Pronunciamentos

04/10/98

Qüinquagésima - Primeira Reunião do Comitê Interino Declaração do ministro Pedro Malan

Desde o início da década de 90, este Comitê já reconheceu, por várias vezes, que um significativo número de países em desenvolvimento recuperou o acesso aos mercados internacionais, tornando-se participantes integrais de uma economia globalizada. O Comitê tinha bons motivos para sentir-se confiante sobre o futuro. Os fluxos de capitais privados para os países em desenvolvimento ultrapassaram os US$ 300 bilhões em 1996, os spreads refletiam um crescente grau de confiança nas políticas dos mercados emergentes e o investimento estrangeiro direto reagia bem à privatização e a liberalização do investimento em escala mundial. Em conseqüência, os países em desenvolvimento destacaram-se pelo seu desempenho em crescimento do produto nos anos 90, ficando em condições de dedicar uma crescente proporção dos recursos públicos ao financiamento do desenvolvimento do setor social. Tiveram influxos de capital quando as taxas de retorno nos países industrializados eram relativamente sem atrativos. Tais influxos ajudaram a sustentar a expansão econômica global e a aumentar os fluxos comerciais quando grandes países ou regiões sofriam quedas cíclicas.

Esta realidade está agora prejudicada. Foram graves os efeitos de contágio das crises asiática e russa, refletindo-se na redução do ritmo da produção industrial global e do crescimento do comércio mundial. Estas crises geraram efeitos generalizados de rastilho, especialmente nos mercados emergentes, manifestando-se pela escassez geral de fluxos de capital privado, spreads extremamente altos, exportações debilitadas, deterioração da competitividade e declínio dos preços dos produtos primários.

Apesar disso, os governos dos mercados emergentes continuaram a demonstrar uma capacidade incomum para fortalecer aspectos fundamentais e reagir. Políticas ficaram mais austeras na América Latina, países asiáticos foram capazes de aceitar ajustes que impuseram severas reduções às taxas de crescimento. Outros países, em outras regiões, reagiram com a mesma determinação. O vertiginoso declínio nos fluxos de capital privado para as economias dos mercados emergentes tem exigido ajustes substanciais das posições externas. Tais ajustes precisam sem realizados de forma cooperativa. Exigem um gerenciamento habilidoso no âmbito das economias afetadas e um forte apoio através de políticas adequadas nos principais países industrializados, pois ver-se-ão seriamente impedidos se os países se engajarem em reações defensivas, tais como depreciações competitivas das moedas e caso a dinâmica adversa não for atacada pela comunidade internacional.

Crises semelhantes no passado teriam desencadeado uma rápida deterioração no diálogo internacional. Tal não acontece agora. Porque os devedores não se vêem como vítimas passivas da realidade internacional; credores têm um maior grau de confiança nos compromissos dos países em desenvolvimento e porque grandes estoques de investimentos de longo prazo na indústria e serviços contribuíram para consolidar um novo clima econômico nos países de mercado emergente. Infelizmente, entretanto, há um alto grau de incerteza quanto ao futuro, e a comunidade financeira internacional carece de um sentido firme de rumo, embora declarações recentes do Presidente Clinton, Presidente Chirac, bem como de outras autoridades dos países industrializados tenham trazido novas esperanças.

Muito se tem debatido recentemente sobre a necessidade de rever a arquitetura do sistema financeiro internacional e o papel do FMI. É preciso ter a mente aberta sobre o assunto. Nas últimas duas décadas, o FMI tem auxiliado países a enfocar uma agenda moderna e empreender ajustes macroeconômicos. Hoje, a maioria – se não todas – das economias dos mercados emergentes compartilham uma visão básica a respeito do gerenciamento macro e estão determinadas a ver a mesma refletida nas decisões de política. As prioridades poderão ser distintas, o ritmo da reforma poderá variar, mas não é difícil convencer os países de que arrumar os fundamentos macro é a principal pré-condição para participar integralmente na economia internacional.

Mais recentementem o Fundo mudou o enfoque de algumas questões de política. Transparência, restruturação do setor financeiro, bem como a supervisão bancária tornaram-se foco dos nossos debates. Fizeram-se importantes avanços na abordagem dessas questões em vários países, em particular nos latino-americanos. Mas, a atenção do Fundo dirigiu-se mais para ações nacionais e regionais. A dimensão internacional de questões como a supervisão bancária, por exemplo – assunto de importância vital para o funcionamento saudável dos mercados internacionais – não foi suficientemente explorada. Ainda resta muito por fazer.

A cooperação entre reguladores e supervisores, em diferentes países, ficou defasada com relação às atuais necessidades; não se coletaram nem se divulgaram de modo adequado informações sobre mercados financeiros sempre em inovação. Normas e supervisão deficientes dão espaço a que os que operam no mercado ajam sem disciplina, vendendo, repetidas vezes, títulos que não lhes pertencem, em bases altamente especulativas, prejudicando o efeito de apoio de preços que as compras diretas deveriam deflagrar, perturbando o processo de formação de preços de ativos e agindo de modo lesivo ao bom funcionamento dos mercados de capitais. Deveria prevalecer um grau mais alto de transparência nas operações de fundos hedge, mercados derivativos e transações financeiras em centros offshore. Isto reforçaria o progresso obtido por muitas agências supervisoras nos mercados emergentes, no sentido de cumprir as práticas consolidadas de supervisão consagradas nos princípios de Basle. Configura-se uma clara necessidade de melhorar os mecanismos de resolução comercial dentro de períodos pré-determinados de tempo. Estas são questões difíceis, mas, como mencionei em minha última declaração, há espaço para que se envidem esforços continuados no âmbito do BIS, do Fundo, do Banco Mundial, com vistas a um maior grau de cooperação.

Recentes experiências demonstraram a incapacidade da comunidade financeira internacional de lidar com a prevenção e o contágio das crises. Muito se tem discutido a respeito de divisão do ônus, mas pouco progresso foi alcançado na prevenção de crises e na contenção das situações de efeito de contágio. Há duas reflexões principais sobre a divisão do ônus que se deve ter em mente. Primeiro, a divisão do ônus não pode ser aplicada de forma universal. Não tem muito sentido em países com elementos estruturais mais fortes, reformas estruturais mais avançadas, bem como genuínas perspectivas de manter entradas de capital de longo prazo. Segundo, a divisão do ônus e contágio não podem ser tratados isoladamente, como o pós-crise russa vem deixando evidente. Os riscos são por demais elevados e a desmantelamento pode ser demasiado agudo. Quando os mercados são movidos pelo pânico, todos perdem. As sociedades arcam com o ônus e os investidores de longo prazo são duramente atingidos.

Na América Latina, empresas saudáveis que, antes da crise russa, contavam com acesso regular a financiamentos pagando spreads razoáveis, experimentaram o súbito estancamento de suas relações com os mercados. Essas companhias não mudaram, o ambiente nos países onde operam não se alterou e, no entanto, foram penalizadas por motivos fora do seu controle. Certamente cabe ao setor privado fazer suas próprias decisões e as avaliações dos riscos, ao lançar-se ao financiamento internacional. Porém, ao mesmo tempo, é responsabilidade dos governos manter o correto ambiente econômico – interna e externamente – para que o setor privado opere com algum grau de segurança. A obrigação de combater o contágio não é distinta da obrigação de manter, domesticamente, uma realidade econômica segura e bem regulada.

A necessidade de lidar mais decisivamente com o contágio é até mais importante quando reconhecemos que as economias abertas, com uma tradição de relações com o mercado não desejam lançar mão de soluções unilaterais tais como moratórias ou suspensão de pagamentos, controles de capitais ou de câmbio. Nós, na América Latina, tivemos a experiência de soluções unilaterais nos anos 80 e sabemos quão danosas elas podem ser. Soluções unilaterais levam a rupturas da confiança e interrupção do crédito, de longo prazo. O que visamos, atualmente, é exatamente o oposto: recuperar fluxos de crédito e estimular os mercados financeiros a continuar participando em finanças para o desenvolvimento.

Necessitamos de instituições internacionais vigorosas – inspiradoras de confiança e financeiramente robustas frente aos países e frente aos mercados.

Há a necessidade de a comunidade internacional iniciar a elaboração de marcos de referência para o financiamento internacional que garanta um fluxo estável de recursos capaz de servir de esteio à estabilização macroeconômica e aos esforços de reforma estrutural. Este trabalho poderá implicar debates a respeito dos prós e contras para a existência de uma fonte internacional de financiamento de último recurso ou de um mecanismo capaz de absorver a expansão excessiva da liquidez ou proporcionar crédito a fim de reverter a contração dos mercados internacionais. Não podem ser ignoradas as salvaguardas e os controles temporários adequados das entradas de curto prazo. O processo de liberalização do capital deve levar, na devida conta, os diferentes estágios de desenvolvimento das várias economias e a robustez dos sistemas de intermediação financeira.

Muito se tem debatido recentemente a respeito da necessidade de melhorar o diálogo entre o FMI e o setor privado. O fulcro do debate, entretanto, tem-se limitado aos níveis de transparência a serem exercidos pelo Fundo. Um FMI engajado em diálogo regular com os mercados deveria ser capaz de avaliar o comportamentos desses mercados e falar com um grau de autoridade. O FMI está na privilegiada posição de fazê-lo.

As instituições internacionais deveriam considerar a disponibilidade de crédito de contingência e de instrumentos para permitir aos centros de bom desempenho a prevenção de crises. O FMI precisa elaborar uma estratégia de prevenção. Existe um risco de perigo moral, mas o mesmo não deveria impedir-nos de criar um dispositivo que deveras se tornasse indispensável, depois de experimentarmos o impacto do desmantelo russo. Uma estratégia nesse setor deveria levar em conta os níveis de investimento estrangeiro direto fluindo para o país afetado – um indicador de mercado tão bom quanto outro qualquer – bem como a qualidade das políticas e as perspectivas de longo prazo que oferecem. Recebemos com grande interesse e satisfação a propostas do Presidente concernente a "um novo mecanismo ancorado no FMI, para proporcionar financiamento contingente destinado a ajudar países a proteger-se do contágio financeiro internacional". Isto é importante para a América Latina e para a solidez do sistema financeiro internacional como um todo, já que revela a disposição para conter sinais correntes de desestabilização e fortalecer a confiança no crescente diálogo entre as economias desenvolvidas e aos dos mercados emergentes.

Talvez estejamos face a face com a mais difícil conjuntura econômica mundial das últimas quatro décadas, não devendo surpreender o fato de que uma decisão sobre a reforma a e o fortalecimento de instituições financeiras que nos vêm acompanhando desde o fim da Segunda Guerra Mundial constitua uma difícil posição a assumir. De fato, o que vemos testemunhando ultimamente é uma crescente preocupação da comunidade internacional quanto a uma solução durável para as atuais crises financeiras e o estabelecimento de uma nova arquitetura para o sistema monetário internacional, processo que poderá muito bem nos acompanhar durante todo o próximo milênio. A complexidade dessa tarefa não deve lançar sombra sobre nossa determinação encontrar soluções.

 

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