Pronunciamentos

11/04/2000

Transcrição da entrevista do ministro Pedro Malan
à Rádio CBN


 
Sem Revisão do Autor

 

CBN – Estamos aqui no gabinete do ministro Pedro Malan, em Brasília, e podemos começar falando sobre a questão do salário mínimo. Acaba de sair um índice do IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que permite fazer uma comparação mais exata sobre a questão do valor real do salário mínimo, quanto foi esse reajuste de R$ 151,00. Podemos começar com isso. Ministro, por favor, para a CBN.

Ministro – Muito obrigado, bom dia a todos os ouvintes da CBN. Esse índice divulgado hoje pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que cobre a inflação em 11 regiões metropolitanas, foi de 0,13% para o mês de março de 2000. Esse índice tem uma importância, porque ele permite calcular a inflação acumulada nos 11 meses desde o último reajuste do salário mínimo, que foi em maio de 1999. A inflação acumulada nos 11 meses desde maio de 99 a março de 2000, com esse índice divulgado hoje, é 5,35%. Eu queria chamar a atenção para isso porque o aumento do salário mínimo, de 136 para 151, que todos nós sabemos é um salário baixo, lamentável e infelizmente baixo, é um aumento de 11,03%. Esse aumento de 11,03%, enquanto a inflação foi de 5,35%, significa que o aumento nominal do salário mínimo para 151 é mais do dobro da taxa de inflação acumulada nos últimos 11 meses, segundo o INPC, e aproximadamente o dobro da inflação projetada para os próximos 12 meses. Portanto, ele se enquadra na linha de uma política que o governo Fernando Henrique Cardoso vem seguindo desde o dia do lançamento do Real, que é assegurar um progressivo ganho real do salário mínimo do trabalhador brasileiro. Desde 1º de março de 94, o salário mínimo aumentou 133%. Nesse mesmo período, a cesta básica aumentou cerca de 24% e todos os índices de preços, seja ao consumidor, seja ao atacado, isso está no relatório da Comissão Especial do Salário Mínimo da Câmara dos Deputados, mostram um aumento real em relação a qualquer índice de preços entre 24% e 31%. Portanto, esta é a política do governo, que terá continuidade.

CBN – Ministro, vamos para um outro ponto, que é o seguinte: o governo tem dado como definitivo esses R$ 151,00, mas diversos setores na base governista, para começar pelo senador ACM e o deputado Luiz Medeiros, de São Paulo, dizem que não se conformam em hipótese alguma com esse salário e prometem lutar por mais. Bom, a medida precisa ainda ser votada no Congresso Nacional e a questão é a seguinte: o governo aceita ainda algum tipo de negociação, algum tipo de composição em torno desse valor, e, por exemplo, aumentar um pouco ou antecipar o reajuste no ano que vem, que são as duas hipóteses que estão sendo comentadas?

Ministro – Não. Esse valor de R$ 151,00 o governo não pretende negociar. Ele representa, como já notei, um aumento real de mais de 5%, quase 5,4%; ele representa já um custo adicional em termos de gastos para o governo de mais de R$ 1 bilhão, que nós vamos ter de enfrentar cortando outros tipos de gastos do governo, seja custeio, seja investimento, e nós deixamos claro, em inúmeras horas e horas de discussão na Câmara e no Congresso, que a cada R$ 5,00 de aumento do salário mínimo significam mais R$ 1 bilhão de gastos adicionais. Portanto, aumentar, como querem alguns, em mais R$ 30,00 o salário mínimo do nível atual significariam mais R$ 6 bilhões, que teriam de ser cortados de gastos de custeio ou de investimentos do governo, inclusive nas áreas sociais, já que elas representam a maior parte do orçamento. É uma decisão política, mas este governo não pretende rediscutir a questão dos 151 no momento.

CBN – Então, como é que o governo vai fazer? O governo vai simplesmente colocar a coisa em votação e ganhar no voto, esse é o objetivo?

Ministro – Não cabe a mim decidir a estratégia política de encaminhamento dessas questões no Congresso, mesmo porque é importante lembrar que o encaminhamento que o governo fez para essa questão tem duas vertentes: uma delas é este aumento de 11,03%, mais do dobro da inflação e um aumento real de quase 5,4%; a segunda é o envio ao Congresso de um projeto de lei complementar, que delega aos Estados a capacidade de decidir dar o aumento real adicional que assim desejem aos seus trabalhadores, tanto para o setor público – uma competência que já têm – quanto para os respectivos setores privados. Tem muitos Estados que podem fazê-lo. São Paulo, por exemplo, pode ter um mínimo superior a este, já tem, na verdade, tanto no setor público quanto no setor privado. Vários outros governadores farão as suas contas, suas análises, suas conversas com seus secretariados e seus prefeitos, eu espero, com seu setor privado, e, tenho certeza, que vários darão aumentos reais adicionais a este que está sendo permitido, que o governo central, olhando as suas contas, pode se permitir conceder. Eu acho que, só para concluir, este encaminhamento desse projeto de lei complementar é um reforço da Federação Brasileira, do debate democrático no âmbito de cada Estado, e é a oportunidade para que cada Estado possa, à luz das suas circunstâncias, conceder o aumento real adicional do salário mínimo no seu território.

CBN – Os 151 foi determinado por medida provisória, não é isso? Então, se não votar, a medida vai sendo reeditada e fica assim mesmo. Agora, quanto a essa questão dos mínimos estaduais. Primeiro, há uma questão sendo discutida, que está sendo levantada com argumentos até bastante razoáveis, que o mínimo deve ser nacional e, portanto, os mínimos estaduais seriam inconstitucionais. Qual é a opinião do governo sobre isso?

Ministro – A opinião do governo é que é constitucional sim, leia-se o artigo 22, parágrafo único da Constituição Federal, que permite tal delegação nas hipóteses que especifica, portanto a avaliação do governo é que o que fez é absolutamente constitucional. É claro que ninguém tem o monopólio da verdade. Se outros tiverem outra avaliação, há uma forma de resolver a questão que é um recurso ao Supremo Tribunal Federal, mas o governo está confiante da constitucionalidade do seu ato. Além disso, de que seu ato é um estímulo ao exercício da democracia, do debate público, do fortalecimento da Federação Brasileira.

CBN – O professor José Pastore, que é um especialista nas questões trabalhistas, tem levantado um tema muito importante, que é o seguinte: ele diz que o que pode acontecer é que as assembléias legislativas estaduais acabem fixando pisos salariais. Pisos, por exemplo, para trabalhadores da capital diferentes dos pisos para trabalhadores do interior, ou ainda pisos para categorias profissionais diferentes. Hoje em dia, esses pisos salariais são negociados entre sindicatos e empresas. Se isso for fixado em lei, isso é um retrocesso em relação ao espírito da reforma trabalhista, porque a idéia é exatamente de flexibilizar e não de colocar em lei esse tipo de piso salarial. Como é que o governo vê essa possibilidade?

Ministro – Eu tenho um grande respeito pela competência profissional, pelas enormes contribuições que deu ao debate do tema no Brasil o professor José Pastore, mas neste assunto em particular eu acho que ele está um pouco equivocado, porque o texto da lei complementar que o governo encaminhou ao Congresso deixa claro que a iniciativa de exercer essa delegação é de iniciativa do Poder Executivo do Estado, tem que ser submetido à assembléia, mas ele deixa muito claro, no parágrafo 1º, que não estão sujeitos a essa delegação pisos definidos em legislação federal e pisos definidos como resultado de negociações coletivas de contrato de trabalho entre os sindicatos de trabalhadores e empregadores. Portanto, quando isso existe, as negociações coletivas e acordos realizados entre empregados e empregadores não são passíveis de alteração por esse tipo de delegação que está sendo concedida na lei complementar, tal como encaminhada ao Congresso. Portanto, eu acho que o professor José Pastore pode ficar mais tranqüilo. Eu acho que essa possibilidade que ele menciona, a depender do governo, não deve causar preocupação adicional.

CBN – Quer dizer então que prevalece o que for negociado entre as partes? O risco portanto que fica é o de uma assembléia legislativa mais populista resolver dar um salário mínimo estadual mais elevado. Isso foi considerado pelo governo?

Ministro – Nós passamos os últimos meses debatendo, e está em vias de ser aprovada em sua fase final no Senado a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os governadores vêm seguindo – a esmagadora maioria – um programa sério de ajuste ao longo dos últimos anos, e eu estou seguro que esta possibilidade de decisões puramente demagógicas a que o Sardenberg faz referência na sua pergunta encontrarão, numa discussão e num debate aberto, amplo e profundo, e essa é a vantagem de tê-lo no âmbito dos Estados, uma avaliação da situação fiscal de cada Estado, dos compromisso que ele tem, por exemplo, com Lei Camata, com outros componentes da sua situação fiscal, conversas com o próprio setor privado, como eu disse anteriormente, com prefeitos – particularmente em alguns Estados da Federação – , e que essas decisões não serão tomadas assim ao arrepio do momento e ao sabor de considerações de natureza puramente político-eleitoral.

CBN – Ainda sobre o salário mínimo, o senhor comentou agora há pouco que, embora tenha havido aumentos reais para o mínimo, ele continua sendo muito baixo, e, considerando-se que ele é o mínimo da Previdência, então mostra-se que o País está pagando pouco como benefício mínimo da Previdência. O senhor vislumbra alguma possibilidade ainda no seu governo, no governo Fernando Henrique Cardoso nos próximos anos, que exista um reajuste substancial, algo que seria, digamos, obtido com corte de gastos de outras áreas do governo, enfim, alguma coisa que pudesse sugerir que haverá possibilidade de um aumento maior para o salário mínimo independente da inflação, mas enfim um aumento para colocá-lo num nível mais adequado?

Ministro – Bom, eu volto a insistir: nós todos achamos, sem exceção, que o atual nível do salário mínimo, apesar do seu aumento expressivo em termos reais desde o lançamento do Real, inclusive o aumento real agora por ocasião deste último aumento, é baixo e que nós deveríamos estar buscando fontes de elevá-lo de maneira duradoura e sustentável. Não em termos nominais, porque isso é muito fácil fazer e nós já vimos esse filme. Vivemos no País, ainda há sete anos, salários mínimos que se contavam em milhões. Isto é, em julho de 93, eu notei isso outro dia, era quatro milhões 639 mil e 800 cruzeiros, que era a moeda da época. O poder de compra, que é o que interessa para o trabalhador, não é em número de milhões ou de algarismos que o salário dele se expressa, mas o que ele efetivamente compra, era pouquinho inferior às 64,79 URV’s que ele foi convertido em 1º de março de 94. Portanto, o que interessa é o salário mínimo em termos reais, o que ele efetivamente compra, e a política do governo deveria ser de elevá-lo. Para responder à pergunta do Sardenberg, essa discussão, na verdade, é uma discussão que tem de ser vista junto com as outras inúmeras demandas aumentos de gastos que o governo tem na saúde, na educação, na conservação de estradas, na segurança, no meio ambiente, em recursos hídricos, ciência e tecnologia. Todas essas demandas sobre recursos públicos escassos. Eu acho que é perfeitamente plausível e razoável que a sociedade, através do Congresso Nacional – que são os representantes do povo –, decida que a prioridade absoluta seja a substancial e significativa elevação do salário mínimo e dos benefícios da Previdência. Isso é perfeitamente aceitável, desde que o próprio Congresso nos indique ou indique à sociedade onde vai ser cortado, que cortes serão realizados, inclusive em outras áreas do governo, ou proponha com clareza um aumento de impostos e contribuições para financiar de forma permanente este aumento de gastos, que é também permanente. O que eu acho que nós deveríamos evitar é cair na ilusão do jogo do faz de conta, em que nós vivemos neste País durante mais de duas décadas, de achar que o aumento de salário nominal, que era corroído pela inflação rapidamente nos meses seguintes, era uma grande coisa para o benefício do trabalhador. Na verdade, não era. O trabalhador brasileiro é o principal prejudicado ou foi o principal prejudicado do período que nós tivemos de alta, crônica, crescente e vergonhosa inflação neste País. Eu presumo que ninguém queira voltar a esse tempo. Quem foi mais prejudicado por ele foi o próprio trabalhador brasileiro, em particular, os mais pobres deste País.

CBN – Hermano, você tem ainda alguma questão na área do salário mínimo?

CBN – Pois é. Boa tarde, ministro, é o seguinte. Apesar desse progressivo ganho real a que o senhor se refere, o senhor também reconhece que o salário mínimo é realmente muito baixo em nosso País. Mas ele já foi mais alto. Segundo a oposição, ele já foi sete vezes maior. Eu sei que é um número que o senhor refuta, que o senhor não aceita, mas...

Ministro – Não é questão de não aceitar, perdão pela interrupção. Mas esse número está errado, está absolutamente errado.

CBN – Então eu quero saber por que está errado esse número...

Ministro – Eu posso lhe dar uma explicação básica. Eu ouvi o presidente de honra de um grande partido de oposição dizer num programa de televisão, e repetiu três vezes – quer dizer, não foi um equívoco – , que o salário mínimo em 1940, quando foi criado, era sete vezes maior do que o salário mínimo hoje. Tem propagandas do PT na televisão dizendo isso também. Enfim, tem alguns pesquisadores ligados ao PT dizendo que não era sete, mas quatro vezes maior. Quatro vezes também está errado. Não quero entrar em grandes detalhes aqui, mas só para lembrar: quando ele foi criado em 1940, ele tinha 14 níveis diferentes. O mais alto era no município do Rio de Janeiro, então capital federal, de 240 mil réis. Depois vinha São Paulo com 220, e havia faixas que iam até 90. A taxa de câmbio média em 1940 era, arredondando, 20. Isso significa que ele variava entre 4,5 dólares de 1940 e 12 dólares de 1940. É óbvio que o dólar d e 1940 valia muito mais do que o dólar de hoje. Agora, não existe a menor possibilidade de que, fazendo-se a correção por qualquer que seja o indicador razoável de preços dos Estados Unidos para converter dólar norte-americano de 1940 em dólar norte-americano de 1999 ou 2000, se chegue a esse valor que eu tenho visto aí, que dá sete vezes, ou quatro vezes, ou três vezes ou duas vezes mais do que ele era em 1940. Portanto, isso é um erro, e eu lamento profundamente essa tentativa de achar que um erro repetido mil vezes pode acabar se transformando em verdade. Isso não vai acontecer porque qualquer pesquisador sério que se debruce sobre o assunto verá que é um equívoco dizer que o salário mínimo, quando foi criado, era sete vezes o salário atual...

CBN – Perdão, ministro. De qualquer forma, eu imagino que era um salário digno, mais do que hoje. O Brasil não era um país rico, eu imagino que o nosso País era até mais pobre do que é hoje...

Ministro – Ao contrário. Setenta porcento da população naquela época moravam no campo e, portanto, provavelmente não eram sequer afetados pelo mínimo. Tanto é que esse mínimo aí, em 1940, permitia-se que até 70% dele fosse pago in natura, através de bens...

CBN – Pois é, e ganhar o salário mínimo era um privilégio de uma certa forma. Agora, a questão da Previdência explica tudo?

Ministro – Eu não acho que explique tudo. É um elemento importante, mas não é a Previdência, é o efeito que tem sobre os gastos do governo central, que são de alguma maneira ligados ou vinculados ao mínimo. Aí não é só a Previdência. Nós temos Previdência, temos a Loas – a Lei Orgânica de Assistência Social –, que este ano nós vamos gastar R$ 1,7 bilhão atendendo a 1 milhão e 50 mil pessoas, que são idosos e deficientes físicos. Existe o problema do seguro-desemprego e abono salarial; existe a questão do antecessor da Loas, que é a renda mensal vitalícia, que cobre 870 mil pessoas a um custo de 1 bilhão e 450, tudo isso está relacionado ao mínimo. Do conjunto do total de gastos do governo central associados à evolução do mínimo, a Previdência representa 75%. O resto são todos esses outros gastos que sobem automaticamente quando sobe o mínimo. Essa é a razão pela qual esse número é um número importante. Para cada R$ 5,00 de aumento do salário mínimo, nós precisamos encontrar mais R$ 1 bilhão através de cortes em outras áreas do governo ou através de um aumento de contribuição que gere, de forma permanente, não é num ano só, um valor semelhante de recursos. Essa é a razão pela qual essa discussão não pode ser feita isoladamente só como se fosse o problema do mínimo, porque ela é um problema de contas públicas. E não é só do governo central, é para alguns Estados, principalmente do Nordeste, e para muitos – centenas, seguramente mais de um milhar – de municípios que não têm condições de pagar o salário mínimo e já pagam menos de um salário mínimo para uma parcela expressiva dos seus funcionários.

CBN – Perfeito. Ministro, muito obrigado pela sua entrevista. Nós vamos ao Repórter CBN.

 

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