Pronunciamentos
02/09/99
O Ministro da
Fazenda, Pedro Malan, encaminhou hoje ao PSDB o seguinte texto, com as
suas idéias e as diretrizes que vem adotando para levar o país ao
desenvolvimento econômico e social:
Perspectivas
do "Real" e diretrizes para o desenvolvimento
As perspectivas do
"Real" são, na verdade, as perspectivas da consolidação
dos três objetivos fundamentais – e indissociáveis – do Governo
Fernando Henrique Cardoso: a) inflação sob controle; b) crescimento
sustentado, com mudança estrutural e aumento da produtividade média
da economia (da qual depende o crescimento futuro); e c) a melhora
continuada nas condições de vida da maioria da população
brasileira. Estes três objetivos exigem responsabilidade fiscal, a
continuidade do processo de reestruturação produtiva ora em curso,
de reorganização do Estado e aumento de sua eficiência operacional,
em particular nas áreas social e regulatória, e de reconstrução
político-institucional do País, visando à consolidação do Estado
Democrático de Direito, e de fortalecimento tanto das instituições
do Estado, quanto das associações da sociedade civil.
I
– Perspectivas do "Real"
I.1
– Inflação
Tivemos, nos últimos
cinco anos, taxas de inflacão que este País não experimentava desde
o início dos anos 50. Este é um feito expressivo, se levarmos em
conta: i) que o Brasil foi o recordista mundial de inflação, quando
se considera o período de 30 anos que se estende do início dos anos
60 ao início dos anos 90; ii) que a inflação brasileira no período
1988-1993 foi, em média, superior a 1.000% ao ano, chegando a 2.700 %
em 1993 e caminhando – não fora o Real – para algo entre 5.000 e
7.000 % em 1994; iii) que este processo hiperinflacionário nos
humilhava e envergonhava perante o resto do mundo, que o via –
corretamente – como expressão de incapacidade nossa, como sociedade,
de equacionar problemas básicos da nossa economia, há muito "resolvidos"
no resto do mundo.
É absolutamente
fundamental manter a inflação sob controle, não porque este seja um
fim em si mesmo e, muito menos, o único objetivo de um governo, mas
porque isto é uma obrigação mínima de qualquer governo responsável
e condição "sine qua non" para que outros objetivos, tão
ou mais importantes, possam ser alcançados.
Existem, pelo menos,
quatro razões para que a inflação seja mantida sob controle. A
primeira é de eficiência econômica: a inflação baixa alarga o
horizonte de tempo no qual decisões de investimento e de poupança são
tomadas, permite o cálculo econômico dos agentes e a comparabilidade
do valor de bens e serviços. A segunda é de natureza política:
espero não estar enganado ao afirmar que é isto – entre outras
coisas, é bem verdade – que a esmagadora maioria da opinião pública,
interna e externa, espera de qualquer governo minimamente responsável.
A terceira razão é de cunho social: a inflação alta, crônica e
crescente, como tivemos por décadas, é um imposto compulsório que
incide desproporcionalmente sobre os mais pobres, aqueles menos
capazes de dela se defender. É, portanto, injusto, iníqüo e cruel,
do ponto de vista social. A quarta e última razão, é de natureza ética
e moral: nas hiperinflações, perdem-se referências não apenas para
comparar valores relativos de bens e serviços, mas, também, referências
morais e éticas: no setor público, no setor privado e,
principalmente, nas interações entre os dois, dadas as enormes
transferências patrimoniais que inflações elevadas propiciam.
Por todas estas razões,
as perspectivas do "Real", no limiar do novo século,
dependem, entre outras coisas, do compromisso de governos –
quaisquer que venham a ser estes – com a estabilidade do poder de
compra da moeda nacional, que é a estabilidade do poder aquisitivo do
salário do trabalhador brasileiro, e expressão do grau de seriedade
de um governo no trato da coisa pública.
Esta é a razão pela qual,
nas democracias consolidadas do mundo moderno, esta questão não é,
definitivamente, uma questão submetida ao debate político-eleitoral.
Não há partido sério no mundo moderno – que tenha pretensões de
alcançar o poder, como é legítimo em democracias – que tergiverse
sobre esta questão. Isto já faz parte de um certo consenso básico
em sociedades modernas. Um certo consenso básico que ainda estamos, a
duras penas, tentando construir aqui e que é imprescindível, entre
outras coisas, para consolidar as perspectivas positivas do
"Real" para o novo século.
I.2
- Crescimento
A última vez que o PIB
per capita brasileiro cresceu cinco/seis anos seguidos foi na década
dos 70. Desde então, tivemos três anos consecutivos de recessão no
início dos anos 80 (1981, 82 e 83). Em 1988 o crescimento do PIB per
capita foi negativo (e a inflação anual chegou aos 1.000% pela
primeira vez na história do País). Tivemos mais três anos
consecutivos de recessão no início dos anos 90 (1990, 91 e 92).
Portanto, não é um fato desprezível, após doze anos de relativa
estagnação e queda do PIB per capita, que a economia brasileira
tenha crescido quase 25% em termos reais entre 1993 e 1998 e, com isto,
aumentado em quase um quarto o seu tamanho. Segundo, é forçoso
reconhecer que o Brasil cresceu a taxas mais elevadas no passado (cerca
de 7% entre 1950 e 1980) e que, portanto, é legítima a pergunta
sobre porque não podemos crescer a taxas mais altas no futuro.
A resposta é: podemos
crescer a taxas mais altas que a média dos últimos anos, vamos fazê-lo
e estamos criando as condições para isto. Na verdade, deveríamos
estar muito preocupados se estivéssemos crescendo cerca de 4% (média
do período 1993-97, que, diga-se de passagem, não é taxa
considerada desprezível em nenhum lugar do mundo como taxa de longo
prazo) e se estivéssemos produzindo a mesma gama de bens e serviços
que produzíamos há 10/15 anos atrás, com o mesmo nível tecnológico
de 10/15 anos atrás e nas mesmas velhas plantas de 10/15 anos atrás,
localizadas nos mesmos lugares de 10/15 anos atrás. Felizmente isto não
é verdadeiro; estamos produzindo uma gama mais diversa de bens e
serviços, com nível tecnológico mais elevado, em plantas mais novas
e, principalmente, estamos experimentando um irreversível processo de
descentralização da atividade econômica no País: no agrobusiness,
na indústria (em particular) e nos serviços. A combinação destes
processos com a inflação baixa e a contestabilidade de mercado,
expressa por importações potenciais no quadro de uma economia menos
protegida, vem permitindo um expressivo aumento da produtividade média
da economia, que é a base para o crescimento futuro aqui no Brasil,
como em qualquer lugar do mundo.
A continuidade do esforço
de privatizações, de redução do "custo Brasil", de
investimento em educação, ciência e tecnologia e treinamento de
requalificação de mão de obra, constituem parte fundamental deste
processo de obtenção de taxas mais altas de crescimento no futuro,
obtidas de forma sustentada e não de bolhas de crescimento que não
se sustentam ao longo do tempo.
O fundamental aqui é a
elevação da taxa de investimentos privados e de poupança privada
doméstica que permita o financiamento não inflacionário do
crescimento sem recurso excessivo à poupança externa. Deve ser
notado, ainda, que a taxa de crescimento demográfico brasileiro
declinou dos quase 3% ao ano das décadas de 50/70, para menos de 1,4%
ao ano no momento. Isto significa que um mesmo crescimento do produto per
capita a 4% ao ano, que antes requeria uma taxa de crescimento do
PIB de cerca de 7%, hoje pode ser alcançado com um crescimento do PIB
inferior a 5,5% ao ano (o que não quer dizer que esta seja
exatamente a taxa de crescimento desejável para a economia brasileira.
Isto é, apenas, uma ilustração, mesmo porque não é o governo que
decide qual é a taxa de crescimento de médio e longo prazos de uma
economia que conta com expressivo setor privado).
As oportunidades de
investimento na economia brasileira, dos quais depende o crescimento
futuro, são expressivas: no agrobusiness, na construção civil, na
infra-estrutura, nos serviços e na indústria, tanto a que tem produção
exportável, quanto na indústria doméstica, eficientemente
competitiva com as importações, se nós, como País, conseguirmos
assegurar estabilidade político-institucional e estabilidade econômica.
É falsa, absolutamente
falsa, a visão do dilema inflação versus crescimento, isto é, que
o controle da inflação se faz às expensas do crescimento. Esta não
é a experiência do resto do mundo. Ao contrário, estes dois
objetivos (inflação baixa e crescimento sustentável a longo prazo)
são indissociáveis. As perspectivas do "Real" na virada do
milênio dependem, também, de um maior grau de convergência entre nós
no que diz respeito a este tema, o qual também não é tema de debate
político-eleitoral no resto do mundo, onde ninguém propõe que se
"troque um pouco mais de inflação, por um pouco mais de
crescimento", porque há muito se percebeu que o crescimento
sustentado (que é o que importa) depende de fundamentos, de
estruturas, de investimentos e de poupanças, e não de estímulos
derivados do rodar da máquina de imprimir papel moeda, de gastos públicos
correntes, ou de simples "canetadas presidenciais".
Como nem a inflação
baixa, nem o crescimento sustentado (embora ambos indispensáveis
e fundamentais) são fins em si mesmos, concluo esta seção com um
comentário sobre o que considero o verdadeiro e fundamental objetivo
deste Governo.
I.3
- Melhoria das Condições de Vida da População Brasileira
Este processo tem duas
vertentes. A primeira é a incorporação de um número crescente de
brasileiros (e brasileiras) ao mercado consumidor tanto de bens e
serviços privados, quanto de serviços públicos. É inquestionável
que este processo vem tendo lugar e que adquiriu considerável impulso
com o Real, que retirou a carga do imposto inflacionário que incidia
sobre os mais pobres e permitiu a expansão de mecanismos de crédito
para milhões de brasileiros. Os dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE são elucidativos e deveriam
merecer análise mais acurada, especialmente por aqueles que duvidam
deste maior acesso a bens privados e públicos.
Apenas para ilustrar: A
PNAD mais recente (1996), divulgada em 1997, confirma a melhora do
padrão de vida de setores importantes da população entre 1993 e
1996. Neste período, no que diz respeito a serviços públicos, mais
5 milhões e 164 mil domicílios passaram a ter abastecimento de água;
mais 1 milhão 646 mil passaram a ter serviços de esgoto; mais
5 milhões 266 mil passaram a ter lixo coletado diretamente; mais
3 milhões 655 mil passaram a ter acesso à iluminação elétrica e mais
2 milhões 796 mil domicílios passaram a ter telefones.
No que diz respeito ao
acesso a bens privados, os dados da PNAD mostram o impressionante
efeito combinado da estabilidade do poder de compra da moeda nacional,
do incremento do salário real médio do trabalhador, da redução dos
preços relativos deste tipo de bens e da recuperação do crédito.
Entre 1993 e 1996 o número de domicílios com fogão aumentou
em 3 milhões e 125 mil; com rádio aumentou em 4 milhões e 472 mil;
com televisão comum, em 5 milhões 518 mil; com televisão em cores,
o aumento foi de 8 milhões 968 mil; com geladeira, em 4 milhões 591
mil; com freezer, em 2 milhões 372 mil e com máquina de lavar roupa,
3 milhões 114 mil.
A mesma PNAD mostra avanços
importantes na área social: o analfabetismo vem caindo de forma cada
vez mais rápida; era de 22,3% em 1980, 17,8% em 1990 e está em 13,8%
em 1996 – entre os jovens de 10 a 14 anos, nas áreas urbanas, não
passa hoje de 5%. 91% das crianças entre 10 e 14 anos estavam na
escola em setembro de 1996 (com as disparidades regionais de sempre),
o que torna realista a proposta do governo de se aproximar dos 100% em
prazo relativamente curto. Por último, deve ser notado que, em relação
à população de 10 anos e mais, a percentagem de pessoas com secundário
completo (ou mais) passou de 18,3%, em 1981, para 25,4%, em 1992 e
29,8%, em 1996. Ainda é pouco, em termos de comparações
internacionais, mas é inegável que progressos foram e estão sendo
feitos, embora estejamos todos de acordo que a velocidade possa, deva
e precise ser maior. Mas isto nos remete a necessidade de maior eficácia
nas ações operacionais de governos (nos seus três níveis) e da
sociedade civil, e não a discursos retóricos sobre deterioração do
quadro social e educacional no Brasil quando, na verdade, a situação
não está se deteriorando. Existem, apenas, ainda, grandes desafios a
enfrentar – o que vem sendo feito. Por exemplo, a tendência da
mortalidade infantil, acompanhada pela Pastoral da Criança da CNBB,
mostra que o número de mortos (com menos de um ano) por 1.000
nascidos vivos, declinou de 41 em 1992, para 31 em 1994 e 17,6 em
1996.
A outra vertente indissociável
do processo de melhora das condições de vida da maioria da população
brasileira tem a ver com as questões fundamentais de liberdade, justiça,
combate à pobreza e à busca de maior eqüidade.
Em todas, é essencial a
consolidação de nossas instituições democráticas e do Estado de
Direito, com o respeito aos direitos humanos, a não tolerância a
qualquer tipo de discriminação, a igualdade perante a lei e a ampliação
do espaço para o exercício da cidadania, da defesa do interesse público
e da consolidação das várias instâncias intermediárias entre a
população e o Estado, como por exemplo as várias organizações da
sociedade civil. Aqui, também, é inegável o progresso que
experimentamos desde a abertura política em 1985, embora haja, ainda,
muito por fazer. Mas, somos um Estado Democrático de Direito e temos
instituições que funcionam e que podem ser melhoradas, e o serão
tanto mais rapidamente quanto se organize para tal a nossa sociedade
civil -- como vem acontecendo -- e na medida em que continue, poderá
consolidar, ao longo do tempo, um amplo espaço de liberdade e de
justiça no País, que considero parte integrante da melhora das condições
de vida de uma população.
A questão do combate à
pobreza é absolutamente fundamental e, seguramente, não pode
depender, apenas, do controle da inflação e do crescimento (embora ambos
ajudem a minorar o problema). Aqui, além dos inúmeros programas
específicos, como por exemplo as aposentadorias para trabalhadores
rurais, o LOAS (auxílio aos mais velhos e aos deficientes físicos),
os programas de renda mínima, os assentamentos rurais, o PRONAF e
outros que, sem dúvida, merecem especial atenção, o fundamental é
uma política consistente, permanente, efetiva de informação, de
educação formal e informal, de treinamento, retreinamento, qualificação,
requalificação e, principalmente, de investimento em crianças e
adolescentes, para que os filhos dos pobres de hoje não sejam os
pobres de amanhã. Isto exige ação dos três níveis de governo e de
instituições da sociedade civil, além de uma firme decisão de
sociedades locais de fazer algo para reduzir a extensão da pobreza
nas suas áreas, sem esperar por um grande programa nacional de
erradicação da pobreza, concebido e implementado de forma
centralizada, a partir de Brasília.
A questão da busca de
maior eqüidade será ajudada por este processo de combate à pobreza,
na medida em que, à exemplo do que ocorreu no mundo desenvolvido, ao
longo de gerações, as legítimas pressões por menor desigualdade se
expressem através do sistema político. Nosso caso é mais grave,
contudo, porque o Brasil é um país profundamente injusto, do ponto
de vista social, com desequilíbrios na distribuição de renda e de
riqueza, que são inaceitáveis nesta quadra da história da
humanidade, para um país que chegou a nosso estágio de
desenvolvimento econômico e tecnológico.
Mas é importante
aprofundar a discussão sobre este tema e relacioná-lo ao tema
anterior do combate à pobreza. Existe uma visão amplamente difundida
no Brasil de que o problema distributivo e, portanto, a obtenção de
maior eqüidade, é uma questão que envolve, apenas, a relação
entre os "muito ricos" e todo o resto da sociedade, quando,
na verdade, o quadro é muito mais complexo. Há, é claro, o problema
dos muito ricos (que nem são tantos assim, como pode parecer à
primeira vista) sobre os quais é sempre possível pensar em algo
eficaz em termos de tributação, especialmente sobre heranças, mas o
fato é que a maioria das políticas ditas sociais no Brasil quase
nunca foram pensadas, e dirigidas, especificamente para os verdadeiros
pobres, mas sim, com a finalidade de proteger certos setores da classe
média. Há um sem número de privilégios de que hoje são detentores
importantes setores de classes médias (na previdência e na educação,
por exemplo) e que deveriam ser parte integrante de uma discussão séria
sobre desigualdades no Brasil, porque vários deles são mantidos em
detrimento dos mais pobres. Uma discussão que está apenas se esboçando
entre nós, mas que será essencial aprofundar nesta virada do século,
por parte daqueles que, efetivamente, desejam uma sociedade mais justa
– e que consideram que a melhoria continuada das condições de vida
da maioria da população brasileira é parte integrante e a mais
essencial delas, para que possamos ter uma visão positiva "das
perspectivas do Real", entendidas como as caracterizei na introdução
a esta nota.
II
– Diretrizes para o Desenvolvimento Econômico e Social
O desenvolvimento econômico
e social é o objetivo último de toda e qualquer política econômica
digna deste nome. Sem desenvolvimento econômico e social a
estabilidade não se consolida. Sem estabilidade não há
desenvolvimento econômico e social sustentado. Sem responsabilidade
fiscal e aumento da eficiência operacional do Estado (e dos três níveis
de governo) não há nem consolidação da estabilidade nem desenvolvimento
econômico e social sustentado.
O Programa PluriAnual de
Investimentos e de Ação do Governo para o período 2000-2003
identifica com clareza as prioridades de investimento para o País em
termos de programas e projetos. Alguns serão levados adiante com
investimentos públicos; outros com parcerias entre o setor público e
o setor privado; outros sinalizam claramente as oportunidades para o
investimento privado em áreas em que a ação pública e de parceria
tornarão mais rentáveis e competitivos os investimentos privados a
eles associados.
Estes investimentos, que
deverão ser financiados de forma não inflacionária e que não deverão
aumentar o total da dívida pública como proporção do PIB, dependem,
para sua materialização ao longo do tempo, do aumento concomitante
da poupança como proporção do PIB. Há três tipos de poupança: a)
poupança externa, expressa pelo déficit do balanço de pagamentos em
conta corrente; b) poupança privada doméstica; e c) poupança pública.
Há claros limites para a poupança externa, que no atual contexto e
por alguns anos terá que ser reduzida dos atuais mais de 4% do PIB
para menos que 3% do PIB. A poupança privada doméstica pode e deve
aumentar se conseguirmos consolidar, de forma crível, a estabilidade
econômica e politico-institucional do País e o desenvolvimento de
seu mercado de capitais. A poupança pública é hoje uma despoupança,
ou poupança negativa, na medida em que o setor público consolidado
gasta mais do que arrecada em conta corrente.
É uma nostalgia dos anos
50 ou dos anos 70 a idéia de que cabe ao Estado promover o
desenvolvimento, através do gasto público, mandando a conta para a
sociedade via imposto inflacionário ou endividamento, o que recai
sobre gerações futuras, ou via impostos que caiam sobre a geração
presente. O que tem que haver é o aumento da poupança privada e a
redução da despoupança pública.
Ser desenvolvimentista,
hoje, no Brasil, é defender o aumento da produtividade, a redução
de custos, o aumento da competição e o aumento da eficiência
operacional tanto do setor público quanto do setor privado. É
defender as condições para o aumento de investimentos privados, os
investimentos públicos eficientes com clara definição de
prioridades e o respeito à restrição orçamentária. É defender
investimento em gente, em educação primária, secundária e terciária,
em universidade, e no estímulo ao ensino e à pesquisa, que não pode
ser feito simultaneamente em qualquer instituição de ensino que
exista no país – e não é assim em nenhum lugar do mundo. Ali onde
funciona, é resultado de uma concentração de recursos em centros de
excelência que têm massa crítica e capacidade de desenvolver ensino
e pesquisa simultaneamente, para que tenha efeitos sobre o setor real
da economia.
Ser desenvolvimentista
hoje no Brasil é expressar a necessidade de responsabilidade fiscal,
e não de irresponsabilidade fiscal, achando que o Estado tudo pode.
Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é ter um compromisso com a política
monetária e fiscal voltada para o controle da inflação, voltada
para a qualidade do gasto público, para o respeito à restrição orçamentária.
Ser desenvolvimentista hoje é, quando for o caso, e se for o caso, de
defender subsídios a um determinado tipo de atividade prioritária,
fazê-lo com transparência, exigindo que esses recursos estejam
claramente identificados no orçamento e amplamente debatidos, de
forma que a sociedade saiba o que está pagando e quanto está
custando a prioridade que requer aquele tipo de subsídio.
Ser desenvolvimentista
hoje no Brasil é olhar para a frente, para o futuro, sem ilusões,
sem demagogias, sem a falsa expectativa de que bastam atos de
voluntarismo explícito por parte de alguns, ou que bastam, como já
se disse infelizmente num passado muito recente, canetadas
presidenciais e despachos vice-presidenciais para que o país se
desenvolva do ponto de vista econômico e social. Não foi assim no
resto do mundo, não será assim no Brasil.
Não há substituto para a
persistência, a perseverança, o trabalho duro, o envolvimento de
algo mais do que o Executivo e o governo federal, para o qual,
infelizmente – legado do nosso passado ibérico, colonial, legado
talvez dos anos do regime militar –, muitos se voltam, sem se dar
conta do muito que é possível fazer no âmbito do governo local, no
município, no estado, nas associações, nas empresas.
Precisamos, para o bem do
país, e já estamos caminhando nessa direção, sepultar de vez a idéia
de uma espera passiva de que, de Brasília, de um grupo de iluminados,
venham programas nacionais concebidos, implementados,
operacionalizados, fiscalizados, acompanhados e monitorados de forma
centralizada. O Brasil é um país muito grande, muito diverso, muito
heterogêneo, muito complexo e muito rico para que não exploremos o
nosso enorme potencial, levando em conta a unidade na nossa magnífica
diversidade. Eu acho, sim, que é possível um governo pró-ativo, mas
um governo pró-ativo nessas questões que mencionei anteriormente:
eficiência do gasto público, atividade reguladora e seletividade e
identificação de prioridades do tipo da que estamos fazendo na
identificação dos projetos do PPA de 2000 a 2003 – isto é
desenvolvimentismo, corretamente entendido como compatível com
estabilidade, responsabilidade fiscal e maior eficiência operacional
do governo.
Para tal, é essencial a
aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal ora em tramitação no
Congresso Nacional. Para tal, é absolutamente fundamental a
continuidade do processo de reforma da Previdência Social – o
grande desafio a enfrentar na área de contas públicas neste país,
tanto da União quanto de Estados e Municípios.
Para tal, é crítico que
avancemos agora na reforma tributária, que substituirá esse caótico
sistema que temos hoje de 27 legislações de impostos, 27 legislações
de ICMS, o enorme estímulo à fraude, associado aos ICMS
interestaduais e intra-estaduais, os impostos em cascata que incidem
sobre a produção nacional, colocando-a em desvantagem competitiva em
relação àqueles que conosco competem, tanto na busca de mercados
externos quanto na disputa pelo mercado doméstico.
Para tal, é fundamental
que avancemos com serenidade, com objetividade – e sei que o tema se
presta a enormes emocionalismos -, para enfrentar o nosso déficit crônico,
estrutural e exponencialmente crescente, da Previdência, tanto no
regime do INSS quanto, principalmente, no regime da Previdência pública.
Nós estaremos falhando para com nossos filhos e netos, sobre os quais
cairá a conta, se nós não mostrarmos agora a nossa capacidade de
caminhar para equacionar esse problema através da continuidade do
processo de mudanças na Previdência.
Outro grande desafio é a
promoção de exportações e a promoção de atividades domésticas
eficientemente, eu quero sublinhar aqui, eficientemente competitivas
com importações potenciais. Isso é algo que é facilitado pela
movimentação do câmbio, mas obviamente são necessárias outras ações
do governo. O ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso vem chamando
atenção para isso com muita propriedade há algum tempo, na área de
investimentos de infra-estrutura, de integração e logística de
transportes e portos, nos trabalhos de redução de burocracias, a
reforma tributária que é essencial, e alterações na mentalidade,
na direção de uma cultura exportadora, que nunca foi um forte da
nossa gente, um país de dimensões continentais que somos.
Queria concluir dizendo
que há seis anos nunca subestimei problemas e a magnitude dos
desafios a enfrentar. Sempre os encarei com enorme respeito, com
enorme humildade, nunca me deixei levar por otimismos ingênuos. Na
verdade, o mundo é por demais complexo para permitir essa simplória
e maniqueísta divisão entre pessimistas de um lado e otimistas do
outro. As coisas são muito mais complicadas no mundo real, mas ao
mesmo tempo, mesmo reconhecendo as enormes dificuldades, mesmo
reconhecendo que passamos períodos terríveis como o que passamos em
meados de janeiro deste ano, quando estivemos prestes a perder a
credibilidade e a confiança interna e externa – e credibilidade é
algo que se demora anos a tentar angariá-la, e é possível perdê-la
às vezes em dias e semanas.
Pelas razões todas que
mencionei nesse processo de recuperação gradual que ainda é tênue,
que ainda é frágil, mas em comparação com as perspectivas de
janeiro seguramente caminhamos, e é fundamental que continuemos a
caminhar, eu quero dizer que nesse caminhar é fundamental que, sem
ilusões, sejamos capazes de expressar uma confiança no Brasil e no
seu futuro. Uma confiança na nossa capacidade, não do governo, mas
de brasileiros, de caminhar para equacionar os nossos inúmeros e inegáveis
problemas.
Venho dizendo que o Brasil
mudou, que o Brasil está mudando e que o Brasil continuará a mudar,
apesar dos seus inúmeros problemas econômico-financeiros, sociais,
políticos e institucionais. Não é um paradoxo dizer: apesar de seus
inúmeros problemas, e por causa dos seus inúmeros problemas, por uma
razão simples – nós não temos alternativa como nação senão
enfrentá-los da melhor maneira que pudermos. E é o que estamos
tentando fazer há alguns anos, e é o que continuaremos a tentar com
determinação nos próximos anos.
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