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Pronunciamentos
02/04/2002
Transcrição da entrevista do Ministro
Pedro Malan à Rádio Jovem Pan, de São Paulo
Sem Revisão do Autor
Rádio Jovem Pan – Nós
vamos conversar agora, no Jornal da Manhã da Jovem Pan, com o Ministro da
Fazenda, Pedro Malan. Bom dia, Ministro.
Ministro – Bom dia a você
e a todos os ouvintes da Jovem Pan.
Rádio Jovem Pan –
Ministro, alguns problemas da economia. Por exemplo, a questão da CPMF. A
partir desta semana entram mais medidas provisórias, trancando a pauta. A tendência
até o dia 21, é pelo menos 22 medidas que terão que ser votadas, algumas
exigindo negociação, atrasando a votação da CPMF, que o governo considera
essencial, uma perda de R$ 400 milhões por semana. Como a equipe econômica está
trabalhando com essa perda de arrecadação?
Ministro – Bom, nós
estamos obviamente empenhados, trabalhando junto com o Congresso Nacional para
realizar essa desobstrução da pauta, através da votação das medidas provisórias
que lá estão, e esperando que seja possível aprovar, tanto na Câmara quanto
no Senado, com a brevidade possível. A arrecadação da CPMF vai até 17 de
junho. A partir daí é que começamos a ter essa redução de arrecadação. Há
que trabalhar junto com o Congresso Nacional, e esperar que seja possível avançar.
É o que estamos fazendo.
Rádio Jovem Pan – E já
se pensa no que fazer? Alguma medida, tipo IOF? O aumento do IOF? Já existe
algum plano definido?
Ministro – Obviamente
que levando em conta a evolução da arrecadação e dos gastos do governo até
a data em que a decisão tem que ser tomada, quando houver uma avaliação da
perda a compensar, nós vamos ter que compensá-las de alguma maneira. Temos três
maneiras para fazer isso: ou com corte de gastos, ou com aumento de impostos,
ou, o que é mais provável, com uma combinação de cortes de gastos, ou um
aumento temporário, transitório de impostos. Lembre-se, nós estamos falando
apenas das semanas nas quais a CPMF não estará sendo cobrada. Não é nada
permanente, duradouro. Provavelmente, será uma combinação de cortes de gasto
com aumento de impostos que não têm anualidade, ou que não precisam aguardar
um ano para ser realizado. Mas é prematuro especular sobre como será a combinação
dessas duas coisas. Porque não sabemos qual o tamanho da perda de arrecadação
envolvida, que vai depender das votações na Câmara e no Senado.
Rádio Jovem Pan – O
ministro Pedro Malan falou, de qualquer modo, na possibilidade de aumento do IOF,
que é um imposto que poderia aumentar agora, não teria que ter nenhum prazo
anterior. Mas isso pegaria direto nas compras a prazo, que tem tido um peso
muito grande no comércio, principalmente na venda de veículos. É preciso
lembrar que a reação da economia, do comércio em particular, neste começo de
ano, está muito fraca. O comércio vem apresentando alguns números
decepcionantes, como divulgou ontem a Federação do Comércio. Isso daí não
preocupa, em relação ao ritmo de atividade da economia?
Ministro – Não está
nada decidido a esse respeito. Portanto, eu não gostaria de especular. O fato
é o seguinte: nós vamos ter que lidar, de alguma maneira, com a potencial
perda de arrecadação derivada da não cobrança da CPMF por algumas semanas, a
partir do dia 17 de junho.
Rádio Jovem Pan – Mas
com relação ao ritmo de atividades, há uma preocupação quanto a isso? A
gente percebe que o Banco Central, por exemplo, no movimento de corte de juros,
está levando esse ponto em conta, tanto que conta com a possibilidade de este
ano superar o ponto médio da meta. Logo, de início o Banco Central já está
admitindo isso. Então, isso revela a preocupação com a atividade econômica,
com o ritmo de crescimento.
Ministro - As metas de
inflação do Brasil, quando foram anunciadas, eram de 8% em 1999, de 6% em 2000
e de 4% em 2001, mais dois ou menos dois pontos percentuais. Essa continua sendo
a definição do sistema de alvos para inflação do Brasil. Tem um ponto
central, e tem uma margem de variação que pode chegar a ter dois pontos
percentuais, e pode ser utilizada em caso de choque de oferta que não é necessário
acomodar imediatamente, através de uma resposta imediata, como, por exemplo,
foi feito no ano passado. A carta do presidente Armínio Fraga para toda
sociedade brasileira foi uma explicação por parte do Banco Central de que nós
tivemos no ano de 2001 inúmeros choques externos, e um grande choque interno,
que foi a crise de energia, já superada. O BC tomou uma decisão correta, a meu
ver, de não forçar a economia a custos excessivos, em termos de retração do
nível de atividade, do emprego, para lidar com uma situação de inflação que
era atípica e que deve ser tratada com o horizonte de tempo mais longo que o
ano calendário, isto é, olhando 18 a 24 meses adiante. Eu acho que o mesmo vai
ser feito esse ano.
Rádio Jovem Pan –
Ministro, voltando à inflação, com a crise no Oriente Médio, os preços do
petróleo no mercado internacional dispararam. Fecharam um pouco abaixo de US$
27 o barril e, claro, isso influencia bastante. O Brasil importa de 30% a 40% de
combustível, não da região do Oriente Médio, mas isso também pode
influenciar o preço da nossa gasolina. Existe preocupação também quanto a
isso?
Ministro – Sem dúvida.
Além do drama humano, da violência que é crescente, lamentavelmente, na região
do Oriente Médio, e eu espero que isso tenha um paradeiro breve, pelo menos uma
trégua e uma busca de uma retomada do processo de paz, o fato é que isso gera
certas incertezas no mundo internacional e no preço do petróleo, que teve esse
impacto a que você se referiu. O preço ontem voltou quase que aos níveis
relativos de tempos depois do atentado ao World Trade Center, em Nova York. Mas
nós esperamos que isso não seja uma trajetória crescente de elevação de preços,
sustentada ao longo do tempo, porque há vários produtores de petróleo no
mundo. Isso não é uma ação só da OPEP, não há dependência no mundo
exclusivamente do petróleo do Oriente Médio. A Rússia é um grande produtor.
O México, a Venezuela e outros países que não estão comprometidos com aquele
controle de produção e com a faixa de preço definida pela OPEP. Mas a situação
realmente inspira cuidados. Além do drama envolvido, mas não se espera nenhuma
grande disparada do preço de petróleo, a menos que se tenha um conflito de
proporções muito mais graves ainda do que o que nós estamos observando hoje.
Rádio Joven Pan – Hoje,
nós já estamos com o preço do petróleo novamente em alta em Londres. Desta
vez, pelo comunicado enviado, ele pode mesmo suspender as vendas para os Estados
Unidos. Agora, ministro, com a alta da inflação sendo provocada por fatores
como esse, aumento do petróleo no exterior, reajuste de tarifas aqui no mercado
doméstico, tarifas de energia e outras, e a inflação não ocorrendo pela
demanda, o senhor não acredita que esse nível de taxa de juros, o nível de
crescimento da economia penaliza demais a sociedade, sem conseguir um efeito prático
maior em relação ao controle da inflação, porque é uma inflação mensal
que vai acontecer mesmo, já aconteceu por conta desses reajustes de tarifas,
por conta de aumento da gasolina, e a gente tem todos os dados mostrando aumento
do desemprego e queda da renda do trabalhador, isso desde o ano passado. Então,
não haveria condições de uma virada em relação aos juros, em dar mais oxigênio
para a economia, deixar o trabalhador ter condições de consumir, porque a
pressão inflacionária não está vindo por aí?
Ministro – A trajetória
dos juros no Brasil é uma trajetória declinante ao longo do próximos meses e
anos, não tenho dúvida nenhuma a esse respeito. O problema é que há no
Brasil uma espécie de uma demanda para saber exatamente qual será a decisão a
ser tomada na próxima reunião do Conselho de Política Monetária do Banco
Central daqui a três semanas, e eu não vou especular sobre isso. O que eu digo
é que a trajetória é uma trajetória declinante, a menos que haja uma dramática
reversão do quadro internacional e doméstico em termos de expectativas de uma
dramática aceleração das expectativas futuras em relação ao processo de
formação de preços. Mas, em princípio, a trajetória continua sendo uma
trajetória declinante com a intensidade que for possível à luz das circunstâncias,
inclusive deste assunto que nós estamos falando aqui nesta entrevista.
Rádio Jovem Pan –
Ministro, como o senhor espera entregar a economia brasileira para o seu
sucessor, o próximo Ministro da Fazenda? Evidentemente, existem vários fatores
externos que acabam influenciando, mas como o senhor, dentro da realidade, vai
conduzir a economia para entregar a economia: olha, a inflação com tanto, taxa
de juros com tal percentual...
Ministro – Estou
confiante em que nós entregaremos a economia àqueles que vierem a nos suceder,
eleitos com a legitimidade que o voto popular confere a partir de outubro deste
ano, melhor do que a recebemos, seguramente, e neste ano de 2002 melhor do que
em 2001 em termos de taxa de crescimento do Produto Interno Bruto da economia
brasileira. Ele crescerá mais este ano do que no ano passado. Poderá crescer
ainda mais em 2003. A taxa de inflação será menor do que foi no ano passado,
com uma situação de balanço de pagamento – vocês viram os dados anunciados
no fechamento de março do primeiro semestre – melhor do que qualquer dos anos
desde o início da segunda metade dos anos 90. Portanto, eu acho que nós
entregaremos a economia, obviamente, não sem nenhum tipo de problema, porque
isso não existe, só um ingênuo total consegue imaginar que todos os problemas
econômicos, financeiros, políticos, institucionais, sociais foram resolvidos.
Isso nunca acontecerá. A economia sempre tem problemas para serem equacionados,
mas, seguramente, estará melhor do que ano passado, nessas várias dimensões
que eu mencionei e, seguramente, muito, mas muito melhor do que aquela que
tivemos que lidar sete, oito anos atrás: uma economia com hiperinflação, 30%
a 40% ao mês, setor público quebrado e falido, bancos que não tinham condições
de sobreviver em condições de um regime de baixa inflação, a reputação
internacional do país lá embaixo, uma dívida externa ainda terminando de
negociar. Portanto, eu acho que o país mudou ao longo desses últimos sete,
oito anos, e eu espero que – espero não, é preciso que ele continue avançando
neste processo de mudança ao longo dos próximos anos. O Brasil é um país em
construção e que não depende apenas de uma ou duas administrações. É um
trabalho de mais de uma geração, eu diria como foi em qualquer país que deu
certo no mundo.
Rádio Jovem Pan –
Agora, ministro, mais do que administrar a situação ao longo deste ano para
garantir um cenário melhor no ano que vem, há algumas propostas para tirar
alguns dos entraves da economia, como é o caso da cumulatividade de impostos
sobre as importações. O senhor vê ambiente político para isso? O senhor
percebe que as eleições estão pesando, no caso da CPMF, por exemplo. É claro
que houve uma crise específica, mas esse ambiente político não pode
atrapalhar outros avanços, porque não dá para a economia ficar parada em relação
às reformas um ano, não é?
Ministro – É. Estou
moderadamente confiante – moderadamente porque é o meu estilo – em que nós
temos todas as condições de dar um passo importante agora na questão da
cumulatividade, a chamada cumulatividade ou incidência em cascata – me
refiro, aqui, ao PIS e ao COFINS. Pela primeira vez o grau de convergência que
nós temos encontrado ao longo das últimas semanas no Congresso Nacional e nas
discussões com o mundo empresarial mostram claramente a possibilidade de nós
acordarmos para, em dois estágios, resolver definitivamente essa questão da
incidência em cascata, em cumulatividade. Eu acho que há um apoio grande para
isso no Congresso. Nós estamos falando de uma legislação ordinária,
infraconstitucional, maioria simples nas duas Casas, e eu acho que vai ser possível
adiantar e dar o primeiro passo, este ano ainda, uma lei ordinária que pode
entrar em vigor 90 dias depois de aprovada pelo Congresso. E o segundo passo
pode ser dado, isto nós estamos discutindo agora, em um tempo razoavelmente
curto, e resolver essa questão. Eu acho que há um clima, hoje, para isso nas
discussões entre o governo, o Congresso e o mundo empresarial.
Rádio Joven Pan – Nós
conversamos aqui, no Jornal da Manhã da Jovem Pan, com o Ministro da Fazenda,
Pedro Malan. Ministro, muito obrigado, bom dia ao senhor.
Ministro – Muito
obrigado a você e a todos os ouvintes da Jovem Pan.
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