|
Pronunciamentos
02/01/2003
Discurso proferido pelo Ministro Pedro Malan,
na solenidade de transmissão do cargo de Ministro de Estado da Fazenda ao
Ministro Antonio Palocci Filho, no auditório do Banco Central do Brasil, em
Brasília
Meu caro Antônio Palocci, que
assumiu o cargo de Ministro da Fazenda, ex ministros aqui presentes, velhos
colegas de ministério, velhos colegas de governo ao longo dos últimos anos.
Futuros ministros vencedores das eleições de outubro de 2002.
Ministro Palocci, as pessoas que
aqui estão vieram não para ouvir o Ministro que sai, mas o ministro que entra.
Vieram não só para ouvi-lo, mas para cumprimentá-lo, para saudá-lo, para
expressar seu apoio, sua solidariedade, oferecer-se, quando for o caso, para
cooperação, e eu queria dizer que sou um dentre estes. Queria deixar claro
aqui, e falo com coração e mente: desejo os meus mais sinceros votos de
sucesso ao senhor no Ministério da Fazenda, à sua equipe aqui tão bem
representada parcialmente, ao governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva.
Espero que seja um governo bem sucedido, e que possa entregar o País à futura
administração melhor do que aquele que recebeu, como estou seguro de que nós
o fizemos ao longo da administração Fernando Henrique Cardoso
Eu não pretendo fazer balanços
dos últimos 8 anos, não pretendo fazer balanço de Governo, a hora não é
apropriada, e muito menos pretendo fazer qualquer comentário sobre discursos
recentes. Gostaria apenas de registrar aqui alguns agradecimentos e algumas
observações que me parecem importantes fazer neste momento. As duas palavras
que vêm ocupando, justamente, ao meu ver, o centro da discussão e das
esperanças do povo brasileiro, que são mudança e esperança. Ninguém em sã
consciência pode ser contra qualquer uma das duas, muito antes pelo contrário.
A mudança faz parte do desejo do ser humano, de uma família, de uma
comunidade, de um país, de uma sociedade, desde que dois detalhes sejam
respeitados: que seja uma mudança para melhor, e que seja uma mudança que
preserve conquistas que a própria sociedade considera que devem ser
preservadas. Há um bordão meu que uso há anos, e vários aqui presentes já o
conhecem de entrevistas, textos escritos, palestra. Insisto sempre no fato,
estou convicto disso, de que o Brasil mudou, o Brasil está mudando e o Brasil
vai continuar a mudar , o Brasil precisa continuar a mudar, no sentido de
avançar mais nesses processos de transformação – e eu quero enfatizar aqui
o plural – que vem marcando os últimos anos. E que transcendem de muito o
lado puramente econômico, pois nunca fiz qualquer distinção entre o
econômico, o político, o institucional, o social, o cultural, o ético e o
moral.
É assim que se transformam as
sociedades, é assim que vem se transformando o Brasil, e não é para pior, é
para melhor. Esse processo deve ter continuidade, e um elemento importante desse
processo, uma das belezas da democracia, é o debate público que ele propicia.
Ao longo do debate público que tivemos nos últimos anos, em particular em
2002, nós observamos concretamente algo que é uma das belezas do debate
público numa sociedade democrática com imprensa livre, independente,
investigativa. É o fato de que as pessoas mudam de opinião em relação às
opiniões anteriormente manifestadas. Uma das razões que nos permitiram superar
os quatro problemas que tivemos ao longo de 2002. Um deles foi um contexto
internacional adverso, que continuará em 2003 e exigirá da equipe do Ministro
Palocci uma redobrada atenção e acompanhamento. Havia três outras razões de
natureza domestica. Uma das preocupações que vêm se mostrando claramente
exageradas, à medida em que os dados surgem, são preocupações de mentes mais
sobressaltadas, era com problemas de balanço de pagamento do Brasil. Vamos
terminar o ano com o déficit em conta corrente muito inferior a dois pontos
percentuais do PIB. É uma situação perfeitamente administrável, mas o mais
importante, eu não quero me estender em detalhes, é que essa modificação é
uma modificação estrutural na economia brasileira. Isso representa um aumento
da produção exportável e da produção doméstica eficientemente competitiva
com importações, que veio para ficar e está ficando clara, à medida em que
se avolumam os estudos sobre o assunto. A outra preocupação, que também vem
sendo tratada, mostra claramente que é possível a preservação pelos
próximos anos de superávits primários da magnitude do que estamos gerando,
para manter sob controle e colocar numa trajetória declinante a relação
divida/PIB. O quarto e último ponto de inquietação neste ano que passou eram
as naturais incertezas associadas aos termos em que se colocaria o debate
eleitoral, ao resultado das eleições, a transição e as políticas a serem
postas em práticas por aqueles que viessem a ganhar as eleições.
Acho que neste ponto, como nos
anteriores, a experiência mostrou que o Brasil chegou a um nível de maturidade
política e de racionalidade no debate econômico que não encontra paralelo em
épocas passadas. Isso nos permitiu ao longo deste período um discurso em que
os principais partidos de oposição reafirmavam seu direito de divergir e de
redefinir prioridades, mas reafirmavam também seus compromissos com algo que eu
digo há anos não está sujeito mais numa sociedade moderna ao debate de
natureza política e ideológica. Ninguém mais discute hoje se um governo deve
ou não ser responsável fiscalmente. Ninguém discute hoje se um governo deve
ou não preservar a inflação sob controle. Ninguém discute hoje se um governo
deve ou não honrar e respeitar contratos. Essas são questões que são
consideradas responsabilidades mínimas de qualquer governo, qualquer
administração voltada para segurar a gestão da coisa pública, isso não tem
mais ideologia ou coloração político-partidário. Eu acho que foi a
reiteração dessa visão, desse terreno comum, e aqui o Ministro Palocci teve
um papel importante, que contribuiu para que o clima de sobressalto e incerteza
que prevaleceu de abril até as eleições fosse gradualmente reduzido.
Assim como foi a exemplar
transição, o grau de civilização que caracterizou esta transição, atos de
estadistas como o do encontro dos candidatos com o Presidente Fernando Henrique
Cardoso, que permitiu que nós mostrássemos não só a nós mesmos como ao
resto do Mundo o grau de amadurecimento político e de racionalidade econômica
que acreditamos haver alcançado. E agora, olhando adiante, o fundamental passa
a ser o grau de coerência, consistência, determinação, persistência com que
as novas políticas serão implementadas pela futura administração, à qual
desejo mais uma vez meus melhores votos de sucesso. Tenho dito em mais de uma
ocasião que o Brasil é um país em construção, que essa construção se dá
em quatro grandes pilares, que são os regimes macroeconômicos básicos – o
regime fiscal, o regime monetário e o regime cambial, e avançamos muito ao
longo dos últimos anos no regime fiscal e na percepção da sua importância em
termos de legislação e nos acordos com estados e municípios. Avançamos na
definição do regime monetário, que é ao meu juízo o que mais convém ao
país, na medida em que é melhor do que os regimes alternativos, e consolidamos
o regime de flutuação cambial.
O outro pilar é o pilar da
consolidação e avanço político institucional, administrativo e jurídico,
onde há muito por fazer ainda. Mas avançamos muito e, no fundo, no fundo, por
trás dessa preocupação que sempre foi nossa, está o reconhecimento de que a
qualidade de um governo, qualquer que ele seja, não pode ser dissociada da
qualidade das instituições públicas de um país e seu funcionamento, e da
qualidade da sua sociedade civil, da maneira pela qual se expressa, não apenas
por ocasião desse espetáculo cívico que são as eleições, mas como se
expressa cotidianamente, na cultura cívica da democracia, na defesa do seus
direitos por suposto, mas também no cumprimento das suas obrigações,
inclusive para com os seu semelhantes. O terceiro pilar é a criação das bases
para um crescimento sustentado.
Aqui, eu discordo das críticas
que se faz com freqüência à administração que passou, por não ter feito a
economia crescer a taxas mais elevadas do que seria razoável, como se isso
pudesse ser o resultado de puros atos de vontade. Nós lançamos as bases para
um crescimento sustentado da economia brasileira nos anos subseqüentes,
baseadas numa profunda transformação estrutural da economia brasileira, em
aumento de produtividade que veio para ficar: na agricultura, na pecuária, na
indústria e no serviço. A economia brasileira nunca foi tão competitiva na
disputa de mercados externos e na disputa por mercado doméstico com produtos
importados, como é hoje, e isto junto com o investimento no principal ativo que
o país tem, que é sua própria gente, e em ciência e tecnologia e em reformas
micro-econômicas, para permitir maior adaptação e flexibilidade à base de
crescimento futuro.
O quarto e último pilar, que é
o fundamental, porque os outros são meios para que o último possa ser erigido
em sólidas fundações, é o processo de melhoria das condições de vida da
maioria da população brasileira. Não é correta a percepção de que a
preocupação com o social começa agora. A preocupação com social é antiga,
é nossa, e os indicadores que começam a surgir agora, provenientes de estudos
feitos por pesquisadores brasileiros e por pesquisadores de órgãos
insuspeitos, como, por exemplo, o Banco Mundial, mostram o enorme avanço que
foi feito no país numa enorme gama de indicadores sociais, que terá
continuidade e, espero, com bases sólidas a partir de agora .
Não quero entrar em números e
detalhes aqui. Todo analista de boa fé que se debruce sobre os números de uma
gama ampla de indicadores sociais haverá de se dar conta disso, e os estudos se
avolumam e indicam o quanto o Brasil caminhou e o muito que resta por caminhar
nessa área, é bem verdade, mas o que resta por fazer não deveria obscurecer o
feito. Avançamos nesses quatro pilares, e eu espero que o próximo governo
possa avançar ainda mais ou muito mais, se for o caso, no sentido de sua
consolidação, estabilização e ao longo do tempo, é isso que interessa
fundamentalmente ao país.
Eu queria fazer alguns
agradecimentos aqui, em primeiro lugar à minha família, que infelizmente não
pode estar aqui representada, Catarina, Pedrinho, Cecília e Diogo, a minha
família na qual nasci e me criei, que me transmitiu os valores básicos que se
carrega na vida em termos de valores éticos morais, postura, compostura e
relacionamento com os outros e com o mundo; às minhas equipes extraordinárias
com que trabalhei no governo, durante a fase de negociação da dívida externa
brasileira, durante o período em que ocupei a Presidência do Banco Central,
quando tive a oportunidade de trabalhar com Ministros da Fazenda como Fernando
Henrique Cardoso, Rubens Ricupero e o meu amigo Ciro Gomes, a quem quero render
a minha homenagem, e ao longo dos últimos oito anos no Ministério da Fazenda.
Eu peço desculpas a todos por não citá-los nominalmente, a lista é longa e
eu estaria cometendo injustiça se pretendesse citá-los, mas quero que saibam
todos da minha profunda e enorme gratidão pelo profissionalismo, competência,
espírito público com que se houveram ao longo desses anos.
Por último, eu não poderia
deixar de citar aqui a honra e o privilégio que foi servir ao Governo Fernando
Henrique Cardoso. Tenho pessoalmente, estou seguro de que falo em nome de todos
os que comigo trabalharam nesses anos, um profundo orgulho, e sinto que foi um
privilégio servir ao país durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso, ao
qual, estou seguro, a História haverá de fazer justiça quando o país
recuperar um pouco mais um senso de perspectivas que hoje a muitos parece
faltar.
Numa entrevista recente, me
perguntaram que tipo de legado do Presidente Fernando Henrique eu gostaria de
ressaltar. Respondi mais ou menos assim: "O Brasil é um país
terrivelmente complexo de administrar, como cedo descobre quem se propõe a
fazê-lo. O grande legado do Presidente Fernando Henrique Cardoso foi mostrar
que é possível fazê-lo com arraigada e profunda convicção e prática
democrática, tolerância, paciência diálogo, visão de médio e longo prazo,
e uma recusa a voluntarismos, messianismos e exercício de autoridade para
resolver complexos problemas econômicos, financeiros, institucionais, que
expressam com freqüência numa sociedade de massas como a nossa, pluralista,
complexa e diversificada, reais conflitos de interesse que existem,
concretamente, numa sociedade ainda desigual e injusta como a nossa.
Não é tarefa fácil, e é
exatamente por isso que eu gostaria de concluir exatamente voltando ao ponto em
que comecei: mais uma vez desejar ao novo governo, aos ministros que o
representam aqui e que nos honram com a sua presença e em particular ao meu
caro Antônio Palocci. Vejo o Gilberto Gil aqui na platéia, que diz que seu
estado natal lhe havia dado régua e compasso. Quem conhece o Ministro Palocci
sabe que a sua experiência na administração de uma das grandes cidades
brasileiras, que é Ribeirão Preto, sua experiência parlamentar, sua
experiência na Comissão Especial da Reforma Tributária, onde trabalhamos
juntos na Comissão Tripartite – Governo, Câmara dos Deputados e secretários
de Fazenda dos estados – a sensatez, equilíbrio e profissionalismo com que
conduziu a transição que acabamos de experimentar e que é um motivo de
orgulho para todos nós e admiração para o resto do mundo, e agora a
capacidade que vem mostrando de montar a sua equipe e se desincumbir dar suas
funções.
Eu lhe desejo mais uma vez meus
melhores votos de sucesso do fundo do coração, e os votos de sucesso não são
apenas ao Ministro Palocci e à sua equipe, são também ao novo Governo, porque
eu penso na país, eu quero que o Brasil dê certo, e dar certo para mim
significa caminhar mais na direção dos três elementos fundamentais que
caracterizam uma sociedade na qual vale a pena viver, que são liberdades
individuais, pelas quais muito de nós nos batemos ao longo da nossa vida;
justiça social, que é em parte e muito significativa o combate à pobreza, à
fome, à desigualdade, mas é também questão de igualdade de acesso a
oportunidades e outras questões tão importantes quanto, que caracterizam a
possibilidade de indivíduos numa sociedade desigual ter acesso a bens
públicos, a bem privado, a igualdade perante a lei, acesso de oportunidade na
educação, saúde, serviço público. É um elemento fundamental também de
justiça social.
E o terceiro elemento
fundamental, sem o qual os outros dois não se consolidam ao longo do tempo, é
a eficiência – eficiência produtiva no setor privado e eficiência
operacional do estado nos três níveis do governo, é desincumbir-se das
funções que dele se espera e que na verdade é a contrapartida em termos de
quantidade e qualidade de serviço que a própria sociedade, através de
impostos e contribuições, entrega ao estado, que não gera recursos.
Portanto, eu desejo ao novo
governo, do fundo do coração, que consiga avançar mais no sentido de ampliar
o espaço para exercício de liberdades individuais e respeito à cidadania, no
sentido de reduzir a elevada carga de injustiça social que prevalece no país,
sem perder de vista que sem maior eficiência econômica e sem maior eficiência
operacional do estado é extremamente difícil alcançar os dois objetivos que
mencionei anteriormente. Ministro Palocci, a pasta é sua, e reza a
tradição... Lembro-me que Ciro Gomes, em 1995, ao me passar o Ministério da
Fazenda, é um gesto singelo, mas tem um certo simbolismo: me pedem que passe o
símbolo de Ministro da Fazenda, agora, diretamente ao senhor.
Muito obrigado. Felicidades.
|