Pronunciamentos

22/09/98

Ministro explica estratégia brasileira

Transcrição da fala do ministro da Fazenda, Pedro Malan, no XXIX Congresso da Associação Internacional dos Institutos de Executivos de Finanças, dia 21 de setembro de 1998, no Rio de Janeiro

Sem revisão do autor

Nos dias 3 e 4 de setembro, os ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central dos nove principais países da América Latina tiveram uma reunião em Washington, com a participação do Secretário do Tesouro norte-americano, do Vice- presidente do FED, e do Ministro da Fazenda e Presidente do Banco Central do Canadá, obviamente com a presença do Fundo Monetário, do Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento. Nesse encontro, que teve lugar há cerca de duas semanas, depois da conturbada moratória unilateral da Rússia, nós todos, não só o Brasil, mas o Brasil, o México, a Argentina, o Chile e os demais, deixaram claro, aos governos dos países do G7 ali representados, indiretamente aos outros demais, e às instituições multilaterais desses países, duas mensagens básicas: a primeira é que considerávamos estarsofrendo, de maneira absolutamente não justificada, os efeitos da moratória da Rússia. Há um ano, "spreads" médios dos papéis dessas economias eram da ordem de 300 pontos básicos, 3% sobre os papéis do Tesouro americano equivalentes. Naquele momento, estavam cerca de 1500, 1600 pontos válidos, cerca 15, 16% acima do Tesouro.

Deixamos claro para todos, em exceção, que não havia nenhuma razão, em termos dos fundamentos de nossas economias, que não havia nenhuma mudança real na estrutura real de nossas economias que justificasse um multiplicar por cinco dos spreads de percepção de risco de nossas economias. Que aquilo era uma situação de pânico, um pânico injustificado, um determinado tipo de comportamento coletivo, marcado por uma aparente racionalidade individual, mas o conjunto era uma irracionalidade coletiva e que tinha efeitos e estava afetando o conjunto do mundo em desenvolvimento e que, se permitido continuar, inevitavelmente teria um efeito de agravar uma situação internacional que havia se tornado crescentemente mais adversa desde a crise asiática no final do ano passado.

Deixamos claro, todos nós, não só o Brasil, mas todos os países da América Latina, ali representados, que era de responsabilidade de governos e de governos dos países industriais e das instituições multilaterais que ele controla, de procurar as formas de lidar com esse pânico, com esta incapacidade de diferenciação, com essa visão equivocada de generalizar problemas de países em desenvolvimento como se, uma vez visto um, todos tivessem sido vistos, como se fossem todos iguais, o que não é absolutamente correto na nossa percepção e na percepção de quem tenha se debruçado para entender a real situação. Desconsideram-se as mudanças que ocorreram ao longo dos últimos anos em termos de reformas estruturais e significativas, o que esses países fizeram para responder a eventos externos fora de seu controle, jamais se considerando vítimas passivas desses eventos, revendo a sua capacidade de resposta, o seu compromisso de continuar respondendo mas, dissemos aqui, além dessa tarefa de lidar com o pânico injustificado que de vez em quando assalta os mercados, há 250 anos de história de pânicos e crashs financeiros no mundo que mostram que os mercados, por vezes, se deixam levar por esses comportamentos de rebanho, seja na sua ação, seja na cotação, que nós estamos vivendo uma situação que exige algum tipo de ação na emergência para lidar com o pânico e, a nosso ver, dado que a crise que nós estamos vivendo e que afetava a todos. Não havia nenhum país, por mais poderoso que fosse, que não seria, em algum momento, afetado por ela caso não houvesse algo, que o presidente Fernando Henrique Cardoso vem dizendo desde março de 1995, quando houve a crise mexicana: precisamos de uma cooperação internacional maior do que fomos capazes de exibir até o momento para lidar com isso, que é, provavelmente, a crise mais grave que estamos enfrentando desde a segunda guerra mundial e ela pode se agravar na ausência desse grau de coordenação e concertação que hoje é uma exigência do momento presente. Por certo, cada país deve responder da maneira que lhe pareça mais apropriada, não pode considerar-se vítima de um mundo que se tornou tão hostil, mas essa capacidade de resposta tem de vir de alguma maneira apoiada por uma percepção de uma ação coordenada que procure lidar com o contexto internacional.

Essa mensagem, tanto na ação no pânico quanto na ação mais concertada foi dada com clareza, eu diria, por praticamente todos os ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais, que estiveram reunidos, por quase dois dias, com o secretário Rubin, vice-presidente do FED norte-americano, o ministro canadense, presidente do Banco Central canadense, com suas respectivas equipes e assessores e as instituições multilaterais que, obviamente, acompanharam toda essa discussão. Eu diria que, desde então, tem havido um progresso precípuo em termos de contatos formais e informais e aqui nós também deixamos claro, nesta reunião, que não estávamos falando, de forma alguma, em operações de salvamento do tipo que marcaram as experiências de Tailândia, Indonésia, Coréia, Rússia: foram operações de salvamento de dezenas de bilhões de dólares, feitos quando a crise já havia se instaurado, quando esses países já tinham reservas internacionais praticamente inexistentes, negativas e, portanto, é uma operação de crisis resolution, tentativa de resolução de crises uma vez instauradas.

Deixamos claro agora, que nós, na América Latina, tínhamos todas as condições de, através da nossa resposta, individual e regional, e através de uma percepção da importância de uma ação com um mínimo de coordenação, mostrar como é possível fazer, e é possível fazer e estou consciente que será feito, uma operação de natureza preventiva e não uma operação de natureza de resolução de crise, uma vez a crise instaurada. Desde então, tem havido um movimento preciso, que eu espero que culmine agora, nos próximos dez dias, ou ao longo da próxima reunião anual do FMI e do Banco Mundial, que terá lugar a partir de final de setembro, onde as conversações, discussões recebam algum tipo de ação mais coordenada do que fomos capazes de observar até o momento. Eu queria dizer porque isto fundamenta esta nossa tranqüila convicção e ação internacional que o Brasil vem desenvolvendo desde pelo menos 1993, 1994, já com Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda, e que assumiu importância maior quando ele assumiu a Presidência da República.

O Brasil sabe, temos uma profunda consciência disso, que nossos problemas são nossos, são internos e dependem de nós, fundamentalmente de nós, não precisamos depender de pessoas que nos digam o que fazer, nós sabemos o que fazer na área econômica e financeira, na área política e institucional, na área da mudança cultural necessária para viver sem inflação. Depois de duas, três décadas sendo recordista mundial de inflação, nós sabemos o que fazer, sabemos o que tem de ser feito, somos uma sociedade democrática, não estamos mais sob a égide do AI-5, não estamos mais naquele período em que bastavam atos de voluntarismos explícitos por parte daqueles que detinham o poder e os instrumentos legais que a ditadura propiciava. Hoje, nós temos que convencer, temos que vencer discussões no Congresso, onde temos avançado. Não estamos mais, definitivamente, como às vezes alguns dizerem que resolveriam todos esses problemas com canetadas presidenciais, despachos vice-presidenciais, portarias da Receita Federal, circulares do Banco Central. Somos uma sociedade democrática que tem um rumo, tem um sentido de direção e propósito e sabe que tem que passar por discussões que envolvem reforma constitucional, no âmbito do Congresso Nacional. E nós a faremos, a faremos porque há uma clara percepção da importância de assegurar a continuidade dos ganhos que obtivemos ao longo dos últimos quatro, cinco anos; uma inflação que será este ano em torno de 2% no ano, algo que este país não experimentava há mais de cinqüenta anos. 1998 será uma ano de crescimento ainda muito menor do que poderíamos ter, não fora a crise da Ásia; mas será o sexto ano consecutivo de crescimento da economia brasileira, algo que nós não experimentávamos desde os anos 70.

Os indicadores sociais estão aí a demonstrar que o país mudou, que o país está mudando, que o país continuará mudando, e para melhor, quando se olha estas questões em perspectiva mais ampla, que é o que deve ser olhado. O Brasil é hoje melhor do ponto de vista econômico, do ponto de vista político, do ponto de vista social e do ponto de vista de mudança cultural para se preparar para conviver, eu espero que para sempre, com um governo sério e responsável que saiba a importância do equilíbrio fiscal e que saiba a importância de preservar a inflação sob controle e que saiba a importância de preservar o poder aquisitivo do salário da população brasileira. O imposto inflacionário é um imposto que incide sobre os mais pobres, um imposto que nós tivemos durante décadas para nos iludir a todos, para fingir que nós estamos resolvendo o problema do desequilíbrio fiscal, quando na verdade estávamos fazendo um grande jogo do faz de conta, enviando a conta para os mais pobres através de imposto inflacionário.

Eu acho que o país tem rumo, tem um sentido de direção e propósito, e acho que a maioria da sociedade brasileira vem percebendo isso com clareza e eu espero que nós tenhamos uma demonstração disso em breve neste país. Mas eu não queria deixar o contexto internacional, porque para nós é importante chamar a atenção para algo que é o fato de que o mundo tem hoje uma característica que vem sendo percebida, mas com uma grande lentidão, que é o seguinte: a primeira crise que foi chamada primeira crise marcada pela competição global, com essas mudanças de tecnologias da informática e da informação que levaram a que  estejamos todos hoje ligados em tempo real, somos todos observados on line, 24 horas por dia, e observamos, on line, 24 por dia, o que acontece no mundo.

Por exemplo, soubemos hoje, de madrugada, que a bolsa de Tóquio (índice Nikkei) teve uma queda que foi a maior queda dos últimos doze anos e só ficou conhecida aqui de madrugada, conhecida no mundo inteiro e, obviamente, influencia decisões que vão ser tomadas naquele mesmo momento, naquele mesmo dia. Essa característica da sociedade em que vivemos, devido à evolução tecnológica em comunicações, não só colocou o mundo todo em tempo real pela primeira vez na história, on line, 24 horas por dia, como também reduziu  dramaticamente os custos de transação, em particular em operações de natureza financeira, o que permite uma rapidíssima transmissão de informações, tanto numa direção que leva a ações, tanto numa direção quanto numa outra.

Ganâncias combinadas com excesso de otimismo levam a expansões por vezes exacerbadas. Medos combinados com excesso de pessimismo levam a contrações por vezes exacerbadas também. É fundamental aqui o papel de vozes com um mínimo de seriedade, com um mínimo de conhecimento do que está em questão, pelo menos tentar exercer o papel que nós cobramos de várias empresas lá, uma visão de quem procura dizer: olha, é excessivo este grau de medo e excesso de pessimismo que está prevalecendo no momento e, às vezes, é necessário algo mais do que palavras, às vezes é necessário que palavras venham acompanhadas do preparo, digamos, para o comprometimento de recursos ainda que não precisem necessariamente ser utilizados. Essa é a função de prestador de última instância que foi construído ao longo de anos em mercados nacionais, em mercados domésticos, em função dos Banco Centrais. Nós  não fomos capazes de fazer até o momento esta função desempenhada na área internacional. Então ela está sujeita a esta situação do tipo que estamos vivendo agora e que nos afeta, é um erro chamá-la de crise asiática, ou crise russa, ou crise dos mercados emergentes, porque ela vêm assumindo uma dimensão muito maior e, não tenham dúvidas, assim como americanos e europeus também não as têm, acabará por afetá-los, caso não sejam capazes de estar à altura dos desafios do momento presente.

Alan Greenspan disse, há cerca de dez dias, num discurso excelente, que não é plausível imaginar que a economia americana, com seu desempenho extraordinário nos últimos anos, pudesse continuar se percebendo, se vendo, como um oásis de tranqüilidade e prosperidade num mundo em processo de contração e de redução da taxa de crescimento do produto, do comércio internacional, da renda industrial. Por que estamos em um mundo integrado, em que o efeito sobre parceiros, comerciais e financeiros, obviamente acaba afetando mesmo a mais importante e maior economia do mundo. Há uma percepção clara de que isso aí será feito, e esperamos, opinião pessoal, se expresse numa decisão breve; o ideal é que seja dia 29 de setembro, ou ainda que seja na reunião de outubro, de redução das taxas de juros no cenário norte-americano.

Aqui fica um parênteses rápido: o que ocorreu na semana passada foi uma manifestação de certa irracionalidade coletiva. Seria uma grande ingenuidade imaginar que o chairman do Federal Reserve americano fosse anunciar, com quinze dias de antecedência, como responder uma pergunta de um parlamentar no congresso americano antes da decisão do Federal Demarket Commitee, marcada para o dia 29 de setembro. Só um ingênuo pode imaginar que um presidente do Banco Central experimentado como Alan Greenspan daria aquela inside information, com quinze dias de antecedência, ao responder uma resposta passageira de um parlamentar; portanto, a reação de decepção, de frustração, de efeitos sob expectativas que teve a resposta absolutamente correta que ele deu, não ia comunicar nada a respeito naquela ocasião e, também, uma manifestação de respeito que deu, primeiro, ao ser perguntado sobre a ação concertada para reduzir os juros, que não havia tal coisa mesmo porque o Banco Central japonês já havia, uma semana antes, reduzido a sua taxa de 0,5% para 0,25% a.a., e ele sabia que o Bundesbank alemão ia tomar uma decisão naquele dia e, portanto, não tinha sentido ele anunciar uma decisão do Bundesbank alemão. Vou abrir só um parêntese   para mostrar como é queo mercado se deixa levar por certas expectativas que, quando frustradas, levam a uma reação sem nenhuma base de uma análise fria.

O que eu queria dizer sobre essa situação internacional é que, deixe-me fazer uma comparação aqui com a crise do México em 94/95, ficou vista por alguns como a primeira crise potencial de mercados emergentes, que se fosse contida poderia ter um efeito mais amplo. Ela foi contida e  contida graças a uma ação muito rápida do governo norte-americano que, por razões óbvias, do Fundo Monetário Internacional, eu diria que do próprio governo mexicano, que teve a coragem de tomar medidas de ajuste que levaram à queda do produto mexicano de cerca de 7%, em termos reais, no ano de 95 uma aceleração da inflação para 60%, 70%, com o aumento do desemprego e a reação mexicana com o apoio interno que teve, a reação da Argentina cujo produto caiu quase 5% em 1995, o desemprego aumentou.

A reação que o Brasil teve em 95, também, a resposta mexicana, o apoio externo que ela teve, a resposta dos outros países da América Latina, fez com que muitos percebessem que aquilo que poderia ser uma crise que não tivesse ficado restrita aos custos que não foram pequenos, em particular pagos pelo México, em menor escala para a Argentina, em menor escala pelo Brasil. O que houve com a crise asiática, chamada crise asiática, que começou com a percepção dos problemas ocorridos na Tailândia durante o espaço de 1 ano e meio atrás e que inicialmente alguns, talvez, acharam que era a mesma coisa, através de grande pacote de assistência financeira externa, que só foi mostrada depois dessa desvalorização controlada do Bath, que fez uma totalmente descontrolada depois descobriu que estava praticamente sem reservas internacionais utilizáveis. É possível reproduzir a experiência mexicana com um grande pacote de assistência financeira externa à Tailândia. Seguiu-se exatamente a mesma percepção: um mesmo grande pacote de assistência externa, que reproduzisse a experiência mexicana, à Indonésia. A mesma situação com a Coréia, já em final de 1997. Eu acho que o mundo demorou um pouco a se dar conta de que não era um problema, não é e será cada vez menos, um problema de lidar através de relacionamento bilateral com o país A ou o país B, país C, através da montagem de um pacote de assistência financeira externa depois que a crise se instaurou. A grande diferença da discussão que está tendo lugar hoje é uma percepção da necessidade de ação preventiva e não dos benefícios que ela tem depois que uma crise se instaurou, numa seqüência de países, por que há obviamente um efeito contágio. Além do mais está se aprofundando a discussão sobre as razões que levaram a seqüência de Tailândia, Coréia, Malásia, Indonésia, a enfrentarem problemas que os levaram a essa situação.

Uma análise mais aprofundada mostra o que nós aqui na América Latina deveríamos ter um conhecimento melhor: esses países estavam no fim de um ciclo de longo investimento, financiado com recursos externos e particular, em certos setores como imobiliário. Eles faziam com que o financiamento externo, de curto prazo, farto, financiando investimento em setores que não produziam bens comercializáveis internacionalmente, o efeito que essa disponibilidade de financiamento estava se expressando não era através de regulação de preços de bens e serviços, mas uma elevação de preços de ativos que serviam de colateral e garantia para novos empréstimos e portanto um problema de superinvestimento em determinados tipos de setores, no contexto de mercados financeiros domésticos subregulados, subfiscalizados e com a percepção de que havia uma garantia implícita de governos que estariam por trás de seus respectivos sistemas financeiros, de maneira expressiva.

Essa situação foi agravada pelo fato de que a China desvalorizou em 94 e o Japão, a segunda maior economia do mundo, estava numa espécie de crise, uma semi-estagnação, quando a sua bolha especulativa furou em 89/90. Desde então, a taxa de crescimento dessa economia foi da ordem de 1%, está em recessão hoje, em larga medida não foi capaz de apresentar ao resto do mundo e à sua própria sociedade uma maneira consistente e coerente de lidar com seus problemas de créditos ruins do seu sistema financeiro que são estimados em 600 bilhões de dólares e 1 trilhão de dólares americanos até hoje não equacionados, junto com a incapacidade de crescer de forma sustentada, mesmo com taxas de juros de 0,25% a curto prazo, menos de 1% de remuneração, essa combinação de incapacidade de crescer, e não há perspectiva de crescimento na região asiática sem um crescimento sustentado da maior economia da região, por larga margem, a incapacidade de resolver problemas do sistema financeiro tem-se expressado nessa depreciação do Yen em relação ao dólar e eventos como esse de hoje com a queda do índice Nikkei. Isso são as impressões de incerteza sobre a segunda maior economia do mundo. Isso leva a incertezas sobre Hong Kong, terceira maior bolsa de valores do mundo, e sinais de inquietação sobre o que poderia vir a ser a resposta da China a exemplo de sua política cambial. Essa situação, nós estamos falando de uma região de peso no mundo, a Ásia desenvolvida e em desenvolvimento, juntando-se à desintegração da Rússia nesse período. Essa desintegração que levou a essa atabalhoada moratória unilateral de 17 de agosto fez com que a percepção de risco em mercados emergentes se espalhasse, ao nosso juízo, de maneira indébita, sem justificativa. Mas é um problema com o qual nós temos que lidar hoje na América Latina.

Apesar de nós sermos uma região desnuclearizada, desmilitarizada, sem conflitos de fronteiras, sem rivalidades étnicas, sem fundamentalismos religiosos com toda a instabilidade que isso propicia, democracias consolidadas ou em consolidação política, com uma cultura da estabilidade e respeito à restrição orçamentária que, gradualmente, vem deitando raízes, um processo de privatização que não encontra paralelo em lugar nenhum do mundo, e está tendo lugar uma construção do Mercosul com um mercado hoje de US$ 1,3 trilhão. O Brasil é o segundo maior pólo de atração de investimentos diretos no mundo, depois da China, as decisões de centenas de empresas estrangeiras, norte-americanas, européias e japonesas, de fazer investimento direto no Brasil e no Mercosul, e vão ser mais de US$ 20 bilhões esse ano, é um indicador de mercado, talvez até melhor para quem está olhando o médio, longo prazo, do que outros indicadores de mercado que expressam pânico passageiro, um efeito do comportamento do instinto de rebanho, efeito na base do susto e de uma generalização indevida.

Eu acho que quem quer que se dê ao trabalho de aprofundar o seu conhecimento sobre a economia da Rússia de hoje e sobre o Brasil de hoje, haverá de perceber as diferenças fundamentais no plano político-institucional, econômico e financeiro, e a perspectiva de superação das dificuldades atuais. Agora, é forçoso reconhecer que quando o mercado se fecha para todos, todos se parecem iguais. Nesse sentido parece que há uma uniformidade nas percepções sobre os países em desenvolvimento, independentemente do que fizeram e vão fazer. Esse é o grande desafio do momento, que é nosso em larga medida, mas que não é só nosso, dada a dimensão que o problema assumiu. Porque  acho que essa percepção da parte do governo norte-americano, expressa claramente, não só Jefrey Brunds mas um excelente discurso proferido pelo presidente Bill Clinton, em Nova Iorque, há poucos dias e as expressões de vários líderes europeus mostram claramente como o mundo está, finalmente, e com um certo atraso, se preparando para se elevar aos desafios do momento presente.

Eu espero que isso tenha lugar, eu espero que a reunião anual do FMI e do Banco Mundial em Washington, quando vão estar presentes praticamente todos o ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais do mundo, teremos uma reunião do G7, teremos uma reunião dia 7, apoiada na primeira reunião que tivemos em abril desse ano, que é uma reunião do G7 e mais os 15 países relevantes do mundo em desenvolvimento. Eu nunca pedi desculpas a ninguém por dizer que o Brasil é um países  dos mais relevantes do mundo em desenvolvimento. Eu só queria chamar a atenção para isso porque com freqüência, num discurso ingênuo, acha-se que o Brasil está em evidência porque nós temos problemas que os outros países não têm. O Brasil está em evidência fundamentalmente porque nós somos grandes, porque o Brasil tem peso, porque a bolsa de valores brasileira é uma das maiores do mundo em desenvolvimento, a Bolsa de Mercadorias e Futuros do Brasil é a maior do mundo em desenvolvimento, nós somos o segundo maior país em termos de atratividade de capital estrangeiro de risco do mundo, isso é uma expressão significativa das centenas de milhares de empresas estrangeiras que, há décadas, operam no Brasil e têm interesse no sucesso do Brasil, porque sabem da importância que ele tem no seu próprio futuro como empresa. Temos uma economia que vem se abrindo progressivamente através de privatizações e de presença no mercado internacional, não só de bens quanto de serviços, como na área financeira também. Somos a oitava maior economia do mundo, somos o quinto maior país do mundo em termos de população e extensão territorial. Portanto, é natural que, quando haja uma percepção de uma crise que pode assumir uma dimensão mais ampla, estamos caminhando para ter uma crise que é talvez a maior que o mundo tenha experimentado desde o pós-guerra, é natural que se olhe para países que podem, dependendo do rumo que tomem, ter um efeito que transcenda em muito as suas fronteiras. Isso é uma percepção clara de que o que ocorra aqui no Brasil, numa direção ou em outra tenha um inevitável efeito sobre o resto dos países da América Latina, para ficar restrito a esse continente.

Essa é a razão pela qual o Brasil tem evidência. Não é uma razão associada a problemas gravíssimos, porque nós temos problemas graves, gostaria que tivéssemos avançado naquele quadro que o Graça mencionou anteriormente. Nós sabemos que temos problemas: econômicos, financeiros, políticos, institucionais; problemas na área social. Isso requer mudanças de cabeças, neurônios, cabeças indexatórias, cultura inflacionária. Sabemos que temos que introduzir no debate público brasileiro, na nossa classe política, aquilo que é corriqueiro em países de governo sérios em qualquer parte do mundo: o respeito à restrição orçamentária. Sabemos que temos que mudar a Constituição em áreas fundamentais, sabemos que temos enormes desafios pela frente. Nós temos confiança na nossa capacidade de enfrentar esses desafios, desde que não tenhamos um contexto internacional de agravamento crescente, por que aí não é só o Brasil, é o Brasil e o resto do mundo.

Existem estatísticas que aparecem e tem que ser corretamente interpretadas em função daquilo que elas representam. No Brasil, a diferença, em relação à esmagadora maioria dos países, se refere ao conjunto de informações que não se encontram em outros países. Por exemplo; aqui nós temos as nossas estatísticas de déficit público, nos colocamos como contribuição para esse déficit de todas as empresas públicas federais, estaduais e municipais. Um número enorme de países não tem sequer a informação apropriada,  não publicam a contribuição para o déficit consolidado de suas inúmeras empresas públicas. Eu prefiro não citar nomes aqui.

Nós colocamos em nossas estatísticas de déficit público as contribuições para esse déficit de 27 estados, somos uma república federativa, e 5.520 municípios. Há poucos países organizados sobre a forma de república federativa que incluem nas estatísticas que publicam, os municípios. Incluem nas estatísticas que publicam o referente, apenas, ao governo central como sendo os seus índices de resultados federativos. Eu não quero mencionar os nomes desses países. Acho que eles são mais ou menos conhecidos, em particular, porque nós somos de maneira injustificada comparados a esses países recentemente. Não têm sequer informação sobre o desequilíbrio fiscal de suas várias unidades que fazem parte dessa federação, portanto nos são desconhecidas, os dados dizem apenas respeito ao governo central. Aqui nós incluímos tudo, também a seguridade social, embora isso esteja em governo central, na maioria dos países. Incluímos o executivo federal, Tesouro Nacional, e diga-se de passagem é superavitário em termos de resultado primário. Além disso, nós estamos lidando com legados do passado, esqueletos que estavam no armário, dívidas que nós estamos reconhecendo agora pela primeira vez na história deste país. Então, estatística que medem o déficit sobre a ótica do financiamento, sobre a variação entre a dívida no início do período e no final dele, quando nós incluímos nesse período, reconhecemos uma dívida que antes não era reconhecida e passou a ser, aquilo tem um efeito de aparentemente  dar um aumento de déficit. Nós estamos sendo transparentes, corretos, do ponto de vista de informação ao público. As vezes, estamos sendo penalizados por estarmos sendo corretos. Há países que mantêm of the banner esse tipo de informações, que não aparecem em estatística oficialmente divulgadas. Nós temos um sistema de informação nessa área que tem um grau de abrangência que acaba nos penalizando quando há uma incapacidade de entender aquilo que as estatísticas estão medindo. Lamentavelmente, freqüentemente ocorre quando as pessoas entram em pânico e perdem a sua capacidade de analisar friamente a situação de um país e de uma economia. Infelizmente, é a situação que nós estamos vivendo no momento, mas estou seguro que a superaremos.

Eu estou falando muito mais do que pretendia. Eu queria, só nessa área externa, aproveitar a oportunidade para reafirmar algo que  tenho dito em outro contexto: o Brasil não vai impor controles de saídas de capital, nós sabemos o efeito que isso tem em termo de ingressos futuros, quando essa situação se normalizar e, eu estou seguro, que ela terá que se normalizar um dia. Isso vai depender também da ação concertada. O Brasil não fará uma maxi-desvalorização do Real. Aliás,  devo lembrar àqueles que tem uma informação equivocada, que acham que nós temos um sistema de taxas nominais fixas como teve a Tailândia durante 13 anos, o Bath fixo em termos nominais, em 25 Baths por dólar. Nós temos um sistemas de bandas, nós já mudamos várias vezes, e temos desvalorizado o Real, em relação ao dólar, em termos reais a cerca de 5% nos últimos 12 meses. Eu lhes perguntaria o seguinte: hoje qual é a taxa de desvalorização nominal que um país em desenvolvimento precisa fazer para segurar uma taxa de desvalorização real da ordem que nós estamos assegurando aqui? Eu deixo a pergunta no ar, só dizendo que é um erro, um equívoco, a falta de informação daqueles que acham que nós temos um sistema cambial inflexível, rígido, taxas nominais fixas como tinham os países asiáticos que se viram nas dificuldades que estão agora. O PIB da Indonésia vai cair15% esse ano, Coréia e Tailândia cerca de 6% pelo menos. Nós estaremos sobrevivendo essa situação.

Eis um recado que é o último que eu gostaria de dar: há um custo em responder a um evento externo que se tornou dramaticamente mais adverso, estará adverso por algum tempo. Esse custo existe, nós nunca o negamos. O único ponto que eu gostaria de enfatizar aqui, principalmente para nosso público, interno é que o custo que estamos pagando é menor do que o custo das quaisquer alternativas ditas heterodóxicas que às vezes surgem para lidar com essa questão: maxi-desvalorizações, imposições de controle de saída de capital, redefinições de modelos, ninguém sabe exatamente o que quer dizer, a não ser o vago desejo de que fosse possível o Brasil se desconectar do mundo e só voltar a se conectar para se beneficiar das oportunidades que essa conexão propicia depois que a turbulência tivesse passado por obra e providência divinas. Nós somos parte desse mundo, estamos respondendo a ela através da ação doméstica do Brasil: tarefa que nós já fizemos e faremos, faremos o que for necessário para preservar o Real, já o disse o presidente Fernando Henrique Cardoso; e através da ação internacional do Brasil, eu diria que hoje o Brasil é um país que tem respeito, estatura, participa em sentido de igualdade, de maneira madura e responsável, nesses vários foros internacionais o Brasil é hoje uma presença absolutamente indispensável , pelo que somos e fizemos como país, pelo que faremos, por que estamos comprometidos com a preservação dos ganhos obtidos ao longo dos últimos anos. Nós não vamos abrir mão desses ganhos por que achamos que isso redunda em benefícios para a esmagadora maioria da população brasileira.

Eu queria pedir desculpas por ter me estendido mais do que deveria e terminar desejando votos de sucesso a esse encontro e, reiterando, mais uma vez, apesar das inúmeras dificuldades que nós e o mundo estão e estarão passando, essa crise estará conosco por algum tempo, expressar minha confiança no Brasil, não é no Governo Federal, no Brasil como país, na sociedade e no seu futuro.

 

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