já vem possibilitando a diminuição
do custo do capital, reduzindo incertezas e custos burocráticos e
criando um ambiente mais favorável ao investimento e à competição
no mercado doméstico. Gostaria de citar rapidamente alguns aspectos
dessa agenda, tais como a redução dos impostos sobre bens de capital
e produtos de consumo popular, e os incentivos tributários concedidos
à poupança de longo prazo e a racionalização da tributação da
construção habitacional, que se têm traduzido na retomada do setor
da construção e em forte dinamismo dos mercados de capital, tanto de
renda fixa, quanto de ações.
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Criamos uma
série de mecanismos de mercado para facilitar o financiamento do
nosso agronegócio, e aumentamos a segurança dos empréstimos ao
consumidor, especialmente aquele de baixa renda. A nova lei de
recuperação das empresas e falência tenderá, de forma crescente, a
facilitar o financiamento do setor produtivo e sua renovação.
Obviamente, não se trata de um processo completo, e muito ainda está
sendo feito. Menção especial merece ser feita ao trabalho que vem
sendo desenvolvido pela equipe do MDIC, voltado à desburocratização
e à simplificação da abertura e fechamento de empresas.
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Em
particular, cabe destacar que essas reformas e a retomada do
crescimento vêm-se fazendo acompanhar de uma expansão consistente da
Formação Bruta de Capital Fixo. Isso se deveu, em parte, ao
avanço do crédito como percentual do PIB, o qual passou de 24%
em 2002 para cerca de 29% em 2005. Esse desempenho, fruto também da
reconhecida solidez do nosso setor financeiro, onde competem com
abertura e em pé de igualdade instituições nacionais e
estrangeiras, é resultado ainda do esforço para ampliar, de forma
segura, a alavancagem financeira da economia, inclusive dos pequenos
empresários, por meio do microcrédito.
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A maior
estabilidade macroeconômica caminha de mãos dadas com a melhora
da percepção de solidez e irreversibilidade das regras
institucionais que garantem contratos e estabilidade sócio-política.
Essa parte fundamental da nossa transformação trará benefícios que
se concretizarão ao longo dos próximos anos. Destacam-se a criação
de um ambiente mais propício à concorrência, área em que nosso
diálogo com a OCDE tem sido crescente e profícuo, e a criação de
condições para o avanço dos setores de serviços regulados, –
essenciais para a consolidação de um novo ciclo de desenvolvimento
do País.
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Mas ainda há
muito por ser feito, e não é por acaso que esta conferência se
realiza no BNDES, instituição cuja existência se funde aos grandes
projetos industriais e de infra-estrutura que ampliaram a capacidade
produtiva de nossa economia. Essa contribuição do BNDES – que
assume e assumirá sempre formatos permanentemente redesenhados com
vistas a sua perfeita adequação às demandas do País –
continuará a ter extraordinária importância em nosso
desenvolvimento.
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Destaco a
importância crescente que os estudos sobre crescimento sustentável
vêm reservando às áreas da educação e acesso a serviços de
saúde. Os programas de transferência de renda vinculados à
presença na escola e a atenção à saúde na gestação e na
infância terão importante impacto ao longo dos próximos anos.
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Na área de infra-estrutura
e concessões públicas, regulamos o mecanismo das Parcerias
Público-Privadas, sobre o qual os senhores irão aprofundar a
reflexão nos próximos painéis, que cria a estrutura legal para que
o setor privado possa realizar inversões em setores chave da
economia, obtendo retorno seguro sobre seu capital, ao mesmo tempo em
que contribui para a ampliação da capacidade produtiva do País e do
bem-estar da sociedade. Esse esforço será feito com absoluta
transparência fiscal, dentro de regras compatíveis com o reconhecido
nível de qualidade das nossas estatísticas do setor público.
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Além desses
aperfeiçoamentos, o País tem alcançado um elevado grau de
governança corporativa, tendo o Novo Mercado e os segmentos
específicos de listagem na Bolsa de Valores um crescente sucesso.
Também nos preocupamos com a legalidade das transações domésticas
e com o exterior e contamos com mecanismos de fiscalização
avançados para assegurar a lisura e combater a lavagem de dinheiro.
Devo ressaltar que muitas das preocupações que norteiam nossas
ações são as mesmas que estão sendo discutidas pelo Grupo de
Trabalho do Policy Framework for Investmen, da OCDE.
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Estas são
apenas algumas das muitas medidas que estamos adotando e que, sob uma
gestão macroeconômica consistente, acredito, possibilitam desenhar
um ambiente favorável ao investimento produtivo. Nossa agenda de
trabalho, no entanto, ainda não se esgotou e continuamos a trabalhar
com afinco para assegurar uma taxa de crescimento consistente com o
padrão de desenvolvimento ao qual a sociedade brasileira aspira e
para a qual contamos com a parceria da OCDE.
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Muito
obrigado e, mais uma vez, bem-vindos ao Brasil. Sintam-se em casa.
Desejo grande sucesso ao vosso trabalho nos próximos dias.
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