Pronunciamentos

14/05/99

Transcrição da entrevista do ministro da Fazenda, Pedro Malan, à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre

Sem Revisão do Autor

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Bom dia, ministro. É um prazer falar com o senhor.

Ministro - O prazer é todo meu. - O prazer é todo meu.

Rádio Gaúcha - Parece que fazia muito tempo, ministro Pedro Malan, que o senhor não encerrava uma semana com tanta notícia boa. Eu vou ler as manchetes dos jornais aqui já lidos neste programa hoje. O Jornal Zero Hora da RBS: Indústria gaúcha cresceu no primeiro trimestre. O Diário Catarinense: Economia de Santa Catarina volta a crescer. O Estado de Minas: Escapamos da recessão. O Estado de São Paulo: Economia reage. PIB cresce 1,02%. A Folha de São Paulo: PIB cresce e interrompe a recessão. O Globo: Economia reage e volta a crescer no início de 1999 e Jornal do Brasil: Agricultura faz o PIB crescer 1%. Estamos mesmo escapando da recessão, ministro?

Ministro - Eu acho que sim. Eu nunca deixei, mesmo no pior momento de turbulência do final do ano passado, janeiro deste ano em particular, de fazer um apelo à serenidade, tranqüilidade e a necessidade de ter uma perspectiva de tempo e um horizonte que transcendesse aquele curto, enganoso e nebuloso período de tempo. Eu sempre tive uma enorme confiança na capacidade de que nós brasileiros, da sociedade brasileira, do povo do país tenha de superar as turbulências que já vivemos, como tantas vezes fizemos no passado. Eu acho que o que ocorreu ali foi um pessimismo exagerado que foi de maneira acrítica projetado no futuro e que agora vem sendo corrigido não com discursos mas com dados e evidências como esses anunciados ontem pelo IBGE. Claro que temos muito o que fazer. O fato de o PIB ter crescido 1% neste trimestre em relação ao último trimestre do ano passado não deve levar ninguém a concluir que esta é uma situação ideal. Nós temos ainda muito chão pela frente, mas, seguramente, foram deixadas para trás as projeções extremamente pessimistas e negativas de inflação de 50%, 60%, 70%, 80% ao ano, queda do PIB de 5%, 6%, 7% ao ano, que foram feitas, publicadas e anunciadas aqui e no exterior sobre o Brasil no início do ano. Quer dizer, é um sinal encorajador, mas não nos iludamos. Temos muito trabalho pela frente. - Eu acho que sim. Eu nunca deixei, mesmo no pior momento de turbulência do final do ano passado, janeiro deste ano em particular, de fazer um apelo à serenidade, tranqüilidade e a necessidade de ter uma perspectiva de tempo e um horizonte que transcendesse aquele curto, enganoso e nebuloso período de tempo. Eu sempre tive uma enorme confiança na capacidade de que nós brasileiros, da sociedade brasileira, do povo do país tenha de superar as turbulências que já vivemos, como tantas vezes fizemos no passado. Eu acho que o que ocorreu ali foi um pessimismo exagerado que foi de maneira acrítica projetado no futuro e que agora vem sendo corrigido não com discursos mas com dados e evidências como esses anunciados ontem pelo IBGE. Claro que temos muito o que fazer. O fato de o PIB ter crescido 1% neste trimestre em relação ao último trimestre do ano passado não deve levar ninguém a concluir que esta é uma situação ideal. Nós temos ainda muito chão pela frente, mas, seguramente, foram deixadas para trás as projeções extremamente pessimistas e negativas de inflação de 50%, 60%, 70%, 80% ao ano, queda do PIB de 5%, 6%, 7% ao ano, que foram feitas, publicadas e anunciadas aqui e no exterior sobre o Brasil no início do ano. Quer dizer, é um sinal encorajador, mas não nos iludamos. Temos muito trabalho pela frente.

Rádio Gaúcha - Ministro Pedro Malan, bom dia.

Ministro – Bom dia.

Rádio Gaúcha (Ranzolin) - Ministro Pedro Malan. É uma honra tê-lo aqui no nosso programa mais uma vez. Nós não corremos o risco de um duplo excesso, quer dizer, excesso de pessimismo antes e agora um excesso de otimismo?

Ministro – Você tem toda razão. Essa sempre foi a minha preocupação. Aliás esse ciclo está presente em muitas análises aqui no Brasil. Aqui muda muito rapidamente de uma situação de um grande desespero, um negativismo, um ceticismo, e o pêndulo gira muito rapidamente para outra direção, e eu acho que você tem razão. É preciso evitar isso. Por isso, eu insisto sempre em serenidade, objetividade, não nos deixarmos levar nem pelo excesso de pessimismo nem por excesso de otimismo, mas sim por uma visão realista de que nós temos, sim, problemas inúmeros a serem equacionados, que eles demandarão tempo, persistência, muito trabalho, muita perseverança, e é um discurso, na verdade, que eu venho fazendo há alguns anos.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Agora, ministro Pedro Malan, como é possível, como é que o senhor explica aqui dentro e, especialmente lá fora, que a inflação que no final de 98 era estimada para este ano de 99 em quase 17% ao ano, em abril o Presidente Fernando Henrique anunciava na Europa que ela podia fechar o ano, este de 99, em 10% e agora já falamos em 7% e até menos do que isso. Como é possível a lógica desse desempenho?

Ministro – Não. Eu acho que isso aí é uma combinação de várias coisas. Em primeiro lugar, quando o câmbio, lá naqueles primeiros dias da situação, chegou a bater em R$ 2,15, R$ 2,20, nós dissemos claramente que aquilo ali era um flagrante exagero, que aquilo não permaneceria como tal, e que voltaria como, de fato, voltou. E para R$ 1,65 na última vez em que vi – ontem. Quer dizer que, portanto, aquele flagrante exagero inicial não deveria ser de uma maneira muito mecânica incorporado nas expectativas de inflação como se aquele fosse o câmbio médio que prevaleceria ao longo do ano. Teve um outro elemento, e esse aqui eu acho que é da maior importância, que depois de quatro anos e meio do Plano Real, a população brasileira, a sociedade brasileira, a reação a esses fornecedores e compradores da cadeia produtiva mudou. O brasileiro hoje não aceita mais aquele argumento de que tem que comprar hoje porque senão amanhã vai ficar mais caro, que não pode adiar a compra, que não pode procurar outros produtos, a reação da sociedade brasileira, ao não aceitar aquele pânico inicial, aquelas remarcações de preços iniciais, fossem aceitas normalmente, como eram no passado e que parecia que a inflação de uma semana é um piso para a inflação da semana seguinte, a inflação de um mês é um piso para a inflação do mês seguinte, a reação da sociedade, do consumidor, da empresa, do comprador, do fornecedor, foi da maior importância. Agora, eu acho também que nós não devemos subestimar a importância das transformações pelas quais o Brasil passou nesses últimos quatro, cinco anos. O Brasil mudou. Nós produzimos uma gama de bens e serviços maiores, com melhor conteúdo tecnológico, melhoraram as práticas gerenciais e administrativas. A indústria brasileira se tornou mais competitiva, que foi obrigada, durante vários anos, a se preparar para competir com importações potenciais. Quer dizer, a economia brasileira, hoje, é uma economia melhor, mais forte do que era há cinco, dez anos atrás, e essa é a razão pela qual não é possível que uma crise do tipo que tivemos necessariamente vire uma profunda recessão combinada com uma profunda inflação. É uma série de efeitos, e eu acho que se combinam entre si para explicar porque que a....

Rádio Gaúcha (Ranzolin) - Ministro Malan, o Brasil hoje está adotando uma meta inflacionária. Os juros estão 27% desde março a taxa despencou 18 pontos percentuais. Já ouvi dizer que o senhor está falando que até o fim do ano os juros ficarão abaixo de 10%. Isto é verdade?

Ministro – Olha, eu disse que a tendência é uma tendência de queda, tanto dos juros nominais quanto dos juros reais. Esse número a que você acaba de se referir é uma taxa de juros real: a taxa nominal descontada a inflação. Eu acho que está ao nosso alcance, eu venho dizendo isso há algum tempo: virar 1999 para 2000 com uma taxa de juros real próxima a 10% ou um pouco abaixo, na casa de um dígito. Essa taxa é de juros real, e eu acho que isso existe. Você notou com muita propriedade. Era 45% essa taxa há dois meses e uma semana atrás, ainda em queda e com uma tendência de queda que terá continuidade, portanto uma queda de 18 pontos percentuais, como você notou, se quiser falar em percentagem: de 40% em dois meses e uma semana com uma tendência de queda e eu acho que, o meu ponto, que eu queria enfatizar, esta minha esperança, digamos assim, de chegarmos a taxa de juros real de um dígito na virada desse ano para o ano 2000. Ela depende, crucialmente, da capacidade nossa de improviso. Se nós formos capazes, entenda-se: governo federal, estados, municípios, solucionarmos o problema da previdência, se nós formos capazes de darmos continuidade a esse esforço de estabilidade fiscal no qual estamos empenhados, formos capazes de viver dentro dos nossos recursos, formos capazes de respeitar a restrição orçamentária, eu estou supondo que nós teremos a determinação e a perseverança de continuar na direção do ajuste fiscal, da mudança do regime fiscal e da modernização do estado brasileiro. Nessa base, eu digo que é possível chegar até os juros reais de um dígito ainda antes do final deste ano.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Ministro Pedro Malan, o senhor está falando para a Rede Gaúcha, que tem aí uma rede de 90 emissoras em todo o país e numa área de grande concentração de produção agrícola e a agricultura foi, não só como o Presidente chamava, a âncora verde do Plano Real, mas é também um fator importante no superávit comercial no caso de exportações. Eu quero saber do senhor, ministro, se o agricultor hoje que está nos ouvindo nesse momento pode acreditar que vai ter recursos na hora certa e que, novamente, vai ter que aguardar algumas definições do governo nessa área. O que o senhor está pensando em relação à questão de recursos pra essa área?

Ministro – Olha, eu estou absolutamente convencido da importância crucial da agricultura, do agronegócio brasileiro no curto, médio e longo prazo do Brasil. Tenho dito que o Brasil é hoje, quando se olha o mundo, a última grande fronteira de expansão agrícola no mundo. Nossa vocação para a agricultura, e essa região aqui que eu estou falando já demonstrou isso de longa data, a eficiência, a competência do agricultor do sul do país e acho que é impensável o desenvolvimento econômico e social sustentado no Brasil sem o desenvolvimento da sua agricultura e do seu agronegócio, onde temos enormes possibilidades. Nós estamos no momento, Ana Amélia, atravessando uma fase um pouco difícil porque, infelizmente, fatores fora do nosso controle, que são os preços internacionais de commodities, estão em níveis extremamente baixos. O preço da soja hoje é quase 20%, neste primeiro semestre, inferior ao que era na média do ano passado. É o caso do açúcar do café entre outros. Isso é um efeito, mas que é transitório, é passageiro. Não é permanente.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Alguns agricultores tomaram empréstimos em dólares. Estão aí tentando negociar a exemplo do que houve com o leasing.

Ministro – É verdade. A Câmara dos Deputados, e esse assunto tem sido levado a nós com muita competência, está em discussão, não há uma solução ainda, mas sabemos da importância e da urgência do problema. A outra área para a qual eu queria chamar a atenção é o fato de que, infelizmente, também, a taxa de crescimento da economia mundial e do comércio mundial este ano está sendo mais baixa do que foi nos últimos anos, por razões ainda de estagnação no Japão, crescimento muito baixo, crescimento da economia mundial vai ser entre 1,5 e 1,8% esse ano. O comércio mundial vai ser quase 1% menos do que foi no ano passado e obviamente esses são fatores dos quais nós não temos total controle mas que afetam o volume, o valor total das nossas exportações. Estava olhando mais adiante, além de 1999, eu vejo com grande confiança o potencial de desenvolvimento da capacidade exportável do Brasil, no agribusiness, na indústria e nos serviços.

Rádio Gaúcha (Ranzolin) - Ministro Pedro Malan, críticas da oposição: Lula declarou que a melhora que existe hoje se deve à mudança da política cambial e lamenta que não tenha sido feita pela vontade do governo mas imposta pelo mercado de forma desordenada e, segundo ele, no brasil, em vez do setor financeiro fomentar o setor produtivo, ocorre o contrário: o setor produtivo fomenta o financeiro e, como conseqüência, cria-se uma dívida monstruosa e refere dois problemas cruciais na nossa política econômica: o déficit público e a miséria social. Como o senhor responde às críticas da oposição?

Ministro – Bom. Em primeiro lugar eu acho que é uma flagrante simplificação, excesso de simplificação achar que tudo que vem acontecendo no Brasil se deve à mudança da política cambial que foi resultado das circunstâncias. Se fosse assim, o argumento na verdade é um argumento antigo no Brasil. Bastariam duas canetadas presidenciais: uma desvalorizando o câmbio e outra baixando os juros pra que tudo ficasse fantástico na economia brasileira. O que, obviamente, é uma questão ingênua. Se fosse uma questão de duas canetadas presidenciais, tudo já teria sido feito há muito tempo. Infelizmente, o mundo é muito mais complexo e as transformações pelas quais passou, está passando e terá que continuar passando o Brasil transcendem de muito o âmbito de duas canetadas presidenciais. Essa melhora vem do fato de que o Brasil mudou e o Brasil mudou para melhor ao longo dos últimos anos ao se livrar da droga, da cocaína da inflação e que permitiu que as pessoas vissem com mais clareza os problemas a serem enfrentados. É claro que existem problemas de dívida pública e outras que estão sendo equacionados. No começo deste ano, muita gente dizia que a dívida doméstica teria que ser reestruturada, que nós teríamos que ter um outro confisco, aquele à la Collor, de não tão saudosa memória, de março de 91. E nós dissemos que isso não seria necessário, que nós não faríamos tal coisa e hoje essa questão não aparece mais como uma questão na preocupação dos analistas sobre a dívida interna. Ela estará sendo reduzida ao longo dos próximos três anos para cerca de 45% do Produto Interno Bruto, que não é um número excessivamente elevado aqui como em qualquer país do mundo. Sobre a dívida social, eu quero dizer o seguinte: todo o nosso objetivo desde o início foi manter a inflação sob controle, procurar criar as condições para o crescimento, não porque esses fossem fins e objetivos em si mesmos, mas porque nós achamos que essas são condições para que nós possamos tratar das questões fundamentais do Brasil que são: a melhoria das condições de vida da maioria da população brasileira. Nossos problemas sociais que nos humilham e envergonham perante o resto do mundo e deveriam humilhar e envergonhar nossas elites perante elas mesmos. Agora, eu acho que é muito fácil esse discurso. Eu não teria nenhuma dificuldade em fazê-lo. Levantar-me todo dia e fazer um discurso contra a pobreza, a miséria, a fome, a opressão, a violência, a justiça, a exclusão, a desigualdade e ir para casa achando que eu tinha feito o meu dever ao denunciar problemas que nós temos, que são evidentes no Brasil mas que são responsabilidade de todos de resolver e é muito fácil responsabilizar única e exclusivamente o governo federal por não tê-los resolvidos a todos, quando são problemas que estão conosco há séculos ou há dezenas e dezenas de anos e que exigem uma mobilização da sociedade como um todo e não apenas da elaboração de discursos fáceis contra o governo.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Ministro Pedro Malan, para resolver esses problemas sociais que o senhor está falando agora, sair do discurso para a prática, é preciso poupança pra gerar crescimento econômico. O crescimento econômico é a única via prática e fácil pra gerar emprego e dar um bem-estar social. Nós não temos poupança no Brasil para sustentar o crescimento econômico. Precisamos, aí, da poupança externa, do investidor estrangeiro que vem aqui investir em capital de risco, em aumento de indústria, enfim, na produção. Mas pra isso, ele precisa ter estabilidade política, que é o que o país tem, e uma estabilidade econômica. E na estabilidade política, eu queria saber do senhor se algumas decisões internas do Brasil, a moratória de Minas Gerais, o rompimento de um contrato com a Ford no Rio Grande do Sul, a CPI dos bancos estão atrapalhando de alguma maneira, a confiança e a credibilidade do investidor estrangeiro, ministro?

Ministro – Olha, tudo isso faz parte de um todo. Um todo que é considerado e avaliado nas suas reais dimensões, nas suas implicações e eu não gostaria de traçar um julgamento sobre como é feita esta avaliação dentro de cada empresa mas, primeiro eu posso dizer que, concordando inteiramente com o que você diz sobre a importância da poupança externa, que tem limitações, mas da poupança interna também, que você consegue reduzindo a despoupança ou a poupança negativa do setor público, é como eu tenho dito de longa data, mas nós temos um indicador dessa confiança no Brasil e no seu futuro apesar de todos esses percalços e aí eu incluo esses que você fez referência. O Brasil que atraia menos de US$ 1 bilhão de investimento direto estrangeiro por ano no início desta década, isto foi crescendo com o Real, chegou a US$ 17 bilhões em 97, fomos o quinto maior país do mundo, inclusive desenvolvido, com uma atratividade para investimento estrangeiro direto em 97, fomos o quarto em 98 com US$ 26 bilhões. Vamos ter cerca de US$ 20 bilhões este ano de investimento direto no Brasil e isso não é capital volátil, isso não é capital de curto prazo, isso são expressões de confiança no Brasil e no seu futuro, que eu acho que existem apesar destes percalços, dificuldades e problemas os quais você apresentou três exemplos, eu acho que há uma confiança maior no Brasil e no seu futuro que transcende esses episódios.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Ministro, o senhor já falou várias vezes sobre isso e eu volto à questão, até porque o assunto está na ordem do dia. O senhor já disse que está à disposição, aliás, o senhor tem um bom relacionamento com o Congresso Nacional e o senhor se manifestou à disposição dos congressistas para falar à hora em que for necessário sobre esse episódio da participação ou do socorro dos bancos Marka e FonteCindam, que está na CPI dos bancos. O senhor vai à CPI, ministro?

Ministro - Olha, eu aproveito a oportunidade que você me dá, talvez pela enésima vez, não sei quantas vezes já disse isso que ou seja convocado, seja convidado, lá estarei. Não tenho nada a esconder. Tenho absoluta tranqüilidade e paz com a minha consciência, disposto a explicar o que for preciso, desde que eu saiba. O que não dá é pra que insistam que eu deva explicar decisões das quais não participei, como, de maneira leviana, irresponsável e mentirosa, alguns procuraram fazer com o caso Marka e FonteCindam. Aí, não tem sentido cobrar-me explicações sobre algo do qual não participei. São outras pessoas que tem que prestar os esclarecimentos devidos e o estão fazendo. Eu acho que isso é importante. - Olha, eu aproveito a oportunidade que você me dá, talvez pela enésima vez, não sei quantas vezes já disse isso que ou seja convocado, seja convidado, lá estarei. Não tenho nada a esconder. Tenho absoluta tranqüilidade e paz com a minha consciência, disposto a explicar o que for preciso, desde que eu saiba. O que não dá é pra que insistam que eu deva explicar decisões das quais não participei, como, de maneira leviana, irresponsável e mentirosa, alguns procuraram fazer com o caso Marka e FonteCindam. Aí, não tem sentido cobrar-me explicações sobre algo do qual não participei. São outras pessoas que tem que prestar os esclarecimentos devidos e o estão fazendo. Eu acho que isso é importante.

Rádio Gaúcha (Ranzolin) - Ministro Malan, o deputado Aloísio Mercadante, do PT, foi quem veio a fazer uma primeira denúncia: segundo ele, pessoas físicas e instituições financeiras mudaram radicalmente de posição no mercado futuro de câmbio às vésperas da desvalorização do Real numa mostra de que houve vazamento de informações. No dia 13 de janeiro, anúncio da desvalorização. Dia 11, venda de dólares predominantemente. Dia 12, inversão radical na véspera da desvalorização com três vezes mais contratos de compra e bancos demonstrando agora nos seus balanços, do primeiro trimestre de 99, que ganharam o dobro de 98. Qual é a leitura que o senhor faz disso?

Ministro – Eu sugiro a todos que tenham interesse, e eu devo dizer é um interesse legítimo, por essa questão que leiam com atenção o relatório que o próprio Banco Central encaminhou à Comissão Parlamentar de Inquérito, através do Dr. Armínio Fraga, onde eles fazem essa mesma análise dessas reversões de posições, de vendidas para compradas, nos episódios anteriores, da crise de março de 95, da crise argentina que levou à demissão do ministro Cavallo, da crise asiática do final de 97, da crise russa, de agosto, setembro do ano passado, e essa agora, onde se mostra que essas grandes mudanças de posição também tiveram lugar a um ou dois dias antes de expectativas de mudanças que não se materializaram porque o Banco Central defendeu o Real e eu acho que é pouco plausível imaginar que naquelas ocasiões, onde tiveram expressivas e significativas mudanças de posição, até do ponto de vista quantitativo, superiores a que houve agora em janeiro, tenham sido todas derivadas de acesso a informação privilegiada, mesmo porque em todas essas outras ocasiões, aqueles que fizeram isso perderam dinheiro e o Banco Central ganhou. E eu acho, eu vi com atenção o texto, eu não vi as posições, mas vi o texto, as tabelas que me foram encaminhadas, o que o deputado mostrou é que havia 62 bancos com posições compradas, vale dizer, apostando ou se defendendo, não necessariamente apostando, ou se defendendo, contra uma desvalorização e havia 50, é verdade que dentre eles, importante, o Banco do Brasil, na outra ponta, na outra direção. É difícil imaginar que 62 bancos tenham tido informação privilegiada que 50 outros não tiveram no curto espaço de um dia. Mas eu acho que o deputado levanta uma discussão interessante, principalmente se for feita comparando-se a experiências com mudanças semelhantes de posição que ocorreram em outras situações em que as pessoas estavam achando que algo teria que ocorrer. E você sabe que esse mercado é movido por um certo instinto de coletivo, quando sente que alguém está fazendo alguma coisa, outros tendem a fazer também, como a história já mostrou várias vezes.

Rádio Gaúcha (Ana Amélia) - Ministro Pedro Malan, para terminar, nós estamos encerrando, gostaríamos de ficar aqui uma hora conversando com o senhor, dada a clareza que o senhor tem na exposição dos pontos de vista. Nós vimos aí, que a CPI já prestou um serviço ao país que foi apressar a regulamentação do artigo 192 que trata do sistema financeiro e que estava há dez anos, sete meses e sete dias paralisado. Esse artigo é muito importante porque vai definir como deve funcionar o Banco Central, o sistema financeiro, os bancos, enfim, até aquela famigerada questão dos juros tabelados em 12%. Eu queria saber do senhor se, quarentena para dirigentes do Banco Central é solução, se Banco Central autônomo é solução e se o senhor que foi presidente do Banco Central, que conhece bem essa área financeira, se acha que essa operação que foi feita e apresentada ontem na CPI, se o ideal teria sido realmente a liquidação extrajudicial e não o socorro?

Ministro – Bom, é uma longa pergunta mas deixe-me começar. Eu achei da maior importância o fato de que, neste torvelinho todo, e que, infelizmente e erradamente, muitos acham que não está acontecendo mais nada, seja na Câmara, seja no Senado, a não ser a CPI, é uma demonstração de que tem muita coisa acontecendo sim, tanto na Câmara quanto Senado, a votação sobre o artigo 192 que vai permitir a regulamentação do sistema financeiro, não através de uma única grande lei, que seria uma tarefa quase que inviável, mas agora nós vamos poder acelerar o trabalho de regulamentação do mercado de valores mobiliários, de seguros, Banco Central, de instituições por eles autorizadas por ele para funcionar e fiscalizá-lo. Eu acho que é uma decisão, ainda que em primeiro turno, da maior importância, esta desconstitucionalização de detalhes que estavam no artigo 192 da Constituição e vai nos permitir caminhar com rapidez na linha de resolução de problemas - que estão surgindo por conta desse debate sobre a CPI, eu sempre achei que a CPI tem um papel importante na área investigativa, na área de aprofundar esclarecimentos e conferir transparência a determinado tipo de operações, inclusive sobre essa a que você se referiu agora, mas ela também tem um papel importante que é de estimular mudanças na legislação, nas práticas e nos procedimentos, que é a fase mais construtiva, que a CPI vai até um certo ponto na investigação depois tem que remeter tudo à justiça, à Polícia Federal, ao Ministério Público e eu acho que foi um bom exemplo esse que você pegou. O Banco Central já vem tomando várias medidas que já caminham na direção de minimizar riscos de operações desse tipo. Eu acho que seria importante levar em conta. Sobre a sua última pergunta, eu acho que os depoimentos que foram apresentados na CPI nas últimas semanas, inclusive a Tereza Togni, que é chefe de fiscalização do Banco Central, Dr. Demosthenes Madureira de Pinho, mostram claramente que havia duas escolhas na tensão e no calor daquele momento: um tem a liquidação da instituição, no caso do banco Marka, ou a operação do tipo da que se fez. E, me disseram que nas circunstâncias, a decisão do Banco Central foi por fazer a operação que se fez e não a liquidação, dadas as preocupações com as conseqüências e os riscos que a liquidação, naquele momento, de tensão e de ataque especulativo para o Real podia ter. Eu acho o seguinte: como eu não participei dessa decisão, eu acho que é muito problemático alguém dizer, depois de passados quatro meses, dizer: bom, mas eu acho que a decisão B teria sido melhor que a decisão A. Essas coisas têm que ser vistas nas circunstâncias, no calor do momento e a decisão foi legal e estava na esfera da competência do Banco Central fazê-la. É muito fácil o exercício de sabedoria, uma pessoa dizer bom mas eu acho que agora, sabendo tudo que aconteceu nos últimos quatro meses, talvez tivesse sido melhor que outra fosse a decisão. Infelizmente, no mundo real as pessoas têm que tomar decisões no calor da hora, no calor do momento e para avaliar depois as suas conseqüências.

Rádio Gaúcha (Ranzolin) - Ministro Pedro Malan, em nome de toda a grande audiência da Rádio Gaúcha, da Rede Gaúcha, muito obrigado ao senhor por ter participado do programa desta manhã e um bom dia.

Ministro – Bom dia. Foi um prazer falar com vocês. – Bom dia. Foi um prazer falar com vocês.

 

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