Pronunciamentos

30/06/99

Transcrição do pronunciamento do ministro Pedro Malan ao anunciar as metas inflacionárias para o triênio 1999-2001

 Sem Revisão do Autor

Eu gostaria de introduzir a apresentação da meta de inflação aprovada hoje pelo Conselho Monetário Nacional com um breve comentário sobre os quatro regimes ou estruturas na condução de política monetária existentes hoje no mundo.

O primeiro deles é algum tipo voltado para taxas de câmbio. Há um amplo espectro aqui que varia em posições de regras muito rígidas, muito fixas. O exemplo mais conhecido que temos é o de conselho de moedas, que temos no nosso vizinho do sul, a Argentina, e existe uma gama de outras possibilidades para o uso de taxas de câmbio e metas para câmbio, explícitas ou não-explícitas, como mecanismos de contribuição para formação de processos de expectativas inflacionárias numa economia. É conhecido, é sabido que, em particular economias que saem de um processo de hiperinflação, como por exemplo a que tivemos neste país em 1993, que a taxa de câmbio, entre outros, é utilizada como instrumento para a coordenação de expectativas de inflação futura, e não há nenhum caso bem-sucedido de controle de hiperinflação em que o câmbio, junto com outras medidas, em particular na área fiscal e na área de mudanças estruturais, não seja uma das âncoras importantes no processo de correção numa situação hiperinflacionária.

Esse é um regime que, sob certo sentido, nós tivemos no Brasil até a adoção do regime de taxas de câmbio flutuantes. Ele já vinha num processo de gradual mudança, no sentido de que nós desvalorizamos o real em relação ao dólar norte-americano em cerca de 12% em termos reais em 97 e 98, e a política de gradualismo no que diz respeito à política cambial poderia ter tido continuidade não fora o fato de duas crises sucessivas que nos obrigaram a abandonar o gradualismo na área fiscal - eu disse aqui no dia 8 de setembro que o gradualismo naquela área havia se exaurido. Também na área de correção gradual, no movimento na direção de reduzir o peso da meta de câmbio como mecanismo de ancoragem, entre outros, de expectativas inflacionárias foi substituído pela taxa de flutuação cambial. Portanto, não é esse o regime que temos hoje e não é o regime que teremos.

O segundo regime, que é o de preferência dos monetaristas, o que nós não somos, é o daqueles que acreditam que exista uma relação estável entre algum agregado monetário relevante e o comportamento da inflação a médio e longo prazo. Portanto, há propostas que tem uma longa tradução na literatura sugerindo que o regime monetário, ou a estrutura na qual se baseia a condução da política monetária, deveria ser uma política de definição de metas para o comportamento de algum agregado monetário e a opção é variada. Há países do mundo que usam esse sistema, com as flexibilidades necessárias. Os casos mais famosos são os do Banco Central da Alemanha e do Banco Central da Suíça, mas eles fazem questão de, ao anunciar as metas de evolução de agregados monetários, dizer que levam em consideração outros fatores. Nós não somos monetaristas, não acreditamos na estabilidade dessa relação, não acreditamos na estabilidade da velocidade de renda/circulação da moeda. Não acreditamos portanto que essa seja uma base para estruturação da forma de condução da política monetária do Brasil. Portanto, nós o eliminamos.

Existe um terceiro regime que é um regime mais de natureza discricionária, em que o Banco Central, o governo afirma seu compromisso de manter a inflação sob controle, mas não se compromete com nenhum objetivo explícito. É o que for possível fazer à luz das circunstâncias, mas o objetivo está lá. Em alguns casos uma credibilidade foi angariada ao longo de décadas na busca desse objetivo. O caso mais conhecido no mundo é o do Federal Reserve dos Estados Unidos, que não tem nenhuma meta explícita nem para agregado monetário, nem para câmbio e nem para inflação, e que, não obstante, tem um comportamento que lhe rendeu uma grande credibilidade junto ao mercado pela sua determinação de, apesar de não ter metas, tem uma postura de controle da inflação sempre olhando a médio e longo prazo, que é hoje reconhecida internacionalmente.

Existe um quarto regime que esse que nós estamos anunciando hoje, que é um regime de metas de inflação, que pode ser entendido nesse debate secular entre economistas, entre adeptos de regras muito rígidas seja para câmbio seja para agregados monetários e outros que são de discricionariedade total - quer dizer, não tem nenhum anúncio, apenas um compromisso de se fazer o melhor possível nessa área. O regime de meta inflacionária é um regime de discricionariedade restringida. Ele tem flexibilidade, mas é uma flexibilidade restringida pelo anúncio numa perspectiva de médio e longo prazo que o governo faz sobre o que ele está mirando com uma taxa de inflação que ele vai procurar alcançar numa perspectiva de médio e longo prazo.

O objetivo não é acertar a taxa de inflação da semana, do mês, do bimestre, ou mesmo do semestre ou do ano calendário. O objetivo é ter uma visão de médio e longo prazo, sabendo que política monetária opera com grandes defasagens, mas com o objetivo que o governo e a sociedade está propondo. Nesse sentido, é importante notar que o objetivo não é tanto a inflação observada, mas é o processo de formação de expectativas de inflação.

Existem na literatura várias sugestões, particularmente nos países que têm democracias parlamentares e bancos centrais legalmente independentes, de que esse anúncio seja feito pelo ministro da Fazenda, sob a hipótese de que ministros da Fazenda em democracias parlamentares são cargos políticos e, portanto, caberia a uma instância política do governo anunciar um objetivo e a uma instância técnica - um banco central com autonomia instrumental ou operacional, não para definir objetivos mas para implementá-los - a responsabilidade de alcançar tal meta.

A razão pela qual nós preferimos que esse anúncio seja feito pelo ministro da Fazenda, o ministro do Orçamento e Gestão e o presidente do Banco Central é porque nós sabemos, não temos ilusão a esse respeito, que a credibilidade de uma proposta e de um compromisso de uma inflação baixa não pode ser dissociado da credibilidade e do compromisso com a parte fiscal em que estamos empenhados. Assim como, de longa data, vários de vocês já me viram dizer na discussão sobre independência e autonomia do Banco Central que governos ou países nos quais não existe o mínimo de compromisso com a responsabilidade fiscal por parte do governo federal, estado ou município, da opinião pública e da sociedade como um todo, esses governos buscarão formas das mais variadas de buscar ampliar seus gastos independentemente do estatuto jurídico de seu banco central. Da mesma maneira, aqui, a idéia de que é possível ter um compromisso firme com inflação baixa por muitos anos à frente como meta de longo prazo não pode ser dissociada do compromisso, também crível, com a responsabilidade fiscal e com a continuidade das mudanças que permitam a mudança do regime fiscal e a adoção da austeridade fiscal, responsabilidade fiscal, a visão de que o Estado tem que viver dentro dos meios que dispõe como parte integrante de qualquer estratégia que procure assegurar a inflação baixa, de maneira duradoura, continuada, por muitos e muitos anos à frente.

O que significa isso? Que esse anúncio representa o compromisso que estamos assumindo aqui como governo, ministério da Fazenda, Orçamento e Gestão e Banco Central e a credibilidade operacional em larga medida está, no Banco Central, na medida em que os instrumentos de política monetária como, por exemplo, taxas de juros de curto prazo, questões de depósitos compulsórios, questões das decisões do BC que afetam as condições de crédito da economia, são decisões para as quais ele não necessita de buscar aprovação de outras instâncias, no âmbito do governo. Nesse sentido ele tem uma certa autonomia instrumental, operacional, para buscar o objetivo, volto a dizer não no curto prazo, mas como o objetivo de médio, longo prazo. Mas existe também a credibilidade operacional de outras áreas do governo, principalmente da área fiscal, que é um componente indispensável para que o objetivo de inflação baixa possa ser alcançado de forma duradoura.

A credibilidade do anúncio do objetivo de manter a inflação baixa é parte da responsabilidade do Banco Central e também de outras áreas do governo. Essas mudanças estruturais dependem da continuidade do processo de mudança do regime fiscal. Há algo que eu gostaria chamar a atenção aqui: toda e qualquer economia está sujeita, seja ela desenvolvida ou em desenvolvimento, a choques, que podem ser de demanda, positivos e negativos, que não constituem um grande problema porque choques de demanda normalmente, apesar de poder ter origens diversas, produtos e preços caminham na mesma direção, seja crescimento, seja retração. Mas existem choques de oferta, que é uma expressão vaga para mencionar as inúmeras possibilidades, dentre as quais algumas podem ser choques de ofertas positivos, como por exemplo em uma excelente safra agrícola, que tem efeito positivo sobre o produto e sobre preços. Podem ser choques negativos, como por exemplo foram os choque de petróleo que tivemos no início dos anos 70 e de novo no final dos anos 70, na virada dos anos 80, que no curto prazo é possível que haja um comportamento assimétrico entre produto, emprego e inflação. Portanto é muito importante entender o regime de metas inflacionárias incorporando dois aspectos: o primeiro é o compromisso de governo com a preservação, com a virada da inflação baixa como objetivo de médio e longo prazo e por outro lado, a natureza das respostas do governo aos choques de oferta que podem ser positivos ou negativos. Se não existe conflitos de longo prazo entre inflação, crescimento do Produto e emprego, que é algo amplamente demonstrado em teoria e na prática no mundo, podem existir, dependendo da natureza dos choques de oferta, certos conflitos de curto prazo entre comportamento da inflação e comportamento do Produto.

Exatamente por isso, na definição que faremos agora da meta inflacionária existe uma faixa de variação, tanto para mais quanto para menos. É importante entender aqui a faixa de variação para mais como incorporando a capacidade que tem o governo e o Banco Central de responder, com defasagem no tempo que lhes pareça apropriada, a choques de oferta dependendo da natureza desses choques. Em outras palavras, não era necessário uma reação abrupta, em termos de instrumentos de política monetária, tendentes a fazer uma expectativa de inflação negativa convergir rapidamente para a meta quando o Banco Central considerar que os efeitos sobre o Produto e emprego sugerem uma acomodação no prazo mais estendido para a meta, que volto a insistir, é um objetivo de médio e longo prazo e não de curto prazo.

Existe uma outra dimensão para a qual é fundamental chamar a atenção a qual nós estamos dando hoje uma clara demonstração da importância que atribuímos a isso. Vocês já devem ter recebido e eu vou distribuir agora: o Relatório de Inflação. Esse relatório estará sendo divulgado a cada trimestre, no decreto assinado pelo presidente há algumas semanas está dito que no dia 30 de junho o relatório estaria disponível. Ás próximas datas serão 30 de setembro, 30 de dezembro e assim por diante e representa algo que é absolutamente essencial para que seja bem-sucedida qualquer estratégia de meta inflacionária do tipo da que estamos anunciando hoje que é: maior transparência, maior comunicação e maior prestação de contas por parte do Banco Central à opinião pública, à sociedade, ao Congresso, de como é que o BC está analisando o comportamento da economia e da inflação, as razões que o levaram a tomar determinadas medidas, qual é a base da qual o Banco Central trabalha no futuro em termos de cenários alternativos e distribuições probabilísticas de materialização de diferentes cenários inflacionários no futuro, em suma: todas as experiências bem-sucedidas na Inglaterra, Canadá, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Suécia, Finlândia, nesse regime Israel mostram a importância um grau de comunicação, transparência do Banco Central com a opinião pública, sociedade e mídia maior que no passado. Nós achamos que esse é um fato da maior importância que estamos dando início com a divulgação do Relatório de Inflação, hoje e que será agora regularmente comunicado a cada trimestre.

Eu mencionei aqui a credibilidade operacional do Banco Central e de algumas outras áreas do governo, em particular na área fiscal, mas há também uma questão de credibilidade política envolvida nessa questão. Em todas experiências bem-sucedidas de metas inflacionárias interpretou-se de maneira não equivocada que a esmagadora maioria da sociedade em questão na verdade desejava que houvesse a estabilidade do poder de compra da moeda nacional. Esse é um tema que, por exemplo, no debate político e econômico, em países mais avançados não é um tema sobre o qual se tergiverse. Não é um tema de debate político eleitoral, por exemplo. Ninguém se apresenta, numa campanha eleitoral, tergiversando sobre o interesse da maioria da população na preservação da estabilidade do poder de compra da moeda nacional, do país em questão. Há um amplo, para não falar consenso, um enorme grau de convergência sobre essa questão, expresso às vezes em mudanças expressivas, por exemplo, a vitória do trabalhismo inglês, na Inglaterra, se seguiu no primeiro dia de inauguração do governo a concessão da autonomia do Banco Central inglês para seguir uma política de metas inflacionárias que foi anunciada naquela ocasião. A vitória do socialismo francês, por exemplo, não significou nenhuma mudança nos compromissos básicos com o governo francês no que diz respeito à preservação da estabilidade do poder de compra do franco. O mesmo é verdade em outros países, nosso vizinho aqui do sul, a Argentina, os partidos de oposição declararam publicamente em um manifesto escrito o seu compromisso, ao se apresentarem como alternativas críveis ao exercício do poder e na gestão da coisa pública, que não abririam mão do controle da inflação como objetivo central da proposta para o país. Há um enorme campo, escopo, para divergências quanto a forma de gerir a coisa pública, quanto à estrutura e composição do gasto público, busca de maior eficiência nesse gasto. Mas as questões ligadas à inflação não são em nenhum país do mundo temas de debates políticos-eleitorais. De longa data se sedimentou a idéia de que é de interesse da maioria que a moeda nacional tenha um poder de compra preservado, o que significa necessariamente uma baixa taxa de inflação como objetivo de médio e longo prazo, que vai ser sustentado por anos e anos à frente e não apenas por um horizonte de tempo de um determinado mandato presidencial.

Dito isso eu quero aproveitar a oportunidade para mais um mais uma vez enfatizar que essa preocupação com a inflação não é de forma alguma o único, singular, monocórdico, monotônico objetivo do governo. Pelo contrário, esse é um objetivo dentre outros, tão ou mais importantes. Mas a nosso juízo é uma condição necessária para que outros objetivos, tão ou mais importantes, possam ser alcançados.

É um falso dilema essa tentativa de alguns, fora de foco, lugar e época, achar necessário optar entre uma postura complacente e negligente em relação à inflação na busca de outros objetivos. Não existe tal dilema. Há dezenas de experiências históricas no mundo, inclusive nos países mais bem-sucedidos, que mostram ser perfeitamente possível compatibilizar a inflação sob controle com crescimento sustentado, com mudança estrutural, com aumento de produtividade que é a base de crescimento futuro, com melhora das condições de vida da maioria da população, com avanços tecnológicos. Não existe nenhuma incompatibilidade entre esses objetivos que na verdade são absolutamente interligados e indissociáveis. Eu já tive oportunidade de dizer em várias outras ocasiões que são quatro as razões que nos levam a não abrir mão do compromisso em preservar a inflação sob controle. O primeiro é ligado a eficiência econômica: a inflação baixa, aqui como em qualquer país do mundo, alarga o horizonte de tempo em que decisões de investimento e poupança e de são tomadas, e portanto esse é um elemento que aumenta a eficiência da economia em seu conjunto. A segunda razão é de natureza política. Nós estamos convencidos de que essa é a expectativa da maioria da população brasileira: que qualquer governo que venha a nos suceder tenha como propósito a estabilidade do poder de compra do real. O terceiro é de natureza social. A inflação é o mais injusto, iníquo e cruel de todos os impostos. É o imposto inflacionário que incide sobre aqueles menos capazes de arcar com suas conseqüências. E a quarta razão é de natureza ética e moral. Inflações vergonhosas como as que tivemos no Brasil por durante quase seis décadas, crescentes, nos levando à hiperinflação em 93, significam na verdade enormes oportunidades de transferências patrimoniais, umas legais e outras que estimulam todo o tipo de comportamento questionável do ponto de visto ético e moral. Ao meu juízo, são razões suficientes para que qualquer governo sério, minimamente responsável na gestão da coisa pública, reafirme de público e sem tergiversações esse compromisso.

Dito isso e levando em conta que há riscos, assim como em qualquer coisa na vida, principalmente riscos externos, riscos internos associados a problemas de natureza política e institucional. Essa é a razão pela qual este trabalho de comunicação, transparência e debate público possa permitir que ao longo dos próximos anos esse termo ocupe o lugar que lhe cabe na discussão pública no Brasil - por que manter a inflação sob controle. Inclusive e particularmente para aqueles que preocupados com questões de crescimento, investimento, emprego, pobreza e avanço social e tecnológico no Brasil gostaríamos o que decidimos ao longo de um processo de consultas que teve lugar nos últimos meses e culminou com a decisão de hoje. Insistindo que nós vamos mirar esse objetivo e que na verdade estaremos discutindo isso amplamente com a sociedade. O decreto que o presidente assinou há algumas semanas deixa claro que é responsabilidade do Banco Central não só procurar alcançar o objetivo dentro da faixa de variação, mas a experiência de outros países que usam esse sistema mostra que por vezes houve devido a choques externos, como mencionei anteriormente, alguns pequenos afastamentos, e aqui o compromisso é uma carta pública à sociedade endereçada pelo presidente do Banco Central - o decreto diz ao ministro da Fazenda, mas é óbvio que a sociedade e a opinião pública em seu conjunto - explicando não só as razões, o que já continham os relatórios de inflação em termos de indicação dessa possibilidade ao se tratar de cenários probabilísticos com que trabalha o Banco Central das razões que levaram a um eventual descumprimento da meta das medidas já adotadas e por adotar por parte do Banco Central para que se retorne ao objetivo de médio e longo prazo em termos de inflação esperada no País. O índice de preços já é de conhecimento de todos vai ser o IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Ampliado do IBGE. Isso já foi anunciado; as razões da escolha também já foram amplamente divulgadas - é o índice de preços de mais ampla cobertura no Brasil; cobre 11 regiões metropolitanas do País à diferença de índices excelentes também, como são o índice da Fipe/SP e aos dois índices de preços ao consumidor da FGV, que tratam das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Essa é a razão - maior grau de cobertura - do IPCA que está sendo utilizado. Mas tanto o índice da Fipe quanto os IPC's da FGV serão utilizados como balizadores da discussão sobre o comportamento da inflação e das expectativas inflacionárias no Brasil. Nós estaremos também encorajando tanto a Fipe quanto a FGV a procurarem ao longo do tempo ampliar a cobertura de seus respectivos índices; estaremos anunciando em breve a criação desse comitê ou comissão que vai discutir as questões metodológicas dos índices para assegurar transparência e comunicação, e nós decidimos também, à diferença de várias dessas experiências, eu diria que a maioria delas, em que o índice de preços, que é sempre o índice de preços ao consumidor, é um índice dos quais certos produtos de preços marcados por mais volatilidade são excluídos. Trabalha-se com o conceito de núcleo inflacionário, inflation em inglês, na maioria desses países. Nós sabemos dos problemas de credibilidade graves que se adviriam do fato de o governo anunciar uma meta de inflação para um índice que seria ainda formulado, do qual certos elementos estariam excluídos.

Isso não quer dizer, no entanto, que a medida que nós caminhamos para consolidar esse regime, que através de uma discussão ampla, pública e transparente com esse comitê, que nós um dia não possamos ter no futuro além dos índices, tal como publicados hoje, que esses institutos, cada um de uma maneira pública e transparente, caminhem como fazem vários países do mundo para ter a sua estimativa do núcleo inflacionário no futuro. Mas isso não está colocado no momento e o que eu vou anunciar aqui diz respeito aos índices de inflação tal como são calculados e publicados hoje pelo IBGE, através de seu IPCA, com o uso do índice da Fipe e da FGV como balizadores.

Começando com a de 2001, a enfatizar que o objetivo é um objetivo de médio e longo prazo, não estamos preocupados em anualizar a taxa de inflação da quadrissemana no índice tal e avaliar se a meta está sendo cumprida ou não, porque o objetivo é colocar essa discussão como ela deve ser colocada, que é uma discussão de médio e longo prazo, mesmo porque os instrumentos de política monetária aqui no Brasil como em qualquer país do mundo operam com defasagens de vários meses e não existem respostas imediatas a decisões de política monetária nem aqui nem em qualquer outro país. Para 2001, portanto, o número que nós vamos mirar como meta de inflação é 4% no ano, com uma margem de variação, associada àquilo que mencionei anteriormente, de dois pontos percentuais para cima e para baixo. Quer dizer: quatro mais dois pontos percentuais ou menos dois pontos percentuais para o ano calendário de 2001.

Essa mesma conversa que estamos tendo hoje nós teremos em 30 de junho do ano 2000, quando será discutida também a continuidade desse programa de metas inflacionárias.

Para 2000, o número que nós vamos mirar é de 6%, com uma margem de variação da mesma magnitude. Para 1999, os dados disponíveis vão até o mês de maio deste ano, mas nós estamos mirando uma taxa de inflação de 8%, também com os dois pontos percentuais de variação, tanto para cima quanto para baixo.

Em resumo, os números que nós gostaríamos de anunciar, falando agora na sequência cronológica, seriam 8%, 6% e 4%, com essas faixas de variação que eu anunciei. O sistema de taxas inflacionárias ou a estrutura de metas inflacionárias como forma de organizar a condução da política monetária, eu quero enfatizar esse ponto, não é uma panacéia, não há uma panacéia nem aqui nem em qualquer lugar do mundo para se alcançar exatamente um objetivo de inflação, mas eu acho que é uma indicação de um compromisso com a preservação da inflação sob controle. Eu quero insistir: não temos mais a âncora cambial dentre as âncoras do sistema. As verdadeiras âncoras de um regime que procura consolidar a inflação baixa com crescimento da atividade econômica, do investimento, do emprego, com melhoria das condições de vida, são as âncoras fiscal e monetária. E a âncora monetária nossa será esse regime de meta inflacionária que acabamos de anunciar. Os detalhes estão no Relatório de Inflação divulgado hoje pelo Banco Central, e estaremos, tanto o Banco Central como o resto do governo, ao longo dos próximos dias e meses, discutindo de maneira muito mais ampla do que fizemos até agora, porque agora temos uma referência de médio e longo prazo, de maneira transparente, com a maior comunicação e prestação de contas à sociedade, ao Congresso e à opinião pública. E com a flexibilidade que esse regime de discricionariedade restringida de meta inflacionária permite como estaremos caminhando na direção do objetivo a ser alcançado. Não é o único objetivo, volto a insistir, mas é um objetivo essencial.

Era isso que eu gostaria de dizer como introdução.

 

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