Pronunciamentos
14/05/99
Transcrição
da entrevista do ministro da Fazenda, Pedro Malan, à Rádio Gaúcha,
de Porto Alegre
Sem Revisão
do Autor
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Bom dia, ministro. É um prazer falar com o senhor.
Ministro
- O prazer é todo meu. - O prazer
é todo meu.
Rádio Gaúcha -
Parece que fazia muito tempo, ministro Pedro Malan, que o senhor não
encerrava uma semana com tanta notícia boa. Eu vou ler as manchetes
dos jornais aqui já lidos neste programa hoje. O Jornal Zero Hora da
RBS: Indústria gaúcha cresceu no primeiro trimestre. O Diário
Catarinense: Economia de Santa Catarina volta a crescer. O Estado de
Minas: Escapamos da recessão. O Estado de São Paulo: Economia reage.
PIB cresce 1,02%. A Folha de São Paulo: PIB cresce e interrompe a
recessão. O Globo: Economia reage e volta a crescer no início de
1999 e Jornal do Brasil: Agricultura faz o PIB crescer 1%. Estamos
mesmo escapando da recessão, ministro?
Ministro
- Eu acho que sim. Eu nunca deixei, mesmo no pior momento de turbulência
do final do ano passado, janeiro deste ano em particular, de fazer um
apelo à serenidade, tranqüilidade e a necessidade de ter uma
perspectiva de tempo e um horizonte que transcendesse aquele curto,
enganoso e nebuloso período de tempo. Eu sempre tive uma enorme
confiança na capacidade de que nós brasileiros, da sociedade
brasileira, do povo do país tenha de superar as turbulências que já
vivemos, como tantas vezes fizemos no passado. Eu acho que o que
ocorreu ali foi um pessimismo exagerado que foi de maneira acrítica
projetado no futuro e que agora vem sendo corrigido não com discursos
mas com dados e evidências como esses anunciados ontem pelo IBGE.
Claro que temos muito o que fazer. O fato de o PIB ter crescido 1%
neste trimestre em relação ao último trimestre do ano passado não
deve levar ninguém a concluir que esta é uma situação ideal. Nós
temos ainda muito chão pela frente, mas, seguramente, foram deixadas
para trás as projeções extremamente pessimistas e negativas de
inflação de 50%, 60%, 70%, 80% ao ano, queda do PIB de 5%, 6%, 7% ao
ano, que foram feitas, publicadas e anunciadas aqui e no exterior
sobre o Brasil no início do ano. Quer dizer, é um sinal encorajador,
mas não nos iludamos. Temos muito trabalho pela frente. - Eu acho que
sim. Eu nunca deixei, mesmo no pior momento de turbulência do final
do ano passado, janeiro deste ano em particular, de fazer um apelo à
serenidade, tranqüilidade e a necessidade de ter uma perspectiva de
tempo e um horizonte que transcendesse aquele curto, enganoso e
nebuloso período de tempo. Eu sempre tive uma enorme confiança na
capacidade de que nós brasileiros, da sociedade brasileira, do povo
do país tenha de superar as turbulências que já vivemos, como
tantas vezes fizemos no passado. Eu acho que o que ocorreu ali foi um
pessimismo exagerado que foi de maneira acrítica projetado no futuro
e que agora vem sendo corrigido não com discursos mas com dados e
evidências como esses anunciados ontem pelo IBGE. Claro que temos
muito o que fazer. O fato de o PIB ter crescido 1% neste trimestre em
relação ao último trimestre do ano passado não deve levar ninguém
a concluir que esta é uma situação ideal. Nós temos ainda muito chão
pela frente, mas, seguramente, foram deixadas para trás as projeções
extremamente pessimistas e negativas de inflação de 50%, 60%, 70%,
80% ao ano, queda do PIB de 5%, 6%, 7% ao ano, que foram feitas,
publicadas e anunciadas aqui e no exterior sobre o Brasil no início
do ano. Quer dizer, é um sinal encorajador, mas não nos iludamos.
Temos muito trabalho pela frente.
Rádio Gaúcha -
Ministro Pedro Malan, bom dia.
Ministro –
Bom dia.
Rádio Gaúcha (Ranzolin)
- Ministro Pedro Malan. É uma honra tê-lo aqui no nosso programa
mais uma vez. Nós não corremos o risco de um duplo excesso, quer
dizer, excesso de pessimismo antes e agora um excesso de otimismo?
Ministro –
Você tem toda razão. Essa sempre foi a minha preocupação. Aliás
esse ciclo está presente em muitas análises aqui no Brasil. Aqui
muda muito rapidamente de uma situação de um grande desespero, um
negativismo, um ceticismo, e o pêndulo gira muito rapidamente para
outra direção, e eu acho que você tem razão. É preciso evitar
isso. Por isso, eu insisto sempre em serenidade, objetividade, não
nos deixarmos levar nem pelo excesso de pessimismo nem por excesso de
otimismo, mas sim por uma visão realista de que nós temos, sim,
problemas inúmeros a serem equacionados, que eles demandarão tempo,
persistência, muito trabalho, muita perseverança, e é um discurso,
na verdade, que eu venho fazendo há alguns anos.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Agora, ministro Pedro Malan, como é possível, como é que
o senhor explica aqui dentro e, especialmente lá fora, que a inflação
que no final de 98 era estimada para este ano de 99 em quase 17% ao
ano, em abril o Presidente Fernando Henrique anunciava na Europa que
ela podia fechar o ano, este de 99, em 10% e agora já falamos em 7% e
até menos do que isso. Como é possível a lógica desse desempenho?
Ministro –
Não. Eu acho que isso aí é uma combinação de várias coisas. Em
primeiro lugar, quando o câmbio, lá naqueles primeiros dias da situação,
chegou a bater em R$ 2,15, R$ 2,20, nós dissemos claramente que
aquilo ali era um flagrante exagero, que aquilo não permaneceria como
tal, e que voltaria como, de fato, voltou. E para R$ 1,65 na última
vez em que vi – ontem. Quer dizer que, portanto, aquele flagrante
exagero inicial não deveria ser de uma maneira muito mecânica
incorporado nas expectativas de inflação como se aquele fosse o câmbio
médio que prevaleceria ao longo do ano. Teve um outro elemento, e
esse aqui eu acho que é da maior importância, que depois de quatro
anos e meio do Plano Real, a população brasileira, a sociedade
brasileira, a reação a esses fornecedores e compradores da cadeia
produtiva mudou. O brasileiro hoje não aceita mais aquele argumento
de que tem que comprar hoje porque senão amanhã vai ficar mais caro,
que não pode adiar a compra, que não pode procurar outros produtos,
a reação da sociedade brasileira, ao não aceitar aquele pânico
inicial, aquelas remarcações de preços iniciais, fossem aceitas
normalmente, como eram no passado e que parecia que a inflação de
uma semana é um piso para a inflação da semana seguinte, a inflação
de um mês é um piso para a inflação do mês seguinte, a reação
da sociedade, do consumidor, da empresa, do comprador, do fornecedor,
foi da maior importância. Agora, eu acho também que nós não
devemos subestimar a importância das transformações pelas quais o
Brasil passou nesses últimos quatro, cinco anos. O Brasil mudou. Nós
produzimos uma gama de bens e serviços maiores, com melhor conteúdo
tecnológico, melhoraram as práticas gerenciais e administrativas. A
indústria brasileira se tornou mais competitiva, que foi obrigada,
durante vários anos, a se preparar para competir com importações
potenciais. Quer dizer, a economia brasileira, hoje, é uma economia
melhor, mais forte do que era há cinco, dez anos atrás, e essa é a
razão pela qual não é possível que uma crise do tipo que tivemos
necessariamente vire uma profunda recessão combinada com uma profunda
inflação. É uma série de efeitos, e eu acho que se combinam entre
si para explicar porque que a....
Rádio Gaúcha (Ranzolin)
- Ministro Malan, o Brasil hoje está adotando uma meta inflacionária.
Os juros estão 27% desde março a taxa despencou 18 pontos
percentuais. Já ouvi dizer que o senhor está falando que até o fim
do ano os juros ficarão abaixo de 10%. Isto é verdade?
Ministro –
Olha, eu disse que a tendência é uma tendência de queda, tanto dos
juros nominais quanto dos juros reais. Esse número a que você acaba
de se referir é uma taxa de juros real: a taxa nominal descontada a
inflação. Eu acho que está ao nosso alcance, eu venho dizendo isso
há algum tempo: virar 1999 para 2000 com uma taxa de juros real próxima
a 10% ou um pouco abaixo, na casa de um dígito. Essa taxa é de juros
real, e eu acho que isso existe. Você notou com muita propriedade.
Era 45% essa taxa há dois meses e uma semana atrás, ainda em queda e
com uma tendência de queda que terá continuidade, portanto uma queda
de 18 pontos percentuais, como você notou, se quiser falar em
percentagem: de 40% em dois meses e uma semana com uma tendência de
queda e eu acho que, o meu ponto, que eu queria enfatizar, esta minha
esperança, digamos assim, de chegarmos a taxa de juros real de um dígito
na virada desse ano para o ano 2000. Ela depende, crucialmente, da
capacidade nossa de improviso. Se nós formos capazes, entenda-se:
governo federal, estados, municípios, solucionarmos o problema da
previdência, se nós formos capazes de darmos continuidade a esse
esforço de estabilidade fiscal no qual estamos empenhados, formos
capazes de viver dentro dos nossos recursos, formos capazes de
respeitar a restrição orçamentária, eu estou supondo que nós
teremos a determinação e a perseverança de continuar na direção
do ajuste fiscal, da mudança do regime fiscal e da modernização do
estado brasileiro. Nessa base, eu digo que é possível chegar até os
juros reais de um dígito ainda antes do final deste ano.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Ministro Pedro Malan, o senhor está falando para a
Rede Gaúcha, que tem aí uma rede de 90 emissoras em todo o país e
numa área de grande concentração de produção agrícola e a
agricultura foi, não só como o Presidente chamava, a âncora verde
do Plano Real, mas é também um fator importante no superávit
comercial no caso de exportações. Eu quero saber do senhor, ministro,
se o agricultor hoje que está nos ouvindo nesse momento pode
acreditar que vai ter recursos na hora certa e que, novamente, vai ter
que aguardar algumas definições do governo nessa área. O que o
senhor está pensando em relação à questão de recursos pra essa área?
Ministro –
Olha, eu estou absolutamente convencido da importância crucial da
agricultura, do agronegócio brasileiro no curto, médio e longo prazo
do Brasil. Tenho dito que o Brasil é hoje, quando se olha o mundo, a
última grande fronteira de expansão agrícola no mundo. Nossa vocação
para a agricultura, e essa região aqui que eu estou falando já
demonstrou isso de longa data, a eficiência, a competência do
agricultor do sul do país e acho que é impensável o desenvolvimento
econômico e social sustentado no Brasil sem o desenvolvimento da sua
agricultura e do seu agronegócio, onde temos enormes possibilidades.
Nós estamos no momento, Ana Amélia, atravessando uma fase um pouco
difícil porque, infelizmente, fatores fora do nosso controle, que são
os preços internacionais de commodities, estão em níveis
extremamente baixos. O preço da soja hoje é quase 20%, neste
primeiro semestre, inferior ao que era na média do ano passado. É o
caso do açúcar do café entre outros. Isso é um efeito, mas que é
transitório, é passageiro. Não é permanente.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Alguns agricultores tomaram empréstimos em dólares.
Estão aí tentando negociar a exemplo do que houve com o leasing.
Ministro – É
verdade. A Câmara dos Deputados, e esse assunto tem sido levado a nós
com muita competência, está em discussão, não há uma solução
ainda, mas sabemos da importância e da urgência do problema. A outra
área para a qual eu queria chamar a atenção é o fato de que,
infelizmente, também, a taxa de crescimento da economia mundial e do
comércio mundial este ano está sendo mais baixa do que foi nos últimos
anos, por razões ainda de estagnação no Japão, crescimento muito
baixo, crescimento da economia mundial vai ser entre 1,5 e 1,8% esse
ano. O comércio mundial vai ser quase 1% menos do que foi no ano
passado e obviamente esses são fatores dos quais nós não temos
total controle mas que afetam o volume, o valor total das nossas
exportações. Estava olhando mais adiante, além de 1999, eu vejo com
grande confiança o potencial de desenvolvimento da capacidade exportável
do Brasil, no agribusiness, na indústria e nos serviços.
Rádio Gaúcha (Ranzolin)
- Ministro Pedro Malan, críticas da oposição: Lula declarou que a
melhora que existe hoje se deve à mudança da política cambial e
lamenta que não tenha sido feita pela vontade do governo mas imposta
pelo mercado de forma desordenada e, segundo ele, no brasil, em vez do
setor financeiro fomentar o setor produtivo, ocorre o contrário: o
setor produtivo fomenta o financeiro e, como conseqüência, cria-se
uma dívida monstruosa e refere dois problemas cruciais na nossa política
econômica: o déficit público e a miséria social. Como o senhor
responde às críticas da oposição?
Ministro – Bom.
Em primeiro lugar eu acho que é uma flagrante simplificação,
excesso de simplificação achar que tudo que vem acontecendo no
Brasil se deve à mudança da política cambial que foi resultado das
circunstâncias. Se fosse assim, o argumento na verdade é um
argumento antigo no Brasil. Bastariam duas canetadas presidenciais:
uma desvalorizando o câmbio e outra baixando os juros pra que tudo
ficasse fantástico na economia brasileira. O que, obviamente, é uma
questão ingênua. Se fosse uma questão de duas canetadas
presidenciais, tudo já teria sido feito há muito tempo. Infelizmente,
o mundo é muito mais complexo e as transformações pelas quais
passou, está passando e terá que continuar passando o Brasil
transcendem de muito o âmbito de duas canetadas presidenciais. Essa
melhora vem do fato de que o Brasil mudou e o Brasil mudou para melhor
ao longo dos últimos anos ao se livrar da droga, da cocaína da inflação
e que permitiu que as pessoas vissem com mais clareza os problemas a
serem enfrentados. É claro que existem problemas de dívida pública
e outras que estão sendo equacionados. No começo deste ano, muita
gente dizia que a dívida doméstica teria que ser reestruturada, que
nós teríamos que ter um outro confisco, aquele à la Collor, de não
tão saudosa memória, de março de 91. E nós dissemos que isso não
seria necessário, que nós não faríamos tal coisa e hoje essa questão
não aparece mais como uma questão na preocupação dos analistas
sobre a dívida interna. Ela estará sendo reduzida ao longo dos próximos
três anos para cerca de 45% do Produto Interno Bruto, que não é um
número excessivamente elevado aqui como em qualquer país do mundo.
Sobre a dívida social, eu quero dizer o seguinte: todo o nosso
objetivo desde o início foi manter a inflação sob controle,
procurar criar as condições para o crescimento, não porque esses
fossem fins e objetivos em si mesmos, mas porque nós achamos que
essas são condições para que nós possamos tratar das questões
fundamentais do Brasil que são: a melhoria das condições de vida da
maioria da população brasileira. Nossos problemas sociais que nos
humilham e envergonham perante o resto do mundo e deveriam humilhar e
envergonhar nossas elites perante elas mesmos. Agora, eu acho que é
muito fácil esse discurso. Eu não teria nenhuma dificuldade em fazê-lo.
Levantar-me todo dia e fazer um discurso contra a pobreza, a miséria,
a fome, a opressão, a violência, a justiça, a exclusão, a
desigualdade e ir para casa achando que eu tinha feito o meu dever ao
denunciar problemas que nós temos, que são evidentes no Brasil mas
que são responsabilidade de todos de resolver e é muito fácil
responsabilizar única e exclusivamente o governo federal por não tê-los
resolvidos a todos, quando são problemas que estão conosco há séculos
ou há dezenas e dezenas de anos e que exigem uma mobilização da
sociedade como um todo e não apenas da elaboração de discursos fáceis
contra o governo.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Ministro Pedro Malan, para resolver esses problemas
sociais que o senhor está falando agora, sair do discurso para a prática,
é preciso poupança pra gerar crescimento econômico. O crescimento
econômico é a única via prática e fácil pra gerar emprego e dar
um bem-estar social. Nós não temos poupança no Brasil para
sustentar o crescimento econômico. Precisamos, aí, da poupança
externa, do investidor estrangeiro que vem aqui investir em capital de
risco, em aumento de indústria, enfim, na produção. Mas pra isso,
ele precisa ter estabilidade política, que é o que o país tem, e
uma estabilidade econômica. E na estabilidade política, eu queria
saber do senhor se algumas decisões internas do Brasil, a moratória
de Minas Gerais, o rompimento de um contrato com a Ford no Rio Grande
do Sul, a CPI dos bancos estão atrapalhando de alguma maneira, a
confiança e a credibilidade do investidor estrangeiro, ministro?
Ministro –
Olha, tudo isso faz parte de um todo. Um todo que é considerado e
avaliado nas suas reais dimensões, nas suas implicações e eu não
gostaria de traçar um julgamento sobre como é feita esta avaliação
dentro de cada empresa mas, primeiro eu posso dizer que, concordando
inteiramente com o que você diz sobre a importância da poupança
externa, que tem limitações, mas da poupança interna também, que
você consegue reduzindo a despoupança ou a poupança negativa do
setor público, é como eu tenho dito de longa data, mas nós temos um
indicador dessa confiança no Brasil e no seu futuro apesar de todos
esses percalços e aí eu incluo esses que você fez referência. O
Brasil que atraia menos de US$ 1 bilhão de investimento direto
estrangeiro por ano no início desta década, isto foi crescendo com o
Real, chegou a US$ 17 bilhões em 97, fomos o quinto maior país do
mundo, inclusive desenvolvido, com uma atratividade para investimento
estrangeiro direto em 97, fomos o quarto em 98 com US$ 26 bilhões.
Vamos ter cerca de US$ 20 bilhões este ano de investimento direto no
Brasil e isso não é capital volátil, isso não é capital de curto
prazo, isso são expressões de confiança no Brasil e no seu futuro,
que eu acho que existem apesar destes percalços, dificuldades e
problemas os quais você apresentou três exemplos, eu acho que há
uma confiança maior no Brasil e no seu futuro que transcende esses
episódios.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Ministro, o senhor já falou várias vezes sobre isso e eu
volto à questão, até porque o assunto está na ordem do dia. O
senhor já disse que está à disposição, aliás, o senhor tem um
bom relacionamento com o Congresso Nacional e o senhor se manifestou
à disposição dos congressistas para falar à hora em que for necessário
sobre esse episódio da participação ou do socorro dos bancos Marka
e FonteCindam, que está na CPI dos bancos. O senhor vai à CPI,
ministro?
Ministro
- Olha, eu aproveito a oportunidade que você me dá, talvez pela enésima
vez, não sei quantas vezes já disse isso que ou seja convocado, seja
convidado, lá estarei. Não tenho nada a esconder. Tenho absoluta
tranqüilidade e paz com a minha consciência, disposto a explicar o
que for preciso, desde que eu saiba. O que não dá é pra que
insistam que eu deva explicar decisões das quais não participei,
como, de maneira leviana, irresponsável e mentirosa, alguns
procuraram fazer com o caso Marka e FonteCindam. Aí, não tem sentido
cobrar-me explicações sobre algo do qual não participei. São
outras pessoas que tem que prestar os esclarecimentos devidos e o estão
fazendo. Eu acho que isso é importante. -
Olha, eu aproveito a oportunidade que você me dá, talvez pela enésima
vez, não sei quantas vezes já disse isso que ou seja convocado, seja
convidado, lá estarei. Não tenho nada a esconder. Tenho absoluta
tranqüilidade e paz com a minha consciência, disposto a explicar o
que for preciso, desde que eu saiba. O que não dá é pra que
insistam que eu deva explicar decisões das quais não participei,
como, de maneira leviana, irresponsável e mentirosa, alguns
procuraram fazer com o caso Marka e FonteCindam. Aí, não tem sentido
cobrar-me explicações sobre algo do qual não participei. São
outras pessoas que tem que prestar os esclarecimentos devidos e o estão
fazendo. Eu acho que isso é importante.
Rádio Gaúcha (Ranzolin)
- Ministro Malan, o deputado Aloísio Mercadante, do PT, foi
quem veio a fazer uma primeira denúncia: segundo ele, pessoas físicas
e instituições financeiras mudaram radicalmente de posição no
mercado futuro de câmbio às vésperas da desvalorização do Real
numa mostra de que houve vazamento de informações. No dia 13 de
janeiro, anúncio da desvalorização. Dia 11, venda de dólares
predominantemente. Dia 12, inversão radical na véspera da
desvalorização com três vezes mais contratos de compra e bancos
demonstrando agora nos seus balanços, do primeiro trimestre de 99,
que ganharam o dobro de 98. Qual é a leitura que o senhor faz disso?
Ministro –
Eu sugiro a todos que tenham interesse, e eu devo dizer é um
interesse legítimo, por essa questão que leiam com atenção o relatório
que o próprio Banco Central encaminhou à Comissão Parlamentar de
Inquérito, através do Dr. Armínio Fraga, onde eles fazem essa mesma
análise dessas reversões de posições, de vendidas para compradas,
nos episódios anteriores, da crise de março de 95, da crise
argentina que levou à demissão do ministro Cavallo, da crise asiática
do final de 97, da crise russa, de agosto, setembro do ano passado, e
essa agora, onde se mostra que essas grandes mudanças de posição
também tiveram lugar a um ou dois dias antes de expectativas de mudanças
que não se materializaram porque o Banco Central defendeu o Real e eu
acho que é pouco plausível imaginar que naquelas ocasiões, onde
tiveram expressivas e significativas mudanças de posição, até do
ponto de vista quantitativo, superiores a que houve agora em janeiro,
tenham sido todas derivadas de acesso a informação privilegiada,
mesmo porque em todas essas outras ocasiões, aqueles que fizeram isso
perderam dinheiro e o Banco Central ganhou. E eu acho, eu vi com atenção
o texto, eu não vi as posições, mas vi o texto, as tabelas que me
foram encaminhadas, o que o deputado mostrou é que havia 62 bancos
com posições compradas, vale dizer, apostando ou se defendendo, não
necessariamente apostando, ou se defendendo, contra uma desvalorização
e havia 50, é verdade que dentre eles, importante, o Banco do Brasil,
na outra ponta, na outra direção. É difícil imaginar que 62 bancos
tenham tido informação privilegiada que 50 outros não tiveram no
curto espaço de um dia. Mas eu acho que o deputado levanta uma
discussão interessante, principalmente se for feita comparando-se a
experiências com mudanças semelhantes de posição que ocorreram em
outras situações em que as pessoas estavam achando que algo teria
que ocorrer. E você sabe que esse mercado é movido por um certo
instinto de coletivo, quando sente que alguém está fazendo alguma
coisa, outros tendem a fazer também, como a história já mostrou várias
vezes.
Rádio Gaúcha (Ana
Amélia) - Ministro Pedro Malan, para terminar, nós estamos
encerrando, gostaríamos de ficar aqui uma hora conversando com o
senhor, dada a clareza que o senhor tem na exposição dos pontos de
vista. Nós vimos aí, que a CPI já prestou um serviço ao país que
foi apressar a regulamentação do artigo 192 que trata do sistema
financeiro e que estava há dez anos, sete meses e sete dias
paralisado. Esse artigo é muito importante porque vai definir como
deve funcionar o Banco Central, o sistema financeiro, os bancos, enfim,
até aquela famigerada questão dos juros tabelados em 12%. Eu queria
saber do senhor se, quarentena para dirigentes do Banco Central é
solução, se Banco Central autônomo é solução e se o senhor que
foi presidente do Banco Central, que conhece bem essa área financeira,
se acha que essa operação que foi feita e apresentada ontem na CPI,
se o ideal teria sido realmente a liquidação extrajudicial e não o
socorro?
Ministro –
Bom, é uma longa pergunta mas deixe-me começar. Eu achei da maior
importância o fato de que, neste torvelinho todo, e que, infelizmente
e erradamente, muitos acham que não está acontecendo mais nada, seja
na Câmara, seja no Senado, a não ser a CPI, é uma demonstração de
que tem muita coisa acontecendo sim, tanto na Câmara quanto Senado, a
votação sobre o artigo 192 que vai permitir a regulamentação do
sistema financeiro, não através de uma única grande lei, que seria
uma tarefa quase que inviável, mas agora nós vamos poder acelerar o
trabalho de regulamentação do mercado de valores mobiliários, de
seguros, Banco Central, de instituições por eles autorizadas por ele
para funcionar e fiscalizá-lo. Eu acho que é uma decisão, ainda que
em primeiro turno, da maior importância, esta desconstitucionalização
de detalhes que estavam no artigo 192 da Constituição e vai nos
permitir caminhar com rapidez na linha de resolução de problemas -
que estão surgindo por conta desse debate sobre a CPI, eu sempre
achei que a CPI tem um papel importante na área investigativa, na área
de aprofundar esclarecimentos e conferir transparência a determinado
tipo de operações, inclusive sobre essa a que você se referiu
agora, mas ela também tem um papel importante que é de estimular
mudanças na legislação, nas práticas e nos procedimentos, que é a
fase mais construtiva, que a CPI vai até um certo ponto na investigação
depois tem que remeter tudo à justiça, à Polícia Federal, ao
Ministério Público e eu acho que foi um bom exemplo esse que você
pegou. O Banco Central já vem tomando várias medidas que já
caminham na direção de minimizar riscos de operações desse tipo.
Eu acho que seria importante levar em conta. Sobre a sua última
pergunta, eu acho que os depoimentos que foram apresentados na CPI nas
últimas semanas, inclusive a Tereza Togni, que é chefe de fiscalização
do Banco Central, Dr. Demosthenes Madureira de Pinho, mostram
claramente que havia duas escolhas na tensão e no calor daquele
momento: um tem a liquidação da instituição, no caso do banco
Marka, ou a operação do tipo da que se fez. E, me disseram que nas
circunstâncias, a decisão do Banco Central foi por fazer a operação
que se fez e não a liquidação, dadas as preocupações com as
conseqüências e os riscos que a liquidação, naquele momento, de
tensão e de ataque especulativo para o Real podia ter. Eu acho o
seguinte: como eu não participei dessa decisão, eu acho que é muito
problemático alguém dizer, depois de passados quatro meses, dizer:
bom, mas eu acho que a decisão B teria sido melhor que a decisão A.
Essas coisas têm que ser vistas nas circunstâncias, no calor do
momento e a decisão foi legal e estava na esfera da competência do
Banco Central fazê-la. É muito fácil o exercício de sabedoria, uma
pessoa dizer bom mas eu acho que agora, sabendo tudo que aconteceu nos
últimos quatro meses, talvez tivesse sido melhor que outra fosse a
decisão. Infelizmente, no mundo real as pessoas têm que tomar decisões
no calor da hora, no calor do momento e para avaliar depois as suas
conseqüências.
Rádio Gaúcha (Ranzolin)
- Ministro Pedro Malan, em nome de toda a grande audiência da Rádio
Gaúcha, da Rede Gaúcha, muito obrigado ao senhor por ter participado
do programa desta manhã e um bom dia.
Ministro
– Bom dia. Foi um prazer falar com vocês. –
Bom dia. Foi um prazer falar com vocês.
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