Pronunciamentos

26/11/98

Transcrição da fala do ministro Pedro Malan na abertura da apresentação da nova proposta de reforma tributária na Câmara dos Deputados

Sem Revisão do Autor

Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara dos Deputados, deputado Michel Temer. Excelentíssimo Senhor Presidente da Comissão de Tributação, deputado Paulo Lustosa. Excelentíssimo deputado Inocêncio de Oliveira, líder do PFL. Excelentíssimo Senhor deputado Gerson Peres, líder do PMDB. Excelentíssimo relator Mussa Demes. Meu caro colega de trabalho, João Galhardo. Pedro Parente; demais parlamentares presentes, empresários, senhoras e senhores.

Um ano e dois meses atrás, se me lembro bem, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda esteve aqui nesta Casa, apresentando as linhas gerais daquilo que nós considerávamos – e foi um trabalho que na definição de seu eixo básico de preocupações contou com a participação fundamental do secretário da Receita Federal, doutor Everardo Maciel – as linhas básicas de uma proposta de reforma tributária e fiscal adequada ao país no século 21, como bem disse o presidente Michel Temer. Na verdade, nós estamos trabalhando desde então na elaboração e no aprofundamento dessa proposta em linha gerais. Devo dizer que, nesse trabalho, nós contamos com o decidido apoio do mundo empresarial brasileiro, que, desde o início, percebeu o enorme significado que tinha uma proposta voltada para a simplificação do nosso obsoleto sistema tributário, para a redução do seu grau excessivo de complexidade, de zonas cinzentas que favoreciam todo tipo de planejamento tributário, para não mencionar a sonegação, elisão e evasão fiscal, a falta de compatibilização de um tema que sempre me chamou a atenção – principalmente ao tratar e discutir perspectivas e potencial de investimento estrangeiro na economia brasileira – que era a falta de harmonização da nossa estrutura tributária com uma estrutura muito mais simples, muito mais fácil de entender e operar de países que, no resto do mundo, competem com o Brasil pela atração de investimentos diretos estrangeiros.

No que diz respeito, por exemplo, à nossa legislação do ICMS, é como se tivéssemos 27 legislações diferentes de ICMS, na medida que aquilo que começou há 30 anos, com o Brasil sendo um dos primeiros países em desenvolvimento do mundo a adotar um sistema de valor agregado, tributação sobre valor agregado, uma alíquota apenas, uma base de incidência da alíquota claramente definida, evoluiu ao longo desses trinta anos para 27 legislações de cada estado, alíquotas que variam entre 0 a 25%, diferentes bases de incidência do imposto, um complexo sistema de tributação intra e interestaduais que se presta a todo tipo de sonegação fiscal; de modo que nós tínhamos muito claro a necessidade imperiosa de redução do "Custo Brasil", redução do desfavorecimento da produção doméstica nacional comparada com condições de produção e tratamento tributário em outros países do mundo, que conosco competem em comércio e investimento direto, que imperativo é ou imperativo era que nós nos envolvêssemos nesse círculo de reformas da Constituição. E eu espero que esta reforma, quando aprovada pelo Congresso Nacional – é nossa expectativa que isso possa ter lugar ainda em 1999, para que esteja em vigor a partir de 1º de janeiro do ano 2000 –, encerre esse grande círculo das reformas constitucionais na área econômica, como foram a reforma da Previdência, a reforma da Administração Pública, a reforma da Ordem Econômica e outras que o Congresso, demonstrando uma enorme capacidade de atender aos anseios da nação, ao longo dos últimos quatro anos, vem discutindo e envolvendo-se no sentido de preparar o país para o século 21, que já está batendo às nossas portas.

Essa proposta, em linhas gerais, tal como apresentadas pelo secretário Pedro Parente, foi trabalhada inclusive com contribuições de institutos independentes. Nós contratamos o Instituto Fipe de São Paulo, Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo, o departamento de Economia da PUC do Rio de Janeiro, que fizeram suas assimilações na linha básica do modelo tal como proposto. Essas compatibilizações foram feitas com o modelo de simulação da Receita Federal e nós descobrimos, com satisfação, que havia uma grande convergência, em termos da viabilidade do sistema, das suas linhas gerais. Houve, lembrou bem aqui o deputado Paulo Lustosa, uma série muito expressiva, e para nós extremamente produtiva, de interações com o Presidente, o deputado Paulo Lustosa, com o relator, deputado Mussa Demes. O Pedro Parente teve contato com um número expressivo de parlamentares interessados na área tributária; tivemos inúmeras reuniões com representantes do mundo empresarial e, obviamente, dada a natureza do nosso regime federativo, Pedro Parente explicará em seguida a natureza fundamental para nós, desde o início, da interações com os Estados, isso através de secretários de Fazenda de Estados, dado que ficou muito claro desde o início que este processo só caminharia de maneira adequada se nós acertássemos ante um entendimento básico com os Estados e secretários de Fazenda sobre a estrutura, não só conceitual como operacional, do sistema proposto. É isto que nós estamos apresentando aqui hoje. É uma proposta que caminha na direção de atender a um pleito, eu diria que um anseio inúmeras vezes expressado nas discussões sobre essa questão, que é reduzir essa seqüência de impostos em cascata que houve na produção nacional e que tornam a produção nacional não-competitiva, como nós gostaríamos, com a produção localizada em outras partes do mundo. Na verdade, ela coloca a produção nacional em desvantagem competitiva por questões de natureza tributária.

Então a proposta que nós estamos apresentando hoje extingue o ICMS no seu formato atual, Pedro Parente vai explicar em detalhes o que está sendo proposto, e extingue também o IPI, o ISS no seu formato atual, a Cofins, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, o PIS, e os substitui por um novo tipo de imposto que é mais simples, de competência da União na definição da sua alíquota, sua base de cálculo, com uma mecânica operacional discutida largamente ao longo desse período. Eu acho que isso que está sendo encaminhado hoje ao presidente da Comissão, deputado Paulo Lustosa, e ao relator Mussa Demes – a entrega será feita após a exposição do secretário Pedro Parente – representa, eu diria, não a proposta fechada do governo, não é um encaminhamento oficial, formal e definitivo do governo, porque nós sabemos que em matéria tributária é absolutamente essencial o processo de discussão no âmbito do Congresso Nacional, como bem notou o presidente Michel Tamer. Ninguém, absolutamente ninguém, tem o monopólio da verdade ou o dom de ter a proposta absolutamente correta. Isso terá que inevitavelmente passar por uma discussão no âmbito do Congresso, mas dado o que nós já lançamos nas discussões prévias com o presidente Lustosa; com o relator, deputado Mussa Demes; com inúmeros parlamentares interessados na matéria, além com o setor privado e com governadores e secretários de Fazenda; nós estamos confiantes de que será possível caminhar com uma rapidez necessária para que nós tenhamos no Brasil, como disse o presidente Michel Tamer, um sistema tributário do qual nós possamos nos orgulhar, o que não é o caso do sistema atual; para que possamos ter um sistema tributário ao Brasil que almejamos viver, e nossos filhos e netos possam viver no século 21, que tenham um sistema tributário mais simples, mais eficiente, mais inteligível, mais favorável à atividade de produção doméstica e que conte com o apoio e o respaldo da sociedade nacional tão bem representada pelo Congresso.

É com este espírito de encaminhamento de uma proposta que nós nos colocamos à disposição da Comissão, quantas vezes seja necessário, para que tenhamos discussões adicionais sobre os temas, dúvidas, indagações que surjam dessa exposição preliminar fará em seguida o secretário Pedro Parente. O que eu gostaria de notar é que mais uma vez nós esperamos que a aprovação desta reforma constitucional na área tributária encerre o ciclo das grandes reformas constitucionais, nas quais nós nos empenhamos ao longo dos últimos anos, e que tem fundamentalmente como objetivo facilitar este processo de compatibilização de três objetivos absolutamente indissociáveis deste governo, que são a preservação da inflação sobre o controle, vale dizer a preservação do poder aquisitivo do salário do trabalhador brasileiro; o lançamento das bases para o crescimento sustentável da economia brasileira, numa perspectiva de médio e longo prazo – e não há possibilidade de crescimento sustentável a médio e longo prazo numa economia que não tenha um sistema tributário adequado e que não discrimine contra atividade produtiva, contra o produtor nacional em relação a produtores localizados em outros países. Essa por si só – não seriam necessárias as outras razões de simplificação, de equidade, de eficiência operacional, de simplificação da vida do contribuinte, do cidadão, do empresário brasileiro – já seria uma razão suficiente para que nós nos empenhemos com determinação, Executivo e Congresso Nacional, para realizar com uma brevidade possível a conclusão deste processo, com a aprovação da reforma constitucional, da reforma tributária conveniente para o País.

Ela não é uma proposta que nós façamos pensando no governo Fernando Henrique Cardoso; é uma proposta que nós fazemos pensando no Brasil, no seu futuro. E, mais uma vez, antes de eu passar a palavra ao secretário Pedro Parente, eu quero expressar aqui a minha confiança, apesar do inúmeros e inegáveis problemas que temos ou talvez exatamente por causa deles, porque nós não temos alternativa senão enfrentá-los com coragem, com determinação e com sentido de urgência que a situação demanda. E esta área – uma mudança definitiva e duradoura que prepare o Brasil e a sua economia para entrar com pé direito no século 21 – é um componente absolutamente indispensável neste processo de responder aos desafios que temos como economia e como sociedade. De modo que eu queria concluir, expressando a minha confiança de que mais uma vez o apoio do Congresso Nacional não nos faltará, não ao governo, não faltará ao País, ao encaminhar com uma velocidade possível, obviamente, com os cuidados necessários no trato de temas de tal complexidade, essa proposta que estamos hoje encaminhando ao presidente e ao relator para que aprofundemos essa discussão pelos próximos dias, semanas e meses.

Muito obrigado pela atenção.

 

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