Pronunciamentos

26/06/2000

Transcrição da entrevista do ministro Pedro Malan à
Rádio Jovem Pan

  

Sem Revisão do Autor

Jovem Pan – A Reforma Tributária ainda tem sido tema de muita polêmica entre empresários, governo e o Congresso. É sobre isso que eu converso agora com o ministro da Fazenda, Pedro Malan. Ministro, na semana passada, nós tivemos até algumas notícias contraditórias em relação à posição do próprio governo quanto à Reforma Tributária. Segundo o noticiário o secretário Everardo Maciel poderia ir contra a revogação e a suspensão da cumulatividade dos impostos, contrariando até a negociação que está sendo encaminhada pelo Ministério da Fazenda, inclusive com a participação do presidente Fernando Henrique. Eu queria saber, de fato, como está hoje essa negociação?

Ministro – Bom, eu acho que o que aconteceu na semana passada foi um lamentável mal entendido, já desfeito com a publicação do jornal que trouxe a matéria de uma carta – publicada na íntegra – do secretário da Receita Federal. Não há divergência alguma no âmbito do governo. O governo quer, está comprometido, deseja avançar na direção da Reforma Tributária, emenda constitucional, está empenhado nisso há algum tempo, registra os avanços importantes que eu acho que fizemos nas conversações com os Estados e secretários de Fazenda dos Estados, na Comissão Tripartite, que reuniu secretários, parlamentares e membros do governo. Vou lhe dar apenas um exemplo de algo que acho da maior importância: ali nós acordamos que vamos substituir as atuais 27 legislações estaduais do ICMS, que é um sistema caótico, por apenas uma legislação nacional unificada sobre o ICMS. Isso é um enorme avanço, que é por todos os títulos importante preservar. Também acordamos que nós vamos desonerar totalmente as exportações; o País não deve exportar nem tributos nem contribuições. Portanto, elas serão totalmente desoneradas e isso já é algo acordado. E, no que diz respeito às contribuições sociais, PIS, Cofins, essas que incidem em cascata e que têm esse efeito distorcivo, nós todos sabemos que isso é uma coisa ruim e estamos buscando a melhor forma de lidar com isso, de uma maneira apropriada. Nós não vamos, é opção do governo, constitucionalizar matéria de administração tributária. Em qualquer país do mundo, administração tributária é matéria de legislação infra-constitucional. Nós queremos avançar, mas não vamos constitucionalizar. E apresentamos uma proposta de, num artigo das disposições transitórias dessa emenda constitucional, colocarmos com clareza o gradualismo para avançar na direção de eliminar essa distorção da economia brasileira.

Jovem Pan – Agora, a cumulatividade seria eliminada a médio prazo, não seria uma coisa imediata?

Ministro – Nós temos hoje sistemas que podem ser interpretados por alguns como sendo de natureza "cumulativa". Por exemplo: o Simples, que é um sistema através do qual nós substituímos uns cinco ou seis tributos, impostos e contribuições por apenas uma contribuição, um percentual sobre o faturamento, para empresas que faturam até R$ 1,2 milhão, e é uma opção voluntária – hoje, 45% das empresas brasileiras utilizam-se desse sistema –, pode ser visto, lido e interpretado por alguns como tendo um caráter de cumulatividade, é um percentual sobre faturamento ou receita bruta. Um número muito grande de empresas brasileiras preferiu, optou voluntariamente por fazer a declaração de imposto com base em lucro presumido. Se nós considerarmos o Simples mais as empresas que optaram pelo lucro presumido, nós temos quase 90% das empresas brasileiras que, voluntariamente, opcionalmente, decidiram por esse sistema. Ele pode ser interpretado como tendo algum elemento de cumulatividade. Nós estamos também fazendo uma cobrança, para usar o jargão dos especialistas, monofásica em muitos setores. Vale dizer, ela incide apenas em um momento, em um ponto da cadeia produtiva e as alíquotas são zeradas em torno de margem. É outra alternativa a esse sistema. E nós estamos dispostos a deduzir custos, deduzir despesas para efeito de definição da base de cálculo de incidência da contribuição. E não eliminamos a possibilidade de também você ter, sob certas circunstâncias, ter imposto pago em fases anteriores deduzido. Mas nós queremos fazer isso de forma gradual e através de legislação infra-constitucional.

Jovem Pan – Nós temos agora um recesso no Congresso e estamos num ano eleitoral. O senhor vê alguma possibilidade de a Reforma avançar ainda este ano?

Ministro – Se nós conseguirmos superar esse ponto em que nós estamos concentrados agora, que é essa forma de lidar com essa disposição transitória da PEC que lida com essa transformação do sistema ao longo do tempo através, volto a insistir, de legislação infra-constitucional e não de uma tentativa de redigir uma constituição detalhada dessa matéria, eu acho que é possível avançar, consolidando a unificação das 27 legislações estaduais do ICMS, consolidando a desoneração das exportações de impostos e de contribuições, porque essas questões interessam ao País. Eu prefiro me concentrar na superação dos problemas em vez de marcar uma data, independentemente da superação do problema.

Jovem Pan – Mas há uma posição meio divergente dos Estados quanto à mudança da legislação do ICMS. Eles têm muito medo de abrir mão da possibilidade da guerra fiscal, não é?

Ministro – Não. Os Estados já concordaram em ter apenas uma legislação nacional unificada do ICMS. A única questão que permanece aí é como lidar com os incentivos já concedidos até o momento, até a data de promulgação da eventual Reforma Tributária. Ou seja, como fica a questão dos incentivos já concedidos.

Jovem Pan – Senhor ministro, ainda nessa questão da Reforma Tributária, eu queria saber como é que o senhor viu essa decisão do Copom de reduzir os juros básicos, diante da possibilidade de nós termos um novo ajuste dos juros nos Estados Unidos, o preço do petróleo ainda bastante pressionado pelo mercado internacional, o senhor vê algum risco para nossa economia?

Ministro – Eu achei que foi uma decisão justificável na medida em que o Banco Central deixou claro, o governo deixou claro que o elemento básico por trás da condução da política monetária é o sistema de metas de inflação. Havia dúvidas e incertezas no início do ano sobre a possibilidade de o Brasil alcançar essa sua meta de inflação, como você sabe é de 6% neste ano de 2000 e 4% para 2001, havia dúvidas se íamos ficar perto dos 6% ou na margem de +2% que você sabe que existe para cima, e essa dúvida foi se dissipando à medida que nós avançamos no ano 2000. A inflação acumulada do IPCA, que é o índice usado para isso – Índice de Preço ao Consumidor Ampliado do IBGE –, nos primeiros cinco meses do ano, ficou em 1,41% no ano. Quer dizer, como o determinante básico da condução da política monetária é o atingimento da meta inflacionária, foi uma expressão de confiança por parte do Banco Central não só nos fundamentos da economia brasileira como na capacidade que nós temos de atingir a meta estabelecida para este ano que é de 6%. Portanto, foi uma decisão perfeitamente razoável. Quem tivesse se dado ao trabalho de ler os Relatórios de Inflação, que saem a cada trimestre, veria que não há nada de surpreendente na decisão tomada pelo Banco Central.

Jovem Pan – Então, nem o provável aumento dos combustíveis no mercado interno pode afetar o comportamento da inflação?

Ministro – O Banco Central já trabalha com hipóteses plausíveis sobre essas questões, sobre evolução de choques agrícolas, sobre contexto internacional.

Jovem Pan – Nós ouvimos o ministro da Fazenda, Pedro Malan. Ministro, muito obrigada.

Ministro – Muito obrigado a você e aos ouvintes.

 

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