Pronunciamentos

27/06/99

Entrevista do ministro Pedro Malan, ao jornal Estado de Minas, em 27 de junho de 1999 Leonardo Attuch e Maurício Athayde

Crescimento com estabilidade

Poucos dias depois da desvalorização cambial no País, tudo parecia perdido. Falava-se em queda de 6% do PIB, inflação de 80%, a volta da indexação e até mesmo calote da dívida interna. No entanto, a resposta positiva da economia brasileira à desvalorização do real surpreendeu a maior parte dos analistas e até mesmo a própria equipe econômica, que chegou a trabalhar com cenários piores do que o atual - retração de 1% em 1999 e crescimento de 4% a partir do ano 2000, com inflação de um dígito - nos encontros mantidos com os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para o ministro Pedro Malan, o comportamento da economia após a mudança de regime cambial foi fruto de uma série transformações estruturais na sociedade brasileira. Cinco anos de estabilidade foram suficientes para eliminar a memória inflacionária e criar uma postura ativa do consumidor e de diversos segmentos da cadeia produtiva, que reagiram às tentativas de reajustes. Além disso, o choque de competição do Plano Real exigiu enormes ganhos de produtividade por parte das empresas, que se tornaram capazes de absorver o impacto da máxi. Finalmente, a boa saúde do sistema financeiro diferencia a desvalorização brasileira da ocorrida em outros países.

Malan crê na proximidade de um novo ciclo de desenvolvimento sustentado no País, com taxas anuais de crescimento superiores a 4% nos próximos anos. Mas, para isso, é ainda necessário enfrentar as debilidades fiscais do setor público no País.

EM - O que determinou uma melhoria tão significativa da economia em relação às previsões catastróficas feitas após a desvalorização?

Malan - Houve uma mudança muito significativa em termos de projeções e expectativas em relação àquelas que foram realizadas no calor das turbulências que tivemos entre os meses de janeiro e fevereiro. Eu, por exemplo, tenho em meus arquivos pessoais estimativas para as taxas de inflação no ano de 1999 de 50%, 60% e até de 80%. Vi projeções de queda do PIB de menos 4% até menos 7% para o ano; e ainda estimativas para a taxa de câmbio em até R$ 2,50 por dólar.

Vários fatores estão por trás das mudanças. Um deles foi o comportamento da própria sociedade brasileira, principalmente do consumidor e de segmentos da cadeia produtiva, que não aceitaram o repasse automático da variação do câmbio. Essa reação é comum em países desenvolvidos, em que o consumidor muda para produtos similares mais baratos. Depois de quatro a cinco anos de estabilidade, os consumidores já sabem avaliar o que e caro, o que é absurdamente caro, já que tem na memória preços estáveis. Além disso, a combinação de inflação em queda com a abertura da economia aos produtos importados forçou as empresas nacionais a se tornarem muito mais competitivas. Um terceiro fator foi que, diferentemente das crises que atingiram outros países emergentes, a desvalorização no Brasil não esteve associada a nenhuma crise bancária.

Hoje, a solidez do sistema financeiro no País é reconhecida internacionalmente. Finalmente, tivemos também a entrada de Armínio Fraga no Banco Central com uma diretoria extremamente competente, o que ajudou a reverter expectativas ruins. Hoje, o mercado estima uma inflação entre 6% e 7% e uma queda do PIB em 1999 entre 0% e 1%, com a volta do crescimento já no segundo semestre deste ano.

EM - O senhor acredita que haverá um novo ciclo de desenvolvimento sustentado, já a partir do ano 2000, em função de toda a transformação produtiva por que passou a economia brasileira?

Malan - Eu não tenho dúvida disso. Talvez a população brasileira não tenha se dado conta da transformação por que o País passou. Mudou no sentido de que a economia brasileira hoje produz uma gama muito mais diversificada de bens e serviços. A Embraer, que vem exportando aviões e ocupa um lugar de destaque na produção mundial, é um exemplo. Aumentou o conteúdo tecnológico da produção brasileira em vários setores e há ainda um fato da maior importância, que é a desconcentração da atividade econômica. Talvez não seja visível para a esmagadora maioria, mas os que acompanham isso de perto já estão percebendo que essa mudança representa o aumento da produtividade média da economia, que é o que representa a base do crescimento futuro. Já há um consenso de que haverá um crescimento próximo a 4% no ano 2000. A desvalorização também produzirá um crescimento notável nas exportações, ainda que no curto prazo seus efeitos tenham sido moderados.

EM - Mas já há sinais positivos. A Fiat, por exemplo, está contratando 600 empregados, em função de vendas externas maiores. A competitividade da empresa brasileira em um contexto global teria sido possível sem os cinco anos de âncora cambial?

Malan - Não, acho que não. O Brasil foi durante décadas uma das economias mais fechadas do mundo e a abertura expôs a economia à competição com produtos importados, que teve o efeito de aumentar a produtividade e reduzir a inflação. Se nós tivéssemos mantido a cultura inflacionária, a cultura indexatória e tivéssemos mantido um perfil autárquico para o País, fechado para o comércio internacional, estaríamos limitando a nossa capacidade de crescimento a médio e longo prazo, que é o que importa. Crescimento a curto prazo, com bolhas de crescimento, qualquer um pode fazer, mas isso tem fôlego curto. Não é o que nos interessa.

EM - Que riscos representariam para a economia brasileira uma queda acentuada da Bolsa de Valores de Nova York ou uma desvalorização na Argentina?

Malan - O fato de termos um regime de câmbio flutuante reduz a vulnerabilidade externa. Você não fica obrigado a defender uma certa taxa de câmbio dilapidando reservas. Esse modelo já funciona como um amortecedor para choques externos que existem e continuarão a existir. Esses riscos internacionais existem, mas eu não tenho dúvida de que as batalhas fundamentais são ganhas ou perdidas no front doméstico. A capacidade de resposta da economia frente a uma situação internacional adversa é o que faz a diferença. O Brasil mudou e vai continuar mudando. E essa mudança é para melhor, em termos líquidos.

EM - Ministro, o dólar chegou a R$ 1,80 novamente. Como isso deve ser encarado? Há algum limite para a flutuação cambial com o qual vocês trabalham?

Malan - Acho que é para se encarar como um regime de taxas flutuantes, como o próprio nome indica. Flutua ao sabor de várias avaliações tanto internas quanto externas. Certas concentrações de pagamentos, como está ocorrendo agora, aumentam a demanda por dólar e a taxa sobe. Mas a flutuação do câmbio protege as reservas internacionais do País. O câmbio deixou de ser uma âncora e deu lugar às verdadeiras âncoras, como acontece no resto do mundo, onde a política fiscal e a política monetária é que têm esse papel. A estabilidade do câmbio depende de quanto está fortalecida a economia no seu sistema e da capacidade de o Estado viver dentro dos seus meios, razão pela qual insistimos muito no equacionamento desses desequilíbrios que ainda temos entre nós. A questão da previdência, por exemplo. Não vamos resolver esse problema de um ano para outro, mas é importante que demonstremos que estamos caminhando para equacioná-lo ao longo do tempo. Certas discussões que ainda ocorrem no Brasil já não encontram mais espaço no mundo desenvolvido, como intenções voluntaristas de aumentos de gastos. Só existem três formas de se ter gastos adicionais: através de aumentos de impostos, de endividamento ou de inflação. Se não queremos aumentar nada disso, só resta então estabelecer prioridades redirecionando os recursos para certas áreas que são consideradas mais importantes. Essa é a fórmula que o mundo adota e acho que nós estamos chegando lá. Essa lei de responsabilidade fiscal caminha para esse lado, o de se respeitar a restrição orçamentária.

EM - O senhor não acha que existe mais espaço para uma redução das taxas de juros e dos compulsórios no Brasil, para estimular uma retomada consistente do crédito?

Malan - As taxas de juros já caíram 24 pontos percentuais de março até agora, de 45% para 21%. Não é uma queda inexpressiva. Acho que existe espaço sim para ampliação das operações de empréstimo no Brasil, até porque em vários países a relação entre crédito e PIB é muito maior do que no País. Foi até em função disso que bancos como Santander, Bilbao Vizcaya, ABN Anro e HSBC - com larga experiência global nesse campo - decidiram apostar no Brasil. Concordo também com o fato de que há uma diferença grande no Brasil entre as taxas básicas e as taxas cobradas nos empréstimos, e a redução dos compulsórios, que contribuirá para melhorar essa situação, está sendo estudada pelo Banco Central. Além disso, é importante reduzir a cunha fiscal nas operações financeiras e isso é mais uma das razões da importância da reforma tributária.

EM - Desvalorizações em países estáveis e desenvolvidos muitas vezes são recebidas com alívio pelos mercados financeiros. Em países emergentes, são vistas como a ruptura de uma promessa, com inegáveis perdas de credibilidade. Passada a prova da desvalorização, o Brasil já poderia fazer parte de uma categoria mais nobre de países?

Malan - O trabalhismo inglês chegou ao poder na Inglaterra e ninguém achou que eles adotariam posturas inflacionárias ou de irresponsabilidade fiscal. O país continuou com a mesma credibilidade que tinha antes. Em outros países, como o México e a Tailândia, em que houve a desvalorização, surgiu o questionamento não do regime cambial anterior, mas sim a respeito do funcionamento do novo regime e do que viria em termos de compromisso do governo com austeridade fiscal, inflação, regras do jogo, enfim, tudo é questionado nesses países. Mas existem países, onde ou incluo o Brasil, que, embora tenham ainda muito o que fazer, já obtiveram enormes progressos político-institucionais. O que cria instabilidade é a percepção de que as coisas podem mudar radicalmente de uma hora para outra. O mercado está sempre olhando para a frente.

EM - Na questão fiscal, o próprio governo mineiro, que chegou ao limite da moratória, já começa a tentar limitar seus gastos. Sem inflação e bancos estaduais, será que acabou de vez a era de irresponsabilidade fiscal nos estados?

Malan - Não há outra coisa a fazer a não ser entender a natureza do desafio e começar a enfrentá-lo. Eu entendo o apelo que existe em se resolver o problema da dívida. Mas nós estamos falando, depois da reestruturação e renegociação com os estados, de um comprometimento de 13% da receita líquida dos governos. Será que o problema está só aí? Se um estado gasta 80% de sua receita com funcionalismo e outros 13% com a dívida, sobrariam só 7% para investimentos e custeio da máquina administrativa. Se a sociedade achar que essa é a destinação ideal dada a seus impostos, não haverá problema. Caso contrário, as prioridades terão de ser rediscutidas. Não há mágica.

 

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