04/08/2000
Entrevista do ministro
Pedro Malan ao jornal Valor Econômico
"Estamos entrando num
novo ciclo" - Pedro Malan
Para o ministro da Fazenda, o cenário
macroeconômico mostra que a recuperação é consistente
"Nunca acreditei na divisão entre
o econômico, o político e o social, como se fossem compartimentos
estanques"
"Desafio é criar instrumentos que
permitam o aumento da poupança privada para financiar investimento"
Cláudia Safatle | De Brasília
Malan: "Vamos ter uma média
de crescimento em 2000 a 2002 seguramente superior a 4% ou 4,5 %".
Pedro Malan, 57 anos, completa, dia 13 de
agosto, 7 anos de governo, entre a presidência do Banco Central e a pasta
da Fazenda. É o terceiro na lista dos ministros que mais tempo ocuparam o
comando da Fazenda desde 1822, só ficando atrás de Artur Souza Costa, no
governo Getúlio Vargas, e Delfim Netto, no período militar.
Participou da concepção do Plano Real.
Assistiu ao desmanchar do regime que defendeu, de câmbio quase fixo, em
janeiro de 1999, depois de vivenciar as crises da Ásia, em 1997, e da Rússia,
em 1998. Ajudou a pilotar os momentos dramáticos da transição para o
regime de câmbio flutuante. Teve que buscar junto ao Fundo Monetário
Internacional uma ajuda financeira de emergência de US$ 41 bilhões, em
meio a uma sangria sem precedentes de reservas cambiais, e um programa de
ajuste fiscal que, pela primeira vez na história das relações do Brasil
com o FMI, foi rigorosamente cumprido. Bem comportado, o governo
conseguiu, não sem muita negociação, acertar uma folga fiscal de cerca
de R$ 4 bilhões para 2001, no acordo com o fundo.
Hoje, mais tranqüilo, Malan pode anunciar
que a economia, finalmente, entrou na rota do crescimento. O aumento do
Produto Interno Bruto, porém, ainda não será muito superior a 4% ou
4,5% nos próximos três anos. Para crescer a taxas mais exuberantes, é
preciso remover vários constrangimentos, admite. A economia, ressalva, não
é imune às turbulências políticas. Em entrevista ao Valor, o ministro
prevê um novo ciclo econômico e adianta que os juros vão cair, mas
ainda não para níveis internacionais. E deixa claro que a reforma tributária
em discussão não é a que ele desejava.
Valor: A economia está,
finalmente, na trilha do crescimento sustentado?
Malan: São inegáveis os
indicadores de uma retomada sustentada do crescimento, sem inflação e
com uma situação também sustentável do balanço de pagamentos a médio
e longo prazos. Eu acho que isso é uma expressão das mudanças
estruturais pelas quais vem passando a economia brasileira ao longo dos últimos
anos. Uma mudança que só foi possível por conta do fim da hiperinflação
e do compromisso desse governo com a preservação da estabilidade
macroeconômica. Vamos ter uma média de crescimento em 2000 a 2002
seguramente superior a 4% ou 4,5 %.
Valor: Isso é
suficiente?
Malan: É a taxa possível
e representa um enorme avanço em relação à seqüência de crises que nós
tivemos desde início de 95 no México, em 97 na Ásia e, em particular, a
crise associada à moratória russa e suas conseqüências no final de 98.
Valor: Mas trata-se de
uma retomada firme?
Malan: É consistente. Ela
se expressa na retomada do investimento direto e no crescimento das
exportações de manufaturados, apesar de estarmos tendo alguns problemas
de commodities derivados de deterioração dos termos de troca. As metas
de inflação vêm sendo cumpridas e, na parte macroeconômica, temos não
só o cumprimento das metas fiscais trimestrais já há praticamente 8
trimestres, mas mais importante que isso, temos um processo de mudança do
regime fiscal que vai permitir consolidar esses ganhos de uma maneira mais
duradoura.
Valor: E as restrições
das contas externas?
Malan: Na área do balanço
de pagamentos, eu acho que os efeitos das mudanças estruturais dos últimos
anos, em termos da produtividade, do aumento da competitividade, estão
ficando cada vez mais evidentes. O fluxo de investimento direto é uma
expressão da percepção dessa capacidade de competir olhando o futuro da
economia.
Valor: O que é
preciso para crescer a taxas mais exuberantes?
Malan: O grande desafio é
a necessidade de criar instrumentos que permitam o aumento da poupança
privada doméstica para o financiamento de investimento privado a médio e
longo prazo. É todo um trabalho de desenvolvimento do mercado de
capitais, de maior eficiência na estrutura de intermediação financeira
que também só é possível no quadro de uma economia de baixa inflação.
Valor: Há também
problemas de infra-estrutura, não?
Malan: Eu acho que é
essencial vencer a restrição da poupança privada doméstica para que
possamos ter taxas de crescimentos sustentáveis superiores a esses 4% a
4,5 %, que vai ser a média dos próximos três anos. Agora, você tem
toda razão quando diz que essa questão do crescimento vai muito além da
chamada área macroeconômica. Essa é a razão pela qual nós investimos
tanto tempo na questão da infra-estrutura, na logística de transportes,
energia, portos, telecomunicações. Essa foi a razão que nos levou ao
Programa Plurianual de Ação (PPA), a identificação de prioridades de
investimentos do setor público, das parcerias público-privado e a
privatização é exatamente uma preocupação de criar as condições de
infra-estrutura física e, agora, a virtual.
Valor: Mas esses avanços
são suficientes?
Malan: Acho que o Brasil,
dentre os países em desenvolvimento, está relativamente bem posicionado
para se beneficiar dos efeitos dessa revolução na informática e
telecomunicações que estão por trás do ciclo de crescimento mais longo
que se tem desde do pós-guerra da economia americana. Nesse sentido,
estamos entrando num novo ciclo, sim.
Valor: O Sr. falou de
desenvolvimento do mercado de capitais. Há uma certa frustração na
venda de ações da Petrobras. Isso prejudica o projeto de privatizar
Furnas de forma pulverizada?
Malan: Olha, nos EUA
existem mais de 80 milhões de cidadãos norte-americanos que têm ou ações
ou cotas de fundos. Eles não chegaram a esse número da noite para o dia.
É um processo que envolve também algum tipo de mudança cultural. O
desenvolvimento de um mercado de capitais exige um mínimo de
estabilidade, não só econômica, mas também política e institucional.
Acho que isso é um processo que vai se desdobrar.
Valor: Os juros teriam
que ser menores para incentivar o mercado de risco?
Malan: Eu acho que nós
ainda temos uma taxa de juros real acima do que seria uma taxa desejável
de equilíbrio. Essa é a razão pela qual nós insistimos tanto no ajuste
fiscal e na mudança do regime fiscal.
Valor: O que seria um
crescimento ideal para o país?
Malan : Acho que o
potencial de crescimento da economia brasileira a médio e longo prazo é
uma taxa média superior a 4% , 4,5%. Mas isso depende dos fatores
macroeconômicos a que eu me referi. Do lado do setor privado esse
processo vem tendo lugar e terá continuidade. O que mais me preocupa é o
setor público.
Valor: Em que sentido?
Malan : Como aumentar a
eficiência e a qualidade do gasto público, a ação regulatória do
estado. Além das áreas de infra-estrutura física há, também, a
infra-estrutura humana, investimento em gente, em formação, onde o
governo vem fazendo enorme esforço que começa a aparecer nas estatísticas.
Valor: A balança
comercial começou a detectar pressão nas importações de bens de
consumo, por causa do crescimento. Preocupa?
Malan: É um processo
natural. As importações servem, de certa forma, para mapear o tamanho e
as potencialidades do mercado doméstico a um ponto em que, em algum
momento, torna-se rentável um investimento direto para produzir
determinado produto aqui, com a vantagem adicional do Mercosul, que é um
mercado de US$ 1 trilhão.
Valor: A própria taxa
de câmbio flutuante regularia isso?
Malan: Sem dúvida.
Funciona como amortecedor desses riscos.
Valor: Se na economia
as coisas até que vão bem, na política estão ruins. Há risco de uma
deterioração política contaminar a economia?
Malan: Nunca acreditei
nessa divisão entre o econômico, o político e o social, como se fossem
compartimentos estanques. As coisas têm uma interligação que não é
mecânica, mas acaba afetando. O risco que acho que existe, a essa altura,
está cada vez mais ligado à percepção de continuidade pós-2003. Que
tipo de elementos de continuidade e de mudanças serão feitos pela nova
administração que for eleita em outubro de 2002. Acho que as incertezas
são muito mais ligadas a isso que propriamente às intrigas e plantações
que freqüentemente ocupam parte talvez excessiva do noticiário diário.
Valor: O alívio
fiscal negociado com o FMI ajuda a impulsionar o crescimento em 2001?
Malan: Pode ajudar na
medida em que se consolide a percepção de que há espaços para isso sem
comprometer a solvência do setor público. Acho que pode ajudar a abrir
espaço para uma taxa de juros real mais próxima do equilíbrio. Hoje
estamos com uma taxa acima do que seria desejável, a meu ver.
Valor: Uma
taxa de juros real de equilíbrio seria semelhante à do mercado
internacional ?
Malan: Acho que existem
certas deficiências estruturais na economia brasileira, ainda por
superar, nas áreas de infra-estrutura, investimento em capital humano,
consolidação político- institucional, previsibilidade das regras que
regem o funcionamento dos três poderes, a questão das nossas mazelas
sociais. Temos ainda muito o que caminhar. Acho que nossa taxa de juros
real hoje é mais alta do que podemos e devemos ter no futuro. Mas não
diria que ela deve ser igual à taxa de juros real que prevalece em
economias que há muito já equacionaram esses problemas. Isso sugere que
a taxa de juros real para esse contexto é, talvez, um pouco acima da taxa
de juros real de países mais organizados.
Valor: Há
uma certa dificuldade em crer que a reforma tributária vá adiante. Desta
vez é prá valer?
Malan: Do nosso ponto de
vista e no que depender de nós, governo, é. Agora, esse é um tema
complexo. O Brasil é o único país de dimensão econômica relevante no
mundo que tem um imposto sobre valor agregado não federal. São 27
legislações diferentes de ICMS. Mas demos um passo adiante na discussão
com o entendimento de termos uma única legislação nacional para o ICMS.
Não era nossa proposta original, defendemos a idéia de um imposto sobre
valor agregado federal, com legislação federal, justiça federal,
automaticamente compartilhado com Estados, que não foi possível. Não
houve apoio político para caminharmos nessa direção, que permitiria
eliminar vários outros tipos de impostos e contribuições. Não foi possível,
temos que ser realistas, e acho que é um avanço termos uma legislação
unificada e reduzirmos a incidência em cascata das contribuições que
recaem sobre o faturamento. Estamos nos propondo a deduzir custos e
despesas de faturamento ou receita para chegar a uma base de cálculo que
seja o mais próximo possível do conceito de valor agregado. Introduzimos
na constituição o aproveitamento de créditos, que tem o mesmo propósito
. E reduzimos de cinco para três anos o prazo de implementação desse
dispositivo.
Valor: Se aprovado,
este será um bom sistema tributário?
Malan: Insistimos desde o
inicio que essa discussão deveria ser sobre reforma fiscal. A razão pela
qual temos problemas tributários é porque temos demandas crescentes por
gastos no Brasil, todas aditivas, e portanto temos essa situação
paradoxal: a mesma sociedade que pede ao governo que aumente seus gastos
tem resistências, também legitimas, à contrapartida dessa demanda, que
é o aumento dos impostos.
Valor: Por que o
governo não conduziu essa discussão para reforma fiscal e não apenas
tributaria?
Malan: Nós tentamos. Em
outubro de 97 o então secretário- executivo Pedro Parente apresentou uma
proposta do ministério da Fazenda, que tratava o lado do gasto e os
recursos para financiá-lo. Países organizados colocam nessa discussão
os dois lados – os usos e as fontes – e as demandas e pleitos por
maiores gastos são discutidos e analisados à luz de suas implicações,
para o aumento dos impostos e contribuições ou para o aumento da dívida.
Ninguém fala na inflação, que é a forma como fingíamos que resolvíamos
esse problema no passado. Acho que é um sinal de maturidade no debate político
e racionalidade no debate econômico os países que são capazes de juntar
as duas coisas e não considerar que são discussões que não guardam
relação em si.
Valor: Porque parou a
privatização?
Malan: Não acho que tenha
parado. Contamos com a privatização do Banespa, que está dependendo de
uma discussão jurídica e espero que a ação seja julgada muito breve
pelo STF. O mesmo se aplica ao IRB. A parte elétrica, acho que vai avançar
depois de tomada a decisão de pulverização no caso de Furnas.
Valor: Mas mudou a
concepção de privatização...
Malan: Acho que houve duas
coisas. Primeiro, o desejo de explorar a potencialidade do desenvolvimento
do mercado de capitais, através de vendas mais pulverizadas; e a outra, a
busca de uma forma mais eficaz para lidar com certas resistências.
Valor: Foi uma parada
para repensar o modelo?
Malan: Acho que já houve
a parada, já foi repensado e agora vamos retomar.
Valor: Pode haver
problemas na transição se, por exemplo, houver candidatos que defendam a
renegociação da dívida interna?
Malan: Acho que isso é um
equívoco, porque a idéia da negociação voluntária significa que pode
ou não dar resultado e o simples enunciado de que isso será feito tem
que ter um plano de contingência para o caso da tentativa de negociação
ser infrutífera. Mas estou seguro que, quando se move para fora do
discurso do palanque, puramente político, quando as pessoas se defrontam
com as responsabilidades da gestão da coisa pública, não há como fugir
de certas realidades derivadas das quatro operações. A mudança do
regime fiscal impõe restrições e responsabilidades que não se resolvem
com discursos puramente políticos.
Valor: O governo vai
quitar a dívida de US$ 1,8 bilhão que o país ainda tem com o FMI?
Malan: É claro que não teríamos
dificuldade em quitar essa dívida, mas como lidamos com percepções,
isso poderia ser interpretado como duas coisas: primeiro, como um sinal de
que, de maneira abrupta, o Brasil decidiu terminar com o acordo com o FMI
que cobre 1999-2001. Que teríamos decidido abandonar o diálogo e o
programa. Não vejo, portanto, vantagens. Vi vantagens no pagamento
daquele empréstimo de emergência, que era caro. A missão do FMI está
concluindo sua atividade aqui. A avaliação que faz da economia
brasileira é extremamente positiva e isso estará refletido no relatório
que fará, o que é bom para nós dadas as implicações que uma avaliação
do fundo sobre o Brasil tem sobre o risco Brasil.
Valor: Seria o caso
de, nesse momento de abundância de fluxo de capital, acumular reservas?
Malan: É discutível. Num
regime de taxas flutuantes, o nível de reservas internacionais é muito
menos importante do que num regime de câmbio administrado, em que você
tem que defender uma determinada taxa ou faixa de câmbio. Temos um piso
no bojo do acordo com o FMI, de US$ 25 bilhões, e estamos com US$ 29 bilhões.
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