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Notas
Oficiais
21/10/2005
Discurso do
Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no Seminário Internacional
"Bolsa Família: 2 anos superando a fome e a pobreza no Brasil"
Brasília, 21 de outubro de
2005
Prezados Senhoras e Senhores,
Fiz
questão de atender ao convite do Ministro Patrus Ananias para participar
deste seminário internacional com o qual se marca o segundo aniversário
do Programa Bolsa Família, cujos expressivos resultados começam a ser
devidamente apreciados aqui no Brasil e, também, na esfera internacional.
Sinto-me
particularmente motivado por fazer parte desta mesa, nesta sessão na qual
iremos debater o tema do "combate à pobreza como estratégia para o
desenvolvimento social".
Vou
procurar abordar aqui dois pontos, que creio serem essenciais para
entender a relação entre a política econômica e os programas sociais.
A primeira tese diz respeito à importância dos investimentos sociais, e
em particular do Bolsa Família, para o crescimento de longo prazo da
economia. Se o programa Bolsa Família fosse apenas um apoio aos mais
pobres, já seria um grande programa. Mas ele é muito mais do que isso. A
segunda refere-se à falsa dualidade entre o equilíbrio fiscal e os
gastos sociais.
Durante
a maior parte do Século XX, o tema da política social esteve presente na
discussão sobre política econômica apenas em função dos seus impactos
orçamentários. A visão majoritária sobre desenvolvimento econômico no
Brasil identificava como papel central da política econômica a garantia
das condições necessárias à elevação das taxas de investimento em
capital fixo. Maiores taxas de investimento garantiriam maiores taxas de
crescimento econômico e, portanto, maior renda per-capita. À política
social, por outro lado, caberia o papel de promover a justiça social e o
acesso aos bens meritórios como saúde e educação.
Nos
últimos anos, essa visão convencional sobre a relação entre política
econômica e política social vem sendo revista. Desde os anos noventa, a
pesquisa empírica sobre desenvolvimento tem buscado identificar quais os
fatores mais correlacionados com maiores taxas de crescimento das diversas
economias na segunda metade do Século XX. Dentre esses fatores,
destacam-se as reformas institucionais que incentivem as decisões de
investimentos privados e políticas que melhorem de forma efetiva os
indicadores sociais, sobretudo de saúde e escolaridade.
Estas
duas linhas de atuação – reformas institucionais e fortalecimento dos
programas sociais – têm sido centrais para este governo e resultaram em
diversos avanços em nosso país.
A
agenda de reformas levada a cabo nos últimos anos é extensa e não cabe
aqui fazer uma exposição detalhada de todas as medidas já consolidadas.
Todos conhecem os efeitos positivos sobre o mercado de crédito de várias
medidas implementadas e, em particular, da regulamentação do crédito
consignado, cuja taxa de juros é significativamente inferior à cobrada
nas modalidades tradicionais de crédito.
Também
temos nos concentrado em medidas voltadas para a melhoria do ambiente de
negócios e o aumento da eficiência da economia. A nova lei de
falências, as reformas dos códigos de processos, a transformação de
impostos cumulativos em impostos sobre valor agregado são exemplos de
medidas que têm fortalecido nossa economia. A reforma do sistema de
defesa da concorrência, a abertura do mercado de resseguros, o cadastro
positivo são novas medidas, atualmente em análise pelo Congresso
Nacional, que, tenho certeza, irão ampliar ainda mais a capacidade de
crescimento do nosso PIB.
Indo
além dos objetivos econômicos, a agenda de reformas implementada nos
últimos anos também se tem caracterizado por uma clara preocupação com
a redução das desigualdades sociais. É nesse contexto que se inserem
medidas como a simplificação da abertura de contas bancárias para
famílias de baixa renda, o programa de microcrédito e até mesmo medidas
de natureza tributária, como a desoneração de PIS e Cofins de produtos
da cesta básica. Trata-se de medidas voltadas para a população de baixa
renda, mas que têm um claro impacto positivo sobre eficiência e o
crescimento econômico.
Mas
as mudanças institucionais são apenas uma pequena parte das medidas de
cunho social do governo do Presidente Lula. Um dos aspectos mais
característicos da atual gestão tem sido a forte ênfase na necessidade
de políticas sociais efetivas.Temos enfatizado a necessidade de
políticas públicas que transfiram renda aos mais pobres, incentivem a
permanência das crianças na escola e reforcem a qualidade das ações de
saúde como aspecto central de uma política de crescimento econômico de
longo prazo.
Poucos
fatores são tão correlacionados com as experiências bem sucedidas de
crescimento econômico do século passado como os indicadores de saúde e
escolaridade. Essa talvez seja a principal mensagem das pesquisas recentes
sobre desenvolvimento. Os países mais bem sucedidos no longo prazo são
aqueles que combinam equilíbrio fiscal, com reformas institucionais e
políticas sociais que aumentem a escolaridade média da população e
melhorem o acesso à saúde.
Por
essa razão, o programa Bolsa Família – que consolidou e ampliou
significativamente o alcance dos diversos programas de transferência de
renda – é um marco importante para o Brasil. Esse programa combina uma
política compensatória com uma política estrutural de combate à
pobreza, ao transferir renda para as famílias de menor poder econômico e
ao condicionar esta transferência à freqüência escolar das crianças e
ao atendimento de padrões mínimos de saúde. Mais de 40% da desigualdade
de renda no mercado de trabalho brasileiro estão correlacionados com a
desigualdade nos indicadores de escolaridade. Estimular o aumento da
escolaridade é o mecanismo mais eficaz para reduzir uma das principais
razões estruturais de nossa desigualdade de renda. Além disso, essa
transferência melhora o padrão de vida das famílias mais carentes do
nosso país.
A
pobreza no Brasil tem idade. As crianças constituem a maior parcela dos
nossos pobres [primeira lâmina]. Pior, crianças pobres freqüentam pouco
a escola, reproduzindo o ciclo da pobreza no longo prazo. Por isso, a
importância fundamental deste programa: aliviar a pobreza dos grupos de
menor renda, garantir padrões mínimos de saúde e estimular a
freqüência escolar é a forma mais eficaz de superar o grave quadro
social do nosso país. Como apontam as pesquisas sobre crescimento
econômico, essa política também é parte fundamental de uma estratégia
de desenvolvimento econômico.
O
programa Bolsa Família é também, de todos os programas sociais geridos
pela União, o mais eficiente no combate à pobreza, pois é aquele que
alcança mais diretamente a parcela da população de menor poder
aquisitivo. A quase totalidade de seus recursos é dirigida aos 40% mais
pobres do nosso país.
Enquanto
instrumento de combate à pobreza e de criação de condições para a
inclusão social, o programa Bolsa Família é, sem qualquer sombra de
dúvida, aquele que apresenta a melhor relação custo-benefício, na
medida em que alcança de forma mais efetiva as famílias de menor renda
do país. Dessa forma, o programa Bolsa Família se revela central na
nossa política de governo, ao beneficiar os mais pobres, aliviando sua
pobreza atual, e criando os instrumentos para a superação das razões
estruturais da nossa pobreza, garantindo padrões mínimos de saúde e
estimulando o aumento da escolaridade [segunda e terceira lâminas].
Passo
agora ao segundo tópico desta apresentação: a falsa dualidade entre
equilíbrio fiscal e investimentos sociais. É claro que, no curtíssimo
prazo, sempre haverá a arbitragem entre a alocação de recursos para
programas de governo – e programas sociais em particular – e a
constituição de poupança pública, necessária para garantir uma
trajetória sustentável para a dívida pública.
No
médio e longo prazo, porém, a garantia do equilíbrio fiscal tem efeitos
extremamente positivos sobre o investimento social e a redução das
desigualdades sociais. O controle das finanças públicas é elemento
central de uma política que garanta a consistência macroeconômica e,
portanto, assegure o crescimento equilibrado da economia e o financiamento
adequado dos programas sociais.
De
nada adianta ampliar as despesas públicas no curto prazo além do nível
compatível com a manutenção do equilíbrio fiscal se o custo dessa
política for a criação de um ambiente de instabilidade que inviabiliza
o crescimento econômico no longo prazo. Ao contrário, a trajetória
virtuosa é aquela na qual a gestão consistente das finanças públicas e
da política macroeconômica cria condições para o crescimento
sustentado da economia e na qual as reformas institucionais e a boa
gestão da política social criam condições para que o crescimento seja
cada vez mais acelerado. É essa trajetória que viabiliza uma ampliação
consistente e estável dos investimentos sociais.
Não
estamos falando aqui de teorias, mas sim de resultados palpáveis, que
foram construídos ao longo dos últimos anos. Se é inegável o esforço
e o compromisso do Presidente Lula com o equilíbrio fiscal, também é
inegável que o crescimento decorrente desta política viabilizou uma
expansão significativa das despesas sociais.
De
2002 a 2005, os principais programas sociais geridos pelo governo tiveram
um crescimento real expressivo. Este é o caso não apenas do Bolsa
Família, mas também do Pronaf, dos benefícios previdenciários e
assistenciais vinculados ao salário mínimo e das despesas em saúde e em
segurança entre outros. [última lâmina]
Nos
últimos meses, muito se tem comentado sobre a robustez da nossa economia,
mesmo em um momento difícil como o que temos vivido. O País certamente
tem-se beneficiado de uma política de equilíbrio fiscal de longo prazo,
âncora dos nossos sólidos fundamentos macroeconômicos.
Progressivamente, temo-nos beneficiado cada vez mais das reformas
institucionais que têm permitido ampliar nosso crédito e melhorado os
incentivos à ampliação das decisões privadas de investimento e
produção.
Estou
seguro de que, no futuro, uma avaliação retrospectiva do atual momento
vai identificar em programas como o Bolsa Família um marco não apenas da
política social, mas da política de desenvolvimento do Brasil, um país
que mostrou que é possível, ou melhor, que é necessário conciliar
equilíbrio fiscal e prioridade social, um país que começa a consolidar
uma trajetória sustentável de crescimento econômico com justiça
social.
Encerro
esta minha breve exposição, que espero ter contribuído com o vosso
trabalho, cumprimentando de maneira muito especial meu colega Patrus
Ananias e toda sua equipe. Patrus não bate bumbo, não gasta palavras ao
vento, não joga confetes sobre si mesmo. Patrus é daqueles homens que
plantam sementes, no silêncio dos campos, consciente de que o País
colherá frutos expressivos da seriedade de sua conduta. Parabéns, Patrus.
Conte sempre com o Ministério da Fazenda para o fortalecimento de seus
trabalhos.
Apresentação
feita durante o discurso do ministro Antonio Palocci
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