Pronunciamentos
16/05/99
Transcrição
da entrevista do ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao jornalista Bóris
Casoy, no programa Passando a Limpo da TV Record
Sem Revisão do Autor
Bóris Casoy –
Ministro, hoje os jornais paulistas trazem uma vitória do governo, em
grande parte sua, da retomada, enfim, a economia apresenta grandes
sinais de esperanças de que ela está evoluindo até mais do que se
imaginava. Como é que o senhor vê isso, isso é uma coisa que veio
firme ou pode ser interpretado como muita gente pode interpretar como
o chamado fogo de palha?
Ministro - Não,
não é um fogo de palha, também não considero que foi uma vitória
do governo e muito menos uma vitória minha. Eu acho que há explicações
para o que ocorreu, expresso hoje nos números recentes divulgados
pelo IBGE, sobre crescimento do PIB. É um crescimento muito melhor do
que as estimativas que existiam. Devo lembrar aqui, você deve lembrar,
o telespectador talvez se lembre, que em janeiro deste ano havia
estimativas de que a inflação neste ano de 99 poderia chegar a 50,
60, 70, 80% no ano. Eu vi estimativa de queda do produto interno bruto
da economia brasileira de -5, -6, -7, -8%. Eu vi estimativa de taxa de
câmbio em 2,50, 2,30, feito por entidades respeitáveis, tanto aqui
como no exterior. O que ocorreu foi um processo de revisão para
melhor de todas essas estimativas que traduzem um pouco o excesso de
pessimismo que prevalecia à época e uma ciclo muito típico de
certos analistas que são incapazes de olhar com mais cuidado uma visão
de tempo que transcenda o curto e enganoso período de um ano, e achar
que uma fase de dificuldade pode ser projetada mecânica e
acriticamente para o futuro e com comparações, com experiências de
outros países. O PIB, o produto interno da Indonésia, caiu -15% em
termos reais; o da Coréia e da Tailândia -7%. Então muitos acharam
que nós reeditaríamos a experiência desses países. A vitória não
é do governo e muito menos minha, porque eu acho que é uma vitória
da sociedade brasileira, foi reação do consumidor, das empresas,
fornecedores e compradores ao longo da cadeia produtiva, que mostraram
algo que é uma conquista nossa, como sociedade. O consumidor
brasileiro hoje, o comprador ao longo da cadeia, não aceita mais
aquele argumento que prevaleceu durante muito tempo no Brasil de que a
inflação de uma semana estabelece o piso da inflação da semana
seguinte; a inflação de um mês ao piso da inflação do mês
seguinte; de um ano ao ano seguinte; que na verdade houve uma grande
turbulência, uma tumultuada desvalorização e flutuação do câmbio,
mas nós dissemos desde o início que ele não permaneceria naquele nível,
que era um flagrante exagero, que ele voltaria como voltou,
sexta-feira estava em R$ 1,65, e eu acho que o importante aqui foram
as reações da sociedade sem o fato, Bóris, que é muito importante
que o Brasil nestes últimos quatro ou cinco anos mudou, está mudando
e vai continuar a mudar, e não é para pior, é para melhor. Melhorou
a produtividade da economia brasileira, melhorou a competitividade da
indústria brasileira, melhorou a descentralização da atividade econômica,
tanto no agribusiness quanto na indústria quanto nos serviços. Em
suma foram essas as mudanças estruturais na economia brasileira,
aliadas a mudança de comportamento de cultura, que explicaram a
rapidez com que foi possível começar a reverter o quadro em que o pêndulo
foi demasiado numa direção pessimista e agora eu acho que nós
devemos evitar que ele vá demasiadamente também numa direção
otimista. Nós temos muito chão e muito trabalho pela frente ainda,
mas seguramente à luz das expectativas que prevaleciam em janeiro é
um ganho significativo que é de todos nós.
Bóris Casoy –
Ministro, o senhor não acha que nós ainda estamos extremamente
dependentes do que possa acontecer em termos de crise externa?
Ministro - Bom,
nós vivemos num mundo perigoso. Isso vale para todos os países, eu
vejo com freqüência, por exemplo, preocupações com correções de
preços de ativos na bolsa de Nova Iorque. E lembro que a primeira vez
que o Greenspan usou a expressão exuberância irracional quando se
referia a elevação de preços na bolsa de Nova Iorque, foi em
dezembro de 1996, ela estava em torno de 6.800, o índice Dow Jones,
ele bateu a casa dos 11 mil por cento recentemente e portanto
continuam analistas insistindo no fato de que em algum momento, de
alguma maneira, gradual ou não-gradual, haverá a necessidade de uma
correção de preços de ativos na bolsa de Nova Iorque. Você sabe
que semana que vem, dia 19, tem uma reunião do Comitê de Mercado
Aberto que vai decidir taxas de juros. Há pela primeira vez nos últimos
meses expectativas de alguns analistas de que eles possam elevar os
juros norte-americanos à luz do indicador de inflação deles e
portanto existe essa preocupação. Existe preocupação pelo fato de
que o Japão, a segunda maior economia do mundo, está há quase dez
anos sem conseguir emergir de uma recessão, com problemas sérios do
sistema financeiro não resolvidos apesar de uma taxa de juros
praticamente zero. Há incerteza sobre o futuro de outro grande país
da região, que é a China. E o fato é que o crescimento do comércio
mundial e do produto mundial em 99 será mais baixo que em 98. Isso são
incertezas com as quais nós temos que lidar e são importantes levá-las
em conta. Agora, não deveria encobrir o fato de que em última análise
na verdade nós não podemos nós considerar vítimas passivas de
eventos externos fora do nosso controle. Tudo depende da nossa
capacidade de resposta, nosso futuro, já disse o presidente Fernando
Henrique Cardoso, está como sempre esteve em nossas mãos.
Bóris Casoy –
O senhor acha que as reformas que faltam estão caminhando na
velocidade que o senhor gostaria que caminhassem?
Ministro -
Eu acho que estão caminhando. Eu vejo mesmo neste contexto atual, a
atenção e a atração que o tema e o debate da CPI, estou seguro que
trataremos ao longo do programa, o fato é o seguinte: o Congresso tem
se movido. Foi aprovada a Lei Camata, na questão da administração pública;
teve um fato muito importante no Senado, na semana passada, o senado
aprovou o projeto do senador, ministro José Serra, sobre a
regulamentação, depois de uma desconstitucionalização do art. 192,
que é o que vai nos permitir caminhar com muita rapidez agora nas
legislações. Em vez de ser uma única legislação, que era uma
tarefa impossível, nós vamos avançar rapidamente com o Congresso
nas legislações sobre valores imobiliários, sobre seguros e sobre
Banco Central, e já incorporamos nessas legislações algumas das lições
e discussões que vem tendo lugar no âmbito da própria CPI. Nós
estamos perante o Congresso com a Lei de Responsabilidade Fiscal, à
qual atribuímos uma enorme importância, que deve ser votada com a
rapidez que nós esperamos à luz dos contatos que temos tido com o
Congresso, vamos avançar na continuidade da discussão sobre a
reforma da previdência, e é fundamental aqui que nós nos empenhemos,
só acho que não será possível aprová-la ainda este ano, na
reforma tributária, por que o que temos aqui é um caos, que é
incompatível com o Brasil que nós gostaríamos de ter no século XXI,
do ponto de vista tributário. Eu
acho que estão caminhando. Eu vejo mesmo neste contexto atual, a atenção
e a atração que o tema e o debate da CPI, estou seguro que
trataremos ao longo do programa, o fato é o seguinte: o Congresso tem
se movido. Foi aprovada a Lei Camata, na questão da administração pública;
teve um fato muito importante no Senado, na semana passada, o senado
aprovou o projeto do senador, ministro José Serra, sobre a
regulamentação, depois de uma desconstitucionalização do art. 192,
que é o que vai nos permitir caminhar com muita rapidez agora nas
legislações. Em vez de ser uma única legislação, que era uma
tarefa impossível, nós vamos avançar rapidamente com o Congresso
nas legislações sobre valores imobiliários, sobre seguros e sobre
Banco Central, e já incorporamos nessas legislações algumas das lições
e discussões que vem tendo lugar no âmbito da própria CPI. Nós
estamos perante o Congresso com a Lei de Responsabilidade Fiscal, à
qual atribuímos uma enorme importância, que deve ser votada com a
rapidez que nós esperamos à luz dos contatos que temos tido com o
Congresso, vamos avançar na continuidade da discussão sobre a
reforma da previdência, e é fundamental aqui que nós nos empenhemos,
só acho que não será possível aprová-la ainda este ano, na
reforma tributária, por que o que temos aqui é um caos, que é
incompatível com o Brasil que nós gostaríamos de ter no século XXI,
do ponto de vista tributário.
Bóris Casoy –
O senhor acha que com a situação política que a gente tem,
problemas com governadores, prefeitos, tudo se refletindo no Congresso,
dá para aprovar uma reforma tributária possível, eu acho tão difícil.
Eu acho que todo mundo está de acordo, mas na hora que alguém tem
que abrir mão de alguma coisa, ninguém quer abrir mão, nenhum
governador, nenhum prefeito...
Ministro -
É verdade, eu não diria que é fácil, ela é difícil, extremamente
difícil, particularmente num país organizado sob forma de república
federativa, como é o nosso caso. Esta é a razão pela qual nós não
queremos discutir agora a questão da distribuição de recursos entre
as três esferas de governo, nós queremos assegurar que a atual
distribuição permaneça como está, não queremos aumentar recursos
do Governo Federal nem diminuir recurso de estados nem de municípios,
isso para nós é uma condição, porque se formos entrar nessa
discussão de tentar redistribuir os recursos entre as três esferas
de governo é possível que não possamos... É
verdade, eu não diria que é fácil, ela é difícil, extremamente
difícil, particularmente num país organizado sob forma de república
federativa, como é o nosso caso. Esta é a razão pela qual nós não
queremos discutir agora a questão da distribuição de recursos entre
as três esferas de governo, nós queremos assegurar que a atual
distribuição permaneça como está, não queremos aumentar recursos
do Governo Federal nem diminuir recurso de estados nem de municípios,
isso para nós é uma condição, porque se formos entrar nessa
discussão de tentar redistribuir os recursos entre as três esferas
de governo é possível que não possamos...
Bóris Casoy –
Mas a reforma tributária acaba implicando a maneira de distribuir. Se
o Senhor colocar um imposto hoje na etapa final de consumo e não na
produção talvez tenha que mudar politicamente a maneira de
distribuir. Por exemplo, o Governo Federal distribuiria recursos que
hoje são arrecadados diretamente pelos estados.
Ministro -
Dentro de um parâmetro básico que é a preservação das cotas hoje
disponíveis em termos de recursos para as três esferas de governo. O
que nós podemos fazer é simplificar este caos que nós temos hoje.
Temos 27 legislações tributárias no Brasil, que são as 27 legislações
estaduais de ICMS, temos esse ICMS interestaduais, que são fontes de
sonegação fiscal de toda ordem. Em suma, temos um sistema caótico,
temos esses impostos em cascata que tornam a produção no Brasil
menos competitiva do que poderia ser em relação a produção de países
que conosco competem, não só no mercado internacional mas aqui
dentro também, e portanto é imperativo que nós caminhemos para
mudar essa parte tributária no Brasil. Eu sei que é difícil, que é
complexo, mas pressão mesmo na reforma tributária significa ainda
hoje coisas diferentes, para diferentes pessoas, em diferentes
momentos. Mas nós vamos ter que caminhar nessa direção por que o País
necessita, não é o governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil
necessita disso. Dentro de um parâmetro
básico que é a preservação das cotas hoje disponíveis em termos
de recursos para as três esferas de governo. O que nós podemos fazer
é simplificar este caos que nós temos hoje. Temos 27 legislações
tributárias no Brasil, que são as 27 legislações estaduais de ICMS,
temos esse ICMS interestaduais, que são fontes de sonegação fiscal
de toda ordem. Em suma, temos um sistema caótico, temos esses
impostos em cascata que tornam a produção no Brasil menos
competitiva do que poderia ser em relação a produção de países
que conosco competem, não só no mercado internacional mas aqui
dentro também, e portanto é imperativo que nós caminhemos para
mudar essa parte tributária no Brasil. Eu sei que é difícil, que é
complexo, mas pressão mesmo na reforma tributária significa ainda
hoje coisas diferentes, para diferentes pessoas, em diferentes
momentos. Mas nós vamos ter que caminhar nessa direção por que o País
necessita, não é o governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil
necessita disso.
Bóris Casoy –
Todos falam que é necessário exportar, o governo imagina formas de
exportar de maneira mais simples, objetiva, por que parece que é esse
o momento de exportação, de repente vem o governo e mete os impostos
de novo nas exportações?
Ministro - Eu
acho que esta questão de exportação, você tem toda razão, é uma
variável absolutamente chave e estratégica numa perspectiva de médio
prazo para equacionamento de balança de pagamentos. Este ano de 1999
está sendo um ano difícil porque os preços de commodities no
mercado internacional estão caindo, porque a taxa de crescimento do
comércio internacional e do produto mundial vai ser menor do que
estava sendo previsto há algum tempo, nós tivemos até pouco tempo
atrás problemas de linhas de crédito à exportação, que só agora
estão sendo recompostas, mas eu acho que é importante olhar além de
1999. Eu gostaria de chamar atenção sua e do telespectador para
acompanhar o que nós estamos trabalhando, estaremos mostrando em
breve, em mais detalhes que é este programa plurianual de
investimentos do governo, a continuidade ampliada do Brasil em Ação,
que é um programa voltado para investimentos em infra-estrutura, essa
logística de transporte, integração, sistema de transportes e
portos, que seguramente haverá de desempenhar um papel importante na
promoção das exportações brasileiras. A questão a que você se
referiu de impostos incidindo sobre exportação, na verdade, é uma
suspensão temporária de um ressarcimento do Pis e Cofins, são
medidas de curto prazo. O importante é não perder de vista uma visão
de médio e longo prazo, eu acho que o Brasil tem todas as condições
de expandir as suas exportações no agribusiness, nós somos a última
grande fronteira agrícola a ser explorada no mundo, na indústria e
nos serviços.
Bóris Casoy –
Ministro, pessoas que sabiam que o senhor viria aqui, com as quais eu
conversei nos últimos dias, que têm pequenas e médias empresas,
reclamam das dificuldades de crédito. Essas pessoas acham que a
pequena e média indústria são a mola principal do desenvolvimento,
elas se sentem responsáveis por uma parcela grande do desenvolvimento
e acham que as condições estão aí, porém falta financiamento. E aí
elas também lembram que só através delas que se combateria o
desemprego, que os créditos seriam bem menores do que o governo
destina a grandes investimentos que resultam poucos postos de emprego.
Ministro – Eu
não poderia concordar mais. Não só aqui como no resto do mundo,
empresas de pequeno e médio porte são as grandes geradoras de
emprego e de atividade econômica. O Brasil não é e não será exceção
a essa regra. Eu diria que o problema não é crédito público ou as
restrições financeiras do setor público. Eu acho que há uma enorme
capacidade de expansão do crédito privado a essas empresas, quando nós
avançarmos mais nesse processo de redução das taxas de juros. Eu
devo lembrar, o telespectador talvez se lembre, que, há cerca de
menos de setenta dias, as taxas de juros nominais eram absurdamente
altas era bem verdade, mais de 47% ao ano. Caíram para 27% em menos
de setenta dias, portanto uma queda de dezoito pontos percentuais. Em
termos de percentagem é uma queda de quarenta por cento, e continuarão
caindo e cairão tão mais rapidamente quanto mais nós consigamos
avançar nessa agenda de reformas no âmbito do Executivo e em nossa
interação com o Congresso. Eu tenho dito que está ao nosso alcance
já este ano chegarmos numa virada de 99 para 2000 com uma taxa de
juros real de um dígito, inferior a 10%. Se, e este se eu gostaria de
sublinhar, se nós mantivermos a persistência e a nossa determinação
de avançar na direção da reavaliação do Estado, da mudança do
regime fiscal, como estamos determinados a fazer. Isto terá um enorme
efeito sobre o acesso ao crédito por parte de empresas de pequeno e médio
porte.
Bóris Casoy –
Será que está aí a queda real do desemprego. Parece que sim?
Ministro -
Eu acho que é certamente por aí. Não será com a atividade
empregadora da grande empresa que tem conhecidamente uma relação
capital emprego mais alta do que empresas de médio e pequeno porte.
Mas deixe-me lembrá-lo que nesses países que tiveram grandes crises
financeiras, Tailândia, Coréia, Malásia, a relação entre o total
do crédito e o produto interno bruto variavam entre 150% e 200%. No
Brasil é 30, 30 e poucos por cento. Nós temos uma enorme capacidade
de expansão do crédito privado através de risco de crédito, quando
nós tivermos a trajetória declinante das taxas de juros nominais e
reais, como eu estou convicto que nós teremos ao longo dos próximos
meses. Eu acho que é certamente
por aí. Não será com a atividade empregadora da grande empresa que
tem conhecidamente uma relação capital emprego mais alta do que
empresas de médio e pequeno porte. Mas deixe-me lembrá-lo que nesses
países que tiveram grandes crises financeiras, Tailândia, Coréia,
Malásia, a relação entre o total do crédito e o produto interno
bruto variavam entre 150% e 200%. No Brasil é 30, 30 e poucos por
cento. Nós temos uma enorme capacidade de expansão do crédito
privado através de risco de crédito, quando nós tivermos a trajetória
declinante das taxas de juros nominais e reais, como eu estou convicto
que nós teremos ao longo dos próximos meses.
Bóris Casoy –
O senhor imagina que se isso tudo der certo, se esta persistência da
sociedade continuar nas reformas, por exemplo, isso acontece mais ou
menos quando?
Ministro -
Bem a trajetória já vem tendo lugar e continuará. Na virada do ano.
Final do ano de 99, se nós conseguirmos manter a nossa determinação
na direção do ajuste fiscal. Bem a trajetória já vem tendo lugar e
continuará. Na virada do ano. Final do ano de 99, se nós
conseguirmos manter a nossa determinação na direção do ajuste
fiscal.
Bóris Casoy –
O senhor não acha que o custo de manter a inflação com juros altos
e o processo recessivo, que está aparentemente em queda, está sendo
custoso demais para a sociedade, com desemprego, com uma violência
que coincide com desemprego?
Ministro - Olha,
eu acho que é preciso olhar isso em perspectiva. Em 1993, esse País
era um país que vivia à beira de uma hiperinflação de 2.700% ao
ano, caminhando pelo menos para 5.000 a 7.000%, não fora o lançamento
do real, e não era um fenômeno episódico, foi algo que veio num
crescendo ao longo de duas décadas. O Brasil foi o país recordista
mundial de inflação nos 20, 30 anos que vão dos anos 60 ao início
dos anos 90. Nenhum outro país do mundo avançou tanto quanto o
Brasil na criação, talvez na contribuição especificamente
brasileira ao gênero humano: temos de Homo Faber, Homo Economicus, no
Brasil criou-se, disse o Sérgio Abrantes, o Homo Indexatus. Mário
Henrique Simonsen dizia que a indexação estava nos neurônios do
brasileiro; e não se altera uma situação como esta de mercados
protegidos da competição externa, com as empresas repassando ao
consumidor todos e qualquer aumentos de custos, inclusive custos
derivados de sua própria ineficiência operacional e gerencial, sob o
argumento de que o consumidor teria de fazer a compra porque amanhã
estaria mais caro, amanhã o produto não estaria na prateleira. Este
processo de deixar a hiperinflação, deixar a cultura inflacionária,
deixar a mentalidade inflacionária, não se faz num estalar de dedos,
não se faz com uma canetada presidencial, como já se disse, com um
despacho vice-presidencial, como já se disse também. É um processo
de mudança no qual este país esteve empenhado nos últimos quatro
anos. Eu acho que com relativo sucesso, haja vista como mencionei
anteriormente essa reação da própria sociedade a tentativas de
fazer voltar o descontrole inflacionário sob a alegação de que o câmbio
havia se desvalorizado num primeiro momento, numa tentativa de
projetar aquilo não só como expectativas, como práticas de remarcação
de preços imediatamente. Acho que foi uma reação que mostra que o
País mudou, e não mudou para pior, mudou para melhor. O desemprego
eu acho que se resolve aqui, como em qualquer país do mundo, com
investimento, com produtividade, com aumento de produtividade, com
investimento e com crescimento sustentável ao longo do tempo, de décadas.
Eu tenho dito há algum tempo que é muito fácil gerar uma bolha de
crescimento por um período curto de tempo, qualquer um sabe fazer
isso. O que é difícil é ter um crescimento sustentável ao longo de
muitos anos, com inflação sob controle, porque ambos esses objetivos,
embora não sejam fins em si mesmos, são condições essenciais para
que se possa alcançar o que importa, que é um processo de melhora
continuada nas condições de vida da maioria da população
brasileira - algo que vem tendo lugar, apesar das nossas enormes
mazelas sociais, que ainda nos humilham, envergonham perante o resto
do mundo, deveriam humilhar e envergonhar as nossas ditas elites
perante elas mesmas.
Bóris Casoy –
Ministro, deixa eu entrar na questão da CPI. Por que o governo faz
tanto empenho para que o senhor não vá a CPI?
Ministro -
Eu deixei claro desde o primeiro momento que se convidado ou convocado,
não importa o nome, que eu lá estaria. Pois estive, ao longo dos últimos
anos, eu acho que dezenas de vezes, seja na Câmara, seja no Senado.
Cada ida minha lá varia entre seis a sete horas, portanto talvez uma
centena de horas na Câmara e no Senado ao longo dos últimos anos, e
não haveria nenhuma razão pela qual eu me furtasse a comparecer se
chamado, convocado, convidado, seja lá que nome tivesse. É o que eu
tenho a dizer. Não me empenhei pessoalmente para nenhum resultado
nessa área. Isso é uma decisão que cabe a CPI e seus membros
tomarem da maneira que lhes pareça mais apropriada quando lá me
chamarem. Quando me chamarem, lá irei com a mesma tranqüilidade e
serenidade que fui em todas as outras ocasiões. Eu
deixei claro desde o primeiro momento que se convidado ou convocado, não
importa o nome, que eu lá estaria. Pois estive, ao longo dos últimos
anos, eu acho que dezenas de vezes, seja na Câmara, seja no Senado.
Cada ida minha lá varia entre seis a sete horas, portanto talvez uma
centena de horas na Câmara e no Senado ao longo dos últimos anos, e
não haveria nenhuma razão pela qual eu me furtasse a comparecer se
chamado, convocado, convidado, seja lá que nome tivesse. É o que eu
tenho a dizer. Não me empenhei pessoalmente para nenhum resultado
nessa área. Isso é uma decisão que cabe a CPI e seus membros
tomarem da maneira que lhes pareça mais apropriada quando lá me
chamarem. Quando me chamarem, lá irei com a mesma tranqüilidade e
serenidade que fui em todas as outras ocasiões.
Bóris Casoy –
O senhor já disse, que se for convidado ou convocado irá a CPI, e há
uma pergunta no ar. Será que o ministro da Fazenda não sabia que o
governo iria despender cerca de R$ 1,6 bilhões para praticamente
salvar dois bancos desconhecidos e que estavam em grandes dificuldades
como o Marka e FonteCindam, o ministro da Fazenda não sabia?
Ministro –
Olha, eu já tive oportunidade de responder a essa pergunta inúmeras
vezes e agradeço a oportunidade que você me dá de reiterá-la aqui,
e é preciso situar essa questão no contexto daquele momento, dos
dias 12, 13, 14 e 15 de janeiro, quando o Brasil estava sofrendo um
ataque especulativo contra o real e estávamos perdendo quase US$ 3
milhões por dia; o apoio internacional ao Brasil tanto por parte do
setor oficial, quanto por parte do setor privado internacional estava
se esvaindo a cada hora; e portanto as minhas preocupações naquele
momento eram preocupações com esse quadro mais amplo. Eu já disse
em mais de uma ocasião que, em nenhum momento naqueles dias, o
presidente ou qualquer diretor do Banco Central trouxe ao meu
conhecimento as discussões, as negociações ou as condições em que
foram aprovadas as operações com os casos dos bancos Marka ou
FonteCindam. Eu acho, já disse mais de uma vez, vou repetir aqui, que
é uma leviandade, uma irresponsabilidade, e uma mentira movida por
inconfessáveis propósitos políticos de natureza político-partidária,
insistir nessa versão com base em certas capacidades mediúnicas,
auto-propaladas, que tem duas bases apenas: uma delas é um fato óbvio
e amplamente divulgado à época, de que efetivamente estive no Banco
Central, acompanhado do Dr. Amaury Bier, no dia 15 de janeiro pela
manhã para tomar uma decisão junto com a diretoria do Banco Central,
tomada efetivamente na manhã do dia 15, de fazer com que o Banco
Central não fizesse intervenções no mercado de câmbio naquele dia.
Essa foi a razão que me levou lá, discutir essa questão e essa
decisão foi tomada. E em nenhum momento tratei dos casos Marka e
FonteCindam. A base para essa mentira e essa acusação que me é
feita com freqüência sobre o manto covarde do anonimato é a base de
um dos quase dez depoimentos de funcionários do Banco Central, de uma
jovem funcionária do departamento jurídico, que, chamada para
digitar um voto, teria entrado numa sala e teria me visto consultando
um computador, um terminal de computador no fundo dessa sala, onde eu
estava na verdade reunido com o presidente do Banco Central, e apenas
saí uma ou duas vezes para olhar como estava o mercado no terminal de
computador e em nenhum momento sequer dirigi a palavra a pessoas que
eu nem sei quem eram, que podiam estar no fundo da sala nesse contexto.
Essa é a base para essa mentira e essa irresponsável acusação que
me é feita por propósitos puramente de natureza política. Dito isso,
eu já sei qual é a sua próxima pergunta...
Bóris Casoy
- o senhor não sabe...
Ministro
- Ela estava já implícita na sua anterior: se o Banco Central tinha
autoridade legal e competência para tomar essa decisão. A resposta:
tinha.
Bóris Casoy –
Claro. Agora a pergunta é a seguinte: nas relações de governo, num
momento difícil como esse, o senhor já foi presidente do Banco
Central, nessas relações, as pessoas se encontram, existem dois
bancos, alguém vai assinar R$ 1,6 bilhão, se conversa isso?
Supostamente se conversa: "olha, o fulano, o Cacciola está com
problema, tem dois bancos, o que você acha", não há suposição
de que alguém que lhe é subordinado lhe transmita que vai assinar um
acordo fantástico de R$1,6 bilhão.
Ministro –
Bóris, em primeiro lugar não se sabia esse valor. Na verdade, só se
sabe quando há vencimento das operações, opções, mercados de
futuro, no caso na virada do mês de janeiro para fevereiro.
Bóris Casoy –
Banco Central vendeu dólar mais barato...
Ministro
- Ou você acredita na minha palavra, ou ... -
Ou você acredita na minha palavra, ou ...
Bóris Casoy –
Mas, ministro, essas relações são pessoais até. Não é de se
supor que o ministro seja informado, seja consultado, "olha eu
fazendo isso"...
Ministro –
Eu acho que essa pergunta deveria ser dirigida ao Presidente do Banco
Central, algum diretor do Banco Central, de então porque consideraram
que não era o caso de levar essa questão ao conhecimento do ministro
da Fazenda. O fato, estou lhe dizendo aqui, olhando nos olhos, é que
não o fizeram. E eu vou insistir nessa questão, continuar achando
que são levianas, irresponsáveis e mentirosas os que insistem no
contrário.
Bóris Casoy –
Quando o senhor diz que eles não o fizeram, quer dizer que o senhor
separa, e eu acredito no senhor, se separa do problema, mas
implicitamente o senhor condena, ou não? Implicitamente o senhor
condena, tanto que o senhor não quer nem ser acusado, e essa é a
palavra exata de ter sido consultado. O senhor não faria essa operação
ou não recomendaria se o senhor fosse consultado?
Ministro –
Olha, Bóris, deixa eu lhe responder da seguinte maneira: para citar
Ortega e Gasset, uma pessoa – eu, você, qualquer um –, nós somos,
cada um de nós, as suas circunstâncias e as circunstâncias da época.
Eu lhe disse, acho que o diretor Demósthenes Madureira do Pinho
traduziu isso muito bem em seu depoimento à CPI, mostrando o clima de
tensão que prevalecia naquele momento, naqueles dias, no Banco
Central, diante de um ataque especulativo, uma perda de credibilidade
vertiginosa do governo, com possibilidade de riscos extremamente
elevados se as coisas tomassem determinados rumos. E, portanto,
perguntar o que se faria, passados quatro meses, sabendo-se o que
ocorreu, que a economia brasileira sobreviveu e vem dando sinais de
recuperação, é como alguém procurar se abstrair do fragor de uma
batalha passada. Quer dizer, é achar que talvez se naquela operação
se tivesse atacado pelo flanco da esquerda em vez do flanco da direita
a batalha poderia ter sido diferente. Os funcionários do Banco
Central que compareceram à CPI – Maria do Socorro Carvalho, Tereza
Togni, Demósthenes Madureira do Pinho, Cláudio Mauch – mostraram
claramente que havia duas opções ali: ou se liquidava a instituição
ou se fazia uma operação cujo sentido geral era aquele, pesados os
prós e contras naquela momento, naquele contexto, não depois de
quatro meses passados, quando é fácil pensar: deveria ter se
refletido melhor, mais cuidadosamente.
Naquelas circunstâncias
foi tomada uma decisão para a qual tinham competência legal, sem
necessidade de consulta. eu não gostaria de colocar nessa situação
o que eu faria se lá eu estivesse, se eu tivesse sido informado. Eu não
estava lá e eu não fui informado. Portanto eu prefiro não especular
sobre qual teria sido a minha decisão se eu tivesse sido chamado a
tomá-la.
Bóris Casoy –
Deixa eu usar um artigo do Celso Pinto, que é um brilhante jornalista,
da quinta-feira 13 de maio, que eu li sobre o depoimento do Sr. Demósthenes.
"Não há como discordar dessa descrição, exceto pela moratória
automática. Difícil é entender porque, com esse diagnóstico nas mãos,
o BC e o governo imaginaram que o mercado aceitaria um pequeno ajuste
na banda cambial como solução, depois de quatro semanas de corrida
contra o país. Ainda mais complicado é entender por que, no dia 14
de janeiro, sabendo que bilhões de dólares estavam prontos para sair,
o BC ainda supunha que a tal banda diagonal sobreviveria - razão para
salvar os bancos. Mesmo supondo que houve boa fé, a forma da ajuda
foi polêmica. Demósthenes disse que o voto da ajuda foi geral, para
atender às normas de isonomia do BC, e que outros bancos poderiam ter
recorrido à ajuda." Depois, ele mostra que essa isonomia também
não foi obedecida. Na verdade esperar naquele momento em que havia um
problema gravíssimo e não agir da mesma maneira à política maior
que era essa tal de banda diagonal, que eu não entendi até agora,
demonstra uma certa atitude paradoxal.
Ministro –
Eu também tenho como você o maior respeito por Celso Pinto, acho-o
um dos grandes e mais competentes jornalistas brasileiros nessa área
econômica, eu achei o artigo interessante e importante porque mostra,
entre outras coisas, que foi como disse, se não me engano, Maria do
Socorro Tavares em depoimento à CPI: foi uma operação polêmica, atípica,
numa situação totalmente atípica também, que deve ser vista nesse
contexto. Outro jornalista, Luís Nassif, levantou uma questão que é
relevante para a sua pergunta: se o presidente do Banco Central quando
tomou a decisão, no dia 14, tivesse tomado a decisão sabendo que o
Banco Central e o governo tomariam a decisão de não intervir
vendendo dólares na sexta-feira, a implicação é uma; se ele tomou
a decisão convencido, como eu acredito que ele estava, de que ele
teria condições de manter a banda que ele havia anunciado na quarta,
dia 13, a implicação é outra. Exatamente por isso que eu vejo méritos
e vantagens nesse debate público. Nós somos a favor de transparência.
É importante que se entenda que existem muitos detalhes técnicos,
que não é necessário que todos os cidadãos conheçam os meandros
da operação. Mas é importante saber porque uma decisão foi tomada
e saber quais alternativas havia. É importante situar em um contexto
adequado, senão parece que nós estamos em um país europeu, onde as
pessoas passam dias avaliando prós e contras sobre uma determinada
situação, à luz dos custos que, naquela época, poderiam resultar
de outra decisão. Nós temos que levar em conta a situação e o
contexto atípico em que as decisões foram tomadas.
Bóris Casoy –
O Sr. se dava bem com o Chico Lopes?
Ministro –
Sempre me dei muito bem com ele.
Bóris Casoy –
Mas depois teve um desentendimento.. está no O Globo de hoje.
Ministro –
Eu diria que no final de janeiro eu tomei a iniciativa, isso é público,
de colocar o meu cargo formalmente à disposição do Presidente
Fernando Henrique, eu escrevi uma carta nessa direção, sugerindo que
ele substituísse a mim e ao presidente do Banco Central. Eu disse ao
professor Francisco Lopes que eu estaria colocando o meu cargo e o
dele à disposição do Presidente da República, com o que ele
concordou. A decisão do presidente foi a de substituir o professor
Francisco Lopes por Armínio Fraga e decidiu também que eu
permanecesse à frente do Ministério da Fazenda. Esses são os fatos.
Bóris Casoy –
Essa atitude sua teve relação com a mudança de política do governo,
não porque Chico Lopes teria feito isso ou aquilo?
Ministro –
Não, inclusive porque essa questão do Banco Marka e FonteCindam não
entrou em nenhum momento nas considerações que nos levaram a
tomarmos as decisões. Ainda não era um caso que havia surgido como
tema do debate, sequer dentro do governo.
Bóris Casoy –
Mas depois ele se recusou a um café com Sr.?
Ministro –
Isso é um direito que ele tem..
Bóris Casoy –
É uma coisa chata, parece que eu estou duvidando da sua palavra, mas
eu quero tornar as coisas públicas. É o final do artigo do Celso
Pinto: "Demósthenes insistiu que o ministro Pedro Malan não foi
informado dos casos Marka /Fonte, até porque eram da responsabilidade
exclusiva do BC. Não há porque duvidar, em princípio, de sua
palavra. Mais difícil é aceitar sua explicação de que o tema
BM&F e risco sistêmico não entrou na conversa do almoço e do
jantar do dia 14, onde estavam ele, Chíco Lopes, Amaury Bier e Malan.
Todo o mercado estava preocupadíssimo com a BM&F, a ponto de
algumas instituições terem evitado fazer "hedge" na Bolsa,
por temer seu colapso. Era a preocupação óbvia na mudança do câmbio:
saber se todos conseguiriam honrar seus contratos. Estava no coração
da crise, não na periferia, e é espantoso que não tenha sido
discutido."
Ministro –
Eu volto a insistir: os casos Marka e FonteCindam não foram tratados
nem na manhã do dia 15, quando estive no Banco Central, nem nesse
jantar no final do dia, de avaliação do desempenho da situação doméstica,
internacional, percepções externas e internas sobre o Brasil. É
obvio que nós tínhamos presente que aqueles que haviam se protegido,
não especulado, porque é uma proteção, quem comprou títulos
denominados com cláusulas de correção cambial ou quem procurou se
proteger na BM&F obviamente era uma preocupação nossa em termos
gerais. Mas especificamente Marka e FonteCindam em nenhum momento
entraram na conversa. Nem no dia 14, nem no dia 15. E quem diz o contrário
está exercendo sua capacidade mediúnica e um exercício de achismo.
Achismos têm limites, por mais plausível que possa parecer quando se
procura construir uma história de uma tese previamente elaborada.
Bóris Casoy –
O vazamento denunciado pelo deputado Mercadante?
Ministro –
O Dr. Armínio Fraga, a primeira vez que foi à CPI entregou um amplo
relatório em que mostra em que várias outras ocasiões desde a crise
mexicana, no final de 94, a crise que tivemos na primeira semana de
março de 95, ocasiões como a mudança do ministro Cavallo, deixando
o Ministério da Fazenda na Argentina, a crise da Ásia, a crise da Rússia,
em todas essas ocasiões houve esse movimento, que eu não chamaria de
especulativo, pode ser especulativo ou defensivo, de instituições
que acham que o Real pode ser objeto de um ataque especulativo, que
esse ataque pode vir a ser bem-sucedido, que poderia haver uma
desvalorização descontrolada e mudam suas posições rapidamente.
Isso está documentado, ocorreu em todas essas outras ocasiões,
alguma delas com intensidade muito maior do que agora a de janeiro. Em
todas essas outras ocasiões essas pessoas perderam, arriscaram e não
ganharam. Os dados do deputado Mercadante mostram que houve 62
instituições financeiras que estavam com posições compradas e 50,
é bem verdade que o Banco do Brasil com a presença forte entre elas,
não estavam. É difícil imaginar que informações privilegiadas
tenham sido transmitidas a 62 instituições enquanto que a outras 50
não tenham sido, num curto espaço de um dia. O fato é que o dossiê
do Armínio mostra que para bom entendedor meia palavra bastava. A própria
imprensa, que às vezes se subestima entre nós, já havia dito, há
alguns meses e com intensidade crescente nas últimas semanas e dias,
que alguma coisa poderia ocorrer a qualquer momento. É natural, eu não
quero citar todos os casos, que são vários casos nesse relatório
que é público e está à disposição dos interessados, que mostram
que era razoável que algumas instituições e bancos resolvessem não
especular, mas se proteger da possibilidade de algum evento no câmbio,
dado o que vinha acontecendo: a perda de credibilidade do Brasil,
associado a coisas que aconteceram em dezembro, anúncio de moratória
em 6 de janeiro, coisas dessa natureza.
Bóris Casoy –
Deixe eu fazer as perguntas dos telespectadores, que são muitas.
Pereira dos Santos, do Rio de Janeiro, pergunta: após o excelente e
esclarecedor depoimento do Sr. Demósthenes Madureira eu pergunto por
que o governo não revelou a situação pela qual passava o país nos
dias 12 a 15 de janeiro evitando assim o desgaste de pessoas
competentes como a citada acima.
Ministro –
A pergunta é excelente e a minha resposta a ela seria a seguinte: uma
situação de enorme tensão, de enormes dúvidas sobre a capacidade
do Brasil, como país, sobreviver a um violento ataque especulativo, a
uma crise financeira mais ampla, dependendo do desdobramento do caso,
seria meio que jogar gasolina na fogueira se as autoridades monetárias
saíssem de público expressando sua profunda preocupação com a
gravidade da situação. É na verdade contribuir para o agravamento
da situação. Eu acho que é fundamental em certos momentos as
autoridades reconhecerem o problema e não esconder. Dizer que há um
problema, um desafio a enfrentar, mas mostrar confiança na capacidade
do país de enfrentá-lo, e não mostrar desespero ou dúvidas sobre a
capacidade que o país tem de superar a turbulência. Essa é a minha
postura e eu diria que é a de qualquer presidente do Banco Central e
do ministro da Fazenda em qualquer parte do mundo: não jogar gasolina
na fogueira.
Bóris Casoy –
Carlos Eduardo, de São Paulo, pergunta: se o câmbio permanecer a R$
1,66, isso eqüivale exatamente a uma desvalorização igual à inflação
acumulada desde o início do Plano Real. Não seria correto ter
adotado essa política desde o julho de 94, evitando as seqüelas
atuais em alguns setores da economia?
Ministro –
Não. É preciso levar em conta a situação de hiperinflação em que
nós estávamos em final de 93 e início de 94. Em todo e qualquer
programa de estabilização que parte de uma situação de hiperinflação
como a que nós tínhamos, existe um momento em que uma das âncoras
no sistema é a taxa de câmbio, em que há uma apreciação e que vai
sendo revertida posteriormente. Deixe-me ilustrar aqui com um fato: no
final de 94, início de 95, nós tivemos uma enorme pressão,
inclusive eu diria de dentro do governo, para que o Brasil tivesse uma
maxi desvalorização, como resposta à crise mexicana. Eu fui
radicalmente contrário àquela idéia porque eu estava convencido de
que se nós tivéssemos feito uma maxi desvalorização naquele
momento, quando nós estávamos a seis meses do lançamento do real, nós
teríamos o real se juntando ao Cruzado, ao Bresser, ao Verão, ao
Collor I, ao Collor II, como mais uma experiência fracassada de
estabilização. A economia brasileira estava ainda totalmente com os
mecanismos de indexação ainda não desmontados, como fizemos depois
ao longo de 95 e 96, e portanto uma maxi ali teria o condão de
reacender a chama do processo inflacionário, razão pela qual fomos
contrários. Agora deixe-me chamar a atenção para o fato de que nós
vínhamos, desde 97, fazendo desvalorizações reais do real em relação
ao dólar. Foram 12% de desvalorização real em 1997 e 98 em relação
ao dólar. Esse processo de correção gradual do real em relação ao
dólar já vinha ocorrendo desde 1997, continuando em 98 e teria
continuidade em 99. O que ocorreu aqui, a exemplo da área fiscal, que
assim como nós, depois da crise russa, tivemos de deixar claro que o
tempo do gradualismo na solução do problema fiscal brasileiro havia
se exaurido e que era importante aprofundar o tempo de ajuste fiscal,
da mesma maneira a crise internacional, as nova percepções de risco,
a falência do Long-term Capital Manegement, aquele grande hedge fund
americano, as dificuldades e as percepções sobre vulnerabilidades
reais e percebidas no Brasil levaram à percepção de que o
gradualismo no câmbio também era difícil se sustentar naquele
momento. Mas a correção já vinha sendo feita e teria continuidade
no ano de 1999.
Bóris Casoy –
O Flávio de Moura, do Rio, pergunta: muitos falavam na semana passada
que o economista americano Paul Krugman mencionou que uma possível
financeira da economia americana afetaria o Brasil e o mundo. O que
planeja o Brasil para se proteger dessa possível crise e de outras
que podem vir. Quando será formado um Banco Central totalmente
independente, que defenderá somente a moeda nacional?
Ministro –
Flávio, ninguém está pensando em crise financeira ou do sistema
bancário americano. A grande preocupação no momento é a elevação
das taxas de juros norte-americanas, que tem o efeito de tornar aplicações
mais atrativas em títulos e papéis americanos. E uma queda de preços
de ativos na bolsa de Nova Iorque pode ter efeito, dado o peso da
economia norte-americana na economia mundial. O que nós podemos fazer
para nos defendermos desses eventos, no fundo no fundo, é sempre o
mesmo: é nós aprofundarmos o processo de restruturação produtiva,
que vem tendo lugar na economia brasileira; de reorganização e
modernização do Estado; de aumento da poupança doméstica e privada;
redução da despoupança, a poupança negativa do setor público;
maior eficiência de nossa estrutura de transporte e logística,
voltadas para a exportação; aumento da produção doméstica que
compete com importação. Em suma, aumentar a eficiência do
funcionamento da economia brasileira, tanto no setor privado como no
setor público. Essa era e continuará sendo a maneira como o país se
protege das peripécias da história e de eventos externos que possam
lhe ser desfavoráveis.
Bóris Casoy –
Luís Freitas, do Maranhão, pergunta: os bancos estaduais vão
continuar recebendo dinheiro da União para beneficiar governadores?
Ministro –
Houve uma mudança muito expressiva nos últimos cinco anos nessa
questão de bancos estaduais. Nós já privatizamos vários – o
Banespa deve ser agora brevemente, outros foram liquidados, vendidos,
outros se transformarão em agências de fomento, não captando
recursos junto ao público. Isso é uma estratégia, tem um programa,
o Proes, que vem sendo perseguida com determinação pelo governo e eu
diria que a essa altura com o apoio dos governadores, que descobriram
que uma coisa é ter um banco comercial do Estado quando se tem uma
inflação alta, crônica e crescente, e o banco é uma possibilidade
de emitir a sua própria moeda. Quando não tem mais inflação, o
banco passa a ser um ônus para muitos governadores, que têm que
fazer a capitalização, colocar capital no banco, e portanto muitos
deles estão repensando a grande serventia que um banco comercial
estadual pode ter para um governador. Na verdade, banco estadual e política
são coisas que não combinam muito bem, para falar a verdade.
Diretorias que mudam a cada quatro anos, sistemas de concessão de créditos
que talvez foram concedidos no passado por outras ordens de consideração
mostram aqui, como em outras partes do mundo, que política e avaliação
de risco de crédito não são coisas que combinem muito bem.
Bóris Casoy –
Ministro, chegamos ao final da entrevista. Gostaria de agradecer outra
vez pela presença. Eu tenho certeza que os telespectadores
aproveitaram. Eu acho que o senhor deu as satisfações possíveis ao
público. Eu gostaria de já fazer o convite para uma outra vez.
Ministro
– Eu agradeço a oportunidade. O convite está desde já aceito. E
agradeço em particular os telespectadores. É muito importante isso
aqui que eu acabo de receber, porque me dá uma idéia de como a opinião
pública está olhando esse tipo de questões que nós estamos
debatendo aqui. – Eu agradeço a
oportunidade. O convite está desde já aceito. E agradeço em
particular os telespectadores. É muito importante isso aqui que eu
acabo de receber, porque me dá uma idéia de como a opinião pública
está olhando esse tipo de questões que nós estamos debatendo aqui.
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