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Pronunciamentos
10/10/98
Transcrição da fala
do Ministro Pedro Malan à imprensa, em entrevista na Embaixada Brasileira em
Washington
Sem revisão do autor
Eu gostaria de estruturar essa
apresentação introdutória em duas partes. Na primeira, eu quero mencionar
como nós vemos, ou como eu vejo, o significado dessas conversas que tiveram
lugar aqui em Washington ao longo dessa última semana pelo menos, e, quando eu
falo conversas que tiveram lugar em Washington nessa última semana, eu quero
dizer a parte internacional que vai cobrir todas as regiões do G-24, do Comitê
interino, do Comitê de Desenvolvimento, do Grupo dos 22, que é o G-7 ampliado,
das reuniões dos governadores, e dezenas de contatos com o mundo privado e o
mundo oficial e representantes dos governos de outros países desenvolvidos e em
desenvolvimento. É isso que eu chamo de confronto de conversas e reuniões
formais e informais que tivemos ao longo dos últimos sete ou oito dias em
Washington.
Estou seguro que aqueles que vêm com exacerbadas
expectativas em tal tipo de reunião como essa, na expectativa de que grandes
decisões sejam tomadas e anunciadas, e que mudem o mundo no dia seguinte ao término
da reunião, talvez se tenham desencantado um pouco com os resultados obtidos,
em termos de seu grau de especificidade. Para quem acompanha esse tipo de reuniões,
no meu caso há 14 anos, eu acho que não tem sentido exacerbação de
expectativa. É importante ter as antenas ligadas para perceber a mudança
qualitativa que ocorre - e por dentro ela ocorre e significa continuidade de um
processo de mudança.
Há duas para as quais eu gostaria de chamar a
atenção dos presentes, que ao meu juízo representam um avanço do ponto de
vista qualitativo e preciso que foi obtido nas conversas que tiveram lugar ao
longo desta semana. A primeira delas é que pela primeira vez quero dizer houve
uma clara interseção, um grau de convergência extremamente acentuado sobre o
fato de estarmos lidando com um problema específico de dimensão global, e não
mais como era a tradição, até muito recentemente, das discussões estarem
voltadas para a maneira como a qual o país A, o país B ou o país C conduz a
sua política econômica doméstica; e uma percepção das restrições
multilaterais como sendo uma seqüência de relações bilaterais com o país A,
o país B ou o país C. Eu acho que a mudança expressiva, e em particular em
relação a, por exemplo, Hong Kong, na reunião do ano passado, quando, um
tanto quanto na contramão, parte dessas instituições multilaterais estavam
advogando a total conversibilidade das transações na conta de capital, a total
liberdade de fluxo internacional de capital de curto prazo, algo que levou à
oposição de alguns países, dentre os quais de forma expressiva o Brasil,
expressando sua discordância com aquela proposta, naquele momento, à luz das
transformações mais amplas por que passava e que vinha passando o sistema
financeiro internacional e que vem se tornando cada vez mais óbvio; e que
levaram a essa mudança expressiva. Hoje, quem acompanhou os mercados pela manhã,
por exemplo, viu que o iene está cotado a 111 em relação ao dólar, quando três
meses atrás foi necessária uma intervenção conjunta dos bancos centrais para
evitar que eles chegassem a 150, e levassem a inquietações na China sobre a
preservação da relação da moeda com o dólar; o fato de uma taxa de câmbio
se aproximar há três meses de 150, chegar hoje pela manhã a 111 e a 134 ontem
é um sinal de algo que merece mais cuidado, mais atenção. Assim como também
a percepção que existe hoje da seqüência de crises: a mexicana, de 94 e 95;
em seqüência no ano passado Tailândia, Indonésia, Coréia, e Rússia este
ano, de que são crises localizadas em países específicos e deveriam ser
tratadas através de um programa voltado para aquela economia especificamente.
Isso mudou, eu acho que mudou no sentido de que é uma percepção de que o
problema não é mais de mercados emergentes, de países em desenvolvimento. Se
alguém tinha alguma dúvida a esse respeito, a virtual quebra do
"long...capital management ", que tinha um grau de exposição alguns
de cerca de 40, 50, 60 vezes maior do que a sua base de capital; um grau de
exposição desconhecido, inclusive dos especialistas de mercado; não é hoje
por problemas nessa área, e isso mostrou que nós estamos lidando com uma questão
de outra dimensão. Portanto, para resumir, eu diria que um avanço importante
nesse tipo de reunião estará definitivamente enraizado em qualquer reunião
futura que nós tenhamos nesses fóruns regulares do comitê interino de
desenvolvimento em abril e setembro de cada ano. E as várias reuniões
intermediárias que terão lugar, a própria constituição do G-7 ampliado, são
uma clara indicação de que nós estamos lidando com um problema que transcende
muito dos problemas das economias emergentes ou de países A, B ou C, que se
viram transitoriamente em dificuldades e basta uma relação bilateral com ele
para que a questão seja equacionada.
Essa é a primeira coisa que eu gostaria de
chamar a atenção: pela primeira vez, dessa reunião, sai um grau de convergência
de que nós estamos lidando com algo que exige uma mudança na maneira pela qual
se estrutura hoje o sistema financeiro internacional, em particular uma preocupação
oposta àquela que caracterizou há um ano a reunião de Hong Kong, que era um
preocupação com volatilidade e enorme transferência de recursos em velocidade
tempo real, que hoje o sistema propicia, e com um controle diante das
autoridades reguladoras e de fiscalização bancária dos países
industrializados que deixam muito a desejar; enquanto o Brasil vem insistindo
nessas reuniões já há alguns anos sobre a necessidade de um maior grau de
cooperação e compensação entre os países industrializados e alguns países
chave de um mundo em desenvolvimento, dentre os quais o Brasil, e das atividades
de natureza regulatória e de fiscalização bancária dos países
industrializados, de terem acesso a certas informações sobre operações com
derivativos e interações de elevadíssimo grau de alavancagem. O mundo vai
mudar a partir da experiência que estamos tendo nos últimos meses. Só que
essa mudança não se dá em dois dias reunião em Washington, mas a base, a
semente da mudança, vem germinando e terá continuidade nas próximas reuniões.
Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é que a diferença da maneira
pela qual as crises anteriormente foram tratadas, quer dizer, México em 94/95,
foi vista como resolvida no sentido de contida no âmbito da região da América
Latina, por conta de uma ação muito determinada do governo norte-americano, do
Fundo Monetário Internacional e do próprio governo mexicano, que aceitou o ônus
e o custo de uma recessão, uma queda de 7% do PIB, em 1995; uma aceleração
dramática da inflação; mas que vinha recuperando desde 1996 a sua economia. O
que se tentou fazer em seqüência na Tailândia, Indonésia, Coréia e Rússia,
foi uma espécie de réplica da experiência mexicana, que havia aparentemente
sido bem sucedida. Vale dizer um conjunto forte de assistência financeira
internacional, um programa de ajuste no país em questão e a expectativa de que,
a la México, depois de um ano, um ano e meio, nós tivéssemos uma natural solução
do problema. De novo, a visão do relacionamento bilateral das instituições
multilaterais e dos governos por trás delas com Tailândia, depois a Indonésia,
depois com a Coréia e depois com a Rússia. O que mudou? Mudou, eu diria que
uma marca importante dessa mudança foi a moratória unilateral da Rússia em 17
de agosto. O que ocorreu foi em uma semana depois dessa moratória, os spreads
e over bônus, não só brasileiros, mas também os argentinos, os
mexicanos, chilenos, passaram dos 300 pontos básicos - 16 % acima da taxa de
referência básica do papel – para 1500 pontos básicos, 15% acima. Esse prêmio
de risco, essa multiplicação por 5 vezes em uma semana depois da moratória
russa certamente não é uma expressão de mudanças que havia ocorrido nos
fundamentos do mundo real de nossas economias, no mundo dos investimentos, da
produção, do emprego, das suas perspectivas de médio e longo prazo. Tanto é
que o investimento direto estrangeiro no Brasil, na Argentina, seguiu sem ser
afetado largamente por isso e há um indicador de mercado também com
perspectivas de médio e longo prazo. O que nós dissemos foi que o pânico que
assaltou o mercado com as conseqüências da moratória russa, já aí com o
mercado incorporando todas as conseqüências da queda de 15% do PIB da Indonésia
esse ano, da queda de 6% na Coréia, outros tantos na Tailândia, da
incapacidade de o Japão lidar com a sua recessão e com problemas no seu
sistema financeiro, os problemas graves com a economia da Rússia, e ainda as
incertezas associadas à correção de preços de ativos nas principais bolsas
do mundo. Queria lhes lembrar que quando Greenspan fez o primeiro alerta sobre a
exuberância irracional em termos de preços de ativos nas bolsas de valores, o
índice de preços Dow Jones estava em torno de 6.800, muito mais baixo do que
está hoje ainda. Eu acho que tem um divisor de águas nessa questão, que foi a
necessária operação e tentativa de resgate ou de organização de um problema
grave no "long...capital management ". Os efeitos dessa queda ainda
estarão se chocando conosco por algum tempo.
Mas eu queria dizer que o outro elemento
importante que emergiu dessa reunião foi a percepção de que não é razoável
que a postura da comunidade financeira internacional seja aguardar uma crise
fiscal, como foi o México, Indonésia, Tailândia, Coréia e Rússia, para só
então, através de mecanismos de resolução de crises, tentar encontrar uma saída.
A idéia que vem ganhando força desde, eu diria, final de agosto, início de
setembro, que teve um grande impulso com a reunião dos ministro da Fazenda e
governadores de Banco Central da América Latina aqui em Washington é a idéia
de ações de natureza preventiva, que procurem evitar ou diminuir os efeitos de
contágio e de contaminação de países cujos fundamentos econômicos não
justificam essa generalização da percepção de risco que ocorreu depois da
moratória russa. Por um período prolongado de tempo, as percepções de
mercado foram de que países em desenvolvimento ou mercados emergentes são
absolutamente iguais. Uma vez que você viu um, você viu todos; não existe
qualquer diferença entre eles, portanto todos devem ser tratados da mesma
maneira. Não é verdade essa percepção. É fundamental o esforço de
diferenciação, que vêm tendo lugar, e, dada a natureza da crise na sua dimensão
global, é necessário pensar em formas de ações de natureza preventiva que
limitem ou contenham o contágio, a disseminação de crises e que controlem de
alguma maneira a tendência de generalização que assalta alguns participantes
do mercado, que têm maior dificuldade de perceber ou realizar esse esforço de
diferenciação. Esse foi o outro grande avanço dessa reunião: a aceitação,
pela primeira vez, da idéia de que a comunidade internacional de ponha de
acordo sobre termos de ações de natureza preventiva e não de resolução de
crises, uma vez que ela se instaurou.
Esses a meu juízo foram os dois pontos
principais e fundamentais que emergiram, sem prejuízo da continuidade das
discussões. E elas seguramente terão continuidade. Ao longo das próximas
semanas, meses estaremos pensando em formas que possam fazer, nessas reuniões,
produzir entre nós esforços que estão sendo criados, para os quais países em
desenvolvimento relevantes, e eu nunca pedi desculpas a ninguém por considerar
o Brasil um país em desenvolvimento relevante - qualquer grupo de sete que
ponha mais sete países em desenvolvimento relevantes, o Brasil estará entre
eles; qualquer grupo de cinco países industrializados que ponha mais cinco países
em desenvolvimento relevantes, o Brasil terá que estar entre eles -, e,
portanto, existe uma percepção devido a nossa dimensão, tamanho o peso do
Brasil, a sua densidade específica, uma das maiores bolsas do mundo, o segundo
maior país em termos de recepção de investimento direto no mundo em
desenvolvimento hoje, um país com um grau de sofisticação de seu mercado
financeiro e integração comercial tecnológica e investimento direto com o
resto do mundo; e é uma percepção clara, assim como existe a percepção na
Ásia, por exemplo, que do Japão e da China depende a estabilidade econômica e
política da região, há uma clara percepção de que o papel do Brasil na
preservação da estabilidade econômica da América Latina não é um dado de
irrealidade. E daí a razão pela qual o Brasil tem um espaço em certas discussões
que não é, infelizmente como querem alguns, um espaço que é derivado de uma
preocupação com grandes problemas domésticos no Brasil. É uma preocupação
com esse sentimento da importância do país, e tão relevante é a preservação
da sua estabilidade econômica para o conjunto da região dado o seu peso e a
sua dimensão.
A esse respeito, eu gostaria de falar
especificamente sobre o Brasil. Bom, eu gostaria de falar então sobre o Brasil
nesse contexto, que foi o que predominou nas discussões que tivemos nessas várias
séries de conversações. Eu queria lhes dizer como é que nós tratamos e
apresentamos o Brasil, que é um tratar e apresentar o que nós estamos fazendo
desde a eclosão da crise da Rússia no final de agosto. Como sabem os
jornalistas brasileiros que aqui estão, no começo de setembro, um mês atrás,
o presidente Fernando Henrique Cardoso tomou a decisão de impor medidas de
austeridade fiscal e de cortes no que diz respeito ao ano de 1998, e eu não vou
descrever aqui porque são conhecidas de todos. O FMI apresentou uma excelente
análise, cuidadosa análise, à diferença de análises não-cuidadosas e
apressadas que foram feitas na época, do significado das medidas em termos da
sua efetividade já para o ano de 1998. Essa análise cuidadosa foi apresentada
por escrito a diretoria executiva do FMI no começo da semana passada .É uma análise
importante porque, pela primeira vez, num texto organizado, chama-se a atenção
para algo que nós estamos tentando sem sucesso, as vezes até no Brasil,
mostrar no exterior que as estatísticas do setor público brasileiro não podem
ser comparadas de maneira apressada com as estatísticas do setor público de
outros países que se referem exclusivamente a governo central. Esse texto que
mostra com clareza, chama atenção dos diretores executivos, que representam os
183 governos legalmente soberanos, para o fato de que, à diferença de muitos
países do mundo, as estatísticas do setor público brasileiro intuem o
executivo federal, o Banco Central, a Previdência Social, os 27 estados e 5520
municípios, mais o conjunto das empresas públicas, federais, estaduais e
municipais, e portanto pede que os analistas procurem levar isso em conta,
quando estão fazendo comparações simplórias e apressadas, entre uma estatística
que agrega tudo isso com outras que dizem respeito apenas a governos federais de
alguns outros países. Ele é um apelo para a comparabilidade internacional,
algo que nos insistimos há algum tempo. Eu não quero entrar em detalhe sobre
isso, mas é muito importante também notar que as estatísticas abaixo da linha
do Banco Central, que olham pela ótica do financiamento, vêm incluindo já há
algum tempo umas decisões que nós tomamos de exercício de transparência
fiscal. Nós estamos reconhecendo esqueletos de dívidas do passado e quando se
o faz aumenta-se o déficit tal como medido abaixo da linha do Banco Central.
Aquilo não é uma expressão de excesso de gastos correntes ou despesas
correntes, mas é uma expressão de um governo que quer transparências em suas
contas fiscais e está trazendo para dentro de suas estatísticas coisas que
estavam fora dela como existem em vários outros países do mundo que não as
incluem em suas estatísticas. Então, essa é uma análise importante porque
chama a atenção para essas coisas e analisa as decisões de 1998.
Mais importante do que isso desde um mês há
mais de um mês que o presidente determinou que nós déssemos início a preparação
de um programa fiscal para o exercício dos 3 anos de 99, 2000 e 2001. E o
presidente disse mais: ele disse que não queria apenas um programa de ajuste
fiscal para o próximo triênio, mas queria um programa de ajuste fiscal que
necessariamente contemplasse superávits primários crescentes para o setor público
consolidado. E disse mais: não apenas superávits primários crescentes nesses
três anos, mas crescentes de forma a permitir a estabilização da relação dívida/PIB
nesse período. Isso foi há mais de um mês, e nós estamos trabalhando nisso
no contexto do trabalho de assessoria técnica da Comissão de Controle e Gestão
Fiscal, e vem funcionando com grande eficiência desde então. Foram realizadas
já pelo menos 4 reuniões ao longo dos últimos 30 dias com decisões
expressivas. No dia 23 de setembro, o presidente num discurso à nação
determinou que esse trabalho, cujo prazo original é 15 de novembro, fosse
acelerado e antecipado, e é o que nós estamos fazendo desde então. Ontem, o
presidente já como presidente eleito, disse que essa antecipação agora para nós
tem uma data, que é no máximo 20 de outubro, e que esse programa deve estar
concluído e apresentado mantidas as instruções anteriores, inclusive com a
concentração de esforço em termos da mudança na virada de 98 para 99. É
esse trabalho que vem sendo feito e é o trabalho que definiu, em termos
preliminares a faixa de variação do superávit primário para esses três anos,
e a juízo da Comissão de Gestão e Controle Fiscal serão requeridos para o
objetivo determinado pelo presidente da República, que é a estabilização da
relação dívida/PIB. Esses resultados preliminares, depois de submetidos pelos
presidentes da Comissão, Pedro Parente e Márcio Tavares, a mim e ao ministro
Paulo Paiva, foram submetidos ao senhor presidente da República que os aprovou;
e foi a faixa de variação de superávit primário que nós apresentamos na
discussão técnica ao FMI nesses últimos dias. Devo dizer que estaremos
anunciando hoje, através de um comunicado conjunto, o entendimento a que
chegamos sobre uma faixa de variação do superávit primário para os próximos
três anos. Além disso, esse comunicado que eu estarei distribuindo em breve
trata de outras questões do programa brasileiro de política econômica para o
próximo triênio. É claro, como disse o presidente da República, é um
programa do governo brasileiro que nós estamos prontos a discutir com a
comunidade financeira internacional e a defendê-lo, porque nós achamos que há
um certo defeito no Brasil no momento atual por razões que eu já tive
oportunidade de explicar mais de uma vez e o presidente o fez com rara competência
no seu discurso de 23 de setembro. Nós olhamos o mundo, sabemos que vivemos num
mundo extremamente turbulento no momento, sabemos que vai haver uma redução
pelos próximos meses pelos menos de fluxos de capitais internacionais, não só
para alguns países em desenvolvimento, mas para o conjunto de países em
desenvolvimento, além dos problemas que estão encontrando economias
desenvolvidas por esse grau insustentável, não-previsto por ninguém de
volatilidade que nós estamos observando. Jamais houve uma queda por exemplo de
uma variação entre duas moedas chave da economia mundial, como é o dólar e o
iene, do tipo que nós observamos ontem e hoje pela manhã. Isso é um sinal de
um enorme deslocamento de forças, cumprimentos e obrigações e imposições
curtas; é algo que ainda não está com a clareza a respeito . Nós estamos
lidando com um mundo novo nessa área e nenhum país pode se imaginar nem os próprios
Estados Unidos como um oásis de tranqüilidade, num mundo em que temos esse
grau de turbulência e volatilidade e uma possível retração da atividade econômica
e no investimento. Portanto, há um mundo em que vivemos e nós não podemos, não
devemos nos desconectar dele, desligar o botão e voltar a ligar no futuro,
quando já tiver passado a turbulência. É o mundo em que vivemos, é o mundo
ao qual devemos responder. Através de nossas ações de política doméstica,
que não hesitaremos em tomar para preservar o Real, já o disse o presidente inúmeras
vezes, e através de um apoio internacional que é crescente no Brasil nos vários
foros que temos, desde o IAF, que é o Banco Central dos bancos centrais, do
qual somos membros plenos e acionistas importantes junto com os demais; assim
como nossa participação no FMI, no Banco Mundial, no BID e em outros foros .Esse
comunicado conjunto, portanto, que estamos divulgando logo mais, ele reafirma os
compromissos já expressos pelo presidente, pelo governo brasileiro nas medidas
que vêm tomando desde a eclosão da crise da Rússia para 98,99 e 2000; reitera
os termos do compromisso que o presidente Fernando Henrique, no seu discurso de
23 de setembro; define a taxa de variação já acordada com o FMI para o superávit
primário do próximo triênio e dá uma indicação clara da continuidade do
esforço brasileiro na área de reformas estruturais. Ele aproveita para deixar
claro algo que tem sido fator de perturbação desnecessária nas nossas relações
com os mercados nas últimas semanas. Ele deixa claro o compromisso do Brasil
com a preservação do regime cambial hoje existente no país. Ele deixa claro a
decisão brasileira pela não imposição de qualquer restrição à saída de
capital. Ele deixa claro a disposição brasileira de manter seus compromisso
internacionais e a sua total capacidade de fazê-lo e apresenta a seqüência
das mudanças estruturais que serão encaminhadas ao congresso na área de
previdência social, fiscal e legislação trabalhista. O parágrafo final do
comunicado diz que a administração do fundo endossa completamente essa política,
e as discussões continuarão ao longo dos próximos dias e semanas com vistas a
chegarmos a um entendimento e um programa que possa ser suportado
financeiramente, não só pelo fundo como por outros membros da comunidade
internacional. Esse comunicado vai ser distribuído em breve para vocês e ele
representa um passo importante em relação às conversações que tiveram lugar
ao longo dessa semana.
Não cabe ao Brasil, eu falo em nome do Brasil,
falar em nome de instituições multilaterais, em nome de governos de outros países
ou de agrupamentos de outros países. Esses deverão se expressar no momento
oportuno, da maneira que achem adequado fazerem. Apenas quero assegurar aqui que
existe uma enorme compreensão, primeiro, da natureza global da crise; segundo,
da necessidade de medidas de natureza preventiva, que procurem preservar a região
latino-americana de contaminação, e obviamente uma clara dimensão do papel
chave do Brasil e da economia brasileira em qualquer esforço sério de preservação
da estabilidade da América Latina. Era o que eu gostaria de dizer à guisa de
introdução.
Muito obrigado.
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