26/01/2001
Transcrição da
entrevista do ministro da Fazenda,
Pedro Malan, à Rádio CBN
Sem Revisão do Autor
Rádio CBN –
Ministro, boa tarde.
Ministro – Boa
tarde, Carlos Alberto e todos os ouvintes.
Rádio CBN – Desde
que nós estamos aqui, em outubro, é a primeira vez que o senhor vem ao
nosso programa. Muito obrigado pela sua participação. Se bem que hoje eu
acredito estar um pouco fácil para o ministro da Fazenda do Brasil dar
entrevistas, porque as coisas andam razoavelmente bem, não é mesmo?
Ministro – Nunca
é fácil, nunca foi no passado, nunca será no futuro. Eu estou sempre
olhando à frente e eu nunca subestimo a magnitude dos problemas a
enfrentar. Eu acho que, obviamente, você tem razão. O começo deste ano
de 2001, desta década, deste século, está bastante razoável em termos
dos fundamentos da economia brasileira. Há um crescimento amplo, nós
não estamos falando só de um setor, é no agronegócio, na indústria,
nos serviços, nas exportações, crescimento do emprego. Vocês viram a
divulgação dos dados do IBGE ontem – 4,8% a taxa de desemprego em
dezembro. Mesmo fazendo a dessazonalização, esse palavrão que os
economistas gostam de usar, dá 6%, mas era 7,8% em dezembro de 99.
Portanto, estão sendo gerados postos de trabalho. Eu acho que na economia
os sinais são positivos. Mas há uma grande agenda inacabada pela frente
como país.
Rádio CBN –
Ministro, vamos falar um pouquinho disso. Os jornalistas têm fama de
procurar sempre o lado negativo das coisas, vamos então procurar
justificar essa fama. O que não vai é o comércio externo, quer dizer,
é o contrário do que se esperava, não houve superávit nas contas
externas e o mês de janeiro já começou também com déficit. Então, a
pergunta é por que na sua avaliação não houve ainda superávit no
comércio externo e o que falta fazer para tê-lo.
Ministro – Pois
não. Em primeiro lugar, deixe-me chamar a atenção dos ouvintes para o
resultado do ano passado. As exportações brasileiras cresceram quase 15%
no ano. As exportações de manufaturados cresceram 19%. Quinze por cento
de aumento nas exportações, 19 % de crescimento de exportações de
manufaturados não são taxas irrelevantes em qualquer país do mundo. É
bem verdade que as importações cresceram a 13%. Agora, lembra, as
importações de combustíveis e lubrificantes cresceram 50%; de matérias
primas e produtos intermediários, 18%; bens de capital e bens de consumo,
praticamente nada. Eu acho que no ano passado tivemos esse aumento
significativo de combustíveis e lubrificantes importados e um aumento
expressivo de matérias-primas e bens intermediários, que representa um
investimento na economia, elevação do nível de atividade e crescimento.
Eu não sou daqueles que se deixam levar pelo resultado da balança
comercial do dia, embora nós acompanhemos isso, ou da semana, ou da
quinzena ou do mês. Eu acho que está havendo uma profunda mudança
estrutural na economia brasileira, está havendo um aumento de
produtividade, de competitividade, e que já se expressa nessas taxas de
crescimento muito expressivas, volto a insistir, das exportações
brasileiras, em particular de manufaturados, que é algo extremamente
importante. Quanto ao resultado da balança comercial, strictu sensu,
lembra que ela foi em média da ordem de seis bilhões negativos em 98, 97
e 96. Em 99 baixou para -1,2, em 2000 foram 600 e poucos milhões de
dólares negativos. Quer dizer, houve uma virada de 6 bilhões negativos
para 600 milhões negativos em dois anos, que é uma virada importante no
contexto em que ela foi feita, com uma elevação significativa de preço
de petróleo, que passou de US$ 11 o barril, no início de 99, para US$ 34
o barril nesse período; agora, felizmente, estão baixando, o que é um
bom sinal para este ano. E o preço de commodities exportadas pelo Brasil,
que foi um dos mais fracos nos últimos 15 anos. Portanto, isso tem que
ser visto nesse contexto. Eu não acho que nós estamos caminhando para
uma situação de insustentabilidade de balanço de pagamentos de forma
alguma.
Rádio CBN – A
propósito desse tema, o senhor confirma essa próxima mudança na
estrutura da Câmara de Comércio Exterior, que passaria ter apenas três
ministros de Estado – o senhor, o ministro do Desenvolvimento e o
ministro das Relações Exteriores. Seria isso?
Ministro – Nós
estamos trabalhando já há algum tempo para seguir uma instrução do
Presidente da República no sentido de conferir maior efetividade à
Câmara de Comércio Exterior. Estamos mudando certas práticas,
procedimentos, encaminhamento de propostas de discussão, precisamos de um
foco para discussão de diretrizes. Estamos em fase crítica de
negociação no âmbito do Mercosul, da Alca, com a União Européia, com
a Organização Mundial de Comércio. Portanto, há sentido nessa busca em
que estamos empenhados de maior efetividade e agilidade nas atividades
dessa área, através de uma maior efetividade da Câmara. O processo
está em discussão ainda no âmbito do Governo, mas estamos convencidos
de que sairá algo relevante e razoável nessa área, permitindo mais foco
nessa questão. Todos nós sabemos quão importante é a promoção de
exportações no Brasil, a importância da produção doméstica que
eficientemente compete com importações potenciais, das negociações
internacionais do Brasil. Portanto, é nessa direção que nós estamos
trabalhando.
Rádio CBN – Outro
assunto também polêmico na mídia nesses dias é a questão do FGTS, a
reposição daquela correção determinada pelo Judiciário. Eu sei que
não é um assunto diretamente do seu ministério, que as propostas de
pagamento estão sendo estudadas no âmbito do Ministério do Trabalho,
mas muita gente sugere que a diferença seja paga pelo Tesouro. O Tesouro
já é do seu departamento. Então, eu queria saber a sua opinião, qual
é a orientação do Governo, qual é a sua opinião sobre essa correção
do Fundo de Garantia?
Ministro – Bem,
como você disse essas negociações, inclusive com as entidades
sindicais, estão sendo conduzidas pelo ministro Dornelles, no âmbito do
Ministério do Trabalho. Obviamente, nós estamos acompanhando
tecnicamente essas negociações, as conversações, os trabalhos
técnicos a ela subjacentes. Eu gostaria de fazer um comentário
diretamente sobre a sua pergunta: existe, infelizmente, no Brasil a idéia
de que existe uma entidade chamada "Tesouro Nacional", que é um
ente separado do resto da sociedade. Os recursos do Tesouro Nacional,
todos eles são provenientes de impostos e contribuições que a própria
sociedade entrega e derivados de aumento da dívida do setor público
junto à sociedade. Portanto, quando se diz "cabe ao Tesouro
pagar", as pessoas deveriam saber que isso quer dizer cabe à
sociedade, que é a que entrega recursos ao Tesouro, pagar. É preciso
deixar claro porque existe no imaginário coletivo, no inconsciente
coletivo, ou no imaginário político brasileiro, a idéia de que no
Tesouro existem recursos que lá estão e que podem ser liberados por uma
decisão política, que são recursos de propriedade do Tesouro, que
advêm de alguma fonte. No passado, quando nós usávamos aquela
inflação vergonhosa, que nos humilhava perante o resto do mundo e a nós
mesmos, de 1.000%, 2.000%, 3.000% ao ano, os recursos do Tesouro vinham do
imposto inflacionário, que também era cobrado sobre a sociedade, em
particular sobre os pobres. Portanto, essa discussão, e eu acho que você
inclusive escreveu um artigo muito bem feito sobre isso, chamando a
atenção para o fato de que não existem recursos do Tesouro, existem
recursos da sociedade. Quando se diz "cabe ao Tesouro pagar",
significa que o Tesouro tem que dispor de impostos e contribuições ou
aumentar a sua dívida junto à sociedade para fazer esses pagamentos.
Não tem um cofre forte aqui de recursos, que alguém vai lá e toma os
recursos do Tesouro para serem pagos. Ele só repassa recursos para o
resto da sociedade, ou redistribui, em função dos impostos e
contribuições que a própria sociedade lhe entrega. Nesse caso
específico, a discussão relevante é uma discussão que diz respeito ao
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, e, portanto, em princípio, nós
deveríamos explorar todas as possibilidades de procurar resolvê-lo no
âmbito do FGTS.
Rádio CBN – A
idéia da Força Sindical de que o Governo poderia entrar com ações de
empresas estatais para capitalizar o Fundo o senhor acha razoável?
Ministro – A
vantagem desse processo transparente, democrático, de consultas que o
ministro Dornelles vem fazendo com sua competência habitual é exatamente
explorar todas as idéias e possibilidades que surjam dessa discussão.
Como eu não estou diretamente e pessoalmente envolvido nelas, eu
preferiria que você, em algum momento, entrevistasse o ministro Dornelles,
mas eu acho muito positivo que os vários participantes, sindicatos e
outros órgãos da sociedade apresentem soluções e sugestões, que vão
além dessa sugestão simplória de dizer que cabe ao Tesouro pagar,
porque significa dizer que cabe à sociedade pagar. E uma coisa para a
qual eu queria chamar sua atenção é que a distribuição das contas de
depósito do FGTS reflete, na verdade, mais do que reflete a própria
desigualdade da distribuição de renda no próprio País. Um número
expressivo de contas, eu não estou com os números aqui na cabeça, mas
80 a 90% das contas são de trabalhadores com depósitos de R$ 1.000 a R$
1.200. Portanto, ela é um espelho agravado, eu diria, da desigualdade da
distribuição de renda neste País. E esse fator deveria ser levado em
conta no equacionamento desse problema, no pagamento daquilo que foi
determinado pela justiça.
Rádio CBN – Uma
outra coisa, ministro, que está nas primeiras páginas de todos os
jornais de hoje é a previsão, a expectativa do Banco Central brasileiro
de que a gasolina vai cair de preço em abril. O senhor acha que o Banco
Central foi prudente em ficar antecipando isso, porque, se não acontecer,
vai ser uma coisa desagradável, não é?
Ministro – Como
você sabe, eu não gosto de fazer esse tipo de previsão. Qualquer um
pode fazê-lo, porque o Governo anunciou com muita transparência,
através de uma detalhada nota à imprensa, uma longa entrevista coletiva
que eu próprio e o ministro Tourinho concedemos há alguns meses, qual
era a fórmula que o Governo estaria utilizando e que pode ser acompanhado
por qualquer um. Nós dissemos o seguinte: nós temos aqui uma referência
de R$ 55 por barril, e nós explicamos como a eles chegamos. Nós estamos
acompanhando dia a dia o preço, na verdade, que resulta da cotação do
petróleo, o brant, da taxa de câmbio, e vamos comparar a média do
primeiro trimestre, vale dizer de 1º de janeiro deste ano até 31 de
março, nós vamos ter uma média em reais do preço do barril, levando em
consideração o preço internacional e o câmbio. Se essa média ficar
abaixo de R$ 55 por barril, e ela está abaixo hoje, eu acho que em torno
de uns 10% ou mais, nós vamos automaticamente reduzir, nos primeiros
cinco dias de abril, o preço dos derivados de petróleo que não têm
subsídio hoje, que é o caso da gasolina. Deixamos claro que será uma
redução automática. Então, tem muita gente fazendo estimativas sobre o
curso do câmbio daqui até 31 de março, sobre a evolução dos preços
do petróleo, brant, daqui até 31 de março, dia a dia, fazendo suas
hipóteses sobre médias e dizendo "se a média ficar 6,5% abaixo de
R$ 55, portanto, 50 e poucos, vai haver uma queda de tantos por cento no
preço da gasolina". Isso é algo anunciado, não vai ser uma
decisão discricionária do Governo, isso é público já. Qualquer um
pode acompanhar isso e fazer suas estimativas, que envolve a estimativa
sobre o curso do câmbio até lá e a evolução da cotação do brant do
petróleo no mercado internacional.
Rádio CBN –
Pegando hoje, dá R$ 51. O que significa que para R$ 55 tem 7,8% de
diferença.
Ministro – Mas
isso nós só vamos saber depois de fechar o trimestre. Mas o processo é
transparente. Nós anunciamos claramente qual era o método que vai ser
utilizado, que não vai ser uma decisão discricionária do Governo no
princípio de abril. Agora, cada um é livre para fazer suas projeções e
estimativas. Eu não faço isso. Eu digo "vai ser o que der".
Rádio CBN – De
todo o modo talvez o senhor possa acrescentar na sua biografia que foi o
primeiro ministro da Fazenda a anunciar uma redução no preço da
gasolina. De todo modo, ministro, vamos falar da questão de taxa de
juros. Nesse documento do Banco Central sobre o relato da última
reunião, o Banco Central como que anunciou que se a taxa de juros básica
chegar a 14% no final deste ano de 2001 estará tudo bem com as metas de
inflação. Esses 14% acabaram sendo um piso?
Ministro – Não,
eu acho que uma leitura correta da ata da reunião do Copom não autoriza
dizer que eles estão definindo agora, mesmo porque nunca o fizeram, eles
são extremamente cuidadosos em dar qualquer indicação sobre a decisão
que tomarão, se não me engano, em 14 de fevereiro agora. Não teria
sentido anunciar qual vai ser a decisão que tomarão na reunião do Copom
de dezembro. Eu acho que isso são exercícios, são apresentados como
tal, e devem ser lidos como uma indicação de que, dependendo do que
ocorra ao longo do ano na economia internacional, na economia doméstica,
na interação entre as duas, a meta de inflação de 4% para o ano 2001
poderia ser atingida com hipóteses, que são várias outras e não só
essa, de uma taxa de juros nesse nível. Mas eu acho que é muito
importante ler essas coisas como exercícios e não como pré-anúncios de
decisões ou sobre o futuro de uma variável como essa. Vai haver ainda
onze reuniões do Copom daqui até o final do ano, e, como sempre, a
situação será sempre muito bem avaliada em cada uma dessas reuniões.
Agora, eu acho importante que em um mês tenham-se reduzido as taxas de
juros em 1.25%. Há uma expectativa grande, a julgar pelo depoimento do
presidente do FED americano ontem no Congresso de que agora no dia 31, à
luz da desaceleração que surpreendeu a muitos da economia americana,
haja uma nova redução das taxas de juros americanas. Há gente que diz
que haverá mais uma rodada ainda neste ano. A própria desaceleração da
economia americana tem um efeito sobre preços internacionais de
petróleo, dado o peso da demanda deles. Portanto, temos que acompanhar a
evolução desses eventos com atenção. Não dá para definir com
precisão coisas para o final do ano. Eu diria que, seguramente, todas as
indicações são de que nós estamos entrando num novo ciclo de
crescimento. Tenho notado que está claramente ao nosso alcance em 2001 e
2002 termos taxas de crescimento real da economia brasileira num
percentual acima da taxa de inflação. Temos a meta já para o ano que
vem que é 3,5% e devemos ter taxas de crescimento do PIB da economia
brasileira em termos reais superiores à taxa de inflação tanto neste
como no próximo ano – algo que há meio século o Brasil não
experimentava.
Rádio CBN –
Ministro, o senhor permite uma última pergunta?
Ministro – Pois
não.
Rádio CBN – Na
última semana, o Tesouro Nacional vendeu títulos pré-fixados que vencem
em abril de 2003. Abril de 2003 será o quarto mês do mandato do próximo
Presidente da República. Muito bem. Os investidores estão comprando
títulos hoje para receber no mandato do próximo Presidente da
República. Como o senhor interpreta esse fato? Isso quer dizer que os
investidores acham que o próximo presidente seguirá a mesma linha de
política econômica?
Ministro – Não.
Eu acho que foi extremamente importante essa colocação. Eu lembro que o
pagamento é um bullet em abril de 2003, como você disse, quarto mês de
um novo governo, qualquer que ele venha a ser. Eu acho que é um sinal
extremamente importante de uma percepção de que há certas coisas que
neste País, felizmente, começaram a deitar raízes. Por exemplo, existe
uma percepção, que eu espero não estar equivocado, de que a maioria da
sociedade brasileira hoje percebeu claramente que é de seu interesse e
que redunda em seu benefício a preservação da inflação sob controle,
com tudo o que ela implica em termos da preservação do poder aquisitivo
do salário do trabalhador brasileiro. Eu acho que existe uma clara
percepção da importância de questões como a responsabilidade fiscal no
Governo Federal, nos Estados e municípios, independentemente dos partidos
políticos que tenham ganho a eleição. Isso vem no bojo de uma mudança
do regime fiscal. Por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal é um
marco histórico neste País. A percepção de que governos, qualquer que
seja sua coloração político-ideológica, não podem sistematicamente
gastar muito mais do que arrecadam, que não devem fazê-lo. A percepção
da importância da estabilidade macroeconômica, de uma política
econômica responsável, de uma política fiscal responsável, eu acho que
ela vem deitando raízes, gradualmente, é bem verdade, na sociedade
brasileira. Eu acho que os investidores, tanto aqui como no exterior, têm
essa percepção de que o Brasil está ficando um país mais maduro do
ponto de vista político-institucional e mais racional do ponto de vista
econômico, e que, portanto, como acontece em qualquer país organizado do
mundo, em que há eleições, obviamente, uma democracia funcionando, que
partidos políticos se revezam no poder, mas que é um terreno comum, que
constitui responsabilidade básica de qualquer governo, qualquer que seja
sua coloração político-ideológica, minimamente responsável pela
gestão da coisa pública. Então, eu acho que a aceitação de papéis
como esse, que já entram no mandato de um futuro presidente, que ninguém
sabe quem será, representa um reconhecimento de que o País mudou, o
País está mudando, o País continuará a mudar e que é no sentido de um
certo amadurecimento. Em qualquer país organizado do mundo de hoje você
tem mudanças. Os comunistas chegaram ao poder na Itália, os
sociais-democratas na Alemanha, os trabalhistas na Inglaterra, os
socialistas na França, aqui no Chile um socialista chegou ao poder
também, e as pessoas acham que tudo bem, mas existe um compromisso
básico com certas coisas que não são mais sujeitas ao debate
demagógico ou político eleitoreiro que já foram percebidos como sendo
do interesse da maioria. Eu acho que isso está acontecendo no Brasil e eu
espero que se consolide ao longo dos próximos dois anos.
Rádio CBN –
Ministro Pedro Malan, muito obrigado por sua entrevista.
Ministro – Muito
obrigado e boa tarde a todos os ouvintes.
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