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Pronunciamentos
12/06/2002
Entrevista do
Ministro Pedro Malan à Revista Istoé
"Turbulências
são transitórias"
O Ministro da Fazenda diz que tudo está sob controle
O Brasil é um país em crise,
ministro?
Quem já viveu vários momentos de instabilidade sabe que nessas horas surgem análises
precipitadas e declarações inconseqüentes, todas procurando capitalizar do
ponto de vista eleitoral ou especulativo. Nesses momentos é preciso serenidade
e calma. O mais importante é que o Banco Central tem instrumentos para lidar
com os problemas e vai fazê-lo.
Como?
Por exemplo, com os leilões nos quais o BC está comprando títulos com
vencimento nos anos de 2004, 2005 e 2006 e vendendo outros, com vencimento em
2003. Foram R$ 10,9 bilhões ontem (quarta-feira, 6) e R$ 7,4 bilhões hoje
(quinta-feira). O BC faz isso porque os detentores de títulos longos não estão
confortáveis com esses papéis ao preço que prevalecia antes da chamada
"marcação ao mercado".
A marcação não foi um erro do
Banco Central?
Ela é uma medida correta: fazer com que as carteiras dos fundos reflitam o
valor dos ativos. A decisão não é nova, é conhecida, já fora anunciada. Nós
quisemos evitar uma situação em que o pequeno aplicador acabasse sendo
prejudicado.
O sr. tem os volumes de saída que
isso provocou?
Não estou com os números aqui, mas o importante é que tirando a sexta-feira
(dia 1º de junho) e alguma parte da segunda-feira, nos dia seguintes a maioria
esmagadora dos Fundos teve variação positiva das cotas.
A conversa sobre alongamento de dívida
não deu a impressão de que haverá um calote lá na frente?
Nós já vínhamos alongando a dívida. O mercado estava comprando esses papéis
voluntariamente. Mas de um tempo para cá os detentores deixaram de estar
confortáveis com esses papéis nas carteiras. Mas a idéia de colocar títulos
com vencimento em 2004, 2005 ou 2006 é correta.
O ex-ministro Delfim Netto disse que
o mercado não está mais disposto a financiar o governo Fernando Henrique...
Acho que isso é parte das turbulências transitórias, que refletem alguma
dificuldade de leitura e interpretação da marcação ao mercado e da sua
antecipação. Não acho que reflitam uma nova posição do mercado.
Como o governo poderia reagir a
isso, ministro? Com uma alteração dos juros?
Você não vai me pegar nessa... Acho importante o debate público dessas questões,
tanto interno quanto externo. Amanhã (sexta-feira, 7) farei uma grande
conference call com o exterior para explicar a eles o que está acontecendo
aqui. Obviamente não é só através de palavras que a questão será
solucionada.
O sr. teme que o próximo presidente
não seja um bom gestor de crises?
Eu vejo com enorme tranqüilidade o processo eleitoral, mas gostaria que nós
caminhássemos no futuro para depender cada vez menos de uma pessoa ou grupo de
pessoas e cada vez mais de instituições.
Faz sentido nos comparar à
Argentina?
Há grandes diferenças estruturais, e eu mencionaria duas: o sistema financeiro
e o relacionamento entre o governo federal e as províncias. Há 14 ou 15 províncias
argentinas que emitem quase-moedas. O conjunto de regras que rege a relação
entre elas e o governo federal precisa ser revisado. Nós já fizemos isso.
Temos contratos firmados com 25 Estados e 180 municípios.
E o sistema financeiro?
Depois de todo esse processo de seis anos, penoso, de liquidações, intervenções,
fusões e aquisições, o sistema bancário brasileiro é visto como sólido. Na
Argentina há uma crise bancária não resolvida. Nós obviamente não estamos
na mesma situação.
Como o sr. vê a possibilidade de
retorno à paridade cambial na Argentina?
Seria um erro. Estabelecer o currency board, ainda que a uma taxa mais
depreciada do peso em relação ao dólar, obrigaria o governo a defender essa
paridade. Restauraria o problema anterior sem que as questões que mencionamos
sejam resolvidas.
Não atrapalha o Brasil que pessoas
do próprio governo comparem a situação do País à da Argentina?
Eu nunca fiz esse tipo de comparação. Mas às vezes a gente acha, no Brasil,
que, uma vez que o governo Fernando Henrique foi bem-sucedido no objetivo de
manter a inflação civilizada, isso é um ganho permanente da sociedade
brasileira, incorporado ao DNA do País. Mas isso não é correto, porque
dependendo do que se faça no futuro, a inflação pode voltar.
O sr. investe em Fundos DI,
ministro?
Não comento vida pessoal. Só falo sobre o Fluminense, o maior time do Brasil.
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