Pronunciamentos

10/09/2000

PT   saudações


Pedro Malan
Artigo publicado no jornal O Globo

 

É comovedor acompanhar o esforço de representantes da ala moderada do PT (que felizmente existe) por dissociar, ainda que parcialmente, o partido da proposta de suspensão dos pagamentos das dívidas externa e interna que está obviamente por trás do movimento pelo chamado "plebiscito" informal sobre estes temas.

Não há outra maneira de interpretar a campanha da militância pelo não a perguntas do tipo "o Brasil deve continuar pagando a dívida externa..." e "os governos federal, estaduais e municipais devem continuar pagando a dívida interna aos especuladores?"

A "vitória" do não é um resultado absolutamente previsível, dado que a esmagadora maioria dos "eleitores" deverá ser constituída por três categorias: a) pela militância político-ideológica mobilizada para ser ouvida nessa consulta; b) por aqueles que de boa-fé acreditam que estão seguindo a orientação do Papa sobre o tema da dívida em geral; e c) por aqueles que, talvez também de boa-fé, acham que a suspensão de pagamentos, além de não trazer maiores conseqüências para o país e sua população, teria a grande vantagem de permitir que os recursos assim "liberados" fossem, imediata e automaticamente, utilizados para aplicação em programas sociais e na geração de emprego e renda. Uma idéia tão generosa quanto ingênua e equivocada. As melhores cabeças do PT sabem disso. E algumas o dizem.

No entanto, o próprio presidente do PT, deputado José Dirceu, tentou, em nome do partido, conferir um caráter oficial a esse plebiscito, apresentando, em lº de junho deste ano, um projeto de decreto legislativo nesse sentido. O projeto não teve acolhida no Congresso, tendo sido devolvido ao autor. Mas o PT sempre esteve "empenhadíssimo" na organização do "plebiscito", como reconhecem seu terceiro vice-presidente, seu vice-líder na Câmara e seu líder no Senado, e como se pode depreender de seu site na Internet. É difícil aceitar o argumento de que o PT estava apenas emprestando seu apoio a uma iniciativa e a uma campanha de outrem.

Mas, justiça seja feita, o projeto de decreto legislativo, tal como apresentado ao Congresso pelo presidente do PT, propunha, além da tradicional proposta de rompimento com o FMI (na verdade, de rompimento "dos acordos internacionais junto ao FMI", o que poderia ser interpretado como incluindo os próprios acordos constitutivos do FMI, dos quais o Brasil é um dos signatários originais), mais duas perguntas: se o Brasil deveria realizar uma auditoria de sua dívida externa e se deveria manter os pagamentos da dívida externa. Estas duas perguntas acabaram sendo reunidas em uma só ao final. O projeto de decreto legislativo do PT não fazia referência à agora famosa terceira pergunta, incluída no plebiscito, sobre a dívida interna. Mas isto é mais preocupante ainda, porque significa que, infelizmente, ao que tudo indica, a ala moderada do PT - que é justamente aquela da qual depende a capacidade de o partido apresentar-se ao escrutínio público como alternativa crível e confiável ao exercício do poder no âmbito federal - não foi capaz de prevalecer política e intelectualmente na definição da posição oficial do partido e, menos ainda, na condução geral do processo, apesar de o PT deter a posição hegemônica dentre as inumeráveis correntes oposicionistas do país.

Em resumo, o PT propôs, por meio de seu presidente, a suspensão dos pagamentos da dívida externa com a moderada qualificação de que esta suspensão só teria vigência enquanto não estivesse concluída a auditoria pública (que deveria ser iniciada em um prazo de até 90 dias após a conclusão do plebiscito). Caso a vontade popular assim o determinasse, é bem verdade, mas não é menos verdade que o PT estava empenhadíssimo em tentar fazer com que a vontade popular assim o determinasse. Caso a vontade popular determinasse a revisão das condições de pagamento da dívida, caberia ao Congresso Nacional deliberar sobre as novas condições no prazo de até 90 dias. O que aconteceria nesse ínterim é algo que, aparentemente, não chegou a preocupar o principal partido de oposição. Talvez por pensar, como infelizmente o faz com freqüência, que isto seria simplesmente um problema do Governo e para o Governo, e não do país e para o país e sua população.

A resolução do diretório nacional do PT de 19 de agosto de 2000 é curiosa. Chama-se "Resolução do Diretório Nacional do PT sobre o Plebiscito Nacional da Dívida Externa" e orientou os militantes petistas, especialmente os candidatos, a promoverem divulgação da consulta popular e assegurarem a instalação de urnas em todas as sedes partidárias, ocupar espaços nos meios de comunicação e promover lançamentos nas câmaras e assembléias legislativas, além de orientar a militância sobre como votar. Como a resolução refere-se apenas à dívida externa, omitindo a questão da dívida interna, e como a ala dita moderada do PT insiste em afirmar que o PT "não defende e nunca defendeu a moratória da dívida interna", dever-se-ia esperar que o diretório nacional do PT, na sua resolução, orientasse os militantes a votar pelo sim no que diz respeito à terceira pergunta, pois não?

Alguém ouviu falar nisso? Àqueles que acreditam que o PT não está propondo a suspensão dos pagamentos da dívida externa, mas apenas uma auditoria pública dessa dívida, peço encarecidamente que leiam mais uma vez os termos em que a pergunta foi colocada na cédula do "plebiscito": "O Brasil deve continuar pagando a dívida externa sem auditoria?"

De fato, como interpretar a campanha da militância petista pelo não às três perguntas do "plebiscito", com seu previsível resultado? Seus governadores e seus prefeitos, legitimamente eleitos pelo voto popular, foram consultados? Seus candidatos a prefeito o foram e/ou estão expressando essas posições em suas campanhas "federalizadas" contra o Governo?

Estas são perguntas relevantes que o partido - enquanto partido - precisa em algum momento responder. Como escreveu há poucos dias um dos coordenadores da terceira campanha de Lula à Presidência, em 1998 (G. Mantega): "Cabe às forças emergentes explicitar em tempo hábil suas intenções com a dívida interna... e tudo o mais de seu programa de governo." E conclui, talvez desconhecendo a resolução de seu diretório nacional: "Não haverá confisco de poupança, calotes de dívidas ou surpresas desta natureza, a menos que os eleitores façam opção explícita por essas perigosas bandeiras." Como explicar ao distinto público que o PT está "empenhadíssimo" na campanha por essas mesmas perigosas bandeiras nesse "plebiscito"? Seu líder na Câmara (A. Mercadante) assegura, em artigo escrito para um jornal especializado em economia, que o PT "não defende e nunca defendeu a moratória da dívida interna". Se isto é verdade, é de se esperar, portanto, que o número de não à terceira pergunta - que propõe exatamente isto - seria muito, mas muito menor que o número de não às outras perguntas, pois não? Afinal, se o PT é contra o não a esta pergunta, os resultados da consulta, dado o peso do partido e de sua militância, haverão de expressar este fato. Esperemos o resultado, a ser anunciado com pompa e circunstância.

Termino explicitando, mais uma vez, a minha opinião sobre esse "plebiscito" e, também mais uma vez, voltando a apresentar uma pergunta à ala moderada do PT, aquela que pensa em chegar ao poder federal pela via democrática e em democraticamente exercê-lo.

A minha opinião sobre o "plebiscito" tal como formulado, com suas enviesadas perguntas à militância, é a seguinte: trata-se de uma idéia fora de lugar (o Brasil não é um país miserável, altamente endividado, cujas dívidas estão sendo perdoadas), fora de tempo (a discussão sobre moratórias teve lugar 15, 20 anos atrás, e hoje o problema não tem a mesma natureza e dimensão), fora de foco (há problemas muito mais importantes a enfrentar no país) e, portanto, fora de propósito.

A pergunta que faço, há anos, à ala moderada do PT parte de uma constatação: comunistas italianos (d’Alemma), socialistas franceses (Jospin), social-democratas alemães (Schroeder), trabalhistas ingleses (Blair), socialistas chilenos (Lagos), oposições argentinas (De la Rúa) e mexicanas (Fox), todos, sem exceção, tanto ao se apresentarem ao escrutínio popular em sua eleições, quanto uma vez eleitos e no exercício do poder, deixaram absolutamente claro que eram oposições e que mudariam muita coisa, mas reafirmaram seus compromissos básicos com questões que há muito são vistas como de interesse da maioria, como, por exemplo, a preservação da inflação sob controle, o respeito a restrições orçamentárias e o controle do déficit público. Estas questões fazem parte hoje, no mundo organizado, de um terreno comum, compartilhado por todos. Não são questões sujeitas ao debate político-ideológico. São consideradas obrigações básicas de qualquer governo (de qualquer coloração) minimamente responsável pela gestão da coisa pública.

Por que só aqui no Brasil, dentre os países de alguma expressão econômica e política no mundo de hoje (desenvolvido e em desenvolvimento), ainda se encontra amplo espaço para o discurso de que estas questões são idéias neoliberais impostas por interesses alienígenas, contrários à soberania nacional, ditames do FMI e de forças ocultas expressas em consensos definidos em capitais de potências hegemônicas, como no "manifesto" do bando que assaltou um destacamento da Polícia Militar em Carapebus, no Norte do Estado do Rio de Janeiro?

Por que um dos coordenadores da terceira campanha de Lula à Presidência (1998) considerou minha modesta sugestão de que as oposições responsáveis estariam prestando um serviço ao país - e a si próprias - se declarassem formalmente, alto e bom tom, e de preferência por escrito e sem tergiversações, qualificações, caveats e que tais, que, se eleitos fossem, estariam comprometidos com a preservação da inflação sob controle, e com o respeito a restrições orçamentárias, como uma "capitulação das idéias de oposição"?

Que o discurso exista em alguns círculos mais radicais não é o problema. O problema é quando o principal partido de oposição, que afirma não pretender preservar esta posição eternamente, dá ampla guarida a estas "teses" em seu seio.

E que estas "teses" dêem o tom, como na recente campanha por esse esdrúxulo, previsível e inconseqüente "plebiscito", pelo qual o PT tanto se empenhou.

PEDRO S. MALAN é ministro da Fazenda

 

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