Pronunciamentos

02/09/99

O Ministro da Fazenda, Pedro Malan, encaminhou hoje ao PSDB o seguinte texto, com as suas idéias e as diretrizes que vem adotando para levar o país ao desenvolvimento econômico e social:

Perspectivas do "Real" e diretrizes para o desenvolvimento

As perspectivas do "Real" são, na verdade, as perspectivas da consolidação dos três objetivos fundamentais – e indissociáveis – do Governo Fernando Henrique Cardoso: a) inflação sob controle; b) crescimento sustentado, com mudança estrutural e aumento da produtividade média da economia (da qual depende o crescimento futuro); e c) a melhora continuada nas condições de vida da maioria da população brasileira. Estes três objetivos exigem responsabilidade fiscal, a continuidade do processo de reestruturação produtiva ora em curso, de reorganização do Estado e aumento de sua eficiência operacional, em particular nas áreas social e regulatória, e de reconstrução político-institucional do País, visando à consolidação do Estado Democrático de Direito, e de fortalecimento tanto das instituições do Estado, quanto das associações da sociedade civil.

I – Perspectivas do "Real"

I.1 – Inflação

Tivemos, nos últimos cinco anos, taxas de inflacão que este País não experimentava desde o início dos anos 50. Este é um feito expressivo, se levarmos em conta: i) que o Brasil foi o recordista mundial de inflação, quando se considera o período de 30 anos que se estende do início dos anos 60 ao início dos anos 90; ii) que a inflação brasileira no período 1988-1993 foi, em média, superior a 1.000% ao ano, chegando a 2.700 % em 1993 e caminhando – não fora o Real – para algo entre 5.000 e 7.000 % em 1994; iii) que este processo hiperinflacionário nos humilhava e envergonhava perante o resto do mundo, que o via – corretamente – como expressão de incapacidade nossa, como sociedade, de equacionar problemas básicos da nossa economia, há muito "resolvidos" no resto do mundo.

É absolutamente fundamental manter a inflação sob controle, não porque este seja um fim em si mesmo e, muito menos, o único objetivo de um governo, mas porque isto é uma obrigação mínima de qualquer governo responsável e condição "sine qua non" para que outros objetivos, tão ou mais importantes, possam ser alcançados.

Existem, pelo menos, quatro razões para que a inflação seja mantida sob controle. A primeira é de eficiência econômica: a inflação baixa alarga o horizonte de tempo no qual decisões de investimento e de poupança são tomadas, permite o cálculo econômico dos agentes e a comparabilidade do valor de bens e serviços. A segunda é de natureza política: espero não estar enganado ao afirmar que é isto – entre outras coisas, é bem verdade – que a esmagadora maioria da opinião pública, interna e externa, espera de qualquer governo minimamente responsável. A terceira razão é de cunho social: a inflação alta, crônica e crescente, como tivemos por décadas, é um imposto compulsório que incide desproporcionalmente sobre os mais pobres, aqueles menos capazes de dela se defender. É, portanto, injusto, iníqüo e cruel, do ponto de vista social. A quarta e última razão, é de natureza ética e moral: nas hiperinflações, perdem-se referências não apenas para comparar valores relativos de bens e serviços, mas, também, referências morais e éticas: no setor público, no setor privado e, principalmente, nas interações entre os dois, dadas as enormes transferências patrimoniais que inflações elevadas propiciam.

Por todas estas razões, as perspectivas do "Real", no limiar do novo século, dependem, entre outras coisas, do compromisso de governos – quaisquer que venham a ser estes – com a estabilidade do poder de compra da moeda nacional, que é a estabilidade do poder aquisitivo do salário do trabalhador brasileiro, e expressão do grau de seriedade de um governo no trato da coisa pública.

Esta é a razão pela qual, nas democracias consolidadas do mundo moderno, esta questão não é, definitivamente, uma questão submetida ao debate político-eleitoral. Não há partido sério no mundo moderno – que tenha pretensões de alcançar o poder, como é legítimo em democracias – que tergiverse sobre esta questão. Isto já faz parte de um certo consenso básico em sociedades modernas. Um certo consenso básico que ainda estamos, a duras penas, tentando construir aqui e que é imprescindível, entre outras coisas, para consolidar as perspectivas positivas do "Real" para o novo século.

I.2 - Crescimento

A última vez que o PIB per capita brasileiro cresceu cinco/seis anos seguidos foi na década dos 70. Desde então, tivemos três anos consecutivos de recessão no início dos anos 80 (1981, 82 e 83). Em 1988 o crescimento do PIB per capita foi negativo (e a inflação anual chegou aos 1.000% pela primeira vez na história do País). Tivemos mais três anos consecutivos de recessão no início dos anos 90 (1990, 91 e 92). Portanto, não é um fato desprezível, após doze anos de relativa estagnação e queda do PIB per capita, que a economia brasileira tenha crescido quase 25% em termos reais entre 1993 e 1998 e, com isto, aumentado em quase um quarto o seu tamanho. Segundo, é forçoso reconhecer que o Brasil cresceu a taxas mais elevadas no passado (cerca de 7% entre 1950 e 1980) e que, portanto, é legítima a pergunta sobre porque não podemos crescer a taxas mais altas no futuro.

A resposta é: podemos crescer a taxas mais altas que a média dos últimos anos, vamos fazê-lo e estamos criando as condições para isto. Na verdade, deveríamos estar muito preocupados se estivéssemos crescendo cerca de 4% (média do período 1993-97, que, diga-se de passagem, não é taxa considerada desprezível em nenhum lugar do mundo como taxa de longo prazo) e se estivéssemos produzindo a mesma gama de bens e serviços que produzíamos há 10/15 anos atrás, com o mesmo nível tecnológico de 10/15 anos atrás e nas mesmas velhas plantas de 10/15 anos atrás, localizadas nos mesmos lugares de 10/15 anos atrás. Felizmente isto não é verdadeiro; estamos produzindo uma gama mais diversa de bens e serviços, com nível tecnológico mais elevado, em plantas mais novas e, principalmente, estamos experimentando um irreversível processo de descentralização da atividade econômica no País: no agrobusiness, na indústria (em particular) e nos serviços. A combinação destes processos com a inflação baixa e a contestabilidade de mercado, expressa por importações potenciais no quadro de uma economia menos protegida, vem permitindo um expressivo aumento da produtividade média da economia, que é a base para o crescimento futuro aqui no Brasil, como em qualquer lugar do mundo.

A continuidade do esforço de privatizações, de redução do "custo Brasil", de investimento em educação, ciência e tecnologia e treinamento de requalificação de mão de obra, constituem parte fundamental deste processo de obtenção de taxas mais altas de crescimento no futuro, obtidas de forma sustentada e não de bolhas de crescimento que não se sustentam ao longo do tempo.

O fundamental aqui é a elevação da taxa de investimentos privados e de poupança privada doméstica que permita o financiamento não inflacionário do crescimento sem recurso excessivo à poupança externa. Deve ser notado, ainda, que a taxa de crescimento demográfico brasileiro declinou dos quase 3% ao ano das décadas de 50/70, para menos de 1,4% ao ano no momento. Isto significa que um mesmo crescimento do produto per capita a 4% ao ano, que antes requeria uma taxa de crescimento do PIB de cerca de 7%, hoje pode ser alcançado com um crescimento do PIB inferior a 5,5% ao ano (o que não quer dizer que esta seja exatamente a taxa de crescimento desejável para a economia brasileira. Isto é, apenas, uma ilustração, mesmo porque não é o governo que decide qual é a taxa de crescimento de médio e longo prazos de uma economia que conta com expressivo setor privado).

As oportunidades de investimento na economia brasileira, dos quais depende o crescimento futuro, são expressivas: no agrobusiness, na construção civil, na infra-estrutura, nos serviços e na indústria, tanto a que tem produção exportável, quanto na indústria doméstica, eficientemente competitiva com as importações, se nós, como País, conseguirmos assegurar estabilidade político-institucional e estabilidade econômica.

É falsa, absolutamente falsa, a visão do dilema inflação versus crescimento, isto é, que o controle da inflação se faz às expensas do crescimento. Esta não é a experiência do resto do mundo. Ao contrário, estes dois objetivos (inflação baixa e crescimento sustentável a longo prazo) são indissociáveis. As perspectivas do "Real" na virada do milênio dependem, também, de um maior grau de convergência entre nós no que diz respeito a este tema, o qual também não é tema de debate político-eleitoral no resto do mundo, onde ninguém propõe que se "troque um pouco mais de inflação, por um pouco mais de crescimento", porque há muito se percebeu que o crescimento sustentado (que é o que importa) depende de fundamentos, de estruturas, de investimentos e de poupanças, e não de estímulos derivados do rodar da máquina de imprimir papel moeda, de gastos públicos correntes, ou de simples "canetadas presidenciais".

Como nem a inflação baixa, nem o crescimento sustentado (embora ambos indispensáveis e fundamentais) são fins em si mesmos, concluo esta seção com um comentário sobre o que considero o verdadeiro e fundamental objetivo deste Governo.

I.3 - Melhoria das Condições de Vida da População Brasileira

Este processo tem duas vertentes. A primeira é a incorporação de um número crescente de brasileiros (e brasileiras) ao mercado consumidor tanto de bens e serviços privados, quanto de serviços públicos. É inquestionável que este processo vem tendo lugar e que adquiriu considerável impulso com o Real, que retirou a carga do imposto inflacionário que incidia sobre os mais pobres e permitiu a expansão de mecanismos de crédito para milhões de brasileiros. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE são elucidativos e deveriam merecer análise mais acurada, especialmente por aqueles que duvidam deste maior acesso a bens privados e públicos.

Apenas para ilustrar: A PNAD mais recente (1996), divulgada em 1997, confirma a melhora do padrão de vida de setores importantes da população entre 1993 e 1996. Neste período, no que diz respeito a serviços públicos, mais 5 milhões e 164 mil domicílios passaram a ter abastecimento de água; mais 1 milhão 646 mil passaram a ter serviços de esgoto; mais 5 milhões 266 mil passaram a ter lixo coletado diretamente; mais 3 milhões 655 mil passaram a ter acesso à iluminação elétrica e mais 2 milhões 796 mil domicílios passaram a ter telefones.

No que diz respeito ao acesso a bens privados, os dados da PNAD mostram o impressionante efeito combinado da estabilidade do poder de compra da moeda nacional, do incremento do salário real médio do trabalhador, da redução dos preços relativos deste tipo de bens e da recuperação do crédito. Entre 1993 e 1996 o número de domicílios com fogão aumentou em 3 milhões e 125 mil; com rádio aumentou em 4 milhões e 472 mil; com televisão comum, em 5 milhões 518 mil; com televisão em cores, o aumento foi de 8 milhões 968 mil; com geladeira, em 4 milhões 591 mil; com freezer, em 2 milhões 372 mil e com máquina de lavar roupa, 3 milhões 114 mil.

A mesma PNAD mostra avanços importantes na área social: o analfabetismo vem caindo de forma cada vez mais rápida; era de 22,3% em 1980, 17,8% em 1990 e está em 13,8% em 1996 – entre os jovens de 10 a 14 anos, nas áreas urbanas, não passa hoje de 5%. 91% das crianças entre 10 e 14 anos estavam na escola em setembro de 1996 (com as disparidades regionais de sempre), o que torna realista a proposta do governo de se aproximar dos 100% em prazo relativamente curto. Por último, deve ser notado que, em relação à população de 10 anos e mais, a percentagem de pessoas com secundário completo (ou mais) passou de 18,3%, em 1981, para 25,4%, em 1992 e 29,8%, em 1996. Ainda é pouco, em termos de comparações internacionais, mas é inegável que progressos foram e estão sendo feitos, embora estejamos todos de acordo que a velocidade possa, deva e precise ser maior. Mas isto nos remete a necessidade de maior eficácia nas ações operacionais de governos (nos seus três níveis) e da sociedade civil, e não a discursos retóricos sobre deterioração do quadro social e educacional no Brasil quando, na verdade, a situação não está se deteriorando. Existem, apenas, ainda, grandes desafios a enfrentar – o que vem sendo feito. Por exemplo, a tendência da mortalidade infantil, acompanhada pela Pastoral da Criança da CNBB, mostra que o número de mortos (com menos de um ano) por 1.000 nascidos vivos, declinou de 41 em 1992, para 31 em 1994 e 17,6 em 1996.

A outra vertente indissociável do processo de melhora das condições de vida da maioria da população brasileira tem a ver com as questões fundamentais de liberdade, justiça, combate à pobreza e à busca de maior eqüidade.

Em todas, é essencial a consolidação de nossas instituições democráticas e do Estado de Direito, com o respeito aos direitos humanos, a não tolerância a qualquer tipo de discriminação, a igualdade perante a lei e a ampliação do espaço para o exercício da cidadania, da defesa do interesse público e da consolidação das várias instâncias intermediárias entre a população e o Estado, como por exemplo as várias organizações da sociedade civil. Aqui, também, é inegável o progresso que experimentamos desde a abertura política em 1985, embora haja, ainda, muito por fazer. Mas, somos um Estado Democrático de Direito e temos instituições que funcionam e que podem ser melhoradas, e o serão tanto mais rapidamente quanto se organize para tal a nossa sociedade civil -- como vem acontecendo -- e na medida em que continue, poderá consolidar, ao longo do tempo, um amplo espaço de liberdade e de justiça no País, que considero parte integrante da melhora das condições de vida de uma população.

A questão do combate à pobreza é absolutamente fundamental e, seguramente, não pode depender, apenas, do controle da inflação e do crescimento (embora ambos ajudem a minorar o problema). Aqui, além dos inúmeros programas específicos, como por exemplo as aposentadorias para trabalhadores rurais, o LOAS (auxílio aos mais velhos e aos deficientes físicos), os programas de renda mínima, os assentamentos rurais, o PRONAF e outros que, sem dúvida, merecem especial atenção, o fundamental é uma política consistente, permanente, efetiva de informação, de educação formal e informal, de treinamento, retreinamento, qualificação, requalificação e, principalmente, de investimento em crianças e adolescentes, para que os filhos dos pobres de hoje não sejam os pobres de amanhã. Isto exige ação dos três níveis de governo e de instituições da sociedade civil, além de uma firme decisão de sociedades locais de fazer algo para reduzir a extensão da pobreza nas suas áreas, sem esperar por um grande programa nacional de erradicação da pobreza, concebido e implementado de forma centralizada, a partir de Brasília.

A questão da busca de maior eqüidade será ajudada por este processo de combate à pobreza, na medida em que, à exemplo do que ocorreu no mundo desenvolvido, ao longo de gerações, as legítimas pressões por menor desigualdade se expressem através do sistema político. Nosso caso é mais grave, contudo, porque o Brasil é um país profundamente injusto, do ponto de vista social, com desequilíbrios na distribuição de renda e de riqueza, que são inaceitáveis nesta quadra da história da humanidade, para um país que chegou a nosso estágio de desenvolvimento econômico e tecnológico.

Mas é importante aprofundar a discussão sobre este tema e relacioná-lo ao tema anterior do combate à pobreza. Existe uma visão amplamente difundida no Brasil de que o problema distributivo e, portanto, a obtenção de maior eqüidade, é uma questão que envolve, apenas, a relação entre os "muito ricos" e todo o resto da sociedade, quando, na verdade, o quadro é muito mais complexo. Há, é claro, o problema dos muito ricos (que nem são tantos assim, como pode parecer à primeira vista) sobre os quais é sempre possível pensar em algo eficaz em termos de tributação, especialmente sobre heranças, mas o fato é que a maioria das políticas ditas sociais no Brasil quase nunca foram pensadas, e dirigidas, especificamente para os verdadeiros pobres, mas sim, com a finalidade de proteger certos setores da classe média. Há um sem número de privilégios de que hoje são detentores importantes setores de classes médias (na previdência e na educação, por exemplo) e que deveriam ser parte integrante de uma discussão séria sobre desigualdades no Brasil, porque vários deles são mantidos em detrimento dos mais pobres. Uma discussão que está apenas se esboçando entre nós, mas que será essencial aprofundar nesta virada do século, por parte daqueles que, efetivamente, desejam uma sociedade mais justa – e que consideram que a melhoria continuada das condições de vida da maioria da população brasileira é parte integrante e a mais essencial delas, para que possamos ter uma visão positiva "das perspectivas do Real", entendidas como as caracterizei na introdução a esta nota.

II – Diretrizes para o Desenvolvimento Econômico e Social

O desenvolvimento econômico e social é o objetivo último de toda e qualquer política econômica digna deste nome. Sem desenvolvimento econômico e social a estabilidade não se consolida. Sem estabilidade não há desenvolvimento econômico e social sustentado. Sem responsabilidade fiscal e aumento da eficiência operacional do Estado (e dos três níveis de governo) não há nem consolidação da estabilidade nem desenvolvimento econômico e social sustentado.

O Programa PluriAnual de Investimentos e de Ação do Governo para o período 2000-2003 identifica com clareza as prioridades de investimento para o País em termos de programas e projetos. Alguns serão levados adiante com investimentos públicos; outros com parcerias entre o setor público e o setor privado; outros sinalizam claramente as oportunidades para o investimento privado em áreas em que a ação pública e de parceria tornarão mais rentáveis e competitivos os investimentos privados a eles associados.

Estes investimentos, que deverão ser financiados de forma não inflacionária e que não deverão aumentar o total da dívida pública como proporção do PIB, dependem, para sua materialização ao longo do tempo, do aumento concomitante da poupança como proporção do PIB. Há três tipos de poupança: a) poupança externa, expressa pelo déficit do balanço de pagamentos em conta corrente; b) poupança privada doméstica; e c) poupança pública. Há claros limites para a poupança externa, que no atual contexto e por alguns anos terá que ser reduzida dos atuais mais de 4% do PIB para menos que 3% do PIB. A poupança privada doméstica pode e deve aumentar se conseguirmos consolidar, de forma crível, a estabilidade econômica e politico-institucional do País e o desenvolvimento de seu mercado de capitais. A poupança pública é hoje uma despoupança, ou poupança negativa, na medida em que o setor público consolidado gasta mais do que arrecada em conta corrente.

É uma nostalgia dos anos 50 ou dos anos 70 a idéia de que cabe ao Estado promover o desenvolvimento, através do gasto público, mandando a conta para a sociedade via imposto inflacionário ou endividamento, o que recai sobre gerações futuras, ou via impostos que caiam sobre a geração presente. O que tem que haver é o aumento da poupança privada e a redução da despoupança pública.

Ser desenvolvimentista, hoje, no Brasil, é defender o aumento da produtividade, a redução de custos, o aumento da competição e o aumento da eficiência operacional tanto do setor público quanto do setor privado. É defender as condições para o aumento de investimentos privados, os investimentos públicos eficientes com clara definição de prioridades e o respeito à restrição orçamentária. É defender investimento em gente, em educação primária, secundária e terciária, em universidade, e no estímulo ao ensino e à pesquisa, que não pode ser feito simultaneamente em qualquer instituição de ensino que exista no país – e não é assim em nenhum lugar do mundo. Ali onde funciona, é resultado de uma concentração de recursos em centros de excelência que têm massa crítica e capacidade de desenvolver ensino e pesquisa simultaneamente, para que tenha efeitos sobre o setor real da economia.

Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é expressar a necessidade de responsabilidade fiscal, e não de irresponsabilidade fiscal, achando que o Estado tudo pode. Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é ter um compromisso com a política monetária e fiscal voltada para o controle da inflação, voltada para a qualidade do gasto público, para o respeito à restrição orçamentária. Ser desenvolvimentista hoje é, quando for o caso, e se for o caso, de defender subsídios a um determinado tipo de atividade prioritária, fazê-lo com transparência, exigindo que esses recursos estejam claramente identificados no orçamento e amplamente debatidos, de forma que a sociedade saiba o que está pagando e quanto está custando a prioridade que requer aquele tipo de subsídio.

Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é olhar para a frente, para o futuro, sem ilusões, sem demagogias, sem a falsa expectativa de que bastam atos de voluntarismo explícito por parte de alguns, ou que bastam, como já se disse infelizmente num passado muito recente, canetadas presidenciais e despachos vice-presidenciais para que o país se desenvolva do ponto de vista econômico e social. Não foi assim no resto do mundo, não será assim no Brasil.

Não há substituto para a persistência, a perseverança, o trabalho duro, o envolvimento de algo mais do que o Executivo e o governo federal, para o qual, infelizmente – legado do nosso passado ibérico, colonial, legado talvez dos anos do regime militar –, muitos se voltam, sem se dar conta do muito que é possível fazer no âmbito do governo local, no município, no estado, nas associações, nas empresas.

Precisamos, para o bem do país, e já estamos caminhando nessa direção, sepultar de vez a idéia de uma espera passiva de que, de Brasília, de um grupo de iluminados, venham programas nacionais concebidos, implementados, operacionalizados, fiscalizados, acompanhados e monitorados de forma centralizada. O Brasil é um país muito grande, muito diverso, muito heterogêneo, muito complexo e muito rico para que não exploremos o nosso enorme potencial, levando em conta a unidade na nossa magnífica diversidade. Eu acho, sim, que é possível um governo pró-ativo, mas um governo pró-ativo nessas questões que mencionei anteriormente: eficiência do gasto público, atividade reguladora e seletividade e identificação de prioridades do tipo da que estamos fazendo na identificação dos projetos do PPA de 2000 a 2003 – isto é desenvolvimentismo, corretamente entendido como compatível com estabilidade, responsabilidade fiscal e maior eficiência operacional do governo.

Para tal, é essencial a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal ora em tramitação no Congresso Nacional. Para tal, é absolutamente fundamental a continuidade do processo de reforma da Previdência Social – o grande desafio a enfrentar na área de contas públicas neste país, tanto da União quanto de Estados e Municípios.

Para tal, é crítico que avancemos agora na reforma tributária, que substituirá esse caótico sistema que temos hoje de 27 legislações de impostos, 27 legislações de ICMS, o enorme estímulo à fraude, associado aos ICMS interestaduais e intra-estaduais, os impostos em cascata que incidem sobre a produção nacional, colocando-a em desvantagem competitiva em relação àqueles que conosco competem, tanto na busca de mercados externos quanto na disputa pelo mercado doméstico.

Para tal, é fundamental que avancemos com serenidade, com objetividade – e sei que o tema se presta a enormes emocionalismos -, para enfrentar o nosso déficit crônico, estrutural e exponencialmente crescente, da Previdência, tanto no regime do INSS quanto, principalmente, no regime da Previdência pública. Nós estaremos falhando para com nossos filhos e netos, sobre os quais cairá a conta, se nós não mostrarmos agora a nossa capacidade de caminhar para equacionar esse problema através da continuidade do processo de mudanças na Previdência.

Outro grande desafio é a promoção de exportações e a promoção de atividades domésticas eficientemente, eu quero sublinhar aqui, eficientemente competitivas com importações potenciais. Isso é algo que é facilitado pela movimentação do câmbio, mas obviamente são necessárias outras ações do governo. O ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso vem chamando atenção para isso com muita propriedade há algum tempo, na área de investimentos de infra-estrutura, de integração e logística de transportes e portos, nos trabalhos de redução de burocracias, a reforma tributária que é essencial, e alterações na mentalidade, na direção de uma cultura exportadora, que nunca foi um forte da nossa gente, um país de dimensões continentais que somos.

Queria concluir dizendo que há seis anos nunca subestimei problemas e a magnitude dos desafios a enfrentar. Sempre os encarei com enorme respeito, com enorme humildade, nunca me deixei levar por otimismos ingênuos. Na verdade, o mundo é por demais complexo para permitir essa simplória e maniqueísta divisão entre pessimistas de um lado e otimistas do outro. As coisas são muito mais complicadas no mundo real, mas ao mesmo tempo, mesmo reconhecendo as enormes dificuldades, mesmo reconhecendo que passamos períodos terríveis como o que passamos em meados de janeiro deste ano, quando estivemos prestes a perder a credibilidade e a confiança interna e externa – e credibilidade é algo que se demora anos a tentar angariá-la, e é possível perdê-la às vezes em dias e semanas.

Pelas razões todas que mencionei nesse processo de recuperação gradual que ainda é tênue, que ainda é frágil, mas em comparação com as perspectivas de janeiro seguramente caminhamos, e é fundamental que continuemos a caminhar, eu quero dizer que nesse caminhar é fundamental que, sem ilusões, sejamos capazes de expressar uma confiança no Brasil e no seu futuro. Uma confiança na nossa capacidade, não do governo, mas de brasileiros, de caminhar para equacionar os nossos inúmeros e inegáveis problemas.

Venho dizendo que o Brasil mudou, que o Brasil está mudando e que o Brasil continuará a mudar, apesar dos seus inúmeros problemas econômico-financeiros, sociais, políticos e institucionais. Não é um paradoxo dizer: apesar de seus inúmeros problemas, e por causa dos seus inúmeros problemas, por uma razão simples – nós não temos alternativa como nação senão enfrentá-los da melhor maneira que pudermos. E é o que estamos tentando fazer há alguns anos, e é o que continuaremos a tentar com determinação nos próximos anos.

 

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