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Notas
Oficiais
29/07/2002
Entrevistas do
Ministro Malan ao Bom Dia Brasil e à GloboNews
Sem Revisão do Autor
Bom Dia Brasil - Para falar sobre esse acordo do FMI e a saída
para a nossa economia, está aqui no estúdio o ministro da Fazenda, Pedro
Malan. Ministro, o mercado começa a semana, hoje, com a expectativa de um
anúncio desse acordo com o FMI. Agora, o senhor me disse que o governo
está em contato permanente e que o acordo está sendo negociado. Agora,
até quando dá para esperar, quando o dólar já passa de R$ 3,00?
Ministro Pedro Malan – É. Você tem razão. Na semana passada,
quinta e sexta-feira, houve uma grande expectativa gerada pelos mais
afoitos do mercado de que o acordo seria assinado e anunciado na
quinta-feira à tarde, na quinta-feira à noite ou na sexta. Eu deixei
claro que nós temos intensificado, temos acelerado as nossas conversas e
não tenho dúvidas de que chegaremos a um entendimento em breve. Agora,
como acabou de dizer o Presidente, não tem sentido essa idéia de que é
fundamental que definam um dia e uma hora para que aquele anúncio seja
realizado. Nós chegaremos a um entendimento em breve, algo que serve ao
país e seus interesses.
Bom Dia Brasil - Mas o dólar a mais R$ 3,00, isso faz um estrago
imenso nas nossas contas, do Brasil. Ministro, exatamente, o que o senhor
está esperando? É porque as eleições estão se aproximando ou é
porque falta um compromisso entre os candidatos? O que impede o governo de
fechar imediatamente o acordo com o FMI?
Ministro Pedro Malan – Duas coisas: primeiro, como nós temos
dito, este governo não deixará de governar, não se eximirá de suas
responsabilidades. Portanto, nós não estamos, neste momento, pensando em
apresentar nenhum tipo de papel a qualquer dos candidatos para que assine.
É obrigação deste governo fazer o que parece apropriado ao país e nós
o faremos. Não nos furtaremos a isso. Mas, como disse de novo o
Presidente, essas coisas não se decidem em 24 horas ou em 48 horas. Elas
estão em andamento, caminhando bem. Eu não tenho dúvida de que o Brasil
tem apoio internacional. Esse apoio internacional não faltará ao país e
não será expresso apenas em palavras.
Bom Dia Brasil - O Renato tem uma pergunta.
Ministro Pedro Malan – Pois, não.
Renato Machado- Ministro, a diretora do Fundo, Anne Krueger, e
agora, ontem, o Secretário do Tesouro, Paul O'Neill, manifestaram-se a
respeito do Brasil, enfim, da crise, etc., e mencionaram a justeza das
propostas econômicas que deveriam vir, não só do governo brasileiro,
mas, também, dos candidatos. Isso seria uma ingerência externa nos
assuntos do país?
Ministro Pedro Malan – Não. Eu acho que não. O que eu entendi,
o que foi dito, Renato, é que é preciso que haja políticas que sejam
confiáveis, que aqueles que estão, digamos, colocando recursos à
disposição do Brasil acreditem que haja um conjunto de políticas que
seja coerente, sustentável, confiável. Eu acho que isso existe no
Brasil, e há um amplo reconhecimento disso em vários países do mundo e
nas instituições multilaterais. Quanto à questão do uso dos recursos,
eu acho que nós já demos claras demonstrações, ao longo dos últimos
anos, da seriedade com que nós utilizamos esses recursos, o que é um
fato amplamente reconhecido pelas próprias instituições, de modo que eu
não tenho dúvidas de que o apoio ao Brasil estará presente.
Bom Dia Brasil - Só aproveitando o que o Renato falou sobre a
ingerência do FMI aqui no Brasil, o governo Fernando Henrique não se
livrou, até hoje, desse controle do FMI, esse dinheiro sempre cheio de
restrições. O país não tem condições de andar sozinho?
Ministro Pedro Malan – É. Eu deveria ter feito um comentário
sobre a observação do Renato, perdão. Eu não considero que seja ingerência,
no seguinte sentido: o que está sendo solicitado do país é que o país
mostre compromissos com responsabilidade fiscal, com a preservação da
inflação sob controle, com o respeito aos contratos, e nós não
precisamos, quero crer, de conselho de ninguém a esse respeito. Nós
temos que ser responsáveis fiscalmente porque nós acreditamos que é
importante sê-lo. Queremos manter a inflação sob controle porque
acreditamos que é isso que deseja a maioria da população e acho que
temos que respeitar contratos. Agora, como todos os candidatos têm
deixado claro, alguns por escrito, que são favoráveis a isso, eu não
considero ingerência quando os próprios candidatos já se manifestaram
claramente, alguns por escrito, a esse respeito. Não se está pedindo
nada mais do que isso neste momento.
Bom Dia Brasil - Mas, como a gente viu, aí, o secretário do
Tesouro dos Estados Unidos, Paul O'Neill, vem colocando mais barreiras a
esse empréstimo de dinheiro a países em crise, e ele citou o Brasil e a
Argentina...
Ministro Pedro Malan – É. Eu acho lamentável que o Brasil tenha
sido colocado em conjunto com a mesma situação de outros países que estão
em situação extremamente difícil. É como eu digo, quem compara Brasil
a Nigéria é porque não conhece nem a Nigéria, nem o Brasil. Mas o fato
é o seguinte: se eu entendi corretamente o que ele disse - já respondi
hoje em um jornal paulista -, ele disse que esse apoio depende de políticas
confiáveis, e o Brasil tem uma política confiável. Isso depende do uso
apropriado desses recursos. O Brasil tem uma seriedade no uso desses
recursos, que não está em questão por ninguém.
Bom Dia Brasil - Renato...
Renato Machado - Ministro, com a subida do dólar, a dívida pública,
os compromissos do Brasil, enfim, a situação e, sobretudo, a dívida
ficou em um patamar muito assustador. A dívida pública, tal como está,
é administrável, ainda?
Ministro Pedro Malan – Eu não tenho dúvidas de que é. Ela é
administrável. Esta subida, que é derivada do dólar, nós já vivemos
esse filme outras vezes no passado. Quando o dólar volta, e ele voltará
em algum momento, voltará a depreciar, esta questão, o efeito sobre a dívida
também é computado. Portanto, nós não devemos nos deixar levar por uma
situação que nós imaginamos que estaríamos cada vez pior à medida que
nós temos todas as condições de lidar com essa situação. A dívida é
administrável e nós mostraremos que temos condições de reverter a
situação atual.
Bom Dia Brasil - Mas, ministro. Esse raciocínio serviria se a
gente não estivesse em uma situação perversa de uma crise de confiança
no mundo inteiro, onde os principais balanços das maiores empresas do
mundo estão indo por água abaixo, ou seja, existe uma situação de
aversão ao risco, e o Brasil é um país considerado de alto risco. Como
é que a gente vai conseguir algum tipo de investimento nesse segundo
semestre até para financiar essa nossa dívida pública que cresceu no
governo e está um recorde, agora, não é?
Ministro Pedro Malan – É. É verdade. Nós temos chamado a atenção,
há algum tempo, para o fato de que o mundo está em uma situação
extremamente difícil, não só a aversão a risco, derivada desses
problemas de fraudes de balanços - vocês acabaram de mostrar mais uma,
agora, de dezenas que ocorreram ao longo dos últimos meses e de contração
de liquidez -, isso cria dificuldades para o mundo inteiro, inclusive para
países como o Brasil, mas eu não tenho dúvidas de que esta fase será,
de alguma maneira, superada em algum momento. Estará conosco, eu não
tenho dúvidas, por algumas semanas, talvez meses, mas há mecanismos de
correção, de reação, de governo e do próprio mercado, de modo que não
é uma situação permanente, ela será superada. Exatamente neste momento
é que é preciso calma, serenidade, tranqüilidade, na definição das
respostas de um país, ação internacional e ação doméstica, e um
apoio internacional que, de novo, não nos faltará.
Renato Machado - Ministro, ainda sobre esta questão que o senhor
acaba de mencionar, talvez um esclarecimento maior seja necessário. As
fontes de financiamento, de crédito à exportação, no exterior,
secaram. Agora, estão secando, também, as fontes de financiamento de
organizações multilaterais, ou seja, o Brasil está sendo realmente
colocado em uma categoria que o senhor não gostaria de ver, nem eu, nem
ninguém. O senhor diz: é preciso serenidade agora... Além da
serenidade, o que as empresas podem fazer de concreto nessas semanas críticas?
Ministro Pedro Malan – Bom, em primeiro lugar, eu não acho que vão
secar as fontes de financiamento das empresas multilaterais, Banco
Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Fundo Monetário
Internacional. Nós tivemos, temos e continuaremos a ter o apoio dessas
organizações. No que diz respeito ao setor privado, eu acho que há um
problema transitório, temporário de dificuldades, em certas linhas de crédito
interbancário, financiamento do comércio, mas, que será resolvido à
medida em que fique claro que nós temos todas as condições de
equacionar o problema atual, através da nossa resposta de políticas, do
apoio internacional, e Renato, da melhoria da nossa situação de balanço
de pagamentos, o que vem ocorrendo. O superávit comercial da balança
comercial brasileira, só neste mês de julho, estava em torno de US$ 1
bilhão.
Renato Machado - As importações diminuíram, ministro?
Ministro Pedro Malan – É verdade. Redução de importações e
uma taxa de crescimento de exportações, também. E tem que ser levado em
conta que as nossas exportações para a Argentina caíram 65% no primeiro
semestre deste ano, comparado com o primeiro semestre do ano passado, e os
termos de troca são desfavoráveis ao Brasil, no momento. Mas, apesar
disso, o déficit em conta corrente, nos doze meses terminados em junho
deste ano é mais de US$ 15 bilhões inferior ao déficit em conta
corrente de 1998. Portanto, está havendo um ajuste do balanço de
pagamento da situação brasileira. A dívida externa é perfeitamente
administrável e nós vamos superar as dificuldades do momento presente
porque o Brasil é maior do que tudo isso.
Bom Dia Brasil - Agora, ministro, uma curiosidade: porque o senhor
teima em não dizer o nome do candidato do governo a Presidente, que seria
o candidato do senhor?
Ministro Pedro Malan – Não, eu não teimo em não dizer. Eu
estou falando aqui, agora, como cidadão, não é? Enquanto cidadão, eu não
tenho dúvidas em dizer que, dentre os candidatos, aquele que parece, a
mim, o mais experiente, o mais preparado para a Presidência da República
é o ex-ministro, senador José Serra, principalmente em um momento como
este que nós estamos atravessando, de contexto internacional extremamente
turbulento, com as suas implicações domésticas. É alguém que adquiriu
uma experiência ao longo da vida, na área do Executivo Federal, na Câmara,
no Senado, nas interações entre o Legislativo e o Executivo, e que tem
um preparo que me parece o mais adequado. Portanto, é a pessoa na qual eu
votarei em 6 de outubro.
Bom Dia Brasil - Só não pode pedir dentro do Ministério da
Fazenda, isso o senhor não fala, não é?
Ministro Pedro Malan – Aqui eu estou como cidadão.
Bom Dia Brasil - Ok. Muito obrigada pela entrevista aqui no Bom dia
Brasil
Ministro Pedro Malan – Obrigado a vocês.
Transcrição de entrevista do ministro Pedro Malan à GloboNews
Pergunta sobre data possível
de anúncio de novo acordo com o FMI
Ministro Pedro Malan – Eu não gosto de dar prazo. Como sempre
fizemos neste governo, quando temos algo concreto a anunciar, nós
fazemos. Mas eu não acho saudável esse clima de geração de
expectativas, que vai sair no dia tal, na hora tal, depois não sai, surge
aquela frustração. Eu quero assegurar que estamos trabalhando, e que em
breve nós teremos algo. Mas, não acho razoável, marcarmos dia e
gerarmos frustrações associadas às expectativas não realizadas.
Cláudia Bomtempo - Essas expectativas surgem, principalmente,
porque as pessoas perguntam até quando é possível esperar, com o dólar
a mais de R$ 3,00.
Ministro Pedro Malan – É claro que não é possível esperar
meses. Mas é seguramente possível esperar alguns dias ou semanas. Mas
vamos falar em semanas, porque aqui no Brasil, quando se fala em dias,
pensa-se em amanhã ou depois.
Cláudia Bomtempo – Falta compromisso dos candidatos para que
seja mais fácil para o governo fechar um acordo?
Ministro Pedro Malan – Eu acho que os candidatos já se
expressaram em termos de compromissos com a Responsabilidade Fiscal, com a
geração de superávites primários necessários para estabilizar
a relação Dívida/PIB, com a preservação da inflação sob controle,
com respeito a contratos externos e internos. Eu acho que isso é base
para que nós consideremos que haverá respeito a esses compromissos que já
foram anunciados publicamente.
Cláudia Bomtempo – O que é possível fazer para combater essa
combinação perversa, em que a gente tem aqui a indecisão nas eleições
e tem uma crise financeira no mundo todo, uma crise de confiança, na qual
o Brasil é considerado um país de alto risco? Como que a gente vai fazer
para garantir investimento estrangeiro entrando no país neste segundo
semestre?
Ministro Pedro Malan – Eu acho que ele vai continuar. Porque
essas decisões são tomadas não três ou seis meses a diante, mas anos e
anos a frente. É possível que haja uma pequena redução, em relação
aos 9,6 bilhões que entraram no primeiro semestre. Mas eu acho que isso
se resolve à medida que nós mostremos, mais uma vez, que temos um grau
de maturidade política , mínimo de racionalidade econômica e que o
Brasil é maior que a crise passageira que estamos passando.
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