Pronunciamentos

07/11/2002


Transcrição da Palestra do Ministro Pedro Malan no Seminário Internacional Estratégias para a Superação da Pobreza

 

Sem revisão do autor

 

Ministro Pedro Malan – Fiz questão de aceitar o convite para participar deste seminário, porque atribuo uma enorme importância ao debate público do tipo que vocês vêm tendo. Venho acompanhando pela imprensa ao longo dos últimos dias, e não queria perder a oportunidade de vir aqui expressar um pouco da minha visão sobre o tema ao qual atribuo enorme importância. O tema é "Estratégias para a superação da pobreza", e me pediram que fizesse uma relação disso com os problemas da economia brasileira. Não vou aborrecê-los com mais uma exposição sobre a economia brasileira no início do século XXI. Estou convencido da importância dessa discussão de estratégia da superação da pobreza no contexto de uma percepção do Brasil como um país em construção. Li os textos de base desse programa e vi que eles expressam com clareza uma idéia que sempre tive como clara para mim de que este não é um problema de natureza puramente econômica. É um problema econômico, político, institucional, social, cultural e ético, e a razão é a seguinte: a meu juízo, infelizmente, apenas em um período relativamente recente, se olharmos sob a perspectiva histórica, nós, aqui neste país, passamos a considerar o grau de pobreza, indigência e desigualdade do Brasil, na escala em que as temos, como algo que é politicamente inaceitável, economicamente injustificável e moral e eticamente incompatível com o grau de civilização que acreditamos haver alcançado.

Marx dizia que uma sociedade só se coloca problemas que acha que pode resolver. Acho que hoje nós estamos claramente diante de um desafio. É algo que procurarei mostrar que está claramente ao nosso alcance, sem ilusões de que há atalhos, mágicas, piruetas que possam resolvê-los a todos. É importante lembrarmos do passado aqui. Em um curto espaço de uma administração, ou mesmo de duas, ali onde foram equacionados problemas de compatibilizar os três valores essenciais de uma sociedade moderna, que são liberdades individuais, justiça social e eficiência econômica do setor produtivo e eficiência operacional do Estado, em particular nesta área social, isso foi um trabalho de gerações. Foram alcançados ao longo do esforço continuado de gerações com uma determinada visão no sentido de rumo, direção e propósito, que eu acho que nós temos nos últimos dez anos neste país, em particular depois que derrotamos o flagelo da hiperinflação, que, como digo há anos, é o pior, o mais injusto e o mais iníquo e cruel de todos os impostos que uma sociedade pode imaginar, porque incide exatamente sobre os ombros daqueles menos capazes de lidar com ele – o imposto inflacionário.

Depois do fim da hiperinflação, passamos a ter a capacidade de olhar com um pouco mais de clareza. Deixou de estar entre nós a zoeira, o zumbido e a poeira da inflação, e os problemas reais do país passaram a ser passíveis de serem analisados, debatidos, e as políticas públicas para equacionar os problemas sociais passaram a ter mais foco, e o debate passou a se tornar mais informado, o que era impossível em uma economia que teve uma taxa de inflação, como nós tivemos, média anual, de 1.000% entre 1988 e 1992, chegando a 2.700% em 1993. Era impossível discutir a sério políticas públicas para lidar com área social, pobreza, indigência e distribuição de renda em um contexto hiperinflacionário como nós vivemos, infelizmente, em um passado não tão distante assim. A partir daí, passou a ficar mais claro aquilo que se exige em termos de construção de um país em que nós gostaríamos de viver, um país em que nossos filhos e netos vivessem, um país em que os filhos e netos daqueles que não podem hoje estar presentes em um auditório como este possam viver em um futuro que eu espero seja o mais próximo possível.

O Brasil é um país em construção, como eu dizia, e nessa construção há quatro pilares ou quatro alicerces fundamentais. Vou me concentrar no quarto pilar, que é o relevante para a discussão de hoje, mas não posso deixar de mencionar os outros três porque uma construção não se faz sem alicerces que têm que se suportar mutuamente. Quero mencionar os três porque nenhum deles é um fim em si mesmo, mas eles são essenciais para que o quarto alicerce possa ser erigido em bases sólidas.

O primeiro alicerce é relativo à estabilidade macroeconômica, sem a qual, como mostram as sociedades modernas, é impossível avançar na construção dos outros pilares. Não quero entrar em detalhes, já falei sobre isso em inúmeros outros contextos, mas, aqui, estou falando dos três regimes macroeconômicos básicos: um regime marcado pela responsabilidade fiscal, um regime marcado pela responsabilidade monetária, regime monetário, portanto, e um regime cambial, com flexibilidade bastante para absorver choques externos e permitir mudanças de preços relativos que aumentem a produção exportável e a produção doméstica competitiva com importações.

Fizemos enormes progressos nessa área, e é fundamental preservar, como reconheceram antes e depois das eleições todos os candidatos a presidente, inclusive o candidato eleito, os compromissos com responsabilidade fiscal, respeito a contratos, aí incluídos os contratos com 25 Estados e 183 municípios, além de obrigações internacionais do país, a preservação da inflação sob controle, a responsabilidade fiscal. Acho que esse pilar é absolutamente essencial, mas, volto a insistir, ele não é um fim em si mesmo, não é um objetivo que se procura alcançar por alcançar, mas é fundamental para que a construção possa avançar, como mostra a experiência de qualquer sociedade bem sucedida no mundo de hoje.

O segundo pilar é o da estabilidade político-institucional. As regras claras de um Estado Democrático de Direito, a previsibilidade e a clareza das regras que presidem o relacionamento entre os Poderes da República, com respeito a contratos, à transparência, à redução do grau de incerteza jurídica, em suma, tudo aquilo que configura um sistema institucional, que posso resumir em uma frase: a qualidade de um governo é indissociável da qualidade das instituições públicas de um país e da qualidade da sua sociedade civil, da maneira pela qual ela se expressa não apenas por ocasião de eleições, mas no dia a dia, no exercício de uma cultura cívica democrática, na defesa de direitos e no cumprimento de suas obrigações para com o resto da sociedade. Este pilar da estabilidade político-institucional, administrativa e jurídica é absolutamente essencial na construção de um país, volto a dizer, como mostra a experiência de qualquer país bem sucedido no mundo. Ele também não é um fim em si mesmo, é um pilar importante, e é uma condição essencial para que outros objetivos possam ser alcançados.

Há amplas e legítimas controvérsias, não é esse seminário o local apropriado para desenvolvê-las, mas eu queria trazer um ponto aqui: crescimento sustentado ao longo do tempo. Muitos e muitos anos à frente, ali onde ele teve lugar, teve lugar com base no aumento da produtividade no conjunto da economia. Não há crescimento sustentado ao longo do tempo que não tenha por base um aumento da produtividade, para usar o jargão dos economistas, produtividade total dos fatores da economia, de maneira sustentada ao longo do tempo. Esse aumento de produtividade, do qual dependem, entre outras coisas, o investimento, não só em capital físico, em infra-estrutura social básica, mas o investimento no principal ativo que um país tem, que é sua própria gente, o seu próprio povo, assim como o investimento em incorporação de ciência e tecnologia, a processos produtivos, práticas e procedimentos gerenciais, tanto no setor privado quanto no setor público, é uma condição essencial sem a qual é impossível tratar adequadamente de problemas sociais complexos, principalmente em um país como o Brasil.

Dito isso, volto a insistir em algo que digo há mais de trinta anos: estabilidade macroeconômica, crescimento de estabilidade político-institucional, embora sejam objetivos absolutamente fundamentais, também não se constituem um fim em si mesmos. O fim fundamental de qualquer política econômica digna deste nome é um processo de melhoria continuada das condições de vida da população de um país, nas quais incluo redução de graus de indigência, pobreza, e redução de desigualdade, mas, também, uma série de outras características dessa melhoria: acesso a bens públicos, acesso a oportunidades em educação, saúde e outras coisas, democratização do acesso de oportunidades que, na verdade, é o objetivo maior do desenvolvimento entendido como processo, que é econômico, social, cultural, político-institucional, ético e moral.

É sobre esse quarto pilar que gostaria de falar um pouco, porque é o relevante para a discussão de hoje, mas faço questão de mencionar os outros três porque, sem eles, é um ledo engano imaginar que um país possa, de forma duradoura, consistente, consolidar um processo de redução de desigualdades, redução de pobreza e redução de indigência ao longo do tempo. É um engano que espero que nós tenhamos definitivamente superado nesse país, e esse quarto pilar deve ser visto, portanto, em conjunto com os outros três, porque eles fazem parte de um processo indissociável de construção de um país no qual nós gostaríamos de viver.

Vi com enorme satisfação que ontem, aqui neste seminário, o meu colega Ricardo Paes de Barros apresentou um trabalho que ele vem desenvolvendo há anos, e eu vejo aqui na audiência outros como Marcelo Neri, que também vem há anos se dedicando a essa questão. Acho que uma das grandes vantagens que temos no Brasil, à diferença de número grande de outros países em desenvolvimento, é que ao longo dos últimos anos nós fomos constituindo, gradualmente, um grau de conhecimento, através de pesquisa detalhada. Estamos reduzindo o peso relativo do discurso puramente retórico nessas questões, e é muito fácil fazer um discurso retórico, simplesmente em relação a problemas sociais, e estamos aprofundando nosso conhecimento da natureza do problema. Identificar um problema é formular as perguntas corretas, e formular as perguntas corretas é o melhor passo no sentido de defender, definir políticas públicas apropriadas para a sua resolução.

Acho que avançamos enormemente no Brasil e, volto a dizer, só foi possível fazê-lo porque nos livramos do véu, da poeira, da terrível opacidade que um regime hiperinflacionário propiciava, onde não era possível tratar adequadamente dessas questões. Agora, é possível fazê-lo, e acho que a investigação econômica no Brasil, as pesquisas sociais nessa área avançaram enormemente. Hoje, são reconhecidas internacionalmente. Com muita freqüência, essas instituições, Banco Mundial, BID ou FMI, que fazem pesquisas nessa área, utilizam em larga medida, o trabalho que é feito aqui, no Brasil, por pesquisadores brasileiros, sobre essas questões, e não poderia ser de outra forma. Acho que avançamos muito, e foi com satisfação que vi que Ricardo Paes de Barros apresentou ontem, aqui, um trabalho sobre um índice de desenvolvimento familiar, em que leva em conta algo para o qual chamo a atenção há anos, também.

É pena que, de novo, para deixar de lado o discurso puramente retórico, que ainda percamos tanto tempo fazendo um discurso fácil, centrado às vezes em um único indicador agregado de concentração de renda, quando há tanta coisa para aprofundar em termos de conhecimento desse país, de processos reais, coisas que estão ocorrendo há anos e que representam avanços e não retrocessos em uma gama enorme de indicadores sociais. O trabalho do Ricardo tem essa vantagem: ele pega uma gama enorme de indicadores, acesso a bens públicos, acesso a bens privados, indicadores quantitativos e qualitativos de melhorias educacionais no país, melhorias da qualidade de serviços, melhoria de indicadores sociais, e os compõe de uma maneira que permita avaliar, de forma mais abrangente, a magnitude desses indicadores. É um movimento que ocorreu no Brasil em particular depois do fim da hiperinflação e que hoje começa a ser reconhecido internacionalmente por aqueles que são capazes, que é um número crescente, felizmente, de tratar desse assunto sem a retórica ideológica e baseado em pesquisas, em fatos concretos, e não em idéias gerais e discursos fáceis. O Banco Mundial vem trabalhando, há algum tempo, sobre isso, baseado em dados dos censos do IBGE e, em larga medida, como disse antes, em trabalho de pesquisadores brasileiros, e tem uma pesquisa recente mostrando que, em uma gama enorme de indicadores sociais, o progresso ocorrido no Brasil na década de 90 é um dos três mais rápidos que teve lugar entre países em desenvolvimento nesse período. Vale dizer, o avanço que foi feito aqui, indicadores tipo redução da taxa de analfabetismo, universalização de acesso a ensino fundamental na faixa etária de 7 a 14 anos, redução de mortalidade infantil, redução de mortalidade materna, expansão de matrículas em ensino secundário, expansão de matrículas no ensino superior, quase universalização, em termos de universo de municípios, do programa de atendimento do bolsa escola, médicos de família, agentes comunitários de saúde... O Banco Mundial, independentemente, movido por outras ordens de consideração, que não a ideológica ou política, mostra claramente os avanços que foram feitos nessa década: entre os três mais rápidos do mundo na década de 90.

Há um comentário que queria fazer a esse respeito: como nós somos um país de dimensão continental – um dos cinco maiores países do mundo, o quinto maior em termos de população, o quinto maior em termos de extensão territorial, somos um país heterogêneo, do ponto de vista estrutural, diverso na nossa magnífica unidade, marcados por uma profunda diversidade, em vários aspectos –, as médias nacionais do Brasil encobrem tanto quanto revelam. Vejo com satisfação o número crescente de pesquisadores brasileiros que não se deixam levar pelo discurso fácil da média nacional e procuram aprofundar as suas investigações.

Deixe-me dar alguns exemplos. Vamos pegar um indicador mais elementar: o analfabeto. Um entre cada dois brasileiros há 50 anos era analfabeto. Em 1920, eram dois entre cada três. Hoje, temos 12% na estimativa mais recente. Alguém pode pensar, equivocadamente, que, sendo 12%, em qualquer parte do Brasil haverá uma pessoa analfabeta entre 8. Isso não é verdade, quando se olham os dados agregados. Por exemplo, quando se olham os dados agregados por faixa etária e por região do Brasil, na faixa etária de 15 a 19 anos, no sudeste, no sul e no centro-oeste, a taxa de analfabetismo é da ordem de 1%. Na faixa etária de 15 a 24 anos, no sudeste, no sul, é da ordem de 2% da população. Quer dizer, este é um fenômeno, o do analfabetismo, que está em vias de extinção no Brasil como um todo, e é um fenômeno que acabará muito em breve.

Essa distribuição mostra, também, que há problema de analfabetismo no Brasil em faixas etárias mais altas, mais de 50 anos, no Nordeste, o que permite identificar uma política pública, porque essas pessoas não devem ser deixadas à sua própria sorte. Mas, uma vez mapeado o problema, onde reside a questão a ser enfrentada, aqui, a análise desagregada é absolutamente essencial para que se possa ter uma política pública apropriada para dela tratar, e não o discurso fácil de que é um problema de que o Brasil como um todo tem uma taxa de analfabetismo linear.

Para 29,6, se não me engano, de 1000 nascidos vivos, é uma das mais expressivas quedas que tiveram lugar em taxa de mortalidade infantil na última década do século XX, conforme mostra análise comparativa do Banco Mundial. Alguém dirá: mas 29,6 por 1000 nascidos vivos é uma taxa muito alta. É verdade. É uma taxa muito alta. Mas nós temos inúmeras cidades, municípios, regiões do Brasil, em que ela é de um dígito, inferior a 10%, portanto, taxas semelhantes às que prevalecem em várias economias desenvolvidas.

Essa análise desagregada, saber onde se localiza o problema e qual é a forma de ter uma política pública, voltada para tratar dela, como é, por exemplo, o caso do Projeto Alvorada, deste governo, voltado para melhoria dos índices, o IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, e nas regiões mais pobres e nos municípios mais pobres do Brasil, como é o trabalho magnífico da Comunidade Solidária, ao qual estou seguro que a história fará justiça, com a concepção não clientelística, não fisiológica. Outra coisa é o senso de perspectiva que parece a muitos faltar na análise dos avanços feitos no Brasil nessa dimensão.

Da mesma maneira, o estudo do Banco Mundial mostra que para países que, como o Brasil, têm os mais amplos programas de transferências diretas de renda, como, por exemplo, bolsa escola, bolsa alimentação, programa de erradicação do trabalho infantil, sistema de transferência de renda para idosos e deficientes, e o seu antecessor, que era o programa de renda mensal vitalícia, as aposentadorias rurais, concedidas a 6,5 milhões de trabalhadores do campo brasileiro, e que fazem com que, no seu conjunto, o Brasil tenha um dos maiores programas de transferência de renda ou de renda mínima do mundo em desenvolvimento e da maioria dos países desenvolvidos, algo que também não é reconhecido ainda, mas um dia o será, quando deixarmos de lado um pouco das emoções e olharmos de maneira desapaixonada e de boa-fé, e com honestidade intelectual, os dados.

O fato é o seguinte: apesar dos avanços que foram feitos existe, obviamente, um enorme espaço para um discurso de que há muito por fazer. E é verdade. O Brasil é um país injusto, desigual. Temos níveis de indigência e de pobreza que nos humilham e envergonham, ainda, diante do resto do mundo, e deveriam envergonhar as nossas ditas elites, e quero falar sobre isso um pouco mais adiante, mas o fato é que o muito que há por fazer não deveria obscurecer o feito. E o fato é que nós estamos hoje, quando se faz um balanço desapaixonado e objetivo, melhor do que estávamos. Estamos, ainda, muito aquém daquilo que queremos ou a que podemos chegar, mas isso não deveria levar a uma situação em que se acha que o Brasil retrocedeu. Não retrocedeu. O Brasil avançou ao longo da década de 90 na esmagadora maioria dos indicadores sociais. É bem verdade que, em algumas áreas, como por exemplo segurança pública e criminalidade urbana, as coisas não melhoraram. Ao contrário, eu diria.

Mas isso é parte de uma discussão muito mais ampla, e acho que é uma visão meio simplória achar que isso se deve única e exclusivamente à condição de pobreza. É algo que estou convencido que será o tema dominante do debate econômico, político, social, no Brasil, ao longo dos próximos anos, que tem a ver com o papel do governo, federal, estadual e municipal. Como é que a sociedade vai enfrentar essa questão, essa preocupação, corretamente erigida como grande e fundamental desafio que nós todos temos, de reduzir os nossos excessivamente elevados índices de indigência, pobreza e desigualdade. Quais são as políticas públicas mais apropriadas para fazê-lo, e toda vez que se fala em política pública se discute questões de prioridade na alocação de recursos públicos escassos. Essa é a grande questão. É o grande desafio.

E deixe-me dizer porque eu acho que é um desafio e cuja resposta está ao nosso alcance. O Banco Mundial terminou, há poucos anos atrás, um estudo sobre pobreza no mundo. Para se ter uma idéia, estimaram, usando o método apropriado, de conversão de moedas nacionais em dólar, o número de pessoas no mundo em desenvolvimento, vivendo com menos de um dólar por dia. Chegaram à conclusão estarrecedora de que havia, no mundo, em 1998, se não me engano, quando o estudo foi concluído, um bilhão e duzentos milhões de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia. De novo, a análise desagregada desses um bilhão e duzentos milhões de pessoas mostra que 90% delas, um bilhão e noventa milhões, estavam localizadas na África e na Ásia. Na América Latina, eram cerca de 6,5% do total, cerca de 78 milhões de pessoas, das quais cerca de 20 e poucos milhões no Brasil, em 1998.

É óbvio que o desafio para a África e Ásia é de proporções hercúleas. É uma tarefa quase sobre-humana em um espaço relativamente curto de uma ou duas gerações ter uma dramática redução de um nível de pobreza e indigência dessa magnitude. Eu digo que, na América Latina, foram 6,4% do total dos um bilhão e duzentos milhões, cerca de 15,6% da população... Não é para derivar daí nenhuma satisfação, nenhum conforto desses dados, mas para mostrar que à diferença de África e de muitas partes da Ásia está ao nosso alcance fazer um avanço expressivo e significativo nesta redução ao longo dos próximos anos, de novo, sem ilusões de que se resolvem problemas dessa natureza em um par de anos, ou no curto espaço de uma administração federal, porque não se resolve. Mas é possível avançar, com determinação, direção, sentido de propósito, e o que se deve esperar de uma administração é que ela entregue a seu sucessor, legitimamente eleito pelas urnas, um país melhor do que aquele que recebeu. Não é razoável pedir que uma administração resolva todos os problemas legados de um passado de 350 anos de escravidão, dependência da coroa portuguesa, interesses corporativistas de todo tipo envolvidos aqui nesta questão.

Aliás, se me permitem um parênteses, sugiro fortemente àqueles que têm algum interesse em entender mais abrangentemente a situação do Brasil, passado, presente e futuro, a leitura de um excelente livro, de um pesquisador carioca – posso chamá-lo assim, apesar de lá não ter nascido –, José Murilo de Carvalho. Chama-se "A formação da cidadania no Brasil - Um longo caminho". É um trabalho excepcional. Àqueles que não gostam de ler, se bem que para esses eu vou lembrar uma magnífica frase de um grande mural no prédio da Civilização Brasileira, no Rio, em que se dizia – era um desenho de uma pessoa com tarjas nos olhos, nos ouvidos e na boca: "Quem não lê mal ouve, mal fala e mal vê". Mas, para aqueles que não gostam de ler, atenham-se à conclusão. São nove páginas apenas. Só da página 219 à 228. Sugiro fortemente a leitura. Presumo que todos os que estão aqui neste seminário estão aqui porque têm interesse nessa questão. São nove páginas. Nove páginas brilhantes para discussão subjacente a essa discussão que estamos tendo aqui.

Mas deixe-me voltar ao meu ponto anterior. O ponto anterior é o seguinte: a discussão fundamental no Brasil nos próximos anos é uma discussão sobre gasto público e, volto a insistir, não é sobre o nível do gasto público apenas. Nós temos que dar um passo adiante na nossa velha tradição, que ainda existe entre nós, que diz que, uma vez identificado um problema, qualquer que seja a área, social ou outra, a forma de resolvê-lo é ampliar o volume de recursos públicos destinados à sua resolução. Muito mais importante do que a discussão do nível e a ampliação do nível do gasto público em demandas que se adicionam sucessivamente é a discussão sobre a estrutura e a composição do gasto público, os mecanismos de fiscalização e supervisão, não só da agência que decide o gasto ou que realiza o gasto, ou do Ministério a que está subordinado, mas da própria sociedade civil, em termos da eficiência no uso de recursos públicos escassos, o grau de transparência para a sociedade, o grau de descentralização, não só entre os três níveis do governo.Há muita coisa a ser feita, como o Brasil vem mostrando, na área da utilização de organizações não governamentais, entidades da sociedade civil, porque a democracia moderna exige instâncias intermediárias entre a população e o governo, o que vem ocorrendo no Brasil, e tem um papel essencial nessa direção.

Há um aspecto para o qual gostaria de também chamar a atenção, porque é essencial para uma discussão mais aprofundada do que a que nos permitimos ter até agora: é sobre os padrões de regressividade e progressividade do ponto de vista de distribuição de renda e da estrutura de gastos públicos no Brasil. Nós temos, hoje, no Brasil, vários tipos de gastos públicos na área dita social, onde nós não gastamos pouco, se me permitem outro parênteses. O Brasil é um dos países que mais gastam na área social como percentagem do PIB na América Latina. Vinte e um por cento do PIB são gastos na área social. Nenhum governo, na história deste país, destinou um percentual tão elevado nos recursos de custeio e investimento do governo federal para a área social, como fez o governo Fernando Henrique Cardoso. Nunca, na história do Brasil, a área social recebeu uma fatia tão elevada do orçamento geral da União, custeio e investimento para a área social do que fez este governo. E eu não estou incluindo, aqui, os gastos com pessoal nas áreas de educação e saúde que, presume-se, devam guardar alguma relação com a quantidade e qualidade dos serviços oferecidos à sociedade nas áreas de saúde e educação. Nenhum governo na história fez isso, e os resultados se mostram nas pesquisas sérias que são feitas por pesquisadores brasileiros independentes e instituições independentes como, por exemplo, o Banco Mundial e o BID.

Mas quero voltar ao ponto que acho que é o ponto fundamental. Existe aqui, no Brasil, um problema que não é só do Brasil, existe em qualquer sociedade, e é a grande questão que se coloca para tentativa de mudança e de reforma. Aqueles que se dizem seriamente empenhados em tratar de pobreza e indigência devem ter uma preocupação com o que se chama de foco. O gasto público tem que ser um gasto público voltado para o alcance daquele objetivo que se pretende alcançar, se são os mais pobres. Esta é a discussão relevante. Qual é o problema no Brasil? É que nós temos uma parcela não é desprezível, ao contrário, dos gastos públicos no Brasil na área social que não se destinam aos verdadeiros pobres. Na verdade, é apropriada por não-pobres, interesses constituídos, corporativos, e que são parte do funcionamento da sociedade. Isso não é uma crítica vazia. É um dado de realidade, e o grande problema de mudanças é que mudanças significam lidar com interesses conflitantes, constituídos. Muitos deles solidamente constituídos, vocais, com presença na mídia, com enorme capacidade de mobilização, enquanto que outros, que se pretende atingir com esses gastos, não têm, porque não são interesses já constituídos, não têm o mesmo grau de vocalização, de presença na mídia, de capacidade de mobilização nas capitais de um determinado país. Portanto, não é uma questão trivial.

O fato é o seguinte: quem quer que diga que pretenda tratar seriamente de problemas de indigência, pobreza, de focalização nos pobres, não terá como evitar lidar com os interesses que hoje se apropriam de parte dos recursos públicos na área social e que, na verdade, não são destinados a beneficiar os verdadeiros pobres desse país. Essa não é uma tarefa fácil. Ela não é só econômica, financeira e fiscal. Ela é política. Ela é institucional. Ela é social. Ela é cultural, também. E eu diria que é ética e moral também. E ela é fundamental para essa discussão, para uma discussão séria sobre estratégias de redução de indigência, pobreza e desigualdade no Brasil.

Espero que seja possível aprofundar nesse debate agora e que nós deixemos a nossa velha tradição de achar que problemas se resolvem com o aumento do volume de recursos públicos, em demandas que são todas aditivas, que foi a grande fórmula na qual nós todos, como sociedade, nos iludimos durante décadas, fingindo que estávamos resolvendo problemas sociais através de expansão de gastos nominais, de tentativas de resposta a demandas sociais através de aumento de gastos sociais em termos nominais, e a mão enganadora da inflação os iludia em termos gerais para adequá-las à verdadeira capacidade de atendê-los. A alternativa para isso, e eu presumo que não queiramos caminhar nessa direção, é alternativa para lidar com a estrutura e composição do gasto, a sua eficiência, a sua regressividade e progressividade, é uma discussão sobre as formas de financiá-lo, que são só três: aumento de impostos e contribuições, que eu não recomendo, definitivamente, porque a carga tributária atual é alta para um país do nível de renda per capita que tem o Brasil, e não seria razoável aumentar ainda mais a carga tributária como percentagem do PIB, e ela só aumentou porque não foi possível conter as demandas por aumento de gastos, que são as formas tradicionais de resolver problemas; a outra forma, que não seja aumento de impostos e contribuições, é aumento do endividamento público para o qual, obviamente, há limites; e tem uma terceira, que eu espero que nós tenhamos sepultado neste país, que é a tentação inflacionária de resolver esse problema através do rodar da maquininha e do imposto inflacionário que nós já sabemos sobre quem ele recai.

Não se resolvem problemas de pobreza com a instituição de um imposto que recai fundamentalmente sobre o mais pobre. Portanto, nós não vamos ter alternativa que não seja a discussão da estrutura e composição do gasto público e a identificação de programas mais eficazes e menos eficazes para lidar com o problema em questão. Isso exige um diagnóstico do problema, a identificação através de um trabalho sério de pesquisa nessa enorme diversidade do Brasil, onde é que reside o problema, em que regiões, quais são as políticas que deram mais certo no resto do mundo, e daí a importância de ter instituições que são repositórios de informações de coisas que deram errado, coisas que deram certo no resto do mundo, além da nossa própria experiência com coisas que deram certo e errado, também. Sabemos que não funcionam programas clientelísticos, fisiológicos, intermediação política de gasto público para tentar resolver problemas sociais. Acho que é um avanço enorme o que fizemos nesse período e que é importante consolidar. Acho que essa vai ser a grande discussão, e não há nenhuma razão pela qual essa discussão não possa ter lugar preservando aqueles outros três pilares que mencionei anteriormente. Ao contrário, quanto mais nós sejamos capazes de preservar os outros três pilares – estabilidade macroeconômica, estabilidade político-institucional, administrativa e jurídica, e lançar as bases, via aumento de produtividade, investimento em educação, ciência e tecnologia, para ter um crescimento sustentado, baseado em aumento de produtividade – melhor será a nossa capacidade como país, como sociedade, de enfrentar problemas sociais, em particular questões de indigência, pobreza e redução de desigualdade, que estão à nosso alcance fazê-lo sem, de novo, volto a insistir, a ilusão do curto-prazismo, que seja possível pela força da vontade política, pela pura força da vontade política resolvê-los em curtíssimo prazo de tempo.

Infelizmente, o Brasil é um país terrivelmente complexo, é difícil de administrar. Administrar é, além de outras coisas, tentar administrar conflitos de interesses, pressões políticas legítimas em uma democracia, mas que são pela preservação de padrões de gastos do passado. Meu amigo Everardo Maciel diz com muita propriedade: no Brasil não existe - se vocês forem olhar o orçamento, qualquer rubrica do orçamento -, não existe despesa órfã. Toda e qualquer despesa que lá está tem uma mãe, um pai, um avô, uma avó, tios, tem uma família de interesses constituídos por trás dela, o que é importante mudar. E se discute isso politicamente. Essa é a razão da importância crucial do debate na peça orçamentária e de uma compreensão da natureza dos interesses, alguns deles incompatíveis com o objetivo de redução de pobreza e indigência porque são gastos dirigidos a outros, que não têm nada de pobres ou de indigentes e se apropriam de parte do gasto social nesse país. Esta, a meu ver, é a grande questão.

Dito isso, apesar de todas essas questões que estou levantando, que podem levar alguém mais desavisado, que não me conheça, a imaginar que isso são identificações de obstáculos intransponíveis, de problemas insanáveis, de dificuldades irremovíveis, essa não é a minha visão. Tenho uma profunda confiança na nossa capacidade de brasileiros, não é do governo apenas, brasileiros, Estado, sociedade, organizações não governamentais, se houver uma clara percepção de rumo, direção, propósito, e não ilusões sobre a forma de lidar com problemas complexos, saber que não é fácil, nunca foi fácil, em nenhum país do mundo, e aí onde foi conseguido, volto a insistir, foi o resultado do trabalho de gerações. Não foi uma administração nem uma geração. Ali onde se resolveram problemas de pobreza, indigência e desigualdade, foi um esforço continuado com uma visão e perspectiva de futuro, que eu acho que é fundamental preservar e que eu acho que nós temos todas as condições de fazê-lo sem nos deixar levar por ilusões quanto a experiências do passado que não volta mais, como nós sabemos, porque o Brasil é outro.

Vejo, às vezes, comparações com o Brasil da década de 50, coisas que foram feitas na década de 50. Cinqüenta anos atrás é muito pouco na história de um país. Mas ao longo desse período passamos para uma sociedade de cento e setenta e tanto milhões de habitantes, quase cento e quarenta vivendo em centros urbanos. Esse aumento de menos de vinte, dezessete milhões para cento e trinta e nove, cento e quarenta milhões de brasileiros vivendo em áreas urbanas, é um aumento de cerca de cento e vinte milhões de pessoas, é um aumento de cento e vinte milhões de pessoas em áreas urbanas no Brasil. Só a China ou a Índia, no mundo, tiveram, na segunda metade do século XXI, experiência de adicionar mais de cento e vinte milhões à sua população urbana, com todos os problemas que isso significa em termos de demandas por investimentos e infra-estrutura social básica, investimento em gente, em educação.

Se me permitem, quero concluir chamando a atenção para dois temas que me são caros. Um eu tenho certeza que foi tratado aqui, é a questão da importância do investimento na educação. Todos os trabalhos que vi sobre a tentativa de entender fatores responsáveis por distribuições de renda no Brasil e em outras países mostram a importância fundamental da educação. Quase três entre cada quatro famílias que estão na faixa de pobreza, no Brasil, têm como chefe da família uma pessoa com menos de quatro anos de escolaridade formal. Portanto, se há um investimento que tem a mais alta taxa de retorno, do ponto de vista social, que um país possa fazer, é o investimento em gente, em educação. Hoje, há um acúmulo de evidência e de pesquisa internacional que mostra que os anos formativos, os primeiros anos, muitos anos antes dos seis, são absolutamente essenciais para definir o que uma pessoa pode vir a ser na vida, em termos da sua constituição básica. Sempre fui favorável à educação, desde a mais tenra idade, em particular para os mais pobres.

E, aqui, há um tema relacionado, que é o seguinte: eu sei que é um tema que se presta a um debate totalmente emocional, que toca em sentimentos religiosos, pelos quais eu tenho profundo respeito, mas devo dizer que as estatísticas são aterrorizadoras neste contexto. Eu me refiro, aqui, ao problema de gravidez precoce em adolescentes no Brasil. Os dados do Ministério da Saúde mostram que a gravidez, taxa de natalidade, em adolescentes e analfabetas, no Brasil, é treze vezes superior à taxa de gravidez em adolescentes que têm quatro ou cinco anos de escolaridade ou mais. Esse é um dos mais poderosos mecanismos que uma pessoa pode imaginar para perpetuação da pobreza ao longo do tempo. Para fazer com que os filhos dos pobres de hoje sejam os pobres de amanhã, porque a minha sensação, espero não estar equivocado, é a de que uma adolescente, e a partir de dez ou onze anos já pode acontecer, nessa faixa, dez até quinze anos de idade, analfabeta, que tem filho a partir dessa idade, eu diria que essa criança que resultou dessa relação é, provavelmente, a criança que já nasce com uma enorme posição desfavorável em relação ao seu futuro na vida como ser humano. Acho que nós não dedicamos a essa questão, eu vejo que algumas organizações não governamentais estão preocupadas com essa questão. Acho que é uma área extremamente promissora porque a melhor maneira de lidar com a pobreza é ter políticas que procurem evitar que os filhos dos pobres de hoje sejam os pobres de amanhã, perpetuação dos mecanismos de transmissão de pobreza, e esse é um dos mais poderosos que existe, a meu juízo, pelo menos.

Estou me estendendo demais, não queria me estender. Vocês vieram aqui, para ouvir, na verdade, o que têm a dizer os demais participantes da mesa. Eu queria agradecer sinceramente o convite que me fizeram, pedir desculpas por esse longo discurso. Não tive tempo de escrever um texto, e se tivesse não o leria aqui, porque eu detesto ler discurso, mas eu queria agradecer a atenção com que me ouviram, cumprimentar os organizadores desse seminário, e agora temos que trabalhar. Há muito a fazer nessa área e eu queria expressar minha confiança na nossa capacidade de avançar mais no sentido de reduzir os aspectos negativos desse problema. Só para concluir, estarei torcendo para que o próximo governo seja bem sucedido em seus objetivos nessa área, porque eu penso no país, como todos os que estão aqui presentes. Muito obrigado pela atenção com que me ouviram e até a próxima.

 

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