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Notas
Oficiais
01/12/2005
Discurso do
Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no jantar anual da Federação
Brasileira das Associações de Bancos – FEBRABAN
São Paulo, 1 de dezembro de
2005
1.
É com grande satisfação que venho hoje a São Paulo para participar,
uma vez mais, do jantar anual de confraternização da Federação
Brasileira das Associações de Bancos – FEBRABAN. Agradeço, na pessoa
do Presidente Márcio Cypriano, o convite para participar deste evento.
2.
Sinto-me ainda mais honrado por aqui estar na condição de representante
do Senhor Presidente da República, que, em razão de outros compromissos,
não pôde comparecer. Pediu-me ele que lhes transmitisse uma saudação
muito especial, uma palavra de reconhecimento pelo trabalho que este setor
realizou ao longo de 2005 e votos de que, com o mesmo empenho, possa
seguir contribuindo para o bom funcionamento e crescimento da economia
brasileira.
3.
Antes de começar, quero desde já me desculpar pelo fato de que minha
permanência aqui terá de ser breve, pois ainda esta noite embarco para
Londres, onde irei representar o Brasil em reunião que se dá no contexto
do encontro de Ministros de Finanças dos países do G-7. Amanhã, vou-me
reunir com o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, John Snow, com
quem desenvolvi uma relação de amizade pessoal e uma parceria muito
produtiva no tratamento das importantes questões econômicas que de
interesse dos nossos dois países. Também amanhã, deverei reunir-me com
Gordon Brown, Chanceler do Erário, responsável pela pasta das finanças
no governo britânico, com quem também mantenho diálogo amistoso e
fluido. Estas reuniões ocorrem a poucos dias da reunião ministerial de
Hong Kong e os ministros da área econômica tentaremos dar novo impulso
à Rodada de Doha para o comércio. Ainda hoje, o Presidente Lula propôs
reunião emergencial de chefes de estado para garantir os resultados
positivos que todos esperamos em Hong Kong e que ainda não estão
assegurados, apesar de todo o esforço negociador do Governo brasileiro
sob a competente coordenação do Ministro Celso Amorim.
4.
Além destas questões relativas ao comércio mundial, vou levar aos meus
colegas do G-7, e dos outros grandes países emergentes que participam do
encontro, a mesma mensagem que lhes trago esta noite: uma mensagem de
confiança na economia brasileira. E devo dizer que não se trata de uma
tarefa difícil, pois como as senhoras e senhores sabem, a economia
brasileira vive hoje o período mais favorável e promissor dos últimos
anos; eu diria mesmo das últimas três décadas.
5.
E por que a nossa economia vai bem? Fundamentalmente, porque a sociedade
brasileira, seus governantes, seus líderes políticos e empresariais,
nossos trabalhadores e organizações comunitárias, após trinta anos de
descontrole inflacionário, fizeram uma escolha preferencial e definitiva
pela estabilidade, pela continuidade das políticas de longo prazo, pela
responsabilidade fiscal e, em última instância, pela responsabilidade
social. O Brasil aprendeu, a um custo muito elevado, como bem sabemos, que
não existe um atalho ‘inflacionista’ para o desenvolvimento. Aliás,
aprendeu mais: aprendeu que não existem caminhos milagrosos para o
desenvolvimento.
6.
Primeiro, nesse processo por vezes doloroso de amadurecimento, pudemos
confirmar que, na esfera política, não havia atalhos fora da democracia.
Por isso, porque soubemos extrair lições valiosas do longo período de
autoritarismo que vivemos, o Brasil é hoje uma democracia madura, dotada
de instituições fortes, impulsionada por uma participação cada vez
mais intensa de seus cidadãos nos grandes debates que apontam e definem
os rumos do País. Além disso, o Brasil é dotado de uma imprensa plural,
diversificada e amplamente livre.
7.
Em seguida, quase uma década depois do retorno da democracia ao nosso
cotidiano, o Brasil começou a vencer um dos maiores desafios que
enfrentou no Século XX: mais de duas décadas de inflação alta,
descontrolada, e crônica que inviabilizavam qualquer projeto de
desenvolvimento de longo prazo – afinal, não existe projeto de
desenvolvimento sem uma dimensão de permanência – e, pior, que
penalizava duramente nossas famílias mais pobres, acentuando um quadro de
desigualdade social sabidamente grave.
8.
E por que lhes recordo esses aspectos-chave de nossa história recente?
Porque eles estão na base de duas realidades fundamentais: a sociedade
brasileira espera de seus governantes e representantes, e do poder
público de modo geral, políticas, decisões e providências ágeis,
muitas vezes urgentes, mas não aceita que essa urgência sirva de
pretexto para qualquer tentativa de atropelo das leis ou das
instituições democráticas.
9.
Da mesma forma, o povo brasileiro quer e cobra, legitimamente, que a
economia cresça mais, e mais depressa, mas não aceita, de modo algum, a
volta da inflação. Até porque todos aprendemos, a duras penas, que, com
inflação, não existe crescimento sólido, duradouro, consistente. Por
isso, a estabilidade econômica é, e terá de ser sempre, uma conquista
definitiva dos brasileiros.
10.
Hoje, os dados apontam para o sucesso da política de estabilização dos
preços, após dois importantes choques inflacionários nos últimos anos:
o primeiro no final de 2002 e início de 2003, quando a inflação em doze
meses chegou a mais de 17%, e o outro no final de 2004 e início de 2005,
quando a taxa em doze meses subiu de 5% para 8%. Esta é uma situação
já superada e as expectativas de inflação convergem, em 2006, para a
meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional. Em particular, o
IGP-M deve alcançar em 2005 a taxa mais baixa desde sua criação e, em
conseqüência do bom comportamento dos preços no atacado, os preços
administrados e parcela importante das tarifas públicas, também devem
contribuir, em 2006, para um comportamento benigno das taxas de
inflação.
11.
Mas a consistência da política macroeconômica vai bem além do controle
da inflação. Na dimensão fiscal, também estamos observando avanços
relevantes, com o resultado nominal do setor público convergindo para
níveis civilizados e muito menos voláteis que no passado e com a
confirmação da tendência de queda da relação dívida pública/PIB,
após quase uma década de forte crescimento.
12.
Este aumento da solidez fiscal se reflete também numa importante mudança
na composição da dívida pública, com a parcela da dívida doméstica
vinculada ao câmbio caindo expressivamente, de 37% em dezembro de 2002
para 3,8% em outubro de 2005, ao mesmo tempo em que cresce a parcela de
títulos pré-fixados, que passou de 2,2% do total em dezembro de 2002
para 24,5% em outubro de 2005.
13.
Embora ainda haja um longo caminho a trilhar até que a situação fiscal
do País esteja definitivamente consolidada, muito já foi feito. Mesmo
que a dívida pública ainda seja elevada como proporção do PIB, o risco
de descontrole do endividamento está afastado. Mesmo que ainda seja
necessário alongar o prazo dos títulos e reduzir progressivamente a
parcela indexada aos juros de curto prazo, a vulnerabilidade da dívida a
flutuações macroeconômicas é hoje muito menor do que foi no passado.
14.
Completando o arcabouço da consistência macroeconômica, avançamos de
forma inequívoca no reforço da solidez de nossas contas externas,
resultado do regime de câmbio flutuante, mas também do poder competitivo
das empresas brasileiras. Esta solidez, que resulta do excelente
desempenho das exportações brasileiras, que, nos últimos 12 meses, até
novembro, alcançou 116 bilhões de dólares,, reflete-se numa
disponibilidade anual de recursos externos – correspondente à soma do
saldo em transações correntes com os investimentos diretos – da ordem
de 30 bilhões de dólares.
15.
Tal situação tem viabilizado uma rápida expansão das reservas
internacionais, que, descontados os créditos do FMI, cresceram mais de 19
bilhões de dólares entre dezembro de 2002 e outubro de 2005, bem como
tem permitido uma redução expressiva do endividamento externo do País,
que caiu 19,4 bilhões de dólares entre dezembro de 2002 e junho de 2005.
16.
O resultado da consolidação da estabilidade dos preços, aliado à
solidez fiscal e à redução de nossa vulnerabilidade externa, cria as
condições para um crescimento equilibrado e sustentável da economia
brasileira. Obviamente não se trata de um crescimento imune a
oscilações, como deixou claro o resultado do PIB do terceiro trimestre,
que reflete os efeitos defasados da política de combate à inflação, de
um forte processo de ajuste de estoques e também da queda da confiança
do consumidor e dos investidores, resultante, em parte, do período
prolongado de turbulência política que estamos atravessando. Temos que
encarar com humildade tais resultados.
17.
Mas, ao que tudo indica, todos estes fatores negativos já estão sendo
superados. Após um bem sucedido processo de redução da inflação, a
política monetária já vem sendo flexibilizada; o ajuste de estoques
parece já se ter completado; e, principalmente, a confiança do
consumidor já se vem recuperando, sugerindo que a percepção dos
benefícios resultantes da estabilidade e da forte expansão da renda dos
trabalhadores – que cresceu 4,9% neste ano – vêm superando a
incerteza gerada pela crise política e confirmando que a solidez
econômica e institucional alcançada pelo País é mais forte do que
eventuais turbulências. No dia de hoje, o Brasil registrou a taxa de
risco mais baixa de nossa história, desde que tais medições foram
implantadas.
18.
Neste contexto, o crescimento que vivemos hoje pode não ser o mais
acelerado no curto prazo, mas é aquele que gera as condições para sua
própria continuidade, sem criar desequilíbrios que afetem o crescimento
de amanhã. Não sou avesso a críticas ou ao debate de alternativas. É
salutar debater sempre se os ritmos e doses das políticas são adequados
ou devem ser ajustados. Mas não podemos atropelar um processo de
estabilidade duramente construído, principalmente em troca de políticas
velhas, testadas e reprovadas pela nossa história econômica.
Senhoras e Senhores,
19.
Como bem sabem – até porque o setor financeiro toma constantemente o
pulso da economia brasileira – a economia brasileira vai bem porque,
além de contar com instituições sólidas e com um amplo consenso social
pela manutenção da estabilidade macroeconômica, conta com uma
iniciativa privada que também amadureceu imensamente. Um amadurecimento
que somente poderia ocorrer em um contexto de estabilidade e de
exposição de nossas empresas à competição internacional, aqui dentro
e nos mercados que disputamos como exportadores de bens e serviços.
20.
Tal como se pode ver pelo desempenho das nossas empresas, que apresentaram
em 2004 a melhor rentabilidade dos últimos 23 anos, enganaram-se aqueles
que previram a derrocada de diversos setores da economia brasileira,
subestimando o poder competitivo de nossas empresas. Os números de nosso
comércio exterior – e em particular o aumento da participação de
nossas exportações no comércio global – aí estão para provar
justamente o contrário.
21.
Então, evidentemente, o Brasil está sim conseguindo beneficiar-se da
expansão da economia mundial. E estamos fazendo isso em uma área, a do
comércio exterior, em que havia uma clara disfunção entre o peso
relativo da economia brasileira e sua presença nos mercados
internacionais.
22.
O mais importante é que este movimento – de aumento da rentabilidade
das empresas e de maior participação no comércio internacional –
está-se dando concomitantemente à consolidação de uma expressiva
melhora na distribuição de renda do País. Os números da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios divulgados esta semana confirmam de
modo incontestável essa afirmação. Tão importante quanto a expansão
da renda é o fato de que ela se está tornando mais bem distribuída. Tal
processo ocorre em contexto de forte expansão e formalização do
emprego.
23.
Em suma, o Brasil se torna, como todos desejamos, um país mais próspero
e mais justo. Se não no tempo e na velocidade das nossas vontades, será
na velocidade e no tempo das nossas possibilidades. Ainda resta muito por
fazer, mas, repito, estamos no rumo certo e nele iremos perseverar.
24.
Estamos em um jantar de confraternização e não os vou saturar com
números, que todos aqui bem conhecem, mas tanto os dados de rentabilidade
de nossas empresas como as cifras de nossas contas externas e os
progressivos avanços na redução das desigualdades sociais indicam
claramente que temos hoje condições de sustentar um ciclo longo de
crescimento e distribuição de renda.
25.
Isto é possível porque, em última instância, temos hoje uma democracia
madura, dotada de instituições sólidas; governantes e lideranças
comprometidos com a responsabilidade fiscal e a estabilidade
macroeconômica como caminho para o crescimento; e com um setor privado
que soube amadurecer, adaptar-se aos desafios dos novos tempos, valendo-se
do dinamismo e espírito inovador de nossos empresários e trabalhadores.
Senhoras e Senhores,
26.
Antes de concluir, faço questão de dizer uma palavra sobre o nosso setor
financeiro, um setor que, como o Brasil, como nossas instituições e
nossa economia, também soube amadurecer. Se vinte anos atrás nossos
bancos se haviam notabilizado pela capacidade de sobreviver e crescer em
um quadro de alta inflação, e se há dez anos havia dúvidas sobre como
se iriam ajustar à estabilidade, hoje é evidente que estão sendo
capazes de vencer esse desafio, como mostra o expressivo aumento do volume
de crédito, que passou de 26,2% do PIB em dezembro de 2003 para 30% em
outubro deste ano.
27.
Trata-se não apenas do aproveitamento de uma oportunidade por parte das
instituições financeiras, mas também de um inequívoco sinal de
confiança na consolidação da estabilidade do País. Pois o que é o
crédito, senão uma aposta no futuro?
28.
É claro que ainda estamos no início de um longo caminho. Este é um
processo em curso que, ao longo de sua evolução, tenderá reforçar a
tendência de volumes de crédito e serviços cada vez maiores e de taxas
cada vez menores. Com isto, se manterá a solidez e a eficiência de
nossas instituições financeiras, com benefício crescente para as nossas
empresas e para o conjunto de nossa população. Estou convencido de que
também o desenvolvimento do setor financeiro irá beneficiar-se cada vez
mais do aperfeiçoamento institucional do País, da estabilidade, solidez
e dinamismo de nossa economia e, também, evidentemente, da reconhecida
capacidade empresarial com que conta o nosso sistema financeiro.
29.
Trata-se, como ocorre com os demais setores da economia, de uma via de
mão dupla, na qual o setor financeiro, ao mesmo tempo que se vale dos
avanços de nossa economia, e do conjunto da sociedade, para expandir-se e
aperfeiçoar-se, oferece à nossa economia e à sociedade como um todo os
benefícios de um complexo bancário e financeiro mais eficiente e
moderno.
Senhoras
e Senhores,
30.
Volto à mensagem com que iniciei meus comentários. Uma mensagem de
confiança na economia brasileira, de perseverança e manutenção dos
rumos que vimos seguindo. Penso que, nosdias atuais, cada um de nós temos
imensas responsabilidades para com o nosso país. Cerregamos hoje débitos
gigantescos com os erros que cometemos no passado. É hora de corrigi-los,
pacientemente, serenamente. Nós não temos o direito de deixar para os
jovens que amanhã estarão em nosso lugar um país endividado,
desarrumado e inviável. Nossa obrigação é dar-lhes um país
democraticamente maduro, economicamente estável e socialmente justo.
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