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Pronunciamentos
29/10/98
Transcrição da fala
do ministro Pedro Malan durante a abertura da apresentação do Programa de
Estabilidade Fiscal no Senado Federal
Sem Revisão do Autor
Exmº Sr. presidente do Congresso
Nacional e do Senado Federal, senador Antônio Carlos Magalhães; Exmº Sr.
presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, senador Pedro Piva, que me
convidou para estar presente a uma discussão no Senado, tão logo assumiu a
Presidência da Comissão, há algum tempo; Exmº Sr. senador Romeu Tuma,
presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal; Exmº Sr.
senador Bernardo Cabral, presidente da Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania. Agradeço a oportunidade que me dão o presidente do Senado Federal e
os presidentes das três Comissões. Muito me honra a oportunidade de mais uma
vez me dirigir aos senhores senadores deste plenário de tão importante tradição
na vida política e institucional deste País.
Compareço a esta Casa movido pelo
espírito de servidor público, que deve necessariamente apresentar a esta Casa
e, por intermédio desta Casa, à sociedade, à opinião pública brasileira, as
razões que levaram o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso a
apresentar, ontem, ao Congresso e à Nação, o seu Programa de Estabilidade
Fiscal.
Eu queria chamar a atenção para o
fato de que esse programa não deveria ser considerado uma surpresa. Na verdade,
ele faz parte de um processo iniciado há tempos e retomado, com particular
empenho, a partir de meados de agosto, à luz das conseqüências internacionais
da moratória russa de 17 de agosto de 1998 - não quero entrar em detalhes
sobre o que levou à situação econômico-financeira e político-institucional
daquele país em relação à decisão que foi tomada. O fato é que a decisão
da Rússia teve um efeito que se sentiu em pouco mais de uma semana, em que os
prêmios de risco, os spreads, para papéis de todos os países
ditos em desenvolvimento no mundo, multiplicaram-se por quatro, cinco vezes, num
pânico que assaltou os mercados, na expectativa de que a experiência russa
pudesse ser replicada em várias outras economias do mundo.
Esse evento veio no bojo de uma
situação internacional que inspirava enormes cuidados, desde os sucessivos
problemas que tiveram vários países asiáticos, desde meados do ano passado,
como Tailândia, Indonésia, Malásia, Coréia, dificuldades em Hong Kong e uma
recessão na segunda maior economia do mundo, com problemas no sistema
financeiro ainda hoje não resolvidos.
O impacto dessa decisão, num
contexto internacional extremamente complexo, levou a uma situação de pânico,
de fechamento de mercados, contração de liquidez e restrição de créditos, o
que obrigou o mundo a reconsiderar e a repensar a situação. Esse fato obrigou
países, sem exceção, a procurarem uma forma, por meio de suas respostas domésticas
de política econômica, de responder à situação. Não há sentido um país
imaginar-se uma vítima passiva de eventos externos fora do seu controle,
incapacitado de responder. Nosso futuro como país depende de nós, como sempre
dependeu, e de nossa capacidade como país de responder a turbulências e
eventos externos. Já o fizemos no passado e o faremos de novo com confiança na
nossa capacidade de responder e enfrentar com sucesso a turbulência recente que
estará conosco por algum tempo ainda.
Na verdade, a resposta do Governo
começou desde o início de setembro, quando o Presidente Fernando Henrique
Cardoso, primeiro, editou um decreto que tratava de decisões na área fiscal
para o restante do ano de 1998, anunciadas em 08 de setembro. Nessa mesma data,
o presidente, por intermédio de uma medida provisória, determinou que a equipe
econômica preparasse um programa para o triênio 1999/2000/2001 e que o
apresentasse no máximo até 15 de novembro, para discussão no Congresso e
perante a sociedade. Isso foi feito claramente no dia 08 de setembro. Estava
expresso nessa data qual era o objetivo quantitativo desse programa, que era a
geração de superávits primários no setor público consolidado, e não superávits
primários apenas para que fossem primários e crescentes, como aqui foi dito;
mas que fossem os superávits primários requeridos para estabilizar e dar início
a um declínio a relação dívida líquida total do setor público como proporção
do Produto Interno Bruto da economia brasileira. Isso nos foi determinado no dia
08 de setembro, por intermédio de uma medida provisória publicada naquela
data, e vimos trabalhando nisso desde então.
No seu discurso de 23 de setembro,
dez dias antes das eleições, o Presidente determinou que esse trabalho fosse
acelerado e que lhe fosse encaminhado muito antes da data originalmente prevista.
Reafirmou a importância de que fosse mais firme e forte na transição do
primeiro para o segundo ano - de 1998 para 1999.
É isso o que foi apresentado ontem
com um grande e importante componente que eu gostaria de ressaltar ao apresentar
o programa. Pode e, a nosso ver, deve ser visto necessariamente como sendo
constituído por dois grandes blocos. Há um bloco a que atribuímos uma
fundamental importância e representa, a nosso ver, um passo decisivo na
consolidação de um processo de mudança do regime fiscal brasileiro, de mudança
na estrutura institucional, processos de elaboração e execução orçamentária,
introdução da idéia de restrição orçamentária nos três níveis de
Governo, o centro mesmo do debate político e econômico no Brasil e há o
componente que chamamos de estrutural institucional de mudança do regime
fiscal, ao qual atribuímos uma enorme importância. Na verdade, é o avanço
que sejamos capazes de fazer nessa área estrutural institucional que reduzirá
o tempo necessário a certos tipos de ajustes, de aumentos de impostos e cortes
de gastos que têm lugar no Plano de Ação 1999/2001, sobre o qual farei algum
comentário.
O que é, exatamente, essa parte
estrutural, sob uma visão de médio e longo prazo do programa de estabilidade
fiscal? Vou lhes dar um exemplo, para que tenham uma idéia do que temos em
mente.
Estamos encaminhando - quero crer
que tenham já sido encaminhados ou o serão ainda hoje - ao Congresso Nacional
áreas de regulamentação da reforma constitucional da administração pública
já aprovada pelo Congresso Nacional. Estaremos encaminhando, no bojo dessa
regulamentação, leis que dizem respeito, por exemplo, à instituição dos
limites aplicáveis à folha total de pagamentos na receita total do Governo
Federal, Estados e Municípios, uma explicitação dos novos termos da chamada
Lei Camata. Estamos tratando, também, no contexto dessas regulamentações, dos
problemas delicados de excesso de quadros, insuficiência de desempenho de
servidores públicos, bem como adotando uma proposta de adoção de um regime
especial do serviço público. Tão importante quanto, ou mais importante - e aí
é outra determinação do Congresso a que estamos dando cumprimento e que
consideramos parte integrante do programa de estabilização fiscal -, é a
existência de uma lei de responsabilidade fiscal. Na verdade, é algo que está
previsto na Constituição Federal, em seu art. 163, que determinou que essa lei
fosse apresentada e, no bojo da emenda constitucional da reforma da administração
pública, o Congresso determinou que ela fosse encaminhada ao Congresso até 04
de dezembro. Ela o será antes disso e atribuímos uma enorme importância a
essa lei de responsabilidade fiscal.
Serão estabelecidos parâmetros
aplicados aos três níveis de Governo, o que é importantíssimo, na medida que,
hoje, inexiste uma lei geral de finanças públicas que discipline, de
modo efetivo, e dê maior transparência às decisões de gastos e endividamento
do setor público. Achamos que isso deve ser feito em bases permanentes. É uma
lei que será debatida no Congresso, mas a que atribuímos fundamental importância.
Estaremos apresentando, também -
creio que hoje deverá ser encaminhada ao Congresso -, a Lei Geral da Previdência
Pública, que preenche uma lacuna, atualmente existente, em termos da inexistência
de normas que regulamentam as instituições e o funcionamento dos regimes de
fundos previdenciários das três esferas de Governo.
Estaremos encaminhando, antes do
final de novembro, a proposta de reforma tributária do Governo, onde, na linha
do que foi explicitado e vem sendo amplamente debatido há quase um ano com a
sociedade, há proposta de criação do Imposto sobre o Valor Agregado, cuja
competência de normatização é da esfera da União.
Estaremos encaminhando proposta de
reestruturação de gastos federais e uma proposta de alteração da maneira
pela qual elaboramos e executamos orçamentos. A partir do ano que vem, isso será
expresso na Lei de Diretrizes Orçamentárias que deve ser encaminhada a esta
Casa até abril de 1999, onde vamos propor alterações profundas no sistema de
elaboração e execução orçamentária.
Obviamente, é parte integrante, por
razões que vou procurar deixar claras a seguir, a conclusão dos três
destaques para votação em separado que faltam da reforma da Previdência.
Espero que sua votação possa ter início a partir da próxima semana, porque
ela é essencial para que possamos regulamentar - e o faremos com grande
presteza - a reforma da Previdência, uma vez que a emenda constitucional esteja
aprovada pelo Congresso.
Esse conjunto de questões está
descrito em um texto, chamado Programa de Estabilidade Fiscal, que será
distribuído. Eu pensava que já o tinha sido e peço perdão. A descrição
dessa parte estrutural e institucional do Programa de Estabilidade Fiscal é
parte integrante desse programa e está detalhada no documento. Na verdade, há
um documento amplo, com cerca de sessenta páginas, que detalha isso, e há um
outro - que, lamento profundamente, eu pensava que havia sido distribuído -,
com cerca de trinta páginas, que o sintetiza e onde constam as questões
fundamentais. Essa é a parte estrutural.
Há uma parte de diagnóstico, sobre
a qual não gostaria de me estender, mas que para nós é central e essencial,
na medida em que mostra como evoluiu a situação das finanças públicas no
Brasil, no período 1991/1998. Isso está expresso na tabela 1 do documento.
Como V. Exas. não a têm diante de si, permitam-me chamar a atenção para os
dois pontos que eu acho fundamentais, inclusive para o debate que se seguirá.
Essa é uma tabela que mostra a
necessidade de financiamento do setor público (1991/1998), na abrangência com
a qual nós a publicamos e a tornamos disponível para os públicos interno e
externo. Queria chamar a atenção para algo importante - para nós, em
particular - em discussões internacionais, e o apoio do Senado nessa questão
é de fundamental importância, que é o seguinte: à diferença de muitos
outros países, desenvolvidos e em desenvolvimento, as nossas estatísticas de déficit
no setor público têm um grau de abrangência que é raramente encontrado. Digo
isso no sentido de que elas incluem o Tesouro Nacional, o Banco Central, a
Previdência - INSS e Previdência Pública -, os Estados e Municípios e todas
as empresas públicas federais, estaduais e municipais. Além disso, nesse nosso
conceito, publicamos também pelo conceito de financiamento, quer dizer, as
diferenças entre o estoque de dívida no início do período e no final do período.
Estamos com uma política deliberada de transparência no debate democrático
desde o início do governo Fernando Henrique Cardoso, reconhecendo esqueletos,
quer dizer, obrigações do setor público previamente escondidas ou não
explicitadas como tal nas estatísticas de déficit público brasileiro. E ao
incluir na dívida obrigações que não estavam antes, aquilo aparece como um
aumento da dívida do setor público, o que não é derivado de um excesso
realizado naquele período, mas de um reconhecimento de uma obrigação antes
escondida.
É por essa razão que, com freqüência,
somos, de uma maneira indevida, quero sublinhar - indevida -, comparados, por
quem olha apenas o resultado final, com outros países que publicam estatísticas
de déficit público sem o mesmo grau de abrangência que o Brasil, referindo-se
só ao Governo Central, excluindo Banco Central, outras entidades da federação
e empresas públicas. E eu gostaria de chamar a atenção para isso, porque,
freqüentemente, por aqueles que não sabem e não entendem, o Brasil é
injustamente apenado, principalmente em análises apressadas do tipo que,
infelizmente, ainda temos entre nós.
Mas nessa tabela, além de chamar a
atenção pela sua abrangência, o ponto importante que gostaria de enfatizar é
que ela cobre os períodos pré-Real e pós-Real, e os senhores verão,
principalmente olhando os resultados primários - que são despesas e receitas não
financeiras -, que, aparentemente, no período pré-Real o Brasil gerava superávits
primários no setor público consolidado e que se tornou muito mais difícil fazê-lo
após o lançamento do Real. Isso, de novo, em certas análises apressadas,
parece como se fôssemos uns exemplos de disciplina fiscal até 1994 e tivéssemos
deixado de sê-lo a partir de 1994. Isso é um equívoco, no seguinte sentido: o
que permitia essa geração de superávits primários antes do lançamento do
Real, onde tínhamos uma inflação, na média anual, entre 1988 e 1993, de
1000% ao ano - 2.700% ao ano em 1993 -, era inflação.
Na verdade, no Tesouro Nacional,
controle na boca do caixa significava que o adiamento da liberação de um
recurso por trinta dias o fazia ser comido, em termos reais, pela inflação, em
20, 30 ou 40%, dependendo da inflação do mês. Portanto não era difícil,
através do simples controle da boca do caixa, contar com o efeito
perverso e paradoxal da inflação, mandando a conta para os pobres, através do
imposto inflacionário, e aparentemente estar "equacionando" o
desequilíbrio fiscal, que já estava lá, dessa maneira usando o mecanismo da
inflação. Quando a inflação começa a declinar e chega a níveis civilizados,
esse mecanismo não é mais possível de ser utilizado e a natureza do desequilíbrio
fiscal, que sempre lá esteve, começa a aparecer e temos que começar a enfrentá-lo.
Então, essa seção apresenta um diagnóstico da situação do déficit
brasileiro. Não quero me estender a esse respeito, mas quero chamar a atenção
para o fato de que esse déficit tem esses componentes. A tabela II, que não
sei se foi distribuída, mostra que os principais itens - refiro-me ao
Governo Central - são os referentes a Pessoal e Encargos e a Benefícios
Previdenciários, que somarão US$ 101 bilhões neste ano de 1998; às vinculações
a Estados e Municípios e outras, que representam 23% da despesa total. Na
Tabela II, está descrito o seguinte: Pessoal e Encargos têm uma participação
de 26% na despesa; Benefícios Previdenciários, 30%; e outras despesa de
capital, que é o custeio da máquina e o investimento do Governo, representam
21 % do total de participação na despesa.
Portanto, quanto a qualquer trabalho
de controle de gasto público no âmbito do Governo Central, dever-se-ia, em
princípio, pensar sobre o que é possível fazer nesses quatro grandes blocos.
Como é sabido, há claras limitações legais, constitucionais; há rigidezes
que tornam difícil lidar com os itens referentes a pessoal e encargos, a benefícios
previdenciários e às transferências constitucionais. Essa é a razão pela
qual, com freqüência, na medida em que os outros três blocos são
considerados incomprimíveis e rígidos e impossíveis, no atual contexto legal,
de serem afetados, o ônus excessivo do ajuste acaba recaindo sobre os gastos de
custeio e investimento do Governo, sobre a quantidade e a qualidade dos serviços
públicos que o Governo ou os governos oferecem à população como
contrapartida dos impostos que são pagos.
No que diz respeito a Estados e a
Municípios, eu gostaria de chamar a atenção para o seguinte aspecto: este é
um gráfico - não sei se ele foi distribuído -que mostra a participação
de Estados e Municípios, por meio do FPM e do FPE, do final dos anos 60 até o
ano de 1998. V. Exas. verão que, no final dos anos 60, essa participação era
de 5% a 10% do total do Imposto de Renda e do IPI e que, hoje, chega a 44%. A
implicação está num gráfico que também deve estar disponível e que mostra
a elevação do FPM e do FPE desde 1985 até o presente ano, indicando um
crescimento expressivo, em termos reais, tanto de um quanto de outro.
O grande problema, contudo, para o
qual gostaria de lhes chamar a atenção nesta discussão sobre contribuição
para o déficit, está descrito na Tabela 3 do texto, que espero tenha sido
distribuído, à pág. 7, que mostra o Resultado dos Sistemas de Previdência -
INSS e RJU. Gostaria de começar pela linha do INSS, novamente chamando a atenção
para o fato de que nada do que estamos fazendo aqui afetará os 18 milhões de
trabalhadores do Regime Geral do INSS.
Observando a coluna de 1988,
constatamos que, neste ano, os benefícios previdenciários a serem pagos somam
R$53,7 bilhões e que a arrecadação líquida totaliza R$45,9 bilhões, com um
déficit, portanto, de R$7,8 bilhões. Enfatizo a sua evolução desde 1995, ano
em que havia uma posição de equilíbrio e déficits crescentes. Não haverá
mais a continuidade a partir de 1999, quando o déficit previsto será de R$10,8
bilhões, mas posso lhes assegurar que, se nada for feito, esses déficits serão
crescentes ao longo do tempo, devido ao diferencial entre contribuições e
benefícios previdenciários.
Não é aqui, contudo, que residem
as grandes distorções, nem, tampouco, as grandes iniqüidades, abusos e privilégios,
porque há um limite. Um pouco mais de R$1 mil é o teto máximo de pagamento de
benefícios do INSS, e o benefício médio é inferior a dois salários mínimos.
O problema, para falar com franqueza,
está na Previdência dos servidores públicos, e aqui demonstramos os dados
para a União, os Estados e os Municípios.
Permito-me chamar a atenção para
os dados referentes à União, explicitados na coluna de 1998. Neste ano,
pagaremos R$20,9 bilhões de despesas com inativos e pensionistas, e a contribuição
dos servidores será de R$2,6 bilhões. Há um déficit, portanto, de R$18,3
bilhões em 1998, valor este que deverá passar para R$22,1 bilhões em 1999, e
assim por diante, exponencialmente, se nada for feito.
Nos Estados, a situação não é
dramaticamente diferente. As despesas somam R$17,2 bilhões; as contribuições,
R$3,6 bilhões; e o déficit, R$13,5 bilhões. Nos municípios, o déficit é de
R$10,5 bilhões.
O déficit das três esferas de
Governo, que está especificado na linha 2, é de R$ 34,4 bilhões. Se o
somarmos com o déficit do Regime Geral do INSS, que está descrito na última
linha, em 1998, o déficit terá sido de R$ 42,2 bilhões. Esse valor representa
mais do dobro do que o Governo gasta com a Saúde e é equivalente ao total do
orçamento de custeio e investimento do Governo Federal. Vejam que isso é
crescente. No próximo ano, esse déficit será de R$ 49,6 bilhões, e assim por
diante, se nada for feito; algo deverá ser feito. São contas em aberto,
mandadas para o conjunto da sociedade. Na verdade, estamos falando de um
universo que, em termos da sua participação no conjunto da população
brasileira, é reduzido.
Mencionei os 18 milhões de
trabalhadores do INSS. Na União, há um pouco mais de 900 mil trabalhadores;
nos Estados, 1,3 milhão. Quanto aos Municípios, não temos os dados certos,
mas, de qualquer maneira, o universo da Previdência de servidores públicos é
estimado em menos de três milhões de pessoas.
A questão que se coloca é econômico-financeira
e também política e demandará debates nesta Casa e na Câmara. Quanto a essa
conta em aberto que, hoje, é mandada para o conjunto da sociedade - esse
diferencial vem de recursos do Tesouro que não são do Tesouro, mas sim da
sociedade, obtidos por meio de impostos -, a questão que se coloca é se vamos
mandá-la para 163 milhões de habitantes ou se vamos buscar uma forma de fazer
com que o universo de três milhões de pessoas que participam desse sistema
deve dar sua contribuição para o equacionamento da sua situação, levando-se
em conta os benefícios que dele deriva, que, em muitos casos, como é sabido, não
são de pequena monta.
Essa é uma questão extremamente
importante na discussão, dado o peso e o desequilíbrio crescente da questão
da Previdência em qualquer equacionamento do problema, o qual depende de ações
estruturais. Como eu disse, a ação mais importante, neste momento, é a votação
da reforma da Previdência. Mas há todo esse processo de legislação, que é
parte integrante do Programa de Estabilização Fiscal e que está sendo
encaminhado ao Congresso a partir de hoje.
Esse é o grande tema que é
discutido não só aqui, mas em vários países do mundo. A crise fiscal do
Estado brasileiro é, em larga medida, na sua dimensão estrutural, derivada da
crise não resolvida da Previdência. E essa é a razão pela qual damos tanta
ênfase a essa questão.
Eu não queria me estender em
demasia. No texto, está tudo explicado, inclusive tudo aquilo que fizemos, que
não foi pouca coisa, ao longo dos últimos quatro anos, em termos de mudanças
estruturais nessa área de reorganização do Estado, modernização e reconstrução
institucional do setor público brasileiro, que deverá ter continuidade.
Gostaria de me reportar ao Item 4,
que trata do Plano de Ação 1999/2001. Refiro-me à Tabela 4 da pág. 27. Volto
a dizer que isto nada mais é que o resultado de uma determinação que
recebemos do Presidente Fernando Henrique Cardoso no início de setembro, que
foi a de estimar, com o maior cuidado possível, a magnitude dos superávits
primários do setor público consolidado - por isso, esta tabela faz referência
a Governo Central, Estados e Municípios e empresas estatais -, para que se
permitisse estabilizar a relação dívida/PIB e dar início ao seu processo de
declínio.
Quanto à Tabela 4, a nossa
estimativa é a de que esse superávit primário requerido no ano de 1999
envolve, como percentagem do PIB, cerca de 2,6% deste, distribuídos entre 1,8%
para o Governo Central; 0,4% para Estados e Municípios; e 0,4% para empresas
estatais. Essa é a distribuição para os anos de 2000 e de 2001.
Antes de falar sobre o Governo
Central, sobre o qual fizemos uma apresentação ontem, no que diz respeito a
Estados e Municípios, há uma pergunta que é feita com freqüência: como
podemos ter a garantia de que é possível alcançar um superávit primário de
0,4% do PIB em 1999? A resposta é a seguinte: esse superávit primário já está
contemplado, de maneira conservadora, nos contratos que assinamos com 24 dos 26
Governos brasileiros. Só não assinamos contratos com os Estados do Amapá e do
Tocantins. Com o Governo do Distrito Federal, um protocolo está sendo cumprido
pelo Governador Cristovam Buarque. Nos outros 24 Estados, há contratos firmados
não em nome pessoal; não foi o nome pessoa física do Ministro da Fazenda e
nem o nome pessoa física dos Governadores que firmaram esses contratos, mas sim
foi a União, por intermédio da pessoa que, no momento, ocupa o cargo de
Ministro da Fazenda, e os Estados, representados por seus Governadores
Foi a União, através da pessoa que
no momento ocupa o cargo no Ministério da Fazenda, e foram os Estados,
representados pelos seus Governadores, Secretários de Fazenda, que firmaram um
contrato com a União e que, portanto, tem implicações para os Estados
qualquer que tenha sido a alteração resultante do processo eleitoral. É assim
em qualquer lugar. Os Estados assumem obrigações não em nome pessoal de um
Presidente, ou de um Governador, ou de um Primeiro Ministro, mas assumem
responsabilidades em função do cargo que ocupavam quando firmaram o documento
e a expectativa é que contratos sejam cumpridos. Na medida em que o sejam, pelo
menos, a estimativa conservadora é de 0,4% - meio em 2.000 e em 2001 estariam
assegurados e com sobras. Empresas estatais representam, no caso das federais, a
nossa melhor estimativa, também conservadora.
Chamo a atenção para a Tabela 5,
que diz respeito apenas ao Governo Central. E aqui ela deve ser comparada com a
Tabela 4 no seguinte sentido: na linha 1, temos o que seria o resultado primário
do Governo Central antes de qualquer medida de ajuste. Quer dizer, antes mesmo
das medidas de ajuste que tomamos em setembro. Teríamos um déficit de R$11,6
milhões menos 1,28% do PIB. Primeira linha, primeira coluna da Tabela 5.
O superávit primário requerido
para atingirmos a meta que nos estabelecemos - estabilizar a relação dívida-PIB
- é de 1,8% do PIB, conforme a tabela anterior. De modo que o esforço fiscal
necessário é para passar de um déficit, que teríamos se nada fizéssemos, de
R$11,6 bilhões, portanto, um valor negativo, para um superávit de 16. E o
esforço fiscal, portanto, é o necessário para passar de menos 11,6 para mais
16,3, que é um esforço de R$ 28 bilhões em 1999. Aqui está mostrada a sua
distribuição.
Nas medidas de natureza estrutural
estimamos R$3,5bilhões; nas reduções de gastos R$8,6bilhões; nas medidas de
redução do déficit previdenciário, em 1999, R$2,5 bilhões; elevação de
receitas R$13,2 bilhões. Isso nos permite alcançar o objetivo.
Aqueles que dizem que o peso de
aumento de receita, sobre o qual falarei um pouquinho, é excessivo nesse
contexto, devo notar que, dos 28, quinze vêm de medidas de natureza estrutural,
redução de gastos e redução do déficit previdenciário, e 13 de elevação
de receitas. Mas, se olharmos a coluna do ano 2000, por exemplo, veremos que do
esforço fiscal de 33 apenas um terço é derivado de elevação de receitas,
enquanto dois terços vêm do efeito das medidas de natureza estrutural, redução
de gastos, que mantêm-se no mesmo nível, e redução do déficit previdenciário.
No ano 2000, do esforço de gastos, muito menos de um terço vem de elevação
de receitas.
O ponto é que quanto mais
rapidamente pudermos caminhar no avanço das medidas de natureza estrutural e
redução do déficit previdenciário, que é um problema estrutural também,
mais transitórios e temporários podem ser o aumento de impostos e a redução
de gastos.
Essa é a razão pela qual
apresentamos o Programa de Estabilidade Fiscal como tendo um componente
estrutural, que é fundamental para o médio e longo prazo. Na medida em que
consigamos avançar nele, dependeremos menos de aumento de impostos e redução
de gastos. Mais importante é que, na medida em que avancemos no programa, na
sua dimensão estrutural, de maneira convincente, crível, podemos acelerar o
processo de declínio das taxas domésticas de juros, que é um componente
essencial dessa discussão.
Já que mencionei juros, de passagem,
alguém pode estranhar que estejamos tratando aqui do resultado primário quando
a Tabela 1 indica que os juros representam um componente importante do déficit
nominal consolidado do setor público. A razão é a seguinte: os juros elevados,
em larga medida, são decorrentes de uma percepção de que temos um problema
estrutural nas contas públicas deste país não resolvido ainda, sendo o mais
visível a olho nu a questão previdenciária, e na medida em que o Governo ou
os governos gastam mais do que arrecadam e precisam voluntariamente comparecer
ao mercado para endividar-se para cobrir a diferença, e o vem fazendo há
muitos anos, representa uma pressão altista sobre taxas domésticas de juros.
Portanto, é ingênuo imaginar que,
na ausência de uma correção determinada de problemas de desequilíbrio
estrutural que temos nas nossas contas públicas, podemos esquecê-los,
desconsiderar, fingir que não existem e achar que simplesmente todo o problema
brasileiro estará resolvido se fizermos uma redução drástica da taxa de
juros, para baixo, e - como dizem alguns - um aumento drástico ou redução drástica,
como queiram, da desvalorização cambial. Essa é uma visão ingênua do
processo estrutural da economia brasileira e se fosse assim não haveria
problema econômico em nenhum país do mundo, bastaria uma canetada de um
Ministro, de um Presidente do Banco Central ou de um Presidente da República
declarando, através de uma canetada presidencial ou de um despacho vice-presidencial
ou de uma circular do Banco Central, que o câmbio sofreria uma maxidesvalorização
naquele dia, ou que os juros baixariam por decreto naquele dia, e nenhuma
economia do mundo teria problemas na sua estrutura, no seu funcionamento.
Temos um problema grave, sério,
estrutural nas contas públicas deste País; temos que introduzir a idéia e o
conceito de restrição orçamentária no centro da discussão, como é feito em
qualquer país que tenha uma história de estabilidade em que a população sabe
que aumentos de gastos justificáveis, desejados, onde quer que sejam, dependem
de aumento de impostos e contribuições, ou de aumento de endividamento, ou -
no caso de uma economia propensa à inflação como fomos durante décadas - do
rodar da maquininha e de trazer o imposto inflacionário, que é uma maneira de
mandar a conta para os pobres.
Gostaria de concluir chamando a atenção
apenas para as medidas que estão sendo propostas no plano de ação 1999/2001.
No que diz respeito à redução de
gastos, são R$8,6 bilhões indicados desde 08 de setembro na medida provisória,
pela qual foi dito que o Presidente havia decidido bloquear cerca de 20% do Orçamento
de custeio e investimento projetado para 1999. Estamos apenas dando efetividade
a esse bloqueio preanunciado em 08 de setembro, nessa ocasião.
A razão da redução do déficit
previdenciário já a mencionei anteriormente: trata-se de uma decisão difícil
- devo dizer -, especialmente para um servidor público, mas é necessário
reconhecer que há um desequilíbrio grave e crescente, uma conta que mandávamos
para a sociedade e estamos pedindo uma contribuição - que é temporária, é
passageira, são 05 anos - dos próprios servidores para reduzir a dimensão de
um déficit crescente, cuja conta é mandada, hoje, em aberto para o conjunto da
sociedade.
Sobre a elevação de receitas,
falarei rapidamente. Estamos fazendo três coisas: uma delas é a incorporação
de depósitos judiciais à receita tributária corrente. É uma medida
importante e que está sendo adotada. Quero crer que tenha sido já publicada
hoje no Diário Oficial.
No que diz respeito ao Cofins,
estamos equalizando a sua alíquota, além de estarmos dando 1% adicional. Esse
1 % adicional pode ser compensado no imposto de renda de pessoa jurídica.
No que se refere à CPMF, estamos
propondo um adicional de 0,10% e, para o ano de 1999 - e apenas para o ano de
1999 -, um adicional de 0,08%, que deixa de existir a partir do ano 2000.
Não quero me estender, pois tenho a
certeza de que terei a oportunidade de fazê-lo durante as perguntas sobre o
porquê dessas escolhas, suas implicações, as distorções que acarretam.
Prefiro, cumprindo a determinação do Presidente desta Casa, encerrar, apenas
dizendo que, se há alguma conclusão a ser extraída, o fato é que vivemos em
um mundo muito mais incerto e perigoso do que vivíamos há pouco tempo, e uma
das conclusões fundamentais do encontro anual, que teve lugar no Fundo Monetário
Internacional e no Banco Mundial, no início de setembro, pela primeira vez, foi
o reconhecimento dos países do G-7 e do G-10 de que vivemos uma crise do
sistema financeiro internacional e não o problema de alguns países emergentes
isolados; a segunda, é a necessidade de uma ação concertada e coordenada, que
está tendo lugar, no momento, para fazer com que se crie a figura de um
emprestador de última instância, que possa atuar de maneira preventiva,
precaucionária e contingente no contexto atual.
Para nós, a conclusão é a
seguinte: vínhamos numa estratégia, digamos assim, gradualista, sabendo e
conhecendo a complexidade e as dificuldades de lidar com esses problemas nas
contas públicas do País. 0 fato é que o mundo mudou, não para melhor, para
pior ou para ficar numa situação pior do que estava, seguramente, portanto,
nosso tempo e nosso espaço encurtaram; a estratégia gradualista precisa se
tornar menos gradualista; temos que acelerar esse processo de demonstração
para nós mesmos. Digo sempre para nós mesmos porque jamais seremos capazes de
mostrar para ninguém de fora se não formos capazes de mostrar para nós mesmos
que temos, sim, capacidade e condições de equacionar nossos próprios
problemas, com a nossa própria capacidade e demonstrá-lo na prática.
Portanto, o desafio está posto; a
situação atual é insustentável em sua dimensão fiscal. E, ou bem o Brasil
corrige de maneira definitiva o seu desequilíbrio nas contas e avança no
caminho da estabilidade e do desenvolvimento, ou estaremos permanentemente lançados
nesse azar da conjuntura, correndo risco de perdermos as conquistas que fizemos,
como País, arduamente, ao longo dos últimos anos.
Queria agradecer a atenção,
expressando confiança no Brasil e no seu futuro. Estou, assim como o Presidente
do Banco Central, à disposição dos Srs. Senadores para tentar responder às
suas perguntas.
Muito obrigado a todos.
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