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Pronunciamentos
09/05/2002
Entrevista do
Ministro Pedro Malan ao Jornal Zero Hora
"Governo tem
instrumentos para enfrentar a situação"
Christianne Schmitt e Maria Isabel Hammes
O presidente Femando Henrique Cardoso já chegou
a reclamar do recato do titular da pasta da Fazenda, que costumava desaparecer
em momentos de crise. O funcionário público de carreira não deixa mais de
defender o país quando precisa acalmá-lo. Na ultima quinta-feira, afirmava que
não havia motivo para ansiedade, em meio ao nervosismo do mercado financeiro
com as altas do dólar e do risco-país peio terceiro dia consecutivo -
movimento atribuído à expectativa de que o governo terá dificuldades para
rolar a dívida interna e à possibilidade de a oposição vencer nas eleições
presidenciais. Repetia as declarações de segunda-feira, quando o mercado vivia
momentos de turbulência levados pelas informações sobre saques em fundos de
investimento e queda na cotação dos títulos de dívida brasileira acentuada
pela expectativa das eleições, em uma reunião com empresários em Porto
Alegre:
- Não devemos nos deixar levar pelo vaivém do
dia-a-dia - recomendava na segunda-feira chuvosa na Capital.
Ainda com sete meses a cumprir na condução da
política econômica, Malan destacou o controle da inflação, o aumento do salário
mínimo e a privatização de bancos estatais como alguns dos legados do governo
FH. E aproveitou para advertir sobre as expectativas da sucessão:
- O governo Fernando Henrique terá de lidar
crescentemente com expectativas sobre o que farão nossos sucessores. As conseqüências,
por mais paradoxal que isso possa parecer, poderão vir antes, na medida em que
essas expectativas se corroborem - disse em entrevista de quase uma hora a ZH em
uma sala do Ritter Hotel, no centro da Capital, antes de rumar para Gramado,
onde participou do Congresso Direito Tributário em Questão.
Na sexta-feira, ZH voltou a procurar o ministro
para uma análise sobre a semana nervosa no mercado:
- Estamos atravessando um momento de turbulência,
como já experimentamos em outras ocasiões, e nessas horas, em que às vezes
prevalecem análises precipitadas e declarações inconseqüentes, é preciso
ter muita serenidade, muita tranqüilidade - respondeu.
- A economia brasileira é sólida. O governo está
agindo, tem os instrumentos necessários, e vai utilizá-los para enfrentar essa
situação. E preciso ter confiança no país, e na nossa capacidade para
superar essas dificuldades.
Zero Hora - A tendência deste mês é repetir o
cenário de maio: risco-país em alta, extremo nervosismo no mercado, dólar
batendo recordes e bolsa em baixa? O Risco Brasil não está extrapolado, tendo
em vista que o processo eleitoral é normal a cada quatro anos?
Pedro Malan - Assim como a eleição, devemos ver
com naturalidade as pesquisas, vivemos em uma democracia, isso faz parte. Mas o
que está acontecendo com as pesquisas é uma coisa curiosa porque temos uma média
de uma ou duas por semana, e já existe o que chamo de derivativo da pesquisa.
Existem apostas sobre aquilo que a pesquisa a ser divulgada no fim de semana
seguinte poderá, eventualmente, vir a trazer como resultado. Estou mais
preocupado é com o debate de idéias.
ZH - Talvez porque, oficialmente, a campanha
ainda não tenha começado.
Malan - Não estou pedindo programas detalhados,
específicos, não é isso. Falta comprometimento com algumas coisas básicas.
ZH - A "reclamação" deve estar
relacionada à posição que o senhor ocupa.
Malan - É verdade. Nos sete meses que faltam
para o governo Fernando Henrique Cardoso, teremos de lidar crescentemente com
expectativas sobre o que farão nossos sucessores. As conseqüências, por mais
paradoxal que possa parecer, poderão vir antes, na medida em que essas
expectativas se corroborem. Há muito tempo alerto sobre a existência de posições
que são terrivelmente negativas para o país e seu futuro. Escrevi um longo
artigo depois de ir ao site do Partido dos Trabalhadores (PT) e ver o que estava
lá em termos do envolvimento do partido no plebiscito sobre as dívidas externa
e interna, suspensão dos pagamentos. Na medida em que isso prospere e se
consolide, as conseqüências virão ainda neste governo, teremos de lidar com
elas. Também fico cobrando compromissos sobre o que considero ser um desejo da
maioria da sociedade hoje: a preservação da inflação sob controle, a idéia
da responsabilidade fiscal e o respeito a contratos.
ZH - Mas o senhor prevê uma transição não
muito tranqüila?
Malan - Acho que seria bem menos turbulenta se,
no terreno comum básico de macroeconomia, os principais candidatos assumissem
compromissos.
ZH - Há risco de a situação se deteriorar
nestes sete meses, sem contar o componente natural do processo eleitoral?
Malan - É claro que a eleição é absolutamente
normal, como eu também acho que todos deveriam ter o interesse de que a transição
ao eleito fosse a mais tranqüila possível. É do interesse do país.
ZH - Por que o senhor só fala do PT e não cita
os demais de oposição, como Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS), por
exemplo?
Malan - Já me referi a umas propostas do
ex-governador Garotinho quando falou em retomar a economia através da expansão
do crédito de instituições financeiras federais. O Banco do Brasil, a Caixa
Econômica Federal e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) emprestariam a taxas de juros internacionais mais um pequeno spread.
Disse que, infelizmente, as instituições não captam a taxas de juros
internacionais, mas recursos internamente. Fazê-las emprestar a taxas
internacionais significaria, depois de algum tempo, para não quebrá-las, o
governo aportar recursos para capitalizá-las.
ZH - O mercado especula que há espaço para o
corte na taxa de juros depois de meses de manutenção.
Malan - Tenho dito que a tendência nominal e
real da taxa de juros no Brasil é declinante. As pessoas acham que isso se
refere à próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco
Central). A tendência é olhando à frente, os próximos meses, anos.
ZH - O senhor costuma evitar opiniões sobre as
reuniões do Copom, mas é possível dizer com qual taxa o país chegará às
eleições?
Malan - Menor do que é hoje.
ZH - É possível calcular uma taxa de câmbio
ideal para o país?
Malan - O governo não tem uma taxa desejável,
adequada, nem uma banda.
ZH - Quando teve banda, todos lembram no que deu,
não deu certo.
Malan - No começo de outubro do ano passado,
quando chegou a R$ 2,835, dissemos que era overshooting (disparada na cotação
do dólar), um flagrante exagero que não tem base nos fundamentos da economia
brasileira. O ano terminou em R$ 2,30, mas foram tomadas medidas. As vezes, o
mercado se deixa levar por certo instinto de rebanho, de manada, vão todos em
uma direção. Uma ciclotimia, às vezes, assalta em determinados momentos o
mercado. Como temos um regime de câmbio flutuante, é normal que o câmbio
flutue. O governo deve olhar com naturalidade e não intervir a cada momento.
ZH - O próximo governo conseguirá reduzir a dívida
mobiliária que aumentou 10 vezes em oito anos, atingindo R$ 624 bilhões, ou
somente administrá-la?
Malan - Pode ser administrável, sim. É
importante que se entendam as razões pelas quais aumentou. Mostramos que, entre
esses fatores, há coisas benéficas para o Brasil e seu futuro, como a solução
para as finanças dos Estados e dos municípios, dívidas assumidas em parte
pela União. Isso é um benefício para o país a médio e longo prazos. Da
mesma maneira, a questão dos esqueletos, dívidas do passado que não estavam
explicitadas. Decidimos, na linha de transparência, reconhecer que era uma dívida
assumida do passado e não estava registrada em nossas estatísticas. Isso
significou 16% desse aumento. 0 aumento também é nominal, a inflação desses
sete anos e meio foi de 104%.
ZH - Mas também não teve efeito de juros e câmbio?
Malan - Sim, o que dá um terço do total. Às
vezes, as pessoas esquecem que, apesar de termos tido um crescimento muito aquém
das possibilidades da economia brasileira, o Brasil não teve em nenhum desses
anos uma queda de seu PIB (Produto Interno Bruto) em termos reais, enquanto em vários
países do mundo houve reduções expressivas. O Brasil conseguiu passar por várias
crises, da mexicana à asiática, passando pela russa, a nossa própria e a
argentina, sem deixar de crescer com inflação sob controle e avançando no
processo de mudança estrutural.
ZH - Qual a taxa ideal de crescimento para
atender aos anseios da população?
Malan - Não existe uma taxa ideal. A ideal é a
máxima que se consegue sem jogar fora os ganhos conquistados. É muito fácil
ter uma aceleração rápida na taxa de crescimento, qualquer um é capaz de
fazer isso no curto prazo e por curto prazo. Basta soltar o crédito das
instituições financeiras oficiais a taxas subsidiadas. Basta aumentar o gasto
público e elevar indiscriminadamente os salários nominais. Só que o preço
desse estímulo não tem sustentação, se esvai em aumento das pressões
inflacionárias, no desequilíbrio do balanço de pagamentos e no desequilíbrio
fiscal que precisará ser tratado mais adiante. É preciso fazer isso de maneira
sólida, com aumento da produtividade, da eficiência, de competitividade,
preservando a inflação sob controle e a responsabilidade fiscal.
ZH - O Brasil não deve ter um crescimento
superiora 2%, 2,5% este ano?
Malan - Seguramente este ano vai ser por aí, bem
mais só em 2003.
ZH - O PIB do primeiro trimestre caiu 0,73% em
relação a igual trimestre do ano anterior e aumentou 1,34% em relação ao último
trimestre de 2001. Alguns setores interpretaram esses resultados como caminhada
para a recessão, outros como recuperação. Qual a sua corrente?
Malan - O relevante é o 1,34% em relação ao
trimestre anterior, isso mostra uma tendência de retomada.
ZH - O setor produtivo, especialmente a indústria,
pisou no freio nos últimos meses também pela questão dos juros altos. O
senhor acredita que é possível tirar o pé do freio no próximo semestre?
Malan - Espero que sim. A redução da taxa de
incertezas sobre o que fará o próximo governo ajudaria muito o processo.
ZH - A liberação do corralito vai amenizar a
situação da Argentina, para a qual o senhor defende uma ajuda de organismos
internacionais e países ricos?
Malan - A situação argentina é muito difícil,
eles acabarão saindo da crise porque são um grande país, têm recursos
naturais, humanos e técnicos para superar os problemas. Não será rápido dada
a gravidade da crise, quatro anos de recessão, e este ano devem ter queda do
PIB de 10% a 15%. A Argentina precisa de um grau de engajamento internacional
maior do que o que prevaleceu até agora. A comunidade internacional
participaria do programa de auxílio. Insistimos em uma estratégia com dois estágios.
Em um primeiro momento, haveria um programa de transição, focalizado em
pontos-chave para serem equacionados, como o problema bancário. O sistema bancário
argentino está travado, afetando, inclusive, as exportações brasileiras para
lá.
ZH - Ainda na questão externa, esta onda mundial
de protecionismo preocupa o governo brasileiro?
Malan - É lamentável o que aconteceu na questão
do aço, principalmente porque é um setor no qual somos extremamente
competitivos. E o mais grave: passamos por um doloroso processo de reestruturação
há 10 anos, privatização, redução do número de empresas menos eficientes,
de investimentos na modernização tecnológica do segmento, a produtividade em
termos de toneladas/homem/ano praticamente triplicou no período. É um absurdo
que um país, por razões políticas domésticas, sem condições de passar por
um ajuste semelhante em sua indústria, imponha barreiras protecionistas a outro
competitivo. O mesmo vale para vários dispositivos da lei agrícola americana e
os subsídios que dá à produção primária do país. É um retrocesso em relação
às expectativas criadas em Doha na reunião na Organização Mundial do Comércio
(OMC). O linguajar lá era claro: redução com vistas a uma gradual eliminação
dos subsídios à produção e à exportação agrícola. Estamos caminhando na
direção oposta e estimulando as forças protecionistas no resto do mundo com
este divórcio entre a pregação e a prática, em particular dos
norte-americanos.
ZH - Qual é a saída que o Brasil tem para fugir
desta onda?
Malan - Lutar contra isso. Temos aliados, não só
os países em desenvolvimento, mas os do Grupo de Cairns (composto pelos 18
principais países exportadores agrícolas da OMC).
ZH - Existe um sentimento de que o país pode ser
engolido no processo pelo gigante norte-americano na Área de Livre Comércio
das Américas (Alca), prevista para 2005.
Malan - 2005 é o início de um processo que deve
terminar em 2015, se chegarmos a um entendimento. Devemos separar nossa pressão
e insatisfação com essas medidas protecionistas. Não devemos fazer duas
coisas: esquecer que a economia norte-americana importa por ano duas vezes e
meia o PIB do Brasil, algo como US$ 1,4 trilhão. São protecionistas em
determinados setores de política doméstica, aço e algumas coisas na área de
agricultura. Existem enormes possibilidades de exportação para a economia
brasileira no mercado dos EUA. Estamos falando de uma economia de US$ 10 trilhões.
A União Européia também, embora infelizmente fechada na área agrícola, é
aberta na indústria.
ZH - Apesar de destinar R$ 2 em cada R$ 3 do Orçamento
à área social, a grande crítica que se faz ao governo FH é a falta do
atendimento necessário à questão social. O desemprego é um exemplo. O que se
pode fazer para combatê-lo mais efetivamente?
Malan - O indicador relevante do desemprego, em
qualquer país, é a proporção de desempregados em relação à população
economicamente ativa (PEA), o percentual. Não existe uma taxa de desemprego
para todo o país. A pesquisa que apontou o Brasil como o segundo país com
maior número de desempregados (11 milhões), só perdendo para a índia, é
tolice, desgraçadamente endossada por alguns. Pega o número absoluto de
desempregados. Não é por acaso que ali aparecem os países de maior população
no mundo: China, Índia, Indonésia e Estados Unidos. O número relevante, para
comparação, é o de 6% dos EUA em relação a 9%, 10% de vários países
europeus. O número absoluto é coisa de trabalho de primeiro ano de Economia,
que deve ser reprovado, é coisa de preguiçoso.
ZH - O governo chega quase ao seu final sem ter
reduzido a desigualdade de renda no país.
Malan - Em vez de ficarmos repetindo a frase de
que o país tem uma distribuição de renda muito desigual, o que é correto,
temos de impedir que a discussão se restrinja a isso. Estamos evoluindo ao
longo do tempo, a pobreza está aumentando ou diminuindo no país? Está
diminuindo.
ZH - Mas tem algo que o senhor gostaria de ter
feito e não conseguiu acertar?
Malan - Gostada que meus filhos e netos vivessem
em um país de liberdade, maior justiça social e maior eficiência, tanto no
setor público quanto no privado. Isso é possível desde que as pessoas saibam
que é um processo a ser resolvido com o tempo, não se consegue porque alguém
chegou à Presidência e resolveu com a força de sua vontade. A humildade é
necessária, da mesma forma que precisamos de menos voluntarismo e menos
messianismo nessas questões.
ZH - O que o senhor deixará de positivo?
Malan - Quem sou eu? Sou um mero servidor público.
O governo Femando Henrique deixará para seu sucessor situação melhor que a
encontrada quando assumiu. Em 1993, 1994, a inflação era de 40% ao mês. Desde
o lançamento do Real, é de 104%.
ZH - Salário mínimo de R$ 200 não é um saldo
positivo.
Malan - É pouco, mas a renda per capita no
Brasil é de R$ 604. Gostada que a renda fosse mais alta, se fosse possível,
por um decreto, dizer que triplicou, ninguém deixaria de fazer. O mínimo
guarda uma relação com ela, 3,3 vezes. No dia de lançamento do Real, o salário
mínimo era de R$ 64,79. Mais do que triplicou, teve aumento de 208% no período.
No dia que lançamos o real, a cesta básica era de R$ 106, hoje é R$ 154,
aumento de 40%. O salário mínimo aumentou quase cinco vezes mais do que a
cesta básica. É claro que é baixo, mas foi um aumento expressivo em relação
à cesta básica e ao índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Tem mais
duas coisas que são legados importantes deste governo e ninguém está dando a
devida atenção.
ZH - Quais?
Malan - Hoje, qualquer governador tem competência
legal para estabelecer o salário mínimo que deseja em seu território, não
precisa pedir autorização ao governo federal, nem ir para Brasília fazer
passeata. A discussão do salário mínimo passou a ser feita junto com o Orçamento.
Antes, o aumento do salário era decidido depois de aprovado o Orçamento, como
se não tivesse implicação com as finanças públicas do país. Também
resolvemos a questão dos bancos estaduais e das instituições financeiras
federais.
ZH - Como foi a negociação do governo do PT gaúcho
com a União?
Malan - Conseguimos despolitizar a discussão,
foi técnica, entre os técnicos do Tesouro e do governo do Estado. Funcionou
tanto que todos os Estados e os municípios estão cumprindo os compromissos
firmados.
ZH - A partir de janeiro, o senhor vai trabalhar
na iniciativa privada?
Malan - Estou pensando em ser jornalista na Zero
Hora. Tem alguma chance?
ZH - Quem sabe?
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