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11/08/2002

Entrevista publicada pelo Jornal O Globo em 11 de agosto de 2002

Pedro Malan: "Não há margem para rupturas"

Malan acha que país supera meta de crescimento acertada com o FMI

Déficit da Previdência é um grande desafio

Fazer transição civilizada é um dever do país’








Pedro Malan: "Não há margem para rupturas"


Pedro Malan comemora acordo com FMI e exige compromisso real dos candidatos

"Não falei que não nos faltaria apoio?" Na sexta à tarde, um dia depois de anunciar o acordo de US$ 30 bilhões com o FMI, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, lembrou orgulhoso do que vinha repetindo aos que falavam em perda de credibilidade do país. Satisfeito, Malan volta a concentrar suas preocupações nas eleições. Ele afirma que é preciso que o conjunto de propostas que os candidatos apresentam seja compatível com o compromisso assumido com o Fundo. Será essa credibilidade, aliada ao acordo com o FMI, vai assegurar uma transição tranqüila. "A margem para grandes aventuras, para grande rupturas, para grandes mudanças é limitada", diz o ministro.

Com os US$ 30 bilhões do FMI e os US$ 3 bilhões adicionais de Bird e Bid, o foco principal de tensão volta a ser a eleição?

PEDRO MALAN: A incerteza que existe em relação ao processo eleitoral será resolvida com sua própria definição e com as posturas dos candidatos que, agora, vêm mudando consideravelmente na direção de maior racionalidade, maturidade, pragmatismo e fazendo declarações que acho corretas. Tenho confiança de que nenhum candidato abrirá mão de premissas básicas como responsabilidade fiscal, preservação da inflação, respeito a contratos internos e externos e, nesses incluo o com o FMI, e a geração de superávits primários.

É essencial que o próximo governo aceite manter o acordo?

MALAN: Essa é uma opção, ninguém é obrigado a dar continuidade ao programa. Estou convencido, a luz de declarações públicas e de conversas informais nos últimos meses, semanas e dias, que haverá uma clara percepção de que a preservação deste acordo é algo que interessa ao país e de que o custo de não tê-lo seria muito mais elevado.

O humor dos mercados volta a variar com as pesquisas eleitorais?

MALAN: Devemos ver com naturalidade que somos uma democracia e que democracias têm eleições de tempos em tempos. Estou confiante de que os principais candidatos, na sua percepção do que é de interesse do país e de seu interesse, devem dar clara, crível e inequívoca demonstração de que têm compromisso com as premissas básicas da economia. Não se está pedindo demais. Pede-se de novo o compromisso com a preservação da inflação sob controle, com a responsabilidade fiscal, inclusive com a capacidade de gerar superávits primários. Quanto mais o fizerem, mais estarão contribuindo para garantir uma transição tranqüila e assegurar pelo menos um primeiro ano menos turbulento no seu mandato.

Mas o mercado parece não ter essa confiança, e o dólar voltou a subir na sexta-feira com base nas pesquisas. Por que o candidato do governo não deslancha?

MALAN: Na verdade, a pesquisa que conta é aquela que terá lugar no dia 6 de outubro. Eu acredito no que eles estão não só dizendo, mas colocando no papel como forma de compromisso. Mas uma coisa é eu acreditar e procurar transmitir essa confiança para as outras pessoas. Outra são as percepções que as próprias pessoas e instituições têm. É por isso que a chave é o quão crível são esses compromissos. O conjunto de propostas tem que ser compatível com o compromisso que está sendo tão claramente anunciado.

Não basta aceitar o acordo com o FMI e suas exigências, é preciso, por exemplo, parar de fazer promessas como aumentos exagerados para o salário-mínimo?

MALAN: A não ser que diga: vou aumentar o salário-mínimo e isso vai custar tanto e, já que essa é uma decisão política, vou reduzir gastos na área A, B, C ou D para completar este aumento. Ou então que encaminhará ao Congresso um projeto de lei que aumentará a arrecadação do imposto X para gerar o volume de recursos necessário para garantir isso.

Ou seja, está faltando coerência nos discursos?

MALAN: É, na consistência dos discursos com as propostas. Essa credibilidade é importante. E, volto a dizer, para assegurar a reversão da situação atual, uma transição tranqüila. Isso não significa de forma alguma que não haja amplo espaço para propostas distintas em várias áreas para grandes melhoras de políticas. Mas existem condições necessárias para que as várias mudanças possam ser implementadas. Em outras palavras, a margem para grandes rupturas é reduzida. São processos de mudança gradual, mais do que dramáticas descontinuidades, que marcam a vida em uma democracia moderna. O Brasil é um país complexo, em construção, e é importante avançar em bases sólidas. A margem para grandes mudanças e aventuras é limitada.

O acordo com o FMI vai controlar essas turbulências?

MALAN: Não tenho dúvida de que a expressão desse apoio contribui enormemente ao reduzir o grau de incertezas que acho que estará conosco por um tempo ainda. O contexto internacional não será resolvido muito rapidamente. O próprio mercado tem condições de fazer correções em relação a isso. Acho que haverá um processo de gradual recomposição de linhas comerciais, que não ocorrerá de um dia para o outro, mas à medida que caminhemos para construir a percepção de que o país amadureceu do ponto de vista político e de racionalidade econômica.

Todos os candidatos estão prometendo uma reforma tributária imediata. Isso é possível ou é uma ilusão?

MALAN: A idéia da reforma é um processo que se desdobra no tempo, não é um evento. Não há um dia D, um Big Bang. Esse processo tem dimensão técnica, mas também profundo processo de negociação política em que, falando com franqueza, nós tentamos. Não é um ato de vontade. Envolve uma discussão técnica e um processo de negociação política que não é trivial. A reforma tributária na Alemanha durou oito anos. Não se tira uma reforma tributária da cartola. Quase votamos em junho a proposta do PIS e da Cofins, que é o começo do fim da cumulatividade em cascata. Ela foi aprovada na Comissão Especial da Reforma Tributária, está pronta para ir ao plenário. O que é que surgiu? Interesses privados com visões diferentes. Os que ganham tendem a ficar mais silenciosos; os que perdem são muito vocais.











Malan acha que país supera meta de crescimento acertada com o FMI


Para ministro da Fazenda, PIB deve crescer pouco abaixo de 4% em 2003


BRASÍLIA. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, afirmou que está nas mãos da população e dos investidores fazer com que a economia brasileira cresça mais do que os 2% previstos no antigo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Embora admita que no próximo ano a taxa de crescimento deverá ficar um pouco abaixo dos 4% previstos na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), enviada no início de julho ao Congresso, Malan acredita que o crescimento em 2003, durante o primeiro ano do próximo governo, será bem maior que o deste ano.

— As taxas de crescimento não são decididas em Brasília, pelo governo. Elas são resultado da decisão de milhões de poupadores, consumidores e investidores, à luz de sua situação pessoal, de sua empresas e de como eles estão olhando o futuro. Por isso é tão importante o grau de confiança em relação ao que o futuro nos reserva — disse o ministro.

Para ele, o processo de ajuste nas contas externas, que está acontecendo de maneira forçada pela desvalorização do real, deverá incentivar os setores exportadores e de agronegócios, aumentando suas participações no Produto Interno Bruto (PIB).

— As exportações brasileiras cresceram mais de 20% de janeiro a julho e nos primeiros dias de agosto em relação ao mesmo período do ano passado. É um crescimento expressivo no mundo em que estamos vivendo hoje, com retração da economia americana e queda de 65% nas exportações para a Argentina — afirmou.

 

Déficit da Previdência é um grande desafio

Malan diz que o futuro governo terá de conter gastos para cumprir meta de superávit até 2005


BRASÍLIA. Conter o crescimento do déficit da Previdência será um dos maiores desafios do próximo presidente, na avaliação do ministro da Fazenda, Pedro Malan. O futuro governo terá que conter ao máximo os gastos para garantir o cumprimento da meta de superávit primário de 3,75% do PIB em 2003, 2004 e 2005. O regime geral do INSS é o principal item de gastos do Orçamento Geral da União. No próximo ano, segundo Malan, estes gastos devem chegar a R$ 90 bilhões. O ministro diz que essa é a razão para cuidados com reajustes do salário-mínimo, pois para cada real de aumento são mais R$ 180 milhões de gastos.

— Esse problema terá que ser enfrentado com determinação pelo governo federal, pelos estaduais e municipais. É uma pena, mas às vezes a situação precisa assumir uma dimensão mais crítica para que haja mobilização de vontade política para resolvê-la.

No caso da previdência dos funcionários públicos, Malan ressaltou que a diferença entre os benefícios pagos a inativos e pensionistas e a contribuição dos ativos é da ordem de R$ 45 bilhões (duas vezes o gasto total com saúde, seis vezes o gasto com educação). Para ele, a situação tende a piorar: em muitos estados a folha de inativos e pensionistas caminha para superar a de ativos. Malan criticou a não-aprovação pelo Senado do projeto que flexibilizava a CLT. Este, diz o ministro, ajudaria a conter o déficit da Previdência tornando formais mais trabalhadores, que contribuiriam para o INSS. (VO e SF)


‘Fazer transição civilizada é um dever do país’

Papel da equipe econômica é mudar expectativas negativas

BRASÍLIA
. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, considera que o país tem o dever consigo mesmo de fazer uma transição de governo tranqüila. A grande responsabilidade da equipe econômica até 31 de dezembro, quando termina o mandato do presidente Fernando Henrique, segundo Malan, será assegurar a mudança de algumas das expectativas negativas que se formaram na crise que a economia vem enfrentando e procurar formas de assegurar uma transição o menos turbulenta possível.

— Um país que há dez anos foi capaz de maneira pacífica e legal, sem nenhuma turbulência na área econômica ou político-institucional fazer o impeachment de um presidente eleito deve a si mesmo mostrar que tem condições de fazer uma transição civilizada.

Na pauta, negociações sobre a Alca e o Mercosul

Na agenda legislativa, Malan considera que o espaço para avanços é muito pequeno. Isso porque poucas sessões na Câmara e no Senado devem ser realizadas até o fim do ano.

— Até as eleições deve haver uma semana de esforço concentrado em agosto e talvez uma setembro. Outubro é pouco provável e novembro e dezembro vai depender um pouco do clima que estejamos vivendo no período pós-eleitoral. Mas as oportunidades de grandes decisões legislativas são limitadas.

Da parte do Executivo, Malan diz que a agenda é dar continuidade às respostas para a turbulência. Além disso, continuam as conversas sobre o Mercosul e Alca:

— Isso tudo não pára.

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