Pronunciamentos

07/06/2000

Transcrição do pronunciamento feito pelo Ministro da Fazenda, Pedro Malan, após reunião da Câmara de Política Econômica, sobre a Reforma Tributária


 

Bem, bom dia a todos. Como vocês sabem, há anos que todas as quartas-feiras pela manhã temos reunião da Câmara de Política Econômica. Ela terminou agora e nós decidimos descer aqui, alguns ministros, para deixar claro a posição do governo Fernando Henrique Cardoso sobre essa questão da Reforma Tributária. Eu queria aproveitar para, mais uma vez, mas agora de uma maneira muito enfática e muito categórica, deixar claro alguns pontos.

Em primeiro lugar, o Governo Fernando Henrique Cardoso quer, está trabalhando e está comprometido com o avanço em termos da Reforma Tributária - emenda constitucional. Nós queremos uma Reforma Tributária que simplifique a vida do contribuinte e que melhore as condições de competitividade da economia brasileira. Nós fizemos avanços importantes ao longo dos últimos anos, em particular ao longo dos últimos meses. O trabalho da Comissão Tripartite, por exemplo, que reuniu parlamentares da Comissão Especial da Reforma Tributária, três ministros de Estado, o ministro Tápias, o ministro Tourinho, eu próprio, além do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel e do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, fez progressos que é muito importante preservar.

Por exemplo, para citar um dentre eles, nós acordamos com os Estados que vamos substituir as 27 Legislações Estaduais de ICMS hoje existentes por uma única legislação nacional unificada e uniforme sobre ICMS. Esse ganho é extremamente importante preservar, e é uma das razões pelas quais nós estamos comprometidos em caminhar o mais rápido possível com a Reforma Tributária no Congresso. Esta parte dos estados é um núcleo importante desta Reforma, onde avanço expressivo foi alcançado.

A outra questão que diz respeito ao núcleo central: a questão das contribuições sociais e a preocupação legítima levantada por muitos na sociedade brasileira sobre o caráter cumulativo e o efeito em cascata dessas contribuições. Nós queremos acabar com isso, nós temos um compromisso, esse governo tem um compromisso de caminhar nesta direção. A nossa proposta é uma proposta de emenda constitucional, e isso está claramente colocado em termos de um artigo das disposições transitórias, através do qual este governo assume o compromisso de, gradualmente, mover-se na direção de eliminar a cumulatividade, com exceção feita aos regimes simplificados, por exemplo o Simples, que são opcionais, e a declaração com base em lucros presumidos, também opcional. Mas o núcleo central é que nós queremos chegar a um prazo, que vai depender da negociação, mas que ficaria determinado na disposição transitória da emenda constitucional até um determinado período de tempo, em que nós só teríamos contribuições sociais incidindo ou bem sobre essa forma simplificada, voluntária, cujos exemplos são o Simples e o lucro presumido, ou bem na forma de incidência monofásica, vale dizer apenas um ponto da cadeia produtiva, que elimina a discussão sobre cumulatividade, ou bem nós teríamos deduções de custo de despesas e receitas na definição da base de cálculo da contribuição. E nós deixamos claro que é nessa direção que queremos caminhar. A maneira de fazê-lo é esta e a hora de fazê-lo é agora. Nós temos uma oportunidade histórica de avançar na Reforma Tributária. Este é o desejo e o compromisso de presidente Fernando Henrique Cardoso, dos seus ministros, e não apenas da área fazendária, digamos assim. É expressiva a presença dos ministros Alcides Tápias, Pedro Parente, Martus Tavares, Aloysio Nunes Ferreira, porque esta é uma posição de governo.

Qual é o problema, então? Eu queria deixar claro aqui qual é a natureza do problema. O problema é o seguinte: nós somos contrários, é uma posição de governo, à constitucionalização de matérias que dizem respeito à administração tributária, que em qualquer país do mundo são matérias tratadas no âmbito de legislação infraconstitucional. Nós temos assumido o compromisso de enviar essas leis infraconstitucionais para o Congresso ainda na vigência da administração Fernando Henrique Cardoso. Mas nós não vamos aceitar a constitucionalização, o detalhamento de matérias de administração tributária na norma constitucional. Esta é a questão que nós estamos procurando superar agora. Contamos aqui com o empenho e o comportamento excepcionalmente construtivo do presidente da Câmara dos Deputados, deputado Michel Temer, que entendeu, constitucionalista que é e entendedor da natureza do processo, que esta é a maneira de avançar no momento. Ontem, tivemos um jantar de trabalho, na verdade, precedido de uma longa reunião de trabalho com lideranças de partidos que apóiam o governo, devo dizer que houve, em geral, um apoio à posição do governo de não constitucionalizar essa questão, de tratá-la, como nós sugerimos, em termos de uma legislação infraconstitucional, com o compromisso expresso no artigo das disposições transitórias da Pec da Reforma Tributária, através do qual o governo está assumindo este compromisso de caminhar nesta direção.

Nós queremos acabar com a cumulatividade desses impostos e contribuições no país, mas queremos fazê-lo de forma cuidadosa. Não queremos gerar um enorme potencial de litígio de indústrias de liminares sobre este assunto, baseando-se numa tendência, que infelizmente existe entre nós, de tribunalização e constitucionalização de debates sobre administração tributária. Queremos fazer isso de maneira gradual, ao longo do tempo, de forma cuidadosa, de forma a preservar o erário, as receitas da União, e preservar também, não menos importante, a própria economia brasileira, porque o que nós vemos é que, quando existe a possibilidade de explorar interpretações da intenção do legislador ao colocar na Constituição um grau excessivo de detalhamentos sobre matérias de administração tributária, aquilo abre um enorme espaço e um enorme escopo para questionamentos de matéria tributária em termos de liminares que levam ao não pagamento de impostos por parte de alguns, que é uma maneira de afetar a competitividade de outros que cumprem as suas obrigações e que não utilizam os recursos das liminares para suspensão de pagamento de impostos. E quanto mais detalhado o texto constitucional maior o espaço para essa, digamos, incerteza jurídica na área tributária que não interessa nem ao país, nem à União, nem ao empresário brasileiro.

Esta, portanto, é a nossa posição muito firme, e eu queria deixar claro aqui uma coisa: se a Reforma Tributária não avançar – e nós estamos empenhados em fazê-la avançar e contamos com o apoio do presidente da Câmara, deputado Michel Temer, dos vários líderes de partidos políticos que apóiam o governo e que ontem se expressaram nesse jantar contra a constitucionalização dessa matéria e a favor de seu tratamento em termos de legislação infraconstitucional, como previsto na disposição transitória que eu mencionei – será porque existem aqueles que insistem na constitucionalização dessa matéria. Isso o governo não aceitará, o governo insiste que não é necessário fazê-lo, não é desejável fazê-lo. Isso significaria atrasar o processo, e nós temos agora uma oportunidade histórica de avançar resolvendo problemas nos Estados, na unificação da legislação do ICMS já acordado em princípio com secretários de fazenda e governadores. É importante preservar isso, e avançar na direção de um claro compromisso do governo e caminhar para a eliminação da cumulatividade, exceto nesses regimes voluntários que eu mencionei anteriormente, e com horizonte de tempo que seja feito gradualmente.

O nome do jogo aqui, agora, ao nosso juízo, e a posição do governo é muito clara: nós não vamos constitucionalizar essa matéria. Estamos dispostos a explicar as razões, já o fizemos inúmeras vezes, pelas quais essa não uma solução. Na verdade, não existe país nenhum do mundo que tenha matéria de administração tributária inserida na norma constitucional. As pessoas sabem que o mundo está em constante mutação, e qualquer país do mundo se reserva o direito de tratar essas questões em legislação infraconstitucional, sejam leis complementares, sejam leis ordinárias. Portanto, nós queremos avançar, a hora de avançar é agora, e nós precisamos superar essa divisão que existe em alguns setores empresariais da economia brasileira que acham que a sua máxima segurança jurídica é um detalhamento na constituição dessa posição, sobre a qual nós não temos divergência quanto ao mérito; somos a favor da substância. O que nós queremos buscar aqui é a forma mais efetiva, mais eficaz de caminhar nesta direção, em prol da competitividade da economia brasileira e da simplificação da vida do contribuinte.

Para concluir, mais uma vez, o governo quer, está empenhado, está disposto a trabalhar, essa é a visão do presidente Michel Temer, essa é a visão de vários líderes de partidos que conosco estiveram ontem à noite. Portanto, nós não vemos razão pela qual nós não devamos avançar.

Respostas do ministro Pedro Malan a perguntas feitas por jornalistas

  • Este processo, no âmbito do Congresso, está sendo conduzido com a competência habitual pelo Presidente Michel Temer em conversas com as lideranças dos partidos, tanto os que apoiam o governo quanto os partidos da oposição. Ontem, a reunião foi com os partidos que apoiam o governo; hoje, nós no colocamos totalmente à disposição do Presidente Michel Temer, a qualquer hora do dia, para o encontro com líderes dos partidos de oposição. Agora, não cabe a nós do executivo definirmos a melhor maneira de encaminhar esta questão no âmbito do legislativo. Isto está sendo conduzido pelo Presidente Michel Temer.
  • Ontem, neste jantar, todos os líderes dos partidos que apoiam o governo nesta matéria, na minha leitura, dos que se expressaram, e todos falaram, foi uma expressão de apoio à não constitucionalização desta matéria. Discutiu-se muito a questão da regra transitória, da redação do artigo das disposições transitórias, mas os líderes, pelo menos, se expressaram claramente em favor da posição do governo, que é uma posição já definida do governo. Então, eu não quero citar nomes aqui.
  • Brasil é um país complexo, diverso, heterogêneo, diversificado, há vários interesses, são 308 votos, duas votações na Câmara, duas no Senado. O Congresso obviamente expressa, e é legítimo que seja assim em qualquer democracia, vários interesses reais e concretos que existem na sociedade. Portanto, não quero citar aqui nenhum nome a esse respeito, vocês conhecem melhor do que eu.
  • Dois comentários sobre isso. Em primeiro lugar, vocês lembram que, quando o Pedro Parente apresentou, em final de 97, a proposta do governo nessa questão, ele apresentou corretamente a proposta de mudança no regime fiscal brasileiro. Por que fiscal? Porque é absolutamente fundamental que nós, num debate público, isso vale para um debate do Executivo com o Congresso, do Congresso com a opinião pública e a mídia também, a idéia de que o fiscal trata do lado da receita por um lado, e por outro lado trata do gasto. Na verdade, nós vivemos hoje num país com enormes demandas, legítimas em várias áreas, na área social obviamente, mas em várias áreas também, e à medida que elas são aditivas, são todas adicionais, só existem formas de equacioná-las. Ou bem a sociedade, a mesma sociedade, porque o governo não produz recursos, vamos deixar isso claro, o governo não gera recurso, os recursos que o governo tem vêm de impostos e contribuições, de aumento do endividamento do setor público, que são maiores gastos no futuro, ou a experiência que nós tivemos lamentável durante décadas, no passado, do rodar da maquininha de imprimir papel moeda, que era uma forma de realizar a expansão do gasto. Nós não queremos rodar a maquininha de imprimir papel moeda e impor um imposto inflacionário que pesa, que incide como todos sabemos, sobre os mais pobres desse país. Se nós não queremos voltar a trazer a inflação como mecanismo do jogo de faz de conta, que finge que está atendendo demandas em termos nominais, quando na verdade a inflação está corroendo os valores em termos reais. As demandas por aumento de gastos são atendidas ou por aumento de impostos e contribuições ou por aumento por endividamento do setor público. Não surgiu gênio ainda que tenha inventado uma nova maneira que não seja a inflação, que eu quero eliminar, para resolver esse problema. Tem um outro que é olhar o lado dos gastos e ver o ponto que nós estamos insistindo há tempos aqui, e eu acho que as coisas estão caminhando nessa direção em termos de debate público mais maduro politicamente e mais racional no ponto de vista econômico. Qualquer governo que deseje, atendendo a legítimos anseios da sociedade, expandir os gastos na área X deveria ser capaz de dizer em que outras áreas vai conter a expansão dos gastos ou cortá-los para acomodar aquela expansão que deseja realizar na área dita prioritária. Caso contrário, quando tudo é prioritário, quando tudo deve ser expandido, e os gastos nominais devem ser aumentados, os reais devem ser aumentados, as alternativas são aumentos de impostos e contribuições, e aumento de endividamento público. É assim que esse debate político e econômico tem lugar no resto do mundo, e o Brasil não deve ser exceção à esse regra. Ontem, no jantar, só para ilustrar, o Deputado Mussa Demes, relator da Comissão Especial da Reforma Tributária, lembrava que, por ocasião da elaboração da Constituição de 1988, houve por parte de um processo de redação e elaboração da Constituição uma redução de recursos da União em benefício de Estados e de Municípios, e lembrou que talvez essas contribuições tivessem aumentado ao longo desse período como forma da União, que têm demandas e necessidades também, inclusive de responder a pleitos da sociedade, de realizar os gastos que a própria sociedade cobra da União. O problema é o seguinte: é a própria sociedade que demanda aumento de gastos e é a própria sociedade que tem que aceitar a insistência em que o aumento de gastos sem nenhum corte, sem nenhuma contenção, leva necessariamente a aumento de carga tributária ou aumento de endividamento. Essa discussão é que nós devemos ter com mais profundidade nesse país. O governo não produz recursos, o governo não gera recursos, o governo só aloca recursos que vêm da própria sociedade. Portanto, essa é a razão pela qual em democracias é fundamental aprofundar essa discussão.
  • Nós discordamos disso. È uma posição de discordância. Nós achamos que isso é uma falsa noção, uma falsa idéia. A idéia que existe, infelizmente, entre muitos aqui de que a maneira de se ter segurança é colocar na norma constitucional o detalhamento de tudo que deve viger até que uma nova mudança constitucional possa ter lugar. Nós sabemos o quão difícil, tortuoso, prolongado e penoso é o processo de mudança constitucional: duas votações com 60% de votos na Câmara, mais duas votações com 60% de votos no Senado, e tem a ver também com uma visão não só de democracia, mas de uma visão de um mundo em mutação constante, em velocidade exponencial. Não é razoável, a meu juízo, e é opinião do governo hoje, que se procure engessar e rigidificar na norma constitucional questões que um país deve manter certa capacidade de adaptação aos novos tempos. Está aí o comércio eletrônico, por exemplo, que nos Estados Unidos resolveu-se dar um prazo até 2005 ou 2006, se não me engano, para tentar equacionar um problema que cresce em velocidade exponencial, vertiginosa, e que coloca problemas, inclusive matérias tributárias, que exigem uma certa capacidade de entendimento e adaptação. Rigidificar na norma constitucional questões que podem exigir necessidade de adaptação e flexibilização depois não é o melhor procedimento a seguir a nosso ver. Por último, eu acho que é uma ilusão essa idéia de que, porque as coisas estão colocadas com um enorme detalhamento na Constituição, aquilo assegura a máxima segurança. Isso é uma ilusão. Na verdade, a máxima segurança de alguns ao ter detalhamentos na norma constitucional é a máxima insegurança de muitos, à medida que ela admite uma pletora de diferentes interpretações de natureza jurídica, que pode levar a uma situação de total falta de isonomia no tratamento tributário de diferentes empresas. Por exemplo, aquelas que não conseguiam ou que não entraram, ou que resolveram não entrar com liminares pedindo suspensão de pagamentos de impostos têm uma vantagem competitiva espúria sobre aqueles que cumprem as suas obrigações, que não entraram na justiça. E, na verdade, detalhamento na norma constitucional pode agravar a insegurança jurídica que prevalece no país em matéria tributária. Portanto, por essas duas ordens de razões, não rigidificar, não engessar e não aumentar a insegurança jurídica, que não é pequena hoje no país, nós somos contrários, como governo, à constitucionalização dessa questão. E oferecemos uma saída que é essa que eu disse: temos um texto que diz que é nessa direção que vamos caminhar, temos um prazo claramente definido para que completemos esse processo. Isso estará na emenda constitucional – é uma disposição transitória que é parte integrante da emenda constitucional e que dá ao governo um prazo para completar esse processo. O governo, volto a insistir, está comprometido com isso, quer e deseja a Reforma Tributária. E eu acho que a responsabilidade hoje pelo processo não estar caminhando deve ser buscada naqueles que exigem, insistem na questão do detalhamento na norma constitucional dessa questão. Nós não faremos isso; a posição do governo é contrária a isso.

 

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