28/06/2000
Transcrição do anúncio
feito pelo Ministro da Fazenda, Pedro Malan, da meta de inflação para
2002 e da nova TJLP
Sem Revisão do Autor
Boa tarde. Eu tenho dois anúncios a fazer.
Acabou de terminar a reunião do Conselho Monetário Nacional, e o Dr.
Gerardo Fonteles e o Dr. Sérgio Darcy explicarão os outros votos. Eu
queria tratar de dois assuntos: a fixação da meta de inflação no ano
2002 e a decisão sobre a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), que tem vigência
a partir de 1º de julho, quando entrará no seu sétimo ano.
Foi nesta sala que, há
pouco mais de um ano, nós anunciamos a fixação das metas de inflação
para 1999, 2000 e 2001. Naquela oportunidade, expliquei as razões que nos
levaram a adotar um sistema, expliquei que há pelo menos quatro formas de
estruturas de condução de política monetária – uma que é utilizada
para países que tentam sair de um processo hiperinflacionário, no qual nós
estávamos, uma taxa média anual de mais de 1.000% entre 1988 e 1993, ano
em que chegou a 2.700%, e chegou a 5.000% nos doze meses que antecederam o
lançamento do Real. Há maneiras de conduzir a política monetária, e
uma delas é utilizar o câmbio como âncora para o processo de formação
de expectativas de custos futuros para a inflação, que nós tínhamos
abandonado depois que ele tinha cumprido seu papel de eliminar a
hiperinflação da cena brasileira, e que vínhamos desvalorizando o Real,
em termos reais em relação ao dólar em 1997 e 1998, uma desvalorização
de 12%, e que infelizmente tivemos eventos externos associados à crise
asiática, à crise russa, à falência de em grande hedge fund americano
nos levaram à flutuação do real em meados do mês de janeiro de 99, e
que nós tínhamos decidido adotar um sistema de metas inflacionárias
como mecanismo de condução da política monetária e o processo de formação
de expectativas quanto ao curso futuro da inflação. Portanto, o câmbio
não cumpriria mais o papel que havia cumprido, e muito bem, no período
dos anos iniciais do real.
O segundo mecanismo
conhecido de fixação de condução de política monetária é o sistema
que adotam aqueles que são monetaristas. Nós não somos monetaristas e,
portanto, não acreditamos que exista uma relação estável entre um
agregado monetário, chame-se M1, M2, M3 ou M4, e a taxa de inflação e o
processo de formação de expectativas de inflação. Portanto, não
usamos um sistema que outros países usam, que é usar um agregado monetário
como referência no processo de condução da política monetária e formação
da expectativa de inflação.
Dissemos, também, que
alguns bancos centrais – o exemplo que é mais conspícuo é o FED
americano – adquiriram ao longo de muito tempo aquilo que eu chamo de
credibilidade angariada, que é o fato de que, sem nenhum anúncio de
nenhum objetivo, de nenhuma meta, deixaram claro o objetivo inarredável
de manter a inflação sob controle, sem precisar fazer qualquer tipo de
anúncio. Através de sua ação discricionária, vêm fazendo com competência
há décadas e adquiriram essa credibilidade.
Nós dissemos que estávamos
adotando um sistema de metas inflacionárias, que é uma
discricionariedade restringida, e ela vem sendo coroada de êxito até o
momento. O Brasil foi o primeiro país em desenvolvimento a adotar esse
sistema. Nós fixamos 8% em 1999, e todos os índices de preços ao
consumidor no ano passado ficaram entre 8,3% e 8,9%, que foi o IPCA. Este
ano nós vamos cumprir a meta de 6% para o IPCA, e vamos cumprir a meta de
4% para 2001.
Ao anunciar hoje aqui, ao
anunciar a meta para 2002, eu queria reiterar mais uma vez que taxas de
inflação do tipo que nós estamos experimentando neste País nos últimos
anos, o Brasil só conheceu há meio século, no início dos anos 50.
Desde então, tivemos, na virada dos 50 para os 60, uma inflação entre
15 e 20%, o mesmo na virada dos 60 para os 70, 100% na virada dos 70 para
os 80, 1000% na virada dos 80 para os 90, e estamos agora com taxas de
inflação que este País não experimentava há meio século. E estamos
comprometidos em preservar a inflação sob controle. Volto a insistir, não
como um fim em si mesmo, não como um único objetivo do governo, mas como
um meio para que outros objetivos, mais ou tão mais importantes, possam
ser alcançados.
Nós esperamos não estar
equivocados ao notar que, na nossa avaliação, é isso que se espera não
só de nós ou de qualquer governo minimamente responsável pela gestão
da coisa pública, que é a preservação da inflação sob controle, que
é a preservação do poder aquisitivo do salário do trabalhador
brasileiro. E nós queremos dar uma clara indicação do nosso compromisso
de manter a inflação numa trajetória declinante, esta mesma que vem
tendo lugar em 99, 2000, e que terá lugar em 2001. E agora para 2002, nós
queremos indicar que pretendemos que essa trajetória declinante de inflação,
que é uma expressão do nosso compromisso com a relação estabilidade de
preço, que, volto a dizer, é a relativa estabilidade do poder de compra
do salário do trabalhador brasileiro, possa ser confirmada.
Portanto, há discussões técnicas.
Esse número que vou anunciar agora é determinado pelo governo, não pelo
Banco Central, que é o encarregado de conduzir a política de forma
dirigida para atingir o alvo, a meta de inflação anunciada. Nós estamos
mantendo o mesmo intervalo de + 2 e – 2 pontos percentuais. Eu quero
aqui reiterar as razões que nos levaram a isso, que são importantes.
A primeira delas é que, à
diferença de todos os países que utilizam o sistema de metas inflacionárias,
o Brasil não trabalha na fixação da meta com o conceito de núcleo
inflacionário, ou inflação subjacente. Esses países fazem algumas
exclusões ou correções do índice de preços convencional para lidar
com certos tipos de preços mais voláteis, como por exemplo a energia,
hortifrutigranjeiros e coisas dessa natureza. Nós decidimos não criar um
novo índice, um novo índice de núcleo inflacionário ou inflação
subjacente, e esta é a razão pela qual temos o intervalo + 2 e – 2,
que é um pouco maior que o intervalo predominante, em torno de um ponto
percentual para cima e para baixo, nos países que usam o conceito de núcleo,
que é uma volatilidade menor do que o índice convencional de inflação.
Então, está mantido o intervalo de + 2 e – 2, mas o nosso objetivo, o
objetivo que o Banco Central buscará, definido pelo governo na linha
dessa interpretação de que este é o desejo da sociedade e indicando que
nós queremos uma taxa de inflação em 2002 menor do que em 2001, é que
nós estamos anunciando hoje a meta de inflação de 3,5% para 2002. A
meta para anos subsequentes será anunciada posteriormente.
O outro anúncio que eu
gostaria de fazer é que a TJLP, que passa a ter vigência a partir de 1º
de julho, está sendo também reduzida, coerente com esta visão nossa de
melhoras dos fundamentos da economia brasileira e trajetória declinante
da inflação. Ela hoje é de 11%. Vocês sabem como nós estávamos
determinando a TJLP: levávamos em conta a inflação projetada, prevista
para o futuro e, no caso aqui a inflação prevista para os próximos 12
meses, usando o sistema de metas de inflação, são dois trimestres de 6%
e dois trimestres de 4%. Portanto, a taxa média de inflação projetada
para os próximos 12 meses é em torno de 5%, e a essa taxa projetada para
os próximos 12 meses nós estamos adicionando a nossa avaliação do
risco Brasil, numa perspectiva não imediatista, mas numa perspectiva de médio
prazo. E esse risco Brasil era, nessa taxa, de 11%. Quando foi definida,
ela tinha dois componentes: um era 5,5% de inflação, que eram três
trimestres a 6% e um a 4% - essa média ponderada dá 5,5% - e mais 5,5%
de risco Brasil de médio prazo. Essa soma dava 11%.
Agora, a partir de 1º de
julho, nós estamos anunciando uma TJLP que é composta por 5% de inflação,
e nós achamos que as melhoras dos fundamentos da economia brasileira e
suas perspectivas permitem uma redução cautelosa, mas gradual e
consistente da percepção sobre o risco Brasil, que nós estamos
reduzindo em 25 pontos básicos, vale dizer, de 5,5 para 5,25. Portanto, a
TJLP que terá vigência a partir de 1º julho será de 10,25%, para o
trimestre que vai de julho ao final de setembro, quando anunciaremos a
TJLP para os últimos meses do ano – outubro, novembro e dezembro.
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