Pronunciamentos

24/01/2002

Entrevista do Ministro Malan à Folha de S. Paulo

O jornal Folha de S. Paulo propôs ao Ministro Pedro Malan uma entrevista com perguntas e respostas por escrito. Assumiu o compromisso de publicá-la na íntegra. O texto, entretanto, foi impresso com cortes na edição de 20/01/2002.

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista, com os trechos cortados sublinhados:


Perguntas da Folha de S. Paulo e Respostas do Ministro Pedro Malan


1 - O Ministro vai votar em [José] Serra para Presidente? Apesar das críticas que lhe fez no passado pré-desvalorização do real?

R – Serra é um grande quadro político deste País, com uma longa história de exemplar dedicação à causa pública e à construção do Estado Democrático de Direito. Meu voto irá para o candidato que melhor expressar à população a importância de avançar mais no processo de mudança que o País vem experimentando, principalmente após a derrota da hiperinflação com o lançamento da URV e do Real, em 1994. Quanto a diferenças de opinião, eu as considero legítimas e saudáveis, quando não acompanhadas de gratuitas e inconseqüentes ofensas pessoais e ataques à honra pessoal de outros, como, infelizmente, por vezes ocorre no Brasil – o que não é, em definitivo, o caso do Ministro José Serra.

2  -  Serra seria o único dos pré-candidatos já lançados capaz de levar adiante o projeto do governo Fernando Henrique Cardoso?

R – Como é óbvio, caberá ao eleitor decidir, dentre os candidatos, quem tenha as melhores condições de, efetivamente, na prática do governo, preservar as conquistas da sociedade até agora alcançadas e fazer avançar com obstinação, eficácia e serenidade o processo de mudança ora em curso, do qual vem resultando, para a maioria, a meu ver, um País melhor do que era anos atrás. Refiro-me, é claro, aos candidatos que se propõem a fazer campanha e, se eleitos, a governar o País sem demagogias, messianismos e voluntarismos, e não àqueles que propõem "efetivas rupturas globais", aventuras que mal sabem definir o que sejam em termos de práticas efetivas de governo.

3 - O economista Paulo Rabello de Castro (coordenador do programa do PFL) diz que o primeiro ano de governo do sucessor de FHC será difícil, o Brasil teria de produzir superávits primários ainda maiores, de 5% do PIB, calcula. Esse cenário de economia de guerra é exagerado, na opinião do ministro?

R – Sim, é exagerado no meu entender. Para hipóteses plausíveis sobre os parâmetros relevantes e com a perspectiva de médio prazo, que é fundamental manter neste tipo de discussão, a maioria dos exercícios disponíveis sobre dinâmica da dívida mostra que é possível estabilizar – e situar em uma trajetória declinante nos próximos anos – a relação dívida/PIB com superávits primários da magnitude dos que vêm sendo observados no Brasil nos últimos três anos, isto é, da ordem de 3,5% do PIB. Acho 5% um exagero absolutamente desnecessário. Como diria [Luiz Fernando] Veríssimo: "salvo novas evidências em contrário".

4 - As propostas lançadas até agora no debate eleitoral reconhecem que a estabilidade da moeda é uma conquista importantíssima, mas defendem, com palavras diferentes, mais ou menos a mesma coisa: o Brasil precisa crescer, reduzir os juros, aumentar as exportações e conter a vulnerabilidade externa. O diagnóstico é correto?

R – Acho extremamente importante que se reconheça que a relativa estabilidade do poder de compra da moeda é uma "conquista importantíssima". Acho não menos importante que se reconheça que isto não é algo definitivamente incorporado ao patrimônio histórico do País, uma conquista eterna e que está assegurada independentemente do que venham a fazer futuros governos. Principalmente aqueles que dizem que vão procurar preservar a inflação sob controle mas com "métodos radicalmente distintos" – e nunca especificados de modo consistente. Dito isto, vou repetir o que digo e escrevo há anos: o controle da inflação não é e nunca foi um fim em si mesmo. É apenas um meio para que outros objetivos tão ou mais importantes possam ser alcançados, particularmente: a) a construção das bases para um crescimento econômico sustentado ao longo do tempo (o que exige aumentos de produtividade, incorporações de tecnologia moderna, aparato regulatório adequado, um Estado operacionalmente eficiente, estabilidade político-institucional, entre outros); e b) continuidade do processo da melhoria das condições de vida da maioria da população que é, na verdade, o objetivo maior de qualquer política econômica digna deste nome. Quanto a "diagnósticos", corretos ou incorretos, quero só registrar que o mero enunciado de objetivos com os quais todos estamos de acordo, tipo "o Brasil precisa crescer, reduzir juros, aumentar exportações, conter a vulnerabilidade externa, etc., etc.", não constitui "diagnóstico" no sentido correto da palavra. Tampouco constituem "diagnósticos" as desorganizadas coletâneas de diatribes contra o Governo e contra "tudo isto que aí está" que marcam certos discursos oposicionistas. Trata-se mais de retórica política, a que qualquer um poderia recorrer com igual entusiasmo ou indignação. Esta é uma época muito propícia para diagnósticos, planos e manifestações de esperança de dias melhores. Mas de um homem público que pretende governar o país o eleitor brasileiro, muito amadurecido e consciente das conquistas já obtidas, certamente exigirá mais do que palavras vazias. Vai querer que o candidato seja também objetivo e diga como pretende de fato executar as suas idéias. Quando o candidato pregar ruptura, seguindo o programa do seu partido, aprovado em encontro nacional, é preciso que diga o que quer romper, o que quer jogar fora, o que vai fazer em substituição. Por isso, é muito importante o debate de idéias neste ano eleitoral. Por último, deixe-me notar que as exportações vêm aumentando – e seguramente podem aumentar mais; que o déficit do balanço de pagamentos este ano deve ser cerca de 13 bilhões de dólares inferior ao de 1998; que vamos ter expressivo superávit comercial; que o investimento estrangeiro no Brasil continua significativo, como expressão de confiança no Brasil e em seu futuro. Portanto, a "vulnerabilidade externa" não está aumentando. Ao contrário. Aumentaria se virassem determinações de um Presidente da República opiniões equivocadas de um certo candidato que disse que "não dá para exportar enquanto faltar comida na mesa dos brasileiros", ou que "os protecionistas europeus estão corretos".

5 - A colaboração do economista Luiz Carlos Bresser Pereira ao programa de governo do PSDB alerta que a taxa de juros "aberrantemente elevada" é uma situação inviável a longo prazo. Diz o documento também que o passivo externo tornou insustentável a manutenção do modelo, sinalizando uma situação de insolvência externa. Juros e dívida altos foram efeitos colaterais inevitáveis ou, como dizem pefelistas, alguns tucanos e a oposição, um preço alto demais pago pela política econômica e que inibem o crescimento?

R – Ainda não tive a oportunidade de ler o trabalho do Bresser, por quem sempre tive respeito e apreço pessoais. Com esta ressalva, respondo apenas à pergunta da Folha, tal como formulada: Ninguém no governo FHC jamais disse que taxas de juros elevadas são viáveis a longo prazo. A trajetória de juros nominais e reais é declinante a médio prazo. Discordo frontalmente da visão de que o Brasil está à beira de uma situação de insolvência externa. É preciso não esquecer que o Brasil, há apenas oito anos, vivia um processo hiperinflacionário, que o setor público federal estava falido, que parte significativa do sistema bancário não estava preparada para viver sem inflação, que Estados e alguns Municípios não tinham condições de pagar suas dívidas (reestruturadas pelo Governo Federal), que o déficit da previdência era explosivo, que havia "esqueletos" de todo tipo não registrados nas estatísticas oficiais, etc.. O encaminhamento de soluções para estes e outros problemas envolve certos custos – certamente menores do que os custos que resultariam de tentativas de continuar a fingir que estes problemas não existiam ou não precisavam ser enfrentados com determinação.

6 - Qual seria a receita do ministro para a economia brasileira crescer mais e ser menos vulnerável?

R – Não acredito em "receitas" que possam ser enunciadas em um ou dois parágrafos. Ao leitor interessado em saber o que penso, sugiro a leitura de minhas três últimas contribuições ao Fórum Nacional do Ministro Reis Velloso: "Perspectivas do Desenvolvimento com Estabilidade" (2000); "Desenvolvimento com Estabilidade: Um Falso Dilema" (1999) e "As Perspectivas do Real no limiar do Novo Século" (1998), publicadas em livro próprio do fórum. É desnecessário enfatizar que ninguém, absolutamente ninguém, tem o monopólio da verdade e que estas questões de "receitas" para o crescimento sempre envolveram e sempre envolverão uma complexa interação de indissociáveis fatores econômicos, político-institucionais e sociais. Sempre sujeitos a amplas, legítimas e saudáveis controvérsias.

7 - A eventual manutenção de Armínio Fraga à frente do Banco Central representaria um compromisso com a atual política econômica?

R – Armínio Fraga vem conduzindo o Banco Central com extraordinária competência nestes tempos difíceis. Tem sólida formação acadêmica, invejável experiência profissional tanto no setor público quanto no setor privado, espírito público, reputação internacional e compromisso com o Brasil e seu futuro. Mas a orientação geral da política econômica do futuro governo caberá a quem for eleito Presidente. Não cabe a mim especular sobre nomes que poderiam ser eventualmente escolhidos pelo futuro governo para a Presidência do Banco Central. Há anos que defendo que o Banco Central tenha autonomia operacional – com a devida transparência e os apropriados mecanismos de prestação de contas ao Congresso e à sociedade – para executar a operação da política monetária, segundo as diretrizes e objetivos estabelecidos pelo governo eleito. Este ponto é fundamental e nem sempre levado em conta em discussões por vezes marcadas por pura emoção política. Como parte integrante desta visão, defendo que o Presidente e os Diretores do Banco Central – a exemplo do que já ocorre com todas as Agências Reguladoras (ANP, ANEEL, ANATEL, etc.), o CADE e a CVM – tenham mandatos com prazos fixos, que, sob determinadas condições, a serem estabelecidas pelo Congresso Nacional, poderiam, para alguns, não ser exatamente coincidentes com o mandato de uma Administração Federal. Considero importante que a Câmara dos Deputados vote, ainda neste semestre, o projeto de emenda constitucional (substitutivo do Senador Jefferson Peres ao projeto original do Senador José Serra) sobre o Artigo 192 da Constituição. O Senado já o fez. A Comissão Especial da Câmara já o aprovou, e está pronto para ir a plenário. Se aprovado, poderíamos imediatamente dar início a uma discussão sobre um projeto de lei simples que apenas defina a missão operacional do Banco Central na implementação de diretrizes e objetivos do Governo, bem como a questão dos mandatos. Acho que deveríamos discutir com o Congresso uma regra geral para o futuro sobre estas questões. Quanto à próxima transição (2002/2003), se este acordo ainda não tiver sido alcançado, só posso dizer o seguinte: o próximo governo – qualquer que ele seja – e o próprio País só teriam a ganhar se Armínio Fraga pudesse ser convencido a permanecer como Presidente do Banco Central o tempo necessário para a consolidação de uma transição mais tranqüila e eficiente.

 

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