Pronunciamentos


02/04/2001

Transcrição da entrevista do ministro da Fazenda, 
Pedro Malan, à Rádio Jovem Pan

 

Jovem Pan – Nós estamos em contato neste momento, o Jornal da Manhã da Jovem Pan, com o ministro da Fazenda, Pedro Malan. Bom dia, ministro.

Ministro – Bom dia a você e a todos os ouvintes da Jovem Pan.

Jovem Pan – A primeira pergunta, ministro. Na semana passada, a ata do Copom, a explicação do porquê da alta dos juros na quinta-feira e também o Relatório de Inflação do Banco Central, na sexta-feira, esses dois anúncios do Banco Central acabaram provocando uma certa insegurança no mercado financeiro. Inclusive alguns analistas, principalmente especialistas em preços ouvidos pela Jovem Pan, reclamaram do governo, acharam que o governo criou um tumulto desnecessário no mercado financeiro, muitos até entendem que fica muito difícil fazer esse tipo de previsão de preços num país como o Brasil. Acharam que o Banco Central errou nessa questão, principalmente por causa da mudança do discurso. Eu queria ouvir a sua opinião.

Ministro – Pois não. Eu agradeço a oportunidade. Nós temos um sistema, esse de metas de inflação, já no seu terceiro ano de funcionamento. Em 1999, anunciamos uma meta de 8% para o ano, e o IPCA ficou em 8,9%. A meta foi cumprida, porque era 8% com mais 2 ou menos 2. No ano passado, a meta era 6%, e foi cumprida. Mas houve um período, ali em meados do ano, em que a estimativa – e são sempre projeções, isso não é uma ciência exata – em meados do ano houve um aumento de tarifas de energia elétrica e outros, e chegou-se a projetar com todas as cautelas um índice de inflação que talvez pudesse chegar a 6,7%. Na verdade não chegou, ficou em 6%. Mas, se tivesse chegado a 6,7%, a meta teria sido cumprida, porque a meta era 6%, mais 2 ou menos 2. Para este ano, a meta é 4%, e existem estimativas, as mais variadas, nenhuma é superior à outra, de algumas áreas do governo e do setor privado, de que ela pode ficar um pouco acima de 4%, quer dizer 4 vírgula alguma coisa, que varia. Para quem tem memória neste País, em 1993 estávamos discutindo se a inflação ia ser 2.500% ou 3.000%. Hoje, estamos discutindo qual é o algarismo que vem depois da vírgula, que vem depois do 4 – 4 vírgula alguma coisa. E as projeções feitas no Relatório de Inflação do Banco Central, quem o lê com cuidado, verá que isso é um exercício, sujeito a todas as incertezas de qualquer exercício dessa natureza. Portanto, não são compromissos de metas oficiais. A inflação ficará dentro da meta, que é 4 vírgula alguma coisa. Quanto mais baixo melhor. Mas eu acho um sinal de progresso fantástico, para repetir, que hoje nós estejamos discutindo o algarismo que vem depois da vírgula, que vem depois do 4.

Jovem Pan – Agora, ministro, o grande problema da semana passada que nós tivemos no mercado financeiro em relação à divulgação dessas projeções não foi exatamente a projeção, porque o mercado já vinha há algum tempo trabalhando tanto com a projeção de uma taxa de juros maior, isso sinalizava os contratos de mercado futuro, como também os analistas já previam uma inflação maior. Várias pessoas falaram que o ponto médio da meta já não seria mais cumprido, que haveria um estouro. O problema é que houve uma mudança muito drástica de discurso praticamente de um dia para o outro, e isso é que acabou assustando o mercado, gerando volatilidade, provocou a maior alta do dólar, o que acabou sendo justamente o maior fator de pressão. Porque o mercado projetava, inclusive aqui na Jovem Pan todos os analistas que nós ouvimos durante um mês davam como certo que a taxa Selic seria mantida, aí de repente vem a alta. Inclusive o mercado, apesar de estar sinalizando essa alta, não falava nessa possibilidade justamente por causa do discurso. Não faltou uma maior estratégia, um problema de marketing mesmo do Banco Central na divulgação, na mudança de postura?

Ministro – Você levantou uma questão importante. Águas passadas não movem moinho, eu não quero falar aqui sobre o passado. Você mencionou algo importante. Os mercados, digamos assim, que vinham prevendo taxas de inflação na média, que varia, tinham uma convergência para 4,2, no máximo 4,3%. Uma coisa excepcional para o nosso sistema, uma taxa de inflação que o País não experimenta há mais de meio século, com uma taxa de crescimento também superior a 4%, que é uma combinação que este País não experimenta há meio século. Mas você tem razão quando diz que os mercados interpretaram, certo ou errado, a ata do Copom e o Relatório de Inflação como sinalização de perspectivas e possibilidades de novos aumentos da taxa de juros na próxima reunião do Copom, ou de maiores depreciações no câmbio. A minha expectativa é que, passada a excitação da surpresa do momento, passado o lamber de feridas daqueles que perderam com a decisão ou daqueles que estavam envolvidos em definir o jogo de comprados e vendidos no vencimento de opções no último dia de março, acabou tudo isso, e acho que devemos começar esta semana agora com o mínimo de serenidade, tranqüilidade e equilíbrio, olhando para o futuro. E olhando para o futuro significa olhar as condições reais da economia brasileira, porque nós estamos com uma recuperação consistente da atividade econômica, no agronegócio – essa vai ser a melhor safra histórica de grãos da economia brasileira na sua história, 50% a mais do que era no início da década –; recuperação da atividade econômica na indústria e nos serviços; o investimento vai ser superior a R$ 250 bilhões, mais de 20% de um PIB de R$ 1,2 trilhão; o emprego tem crescido e a taxa de desemprego tem caído – só nas seis regiões metropolitanas do IBGE a população desocupada diminuiu 30,8% nos doze meses terminados em fevereiro; as exportações estão crescendo bem; esse trimestre que acabou agora no último dia útil de março terá sido o décimo trimestre consecutivo, portanto dois anos e meio de cumprimento dos nossos objetivos fiscais, e estamos mudando o regime fiscal do País com a mudança na Lei de Responsabilidade Fiscal. Portanto, aquilo que os economistas chamam de fundamentos da economia brasileira são hoje muito melhores do que eram no passado, e, portanto, o grau de vulnerabilidade, que é sempre relativo, da economia brasileira é muito menor do que era no passado. Portanto, nós achamos que esses fundamentos acabarão por se fazer sentir e acabarão por prevalecer, e essas turbulências associadas aos efeitos imediatos, inesperados, da decisão do Copom, leituras apressadas, ao meu ver, do Relatório de Inflação do Banco Central, acabarão cedendo a uma análise mais serena, objetiva e equilibrada, voltada para os fundamentos da economia brasileira.

Jovem Pan – Ministro, essa semana nós temos uma novidade em termos de Brasil quanto ao comportamento dos preços, que é a redução dos preços da gasolina. O corte nas refinarias será mesmo de 5,4%, como anunciou o presidente Fernando Henrique Cardoso na semana passada?

Ministro – O número é mais para 5,5% na refinaria. O presidente anunciou que seria no mínimo 5,4% e ainda faltavam uns dois ou três dias úteis do mês de março, e nós sempre dissemos que saberíamos o número preciso só quando pudéssemos ter calculado a média acumulada no trimestre que terminou em 30 de março. Tudo indica que isso é algo mais para 5,5% na refinaria, algo que muitos consideravam que era impensável. Na bomba, isso vai depender do grau de competição em cada estado, vai variar de lugar para lugar, mas na refinaria deve ser em torno de 5,5% para gasolina.

Jovem Pan – Em relação aos preços da gasolina, nós temos visto um problema muito sério, principalmente aqui em São Paulo. Os postos que vendem mais barato, que repassam esse corte de preços vendem combustível adulterado. Não faltaria uma fiscalização mais eficiente também dos órgãos públicos em relação a isso?

Ministro – Eu acho que essa fiscalização é fundamental, assim como uma ação célere da justiça também para evitar esse tipo de possibilidade de adulteração, lidando com o caso dessas empresas piratas, esses bucaneiros do setor, que acabam afetando aqueles que são honestos, que cumprem as suas obrigações, não só para com o Fisco, mas principalmente também com o consumidor e o cidadão que tem o direito de, ao comprar um produto, não comprar um produto adulterado.

Jovem Pan – Ministro, para finalizar, o senhor ficou surpreso com a informação de que a indústria eletrônica da Argentina, no plano Cavallo, também reduziu a sua Tarifa Externa Comum? Ou seja, o senhor está tendo aí um problema com a indústria de máquinas e equipamentos, a indústria de informática argentina, já que a indústria de máquinas aqui do Brasil está até pedindo uma compensação para o senhor. Então, eu quero essa resposta do senhor. O senhor ficou surpreso com a informação de que a indústria de informática da Argentina também reduziu a Tarifa Externa Comum, e o senhor vai dar alguma compensação para a indústria de máquinas brasileira?

Ministro – Duas coisas. Na questão do regime de bens de informática, esse é um regime de exceção no âmbito do Mercosul, e tem que ser. Temos uma política aqui que não é a Tarifa Externa Comum do Mercosul. Existe também na indústria automobilística. São exceções. Na questão de bens de capital em geral, o entendimento que nós temos é de que isso é algo temporário, transitório, passageiro. Enquanto a Argentina não supera as suas dificuldades do momento presente, o que é algo que interessa ao Brasil. Ao Brasil interessa que a Argentina se recupere, volte a crescer e deixe de lado as dificuldades e turbulências pelas quais está passando. Foi com esse espírito que nós concordamos, a princípio, com uma temporária e transitória redução da alíquota de importação deles de bens de capital e a elevação das alíquotas para bens de consumo, que eles vão elevar para 35%, mas isso não vai afetar as exportações brasileiras para a Argentina, elas estarão isentas. No que diz respeito à indústria de bens de capital, nós teremos de chegar a um entendimento com eles o mais breve possível sobre a Tarifa Externa Comum do Mercosul. O que nós fizemos foi dar uma exceção temporária e transitória para que eles pudessem sair da crise em que eles estavam envolvidos com a maior brevidade possível, que é algo que interessa ao Brasil. Ao Brasil não interessa que a Argentina vá mal e aprofunde a sua crise. Interessa que a Argentina resolva muito rapidamente e volte a crescer.

Jovem Pan – Não haverá, então, desoneração para a indústria brasileira?

Ministro – Sempre haverá a possibilidade de conversar e discutir. Agora, lembre-se só de uma coisa: o câmbio real no Brasil nos últimos dois anos se depreciou entre 40 e 50%. Isso significa que toda a indústria doméstica passou a ficar mais protegida, no sentido de que ficou muito mais caro o produto importado expresso em termos de reais, e toda a indústria brasileira passou a ficar mais competitiva internacionalmente com o câmbio desvalorizado, depreciado como ficou. Portanto, isso deve ser levado em conta nessa discussão. E, se me permite, já que falei em câmbio, só para lembrar mais uma vez que, a exemplo do que eu disse em inúmeras ocasiões lá quando ele chegou a 2,23, como chegou no início de 99, e depois superando os 2 em outros momentos, o que importa são os fundamentos da economia brasileira, porque nosso câmbio é flutuante: assim como ele se deprecia, ele também se aprecia. E não há nenhuma razão hoje no Brasil, olhando os fundamentos, para se eliminar a possibilidade de uma apreciação dos níveis mais altos a que ele chega em momentos de maior agitação, do tipo que tivemos nos últimos dias.

Jovem Pan – Ministro, muito obrigado pela sua entrevista, lembrando a sua informação de que, quando o presidente anunciou, estava faltando ainda alguns dias para o fechamento do mês, a redução do preço na refinaria da gasolina será em torno de 5,5% e não de 5,4%. Essa é a informação do ministro Pedro Malan, dada nesta entrevista à reportagem do Jornal da Manhã da Jovem Pan. Ministro, muito obrigado e bom dia ao senhor.

Ministro – Muito obrigado e bom dia a você e a todos os ouvintes da Jovem Pan.

 

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