03/09/2000
Para
entender a dívida externa
Pedro Malan
Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo
A idéia de que a suspensão
do pagamento da dívida externa do Brasil resultaria em mais dinheiro para
educação, saúde e outros programas sociais e ajudaria a acelerar o
desenvolvimento econômico do País - como apregoam o PT, a CUT, o MST e
os demais organizadores do chamado "plebiscito da dívida
externa" -, só pode encontrar guarida na militância dessas
entidades e nos segmentos da população ou outras entidades que, apesar
de movidas por boa fé, infelizmente ainda desconhecem o tema.
Os que se sentem seduzidos por
essa idéia demonstram desconhecer, em primeiro lugar, qual é o real
tamanho da dívida externa brasileira. Dão provas de que também não
sabem a verdadeira composição da nossa dívida externa. O que nela, por
exemplo, corresponde a dívidas do setor público (governos da União, dos
Estados e dos municípios, com suas empresas estatais) e o que representa
dívidas do setor privado (empresas nacionais e estrangeiras)? Bastaria
examinar, no tamanho e na composição da dívida, a parte que cabe ao
governo para entender como são frágeis os argumentos usados para
fundamentar tal "plebiscito" ou para justificar a idéia
claramente nele contida de se dar calote enquanto se realiza "uma
auditoria pública desta dívida".
Na verdade, a dívida externa
brasileira deixou de ser problema há muito tempo. Por vários motivos. A
dívida não é exagerada em relação ao tamanho da economia do País. Além
disso, está em sua maior parte em mãos do setor privado. Ela vence
essencialmente no médio e no longo prazos, e o Brasil tem acesso ao
mercado financeiro internacional em condições crescentemente mais favoráveis.
A dependência da economia brasileira a empréstimos e financiamentos
internacionais vem caindo, pois o déficit em conta corrente está
diminuindo e vem sendo mais do que coberto por investimentos diretos
estrangeiros.
A dívida externa bruta do
Brasil somava US$ 231,3 bilhões em maio deste ano.
Esse valor corresponde a 41%
de todas as riquezas do país, expressas no Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro. Essa proporção, 41% do PIB, de forma alguma inviabiliza ou
ameaça, segundo qualquer critério internacionalmente conhecido, a
continuidade do desenvolvimento de um país como o Brasil, que conta com
uma estrutura produtiva considerada das mais diversificadas e avançadas
entre os países em desenvolvimento.
Um ponto muito importante é
que a maior parte dessa dívida, US$139,2 bilhões ou 60,2% do total,
pertence ao setor privado - leia-se empresas brasileiras e estrangeiras
quando no Brasil -, não ao governo. Do total da dívida externa privada,
cerca de 83,5% correspondem a dívidas de médio e longo prazos, que
vencem ao longo de vários anos. Apenas 16,5% da dívida privada
constituem dívida de curto prazo e, dessa parcela, a maior parte
corresponde a linhas de crédito para o financiamento do comércio
exterior, renovadas periodicamente.
Não se imagina que alguém de
bom senso seja capaz de sugerir que as empresas privadas dêem calote nos
seus empréstimos, ou que seja do interesse delas tomar uma atitude
dessas. Ao contrário, a dívida foi contratada para impulsionar e
modernizar a atividade empresarial, melhorar a competividade das empresas,
expandir a renda e o emprego.
O setor público não-financeiro
- governo federal, estados, municípios, bem como suas empresas - responde
por US$ 92,2 bilhões, ou 39,8% da dívida externa bruta. Considerando-se
a dívida externa líquida do setor público, isto é, deduzindo-se da dívida
bruta as reservas internacionais do Banco Central do Brasil (US$ 28,6 bilhões
em 31 de maio deste ano), a dívida cai, na verdade, para US$ 63,6 bilhões,
menos do que 10% do PIB.
O grosso da dívida do setor público,
cerca de 96%, é dívida de longo prazo.
Essa dívida vem sendo
refinanciada em prazos e condições cada vez mais favoráveis. A título
de ilustração, o Tesouro Nacional realizou, em agosto, uma inédita
emissão internacional de bônus, no valor de mais de US$ 5 bilhões, com
prazo de vencimento em 40 anos, com o propósito de trocá-los por títulos
mais antigos, e com prazo de vencimento e custo menores para o país.
A dívida de curto prazo (até
um ano) do setor público é relativamente pequena e corresponde apenas a
4% do total da dívida pública. Toda essa dívida de curto prazo se
refere a linhas de financiamento de importação da Petrobrás, também
renovadas periodicamente.
Propostas de moratória da dívida
externa costumam alimentar-se do mito de que os recursos liberados com a
suspensão do pagamento da dívida externa poderiam ser utilizados em
outras áreas, consideradas mais prioritárias.
Essa concepção, no entanto,
não corresponde à realidade. Se for considerado inadimplente, o Brasil
perderá crédito no exterior, pagará mais caro por qualquer empréstimo
e haverá fuga de capitais para outros lugares, o que reduz
inapelavelmente a quantidade de recursos disponíveis para o nosso País.
É exatamente assim que ocorre
com as pessoas que não honram os seus compromissos. Ao examinar o seu orçamento
doméstico, alguém poderia achar, de boa fé, que, se suspendesse o
pagamento das prestações de um financiamento, sobraria dinheiro para
usar em outras despesas, e não lhe aconteceria mais nada? É claro que
quem fizer isso estará correndo grandes riscos: passará a ter cadastro
negativo no SPC, Serasa ou outras instituições ou empresas de controle
de crédito, e não conseguirá mais empréstimos ou financiamentos. Ficará
com o nome sujo na praça.
É assim também com as
empresas e com os países. É até mais grave com os países: no caso da
atitude isolada de uma pessoa, o único prejudicado seria essa mesma
pessoa; no caso de países, entre outros prejuízos, milhares de pessoas
ficariam privadas de financiamentos em condições mais favoráveis
oferecidos, por exemplo, pelo BID e pelo Banco Mundial, inclusive para as
áreas sociais.
Não é por outro motivo que
até hoje não se tem conhecimento de país que tenha decretado moratória
de sua dívida e em seguida tenha ingressado em um ciclo de prosperidade.
O que se vê é justamente o contrário: com a moratória, agravam-se os
problemas econômicos e sociais de um país.
A suspensão do pagamento
justifica-se apenas quando a dívida externa representa um ônus
desmedido. Esse é o caso de um conjunto de países pobres altamente
endividados, cujas economias não prosperaram, seja porque foram
devastados por guerras civis, seja porque foram atingidos por condições
meteorológicas adversas ou outros fenômenos que afetaram negativamente o
seu sistema produtivo.
Entre esses países
encontram-se, por exemplo, Moçambique e Nicarágua. O primeiro tinha uma
renda per capita de US$ 230, e o segundo, uma renda per capita de US$ 445,
em 1988. No mesmo ano, a dívida externa de Moçambique correspondia a
214% do produto interno bruto, e a dívida externa da Nicarágua, a 280%
do produto interno bruto. A dívida externa bruta do Brasil, como já se
viu, representa 41% do PIB, e a dívida externa líquida do setor público
não chega a 10% do PIB.
A comunidade internacional,
inclusive o Brasil, reconhece que, nesses casos como o de Moçambique e
Nicarágua, não há como pagar o serviço da dívida sem inviabilizar
qualquer tentativa de recuperação econômica. Por isso, o Brasil também
apóia o perdão da dívida externa para esses países, e inclusive já
perdoou a dívida de Moçambique e a da Nicarágua.
Na vida dos países, como na
das pessoas, a atitude correta a adotar, quando se está endividado, é
poupar: reduzir gastos e diminuir o risco de incorrer em novas dívidas.
É isso o que estamos fazendo no governo, com uma política fiscal sólida
que reduza a necessidade de financiamento. Pagar a dívida é uma obrigação.
Deixar de fazê-lo é ficar fora da lei, é atuar sem ética, é condenar
o país à pecha de caloteiro e fechar definitivamente as portas para
novos financiamentos. O Brasil é a nona economia do mundo. Precisa ter
isso em conta em suas atitudes. Precisa dar o exemplo, lutar pela regra da
lei, e não pela desordem.
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