Pronunciamentos

29/01/99

Transcrição da fala do ministro Pedro Malan sobre a situação da economia brasileira após a flexibilização cambial

Sem Revisão do Autor

Momentos como esse que estamos atravessando, de turbulências, incertezas e perplexidades de toda ordem, são momentos que mexem com corações, mentes e nervos. Não só dos investidores internos e externos, mas como também e principalmente do cidadão brasileiro, do trabalhador, do empresário, da dona-de-casa e da população em geral.

Nesses momentos, mais do que nunca, é preciso manter a serenidade, o sangue frio, a firmeza de propósitos, e não se deixar levar pelos sobressaltos e excitações do dia a dia. São momentos de reafirmar nossa confiança básica no Brasil, na economia brasileira, nas nossas instituições, no nosso sistema democrático e na nossa capacidade de enfrentar e vencer, como já fizemos tantas vezes no passado, os desafios da hora presente. Em particular, em dias como hoje - que é o último dia útil do mês -, que são dias de vencimento de opções, em que circulam como sempre, e agora, dadas as circunstâncias, com particular intensidade, rumores, boatos, insinuações, que constituem campo fértil para a ação de especuladores de toda a ordem, é preciso manter a capacidade de olhar adiante, olhar com confiança o futuro, sem negar os problemas que temos e teremos de enfrentar. O governo, quero reiterar, fará o que tiver de ser feito, em particular nas áreas de política fiscal e política monetária, para assegurar a estabilidade macroeconômica, o não-retorno do flagelo da inflação alta e crescente. Aqueles que estão observando o comportamento, em particular do mercado de câmbio, devem ter dado conta do flagrante exagero a que estão chegando as cotações, que não encontram base nos fundamentos reais da economia brasileira. Espero que aqueles que estejam comprando nas cotações de hoje tenham presente os risco de mercado a que estão sujeitos.

Eu mencionei que esses momentos, em particular hoje - último dia útil do mês -, constituem um campo fértil para boatos, rumores e insinuações. Eu gostaria de mencionar dois ou três deles para ilustrar a natureza dessa minha intervenção inicial. Há um em particular que eu gostaria de mencionar, que são os rumores e conversas, tanto no Brasil como no exterior, sobre estudos que estariam em andamento na surdina ou na calada da noite para analisar formas de reestruturação não-voluntária de nossa dívida interna. A esse respeito eu gostaria de dizer muito claramente o seguinte: não há qualquer hipótese de qualquer sugestão desse tipo receber o nosso apoio. Sempre pautamos nossas ações pelo respeito aos contratos, pelo cumprimento das obrigações, e assim continuaremos procedendo enquanto tivermos a responsabilidade da posição que ocupamos. É preciso entender também, e isso é mais importante, que esses tipos de medidas não são necessárias e são tampouco recomendáveis para o Brasil. Não são necessárias porque tomamos, com firme apoio do Congresso Nacional, as providências necessárias para equacionar o problema fiscal em 1999 e adiante, e assim continuaremos procedendo no futuro sempre que as circunstâncias exigirem uma ação firme do governo nesta ou em outras áreas. Nosso Programa de Estabilidade Fiscal, apresentado em outubro, foi desenhado para garantir que a relação dívida/PIB se estabilizasse num período de três anos, e isso será garantido de qualquer maneira com o esforço que se faça necessário.

Rupturas de compromissos financeiros, bloqueios de poupança e outras medidas sorrateiramente engendradas não interessam ao País; só trazem insegurança, elevam o custo de captação do governo e desorganizam a economia e a confiança no sistema econômico. Não existem circunstâncias que justifiquem tal tipo de violência contra direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros, ainda mais quando aventuras desse tipo trazem conseqüências que levariam anos para ser dissipadas, como aprendemos com a experiência recente da história deste País. Isso prova que esse tipo de ação nada resolve. O que resolve é enfrentar os problemas de frente, atacá-los pela raiz, é fazer como temos feito nos últimos quatro anos e que continuaremos a fazer nos anos seguintes, com uma visão que transcende o curto e enganoso período do último dia do mês, dos próximos dias, das próximas semanas ou dos próximos meses. Estamos olhando o futuro do Brasil com confiança ao longo dos próximos anos e temos confiança na nossa capacidade de superar e enfrentar os desafios do momento presente.

Não teremos, em definitivo, pacotes de finais de semana, feriados bancários, medidas pirotécnicas ou soluções mágicas. Teremos sim um trabalho sério, persistente, permanente, nas áreas de reorganização do setor público, consolidação fiscal, aumento da eficiência operacional de governos federal, estadual e municipal. Isso é algo que já está em andamento e este é o grande desafio que temos para enfrentar como sociedade.

Eu queria mencionar também esses problemas como reestruturação da dívida externa. Nós não o faremos, não é necessário tal coisa. O diretor Demósthenes Madureira do Pinho Neto apresentou aqui ontem, após a reunião do Conselho Monetário Nacional, o conjunto total das obrigações, amortizações e juros, tanto do setor privado quanto do setor público, para os próximos meses, e mostrou que elas estão perfeitamente dentro das nossas capacidades de pagamento. Portanto, não há qualquer necessidade de pensar em formas de reestruturação de dívida externa. O apoio internacional ao Brasil, expresso no início de novembro do ano passado, continua. Dos US$ 41,5 bilhões de utilização potencial desses recursos, nós sacamos apenas pouco mais de nove; eu tenho confiança de que esse apoio, esse compromisso está e estará mantido. Nós teremos nos próximos dias uma missão de alto nível do Fundo Monetário Internacional, que estará conosco revendo no que couber certos parâmetros do Programa, dada a mudança do regime fiscal, e com ela vamos discutir regras de intervenção no mercado de câmbio, que possam lidar com condições desordenadas de mercado do tipo que estamos observando hoje.

Tenho confiança na continuidade desse apoio do FMI, do Banco Mundial, do BID e dos 20 países que, através de seus respectivos banco centrais, prestaram apoio firme ao Brasil e ao seu futuro, na nossa capacidade de superar os desafios do momento presente.

Não tenhamos dúvidas de que, apesar desse apoio internacional, o nosso futuro está, como sempre esteve - como disse o presidente Fernando Henrique Cardoso em seu magnífico discurso do dia 23 de setembro do ano passado -, em nossas mãos. É uma avaliação totalmente equivocada a daqueles que acham que o Brasil é vítima de eventos externos fora de controle; na verdade, nós somos vítimas de nossa próprias ações, omissões e legados do passado e das ações que tomaremos no futuro. Eu quero lhes assegurar que o governo haverá de fazer a sua parte, através de políticas monetária, fiscal, regulatória, nas várias áreas em que atua, para assegurar o não-retorno da aceleração inflacionária, a continuidade da criação de condições para a retomada do crescimento sustentado da economia brasileira, que não são os próximos meses, mas são os próximos anos. Quero assegurar ainda que nós estaremos preocupados fundamentalmente com a redução de nossas vulnerabilidades, reais ou percebidas, que explicam parte da situação que atravessamos quando mudou o contexto internacional, depois da crise asiática e, em particular, da moratória russa e dos problemas do sistema financeiro internacional que se seguiram. Este é e continuará sendo o nosso grande objetivo e eu queria concluir aqui exatamente como comecei, dizendo que momentos como esse são momentos de manter a firmeza, a serenidade, o sangue frio e, principalmente, a firmeza de propósitos em adotar as medidas que se façam necessárias para preservar os ganhos que beneficiaram a esmagadora maioria da população brasileira nos últimos quatro anos com a estabilidade do poder de compra da moeda nacional, que é a estabilidade do poder aquisitivo do trabalhador brasileiro.

Eu queria chamar a atenção para um elemento que é expressão dessa confiança, que vem de fora: no mês de janeiro, apesar de todas essas turbulências, perplexidades associadas ao momento que estamos passando, o volume de investimento direto na economia brasileira, até o dia 26 de janeiro, havia alcançado mais de US$ 930 milhões. Isso são decisões que estão tomadas por pessoas que olham o futuro do Brasil com a confiança que eu também gostaria de expressar aqui. São decisões que estão sendo tomadas não olhando as cotações do dia ou as incertezas do dia, mas são decisões que estão sendo tomadas olhando anos à frente, pensando já no século 21. E é com os olhos postos nesse futuro, e com a expressão de confiança nesse futuro e na nossa capacidade de nos movermos na direção correta para materializar as enormes potencialidades da economia brasileira, que eu gostaria de concluir essa breve intervenção.

Muito obrigado a todos pela atenção.

 

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