Pronunciamentos

17/05/99

Transcrição da palestra do ministro Pedro Malan no XI Fórum Nacional do Instituto Nacional de Altos Estudos – Inae, no Rio de Janeiro

Sem Revisão do Autor

Meus caros Rouanet (embaixador Sérgio Rouanet), Amadeo (Edward Amadeo, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda), cardeal Eugênio Salles, Armínio (Armínio Fraga, presidente do Banco Central), Pimenta (Pimenta da Veiga, ministro das Comunicações), João Paulo (ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, idealizador e condutor do Fórum Nacional), Luís Paulo Conde (prefeito do Rio de Janeiro), Pio (Pio Borges, presidente do BNDES), senador Bezerra (senador Fernando Bezerra), representante do governador Garotinho, deputado Márcio Fortes, senhoras e senhores.

À diferença do embaixador Rouanet, que nos brindou com um excelente texto adrede preparado, peço desculpas de antemão. Mesmo que tivesse tempo, não seria capaz de fazer um texto de tal profundidade. Mas vou expor algumas breves notas que rascunhei, pensando no tema básico deste encontro que nos ocupará aqui, como, brilhantemente, vem organizando, já há mais de uma década, o ministro Reis Velloso nesse fórum nacional.

O tema é "Crise mundial e a nova agenda de crescimento". Não vou tratar aqui do contexto internacional, que será tratado por pessoas mais competentes em outras sessões deste encontro. Na verdade, queria só registrar que, fora de um contexto internacional, no mundo de hoje, nenhum país como o Brasil pode ser analisado adequadamente, se é que pôde sê-lo em algum momento do passado. Há duas atitudes a evitar nessa discussão, e espero que nós a evitemos nas discussões que se seguirão neste fórum.

A primeira delas é uma espera ou uma torcida por eventos que nos sejam favoráveis, mas que estão fora de nosso controle, e a lista é longa. A segunda, mais grave ainda, particularmente para um país como o Brasil, é uma postura ressentida de nos considerarmos vítimas de eventos externos, fora do nosso controle. O nosso futuro como país, como sociedade, nunca será demais repetir, depende de nós. Nosso futuro está nas nossas mãos como sempre esteve no passado, e a resposta do Brasil a eventos internacionais que lhe sejam potencialmente favoráveis ou desfavoráveis, na verdade, tem que se desdobrar numa ação internacional do tipo da que estamos fazendo há muito, mas com particular intensidade desde a crise da moratória russa de agosto do ano passado.

Aumentamos e muito a nossa ativa e construtiva participação em fóruns como o Fundo Monetário Internacional, o G7 ampliado, o Banco de Compensações Internacionais, a OECD e reuniões bilaterais que hoje têm lugar entre o Brasil e alguns países-chave do mundo – a última com a Inglaterra, há cerca de duas semanas. Somos ativos participantes, e continuaremos a sê-lo, porque isso é uma dimensão importante da nossa visão e ação internacional. Mas a ação doméstica é o que importa. Em última análise, as batalhas fundamentais são ganhas ou perdidas no front doméstico, e esperamos ganhá-las sem ilusões, apesar dos enormes desafios a enfrentar.

Queria mencionar aqui, para situar no contexto desta dita recuperação gradual que a alguns tanto teria surpreendido em comparação com os catastrofistas, cenários e projeções que prevaleciam há quatro meses atrás, no mês de janeiro. Na verdade, nesta época, no mês de janeiro, reflexo talvez da turbulência que atravessávamos e de uma certa miopia curto-prazista que tende a projetar para o futuro as dificuldades do momento, como se o futuro estivesse condenado a aprofundar as dificuldades do momento presente, nós vimos estimativas e projeções de institutos de pesquisa, de bancos domésticos e internacionais, de consultorias acadêmicas e não-acadêmicas, que projetavam taxas de inflação de 50%, 60%, 70%. Cheguei a ver até uma de 80% no ano de 1999.

Vi projeções do PIB de queda de -4, -5, -6, -7 e –8%. A média das projeções feitas no calor dos acontecimentos, em meados de janeiro, varia entre 5% e 6%. Vi projeções de câmbio, em 31 de dezembro, de R$ 2,5, R$ 2,3, R$ 2,1. Em suma, para citar o título de um artigo de Carlos Alberto Sardemberg, no jornal "O Estado de S. Paulo" de hoje, autópsias prematuras sobre a morte do jazz e do tipo que nós já vimos em algumas reuniões passadas deste mesmo Fórum Nacional, eu tive a oportunidade de chamar a atenção desde 1995 para alguns desses apressados que, no calor da hora, decretavam a morte e o enterro do Real. Citei inúmeros casos, ao longo dos últimos quatro anos, dessas autópsias prematuras, que usavam momentos de turbulência e dificuldade para expressar um ceticismo, um pessimismo e um catastrofismo larvar sobre a incapacidade nossa de, sem ilusões, tentar superar os problemas com que nos defrontávamos.

Queria dizer que esta gradual mudança de expectativas que vem tendo lugar, em particular, a partir de meados de março, não veio por acaso. Ela veio porque houve eventos derivados de ações e de mudanças estruturais da maior importância que ocorreram no Brasil ao longo dos últimos anos, e que explicam a rapidez com que essas expectativas foram revertidas.

Eu quero citar cinco dentre elas. A primeira é a seguinte: quatro anos de inflação sob controle numa trajetória declinante tiveram um enorme efeito que só agora se começa a perceber em termos de seu significado maior. A população brasileira, o consumidor, os empresários, fornecedores e compradores ao longo da cadeia produtiva não têm mais hoje uma atitude que prevaleceu neste país durante mais de duas décadas: a postura de que só há uma direção quando as expectativas de inflação se incendeiam, que é a direção ascendente – a idéia de que a inflação de uma semana estabelece um piso para a inflação da semana seguinte, que a inflação de um mês estabelece um piso para a inflação do mês seguinte, de um ano para o ano seguinte.

Houve uma reação, por todos os tipos, extremamente bem vinda, que é típica de sociedades mais maduras, exercício de cidadania, em que o consumidor se recusa a comprar hoje, aceitando o argumento de que amanhã estará mais caro, ou que o produto haverá de faltar na prateleira e, que na cadeia produtiva, um comprador recusa um aumento de preços baseado numa mecânica, automática e indevida extrapolação da variação do câmbio naquela semana, incorporando-se à lista de preços e achando que é melhor comprar naquele momento porque dali só há aumento de preço no futuro.

Este é um fato econômico, cultural e social da maior importância e do maior significado para o futuro deste país. Nós não aceitamos mais, como aceitamos durante duas ou três décadas, a idéia de que estamos condenados a viver num regime de alta, crônica e crescente taxa inflacionária. Não aceitamos mais a idéia que nós criamos essa contribuição única do Brasil ao gênero humano, que é a figura, já o chamou Sérgio Abrantes, do Homo Indexatus, ao qual se adiciona o Homo Faber e o Homo Economicus. Aquele, como diria o saudoso Mário Henrique Simonsen, que tem a indexação, a cultura indexatória, a cultura da inflação nos neurônios. Esta é uma causa importante para explicar a reversão de expectativas: é uma reação que não é do governo, do Executivo; é uma reação da sociedade em seu conjunto, por todos os títulos alvissareira.

A segunda razão, chamou a atenção Affonso Celso Pastore, além da primeira que acabei de mencionar, é que o Brasil, como disse aqui no Fórum Nacional de 1998, o Brasil mudou, o Brasil está mudando e continuará mudando, em particular na área produtiva. Essa mudança aparece numa profunda reestruturação produtiva da economia brasileira. Aumento da produtividade; reduções de custos; aumento de eficiência operacional; novos métodos de gestão, administração e eficiência na gestão de empresas; a contestabilidade dos mercados derivada de importações potenciais e a impossibilidade de transferir para o consumidor, para o comprador, todo e qualquer aumento de preço com base no mercado protegido e com base no argumento "compre hoje que amanhã estará mais caro".

Esse conjunto, ao longo dos últimos anos, levou a um aumento da eficiência da economia brasileira; levou a um aumento do conteúdo, do nível tecnológico do que produzimos; levou a uma impressionante descentralização da atividade produtiva no agribusiness, na indústria e nos serviços, que, na verdade, está por trás da resiliência da economia brasileira e da rapidez com que, à diferença dos outros países, teve lugar esse início de reversão de expectativas no que diz respeito à recessão, à inflação e ao comportamento do câmbio.

Mas há uma terceira razão, que para nós é cara, que é o fato de que, em 8 de setembro do ano passado – antes de qualquer conversa com o FMI, com qualquer organização ou com qualquer governo do resto do mundo –, nós anunciamos aqui para a opinião pública brasileira que a crise derivada da moratória russa nos havia obrigado a acelerar o passo do Programa de Ajuste e Estabilidade Fiscal e a mudança do regime fiscal do Brasil, e que o tempo do gradualismo se havia exaurido.

Anunciamos no dia 8 de setembro do ano passado as nossas metas fiscais para o que restava do ano de 1998; anunciamos que estávamos trabalhando já num programa de três anos, que tinha como objetivo a geração de superávits primários crescentes, que tinha como propósito estabilizar e reduzir a relação dívida pública como percentagem do PIB. E, o que é importante, nós cumprimos o que dissemos que íamos fazer. Cumprimos as metas fiscais para 31 de dezembro de 98 com folga, cumprimos as metas fiscais para 31 de março de 99 com folga, de modo que existem já hoje dois trimestres, estamos caminhando para o terceiro, em que estamos demonstrando a nossa determinação, o nosso empenho e a nossa capacidade de realizar aquilo que dissemos que faríamos no início de setembro do ano passado. Não tenho dúvida de que, adicionado aos outros três elementos que mencionei anteriormente, é um elemento importante para que comecem a entender essa mudança, tênue ainda, frágil, de expectativas em relação ao pessimismo que grassava em meados de janeiro.

Existe uma quarta razão, que foi o fato de que nós fomos capazes de renovar rapidamente o acordo com o Fundo, de ter reiterado o apoio internacional ao Brasil dos bancos centrais dos 20 principais países industrializados do mundo, definimos regras e o valor de intervenção na compra de divisas líquidas por parte do Banco Central e tivemos conversas bem-sucedidas com os bancos internacionais no início de março deste ano. Ficou claro que o apoio internacional que havia sido conseguido para o Brasil em outubro do ano passado foi mantido expressamente no mês de março.

Tem uma quinta razão importante, que é o compromisso do governo e, em particular, do Banco Central, com essa excelente diretoria encabeçada agora por Armínio Fraga, com o combate à inflação e com a adoção de um regime de metas inflacionárias, deixando claro que o governo não abrirá mão do seu compromisso de preservar a estabilidade do poder de compra da moeda nacional.

Eu diria que a virada das expectativas que começou na segunda semana de março e vem gradualmente se firmando desde então é uma combinação de pelo menos essas cinco ordens de fatores que mencionei aqui. Todas derivadas seja de transformações estruturais pelas quais passou a economia brasileira ao longo dos últimos anos, seja de ações do governo e seja, o que é mais importante, mais alvissareiro, de ações, posturas, práticas e procedimentos da própria sociedade brasileira e exercícios de cidadania no que diz respeito à postura e atitude de consumidor.

É preciso evitar que, na tradicional ciclotimia que caracteriza muito a nossa gente, aquele pessimismo que afetou a todos em meados de janeiro seja rápido e que o pêndulo, que foi demais numa direção, se vire, na nossa característica ciclotimia, numa outra direção, e passemos a achar que a crise é uma página virada, algo que ficou para trás, e não teríamos mais que nos preocupar, e o pêndulo gira na direção de um otimismo que encobre muito o chão que temos pela frente e o muito difícil caminho que temos ainda a percorrer.

Há um ano, na apresentação que tive a oportunidade de fazer neste mesmo fórum, chamei a atenção para essa questão, ao notar que havia três objetivos, e eu quero sublinhar aqui, absolutamente indissociáveis do governo Fernando Henrique Cardoso no primeiro e segundo mandatos. E esses três objetivos eram os seguintes: primeiro a preservação da inflação sob controle. Listei, ali, as razões (os artigos estão publicados tanto no livro editado pelo Fórum Nacional quanto num outro livro sobre vinte anos de política econômica, editado pelo Instituto dos Economistas do Rio de Janeiro, do qual tive a honra de ser o primeiro presidente), que são razões de eficiência econômica, razões de natureza social, razões de natureza política e razões de natureza ética, que nos fazem não abrir mão do controle da inflação como um objetivo de política econômica.

Insisti ali, e faço questão de reiterar aqui, que é uma crítica absolutamente tola a que se nos faz com freqüência de que a inflação é o único e exclusivo objetivo do governo, que nós a consideramos como um fim em si mesmo. Nunca o dissemos, nunca achamos isso. Achamos apenas que é uma condição sine qua non e absolutamente indispensável para que outros objetivos mais importantes possam ser alcançados.

O controle da inflação, volto a repetir aqui pela enésima vez, não é um fim em si mesmo. É uma condição para que outros objetivos possam ser alcançados. Eu digo isso porque acho que é um falso dilema o que procura contrapor este primeiro objetivo com outro de que é indissociável, que é a criação das condições com um crescimento sustentado, com aumento de produtividade, mudança estrutural, inovação tecnológica ao longo de muitos e muitos anos à frente. Prebisch já o disse, em 1961, ao escrever o artigo clássico sobre o falso dilema entre estabilidade e crescimento, que não há nenhuma incompatibilidade entre os dois objetivos. É a nossa posição também, e a experiência dos países mais bem sucedidos do mundo mostra claramente que não há nenhuma incompatibilidade entre a preservação da inflação sob controle e a busca de criação de condições para crescimento sustentado com mudança estrutural, aumento de produtividade e avanço tecnológico.

Portanto, é pena que percamos tanto tempo, tanto talento, tanta energia nesse desperdício que procura buscar conflitos entre uma postura que procura dizer que a inflação sob controle é uma pré-condição para que outros objetivos possam ser alcançados de forma duradoura. Notem que não estou falando em bolhas de crescimento, que qualquer um é capaz de gerar por um curto período de tempo, mas eu disse também, e quero reiterar mais uma vez, que inflação sob controle e crescimento sustentado também não são fins que se esgotam em si mesmos, ambos – indissociáveis – são meios para que o terceiro e mais importante objetivo, que é a melhora das condições de vida da maioria , quero sublinhar aqui, da maioria da população brasileira, possa ser alcançado.

Não quero entrar nos detalhes do que elaborei extensamente nos artigos publicados nesses dois livros. Tem a parte que são indicadores materiais, acesso a bens públicos, acesso a bens privados, e há indicadores que não são materiais, mas não são menos importantes por causa disso, que são igualdade perante a lei, direitos humanos, um Estado democrático de direito consolidado, acesso a oportunidades em particular na área de educação. Em suma, capacidade de que pessoas possam desenvolver o seu potencial e que haja instâncias intermediárias entre o poder e a população do tipo que nós temos observado no Brasil nos anos recentes. Considero um fenômeno da maior importância.

O que eu queria dizer é que, para quem olha as coisas dessa maneira, e eu posso lhe assegurar que é assim que nós olhamos no governo, esse debate sobre desenvolvimentistas e não-desenvovimentistas por exclusão é um debate desfocado, fora do lugar, com a idéias fora do lugar, porque ele pressupõe algo equivocado: é a idéia de que haja alguém, que em sã consciência, de boa fé, se coloque, se proponha uma postura contra o desenvolvimento econômico e social, em favor de algo que eu não saberia o que é porque esse é o objetivo de toda e qualquer política econômica.

Eu acho que o nome do jogo, nas discussões que tivemos ao longo dos últimos anos, é na verdade uma discussão sobre políticas de investimento e políticas de competitividade. Tem a ver com a ação reguladora do Estado na área de estímulo à competição, tem a ver com ação eficiente do Estado em termos da qualidade do gasto público, tem a ver, em particular, com a área social, tem a ver com a atuação do governo através de crédito – não o crédito que impõe um custo fiscal, subsídios velados, isenções de toda ordem, diferentes taxas de juros subsidiadas cuja conta é mandada para o Tesouro, mas uma clara expressão de identificação de prioridades no crédito público.

E nós temos aqui instituições voltadas para promoção de agricultura, exportações, outras para promoção de habitações e saneamentos, outras para desenvolvimento regional, claro que é um lugar para o investimento público. É claro que é um lugar para o investimento de parceria entre o público e o privado, claro que é um lugar para o investimento privado, do qual, na verdade, em última análise, dependerá a sustentação do investimento na identificação das oportunidades abertas para uma clara definição de prioridades do setor público, do tipo que estamos fazendo com o Brasil em Ação, e agora com muito mais detalhe com o PPA, o Programa Plurianual de Investimentos e de Ação do Governo, para o ano 2000 a 2003, que identifica com clareza as prioridades do governo em termos de investimentos. Identifica as possibilidades de parceria com o investimento privado e sinaliza para o investimento privado, isoladamente, as áreas em que o investimento público tornará mais rentáveis e mais competitivas ou competitivos os possíveis investimentos privados.

É isso que é a ação do Estado, é ação regulatória, é uma clara definição de suas prioridades de investimento, é uma preocupação inabalável com a qualidade e eficiência do gasto público. É uma nostalgia dos anos 50 a idéia de que é o Estado que vai promover o desenvolvimento, através do gasto público, mandando a conta para sociedade através do imposto inflacionário, do endividamento que recai sobre gerações futuras, ou de impostos que caiam sobre gerações presentes. É nesse sentido que eu acho que o nome do jogo aqui é o aumento da poupança privada e a redução da despoupança pública, como tenho chamado a atenção há algum tempo.

E, se me permitem, ser desenvolvimentista hoje no Brasil é defender o aumento da produtividade, é defender a redução de custos, é defender o aumento da competição, é defender o aumento da eficiência operacional tanto do setor público quanto do setor privado, é defender as condições para o aumento de investimentos privados, é defender investimentos públicos eficientes com clara definição de prioridades e respeito à restrição orçamentária, é defender investimento em gente, em educação primária, educação secundária e educação terciária, universidade, estímulo ao ensino e pesquisa, que não pode, não é assim em nenhum lugar do mundo, ser feito simultaneamente em qualquer instituição de ensino que exista no país. Ali, onde funciona, ele é resultado de uma concentração de recursos em centros de excelência que têm massa crítica e capacidade de desenvolver ensino e pesquisa simultaneamente, e conferir a ele a capacidade para que aquilo tenha efeitos sobre o setor real da economia.

Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é expressar a necessidade de responsabilidade fiscal, e não de irresponsabilidade fiscal, achando que o Estado tudo pode. Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é ter um compromisso com a política monetária e fiscal voltada para o controle da inflação, voltada para a qualidade do gasto público, para o respeito à restrição orçamentária. Ser desenvolvimentista hoje é, quando for o caso e se for o caso de defender subsídios a um determinado tipo de atividades prioritárias, fazê-lo com transparência, exigindo que esses recursos estejam claramente identificados no orçamento e sejam amplamente debatidos, e que a sociedade saiba o que está pagando e quanto está custando a prioridade que requer aquele tipo de subsídio.

Ser desenvolvimentista hoje no Brasil é olhar para frente, olhar para o futuro, sem ilusões, sem demagogias, sem a falsa expectativa de que bastam atos de voluntarismo explícito por parte de alguns, que bastam, como já se disse infelizmente num passado não muito recente, canetadas presidenciais e despachos vice-presidenciais, para que o país se desenvolva do ponto de vista econômico e social. Não foi assim no resto do mundo, não será assim no Brasil.

Não há substituto para a persistência, a perseverança, o trabalho duro, o envolvimento em algo mais do que o Executivo Federal e o governo, para o qual, infelizmente – legado do nosso passado ibérico, colonial, legado talvez dos anos do regime militar –, muitos se voltam sem se dar conta do muito que é possível fazer no âmbito do governo local, no município, no estado, nas associações, nas empresas.

Nós precisamos para o bem do país, a meu ver acho que já estamos caminhando nessa direção, sepultar de vez aquela idéia de uma espera passiva de que, de Brasília, de um grupo de iluminados, venham programas nacionais concebidos, implementados, operacionalizados, fiscalizados, acompanhados e monitorados de forma centralizada. O Brasil é um país muito grande, muito diverso, muito heterogêneo, muito complexo e muito rico para que nós não exploremos o enorme potencial que nós temos, levando em conta a unidade na nossa magnífica diversidade. Eu acho, sim, que é possível um governo pró-ativo, mas um governo pró-ativo nessas questões que mencionei até anteriormente: eficiência do gasto público, atividade reguladora neste país e seletividade e prioridade do tipo que estamos fazendo na identificação dos projetos do PPA de 2000 a 2003 – isso é desenvolvimentismo.

Velloso me pede que fale sobre desequilíbrio fiscal, desequilíbrio da balança de pagamentos. O tempo é muito curto. Eu só quero dizer o seguinte: o desequilíbrio fiscal, apesar do fato de que as estatísticas que temos mostrado recentemente mostra que estamos cumprindo com folga aquilo que nos propusemos e o que foi acordado com o Fundo Monetário Internacional, vamos deixar claro que é fundamental a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal pelo Congresso Nacional.

É fundamental que nós avancemos agora na reforma tributária, que substituirá esse caótico sistema que temos hoje de 27 legislações de impostos, 27 legislações de ICMS, o enorme estímulo à fraude, associado aos ICMS interestaduais e intra-estaduais, os impostos em cascata que incidem sobre a produção nacional, colocando-a em desvantagem competitiva em relação àqueles que conosco competem, tanto na busca de mercados externos quanto na disputa pelo mercado doméstico. E é fundamental que avancemos com serenidade, com objetividade.

Eu sei que o tema se presta a enormes emocionalismos, mas o fato é o seguinte: temos um déficit crônico, estrutural e exponencialmente crescente na nossa Previdência, tanto no regime do INSS quanto, principalmente, no regime da Previdência pública, e nós estaremos falhando para com nossos filhos e netos, sob os quais caíra a conta, se nós não mostrarmos agora a nossa capacidade de caminhar para equacionar esse problema através da continuidade do processo de mudanças na Previdência. O Senado Federal, na semana passada, tomou uma decisão da maior importância, em primeiro turno é bem verdade – o segundo deve ser votado em breve –, que foi a aprovação do projeto do senador-ministro José Serra, sobre a desconstitucionalização do artigo 192 e a possibilidade de legislação baseada não apenas numa grande lei complementar genérica, mas em legislações complementares específicas para valores mobiliários, seguros e Banco Central, e instituições por ele autorizadas a funcionar e por ele fiscalizadas.

Vamos avançar com rapidez na apresentação desta legislação complementar, o que é uma mostra, junto com as votações da Câmara, por exemplo sobre a lei Camata, de como é incorreta a percepção que apareceu em alguns veículos externos de que o Congresso Nacional estava paralisado por conta de outros tipos de agenda. O Congresso vem funcionando tanto na Câmara como no Senado. É fundamental que isso continue, porque o equilíbrio fiscal no Brasil de forma duradoura, que é o que nos interessa, depende da continuidade desse esforço de reforma.

Quanto ao balanço de pagamento, é da maior importância o fato de que o déficit em conta corrente no balanço de pagamento brasileiro tem sido, na sua maior parte, financiado por investimento direto estrangeiro – de menos de US$ 1 bilhão no início da década de 90, passamos a US$ 17 bilhões em 1997, o quinto maior país do mundo depois de Estados Unidos, Inglaterra, China e França em 97, e o quarto que mais atraiu investimento direto no mundo no ano passado, US$ 26 milhões, depois de Estados Unidos, Inglaterra e China. Este ano, com quase US$ 20 bilhões, voltaremos a disputar o quarto ou quinto lugar, o que significa expressões de confiança no Brasil e no seu futuro, e capacidade de financiamento de um déficit em conta corrente que precisa ser contido, embora não tenhamos ilusões: nós somos um país importador de capitais, e como tal teremos déficit em balança de pagamentos e conta corrente. O importante é que eles sejam mantidos sob controle, de preferência financiados por investimento direto estrangeiro, o que vem ocorrendo no Brasil e pode perfeitamente continuar ocorrendo.

O grande desafio é um tema que ocupará muitos dos que participarão aqui, que é a promoção de exportações e promoção de atividades domésticas eficientemente, eu quero sublinhar aqui, eficientemente competitivas com importações potenciais. Isso é algo que é facilitado pela movimentação do câmbio, mas obviamente são necessárias outras ações do governo. O Velloso vem chamando atenção para isso com muita propriedade há algum tempo, na área de investimentos de infra-estrutura, de integração e logística de transportes e portos, nos trabalhos de redução de burocracias, a reforma tributária que é essencial, e alterações na mentalidade na cultura exportadora, que nunca foi um forte da nossa gente, um país de dimensões continentais que somos.

Queria concluir, como faço sempre nessas ocasiões, dizendo que há quase seis anos ou oito, se contar os dois anos que passei como negociador da dívida externa, nunca subestimei problemas e a magnitude dos desafios a enfrentar. Sempre os encarei com enorme respeito, com enorme humildade, nunca me deixei levar por otimismos ingênuos. Na verdade, o mundo é por demais complexo para permitir essa simplória e maniqueísta divisão entre pessimistas de um lado e otimistas do outro. As coisas são muito mais complicadas no mundo real, mas ao mesmo tempo, mesmo reconhecendo as enormes dificuldades, mesmo reconhecendo que passamos períodos terríveis como o que passamos em meados de janeiro deste ano, quando estivemos prestes a perder a credibilidade e a confiança interna e externa – e credibilidade é algo que se demora anos a tentar angariá-la, e é possível perdê-la às vezes em dias e semanas.

Pelas razões todas que mencionei nesse processo de recuperação gradual que ainda é tênue, que ainda é frágil, mas em comparação com as perspectivas de janeiro seguramente caminhamos, e é fundamental que continuemos a caminhar, eu quero dizer que nesse caminhar é fundamental que, sem ilusões, sejamos capazes de expressar uma confiança no Brasil e no seu futuro. Uma confiança na nossa capacidade de brasileiros, não do governo, de brasileiros, de caminhar para equacionar os nossos inúmeros e inegáveis problemas.

Comecei a minha intervenção no ano passado dizendo que o Brasil mudou, que o Brasil está mudando e o Brasil continuará a mudar, apesar dos seus inúmeros problemas econômico-financeiros, sociais, políticos e institucionais. Não é um paradoxo dizer isso, apesar de seus inúmeros problemas e por causa dos seus inúmeros problemas, por uma razão simples: nós não temos alternativa como nação senão enfrentá-los da melhor maneira que pudermos. E é o que estamos tentando fazer há alguns anos, e é o que continuaremos a tentar com determinação nos próximos anos, se força não nos faltar.

Muito obrigado a todos pela atenção com que me ouviram. Agradeço a oportunidade.

 

 Pesquisa no sítio:

Serviços

 Carta de Serviços
 Cidadão
 Empresa
 Aduana
 Consulta Processo
 Custo Efetivo Total

Temas de Interesse

 Resultado do Tesouro
 Dívida Pública
 Responsabilidade Fiscal
 Invista no Tesouro Direto

 Concorrência

 Exportações
 Governo
 PNAFM

Invista no Tesouro Direto!





E-CAC: Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte.
Resenha Eletrônica

 

Ministério da Fazenda Esplanada dos Ministérios - Bloco P - 70048-900 - Brasília - DF - Pabx: (61)412-2000/3000 - Fax: (061)226-9084