Pronunciamentos

15/09/98

Malan: esforço internacional para prevenir crises

O ministro da Fazenda Pedro Malan, em entrevista à Radiobrás, fez comentários em relação a política econômica interna e externa do país. Leia abaixo a íntegra.   

Sem revisão do autor

Radiobrás – Qual é a estratégia que o Brasil está adotando desde o início dessa crise? Parece que se desenha uma estratégia do governo...Que passos o Brasil está trabalhando exatamente?

Ministro – É verdade, nós temos uma estratégia para lidar como uma crise que nos vem de fora, quem acompanha o contexto internacional tem visto o que tem acontecido, não só em países como a Indonésia, Tailândia, Malásia, Coréia, mas também países desenvolvidos como o Japão, a queda das bolsas de Nova Iorque, européias, mostrando uma grande volatilidade, a quase desintegração da Rússia depois da sua moratória unilateral que afetou as percepções sobre os chamados mercados emergentes. E essa situação com a qual estamos lidando não tem nada a ver especificamente com problemas com a economia brasileira, com dúvidas sobre a nossa capacidade de enfrentar essa turbulência. Ela nos vem de fora, mas isso não é consolo e nós temos que ter uma resposta, que é essa estratégia que você fez referência. A estratégia é a seguinte: nós estamos seguindo em situações de emergência uma necessária resposta do Banco Central, mas nós sabemos todos que a resposta do Banco Central é uma resposta de emergência, é transitória, nós temos que baixar essas taxas de juros e portanto estamos investindo como disse o presidente na medida provisória e no decreto que assinou no dia 8 de setembro. Nós vamos trabalhar na área fiscal, a reunião da Comissão de Gestão e Controle Fiscal que vai ter lugar amanhã, vai ser uma reunião importante, ela vai acontecer regularmente a cada quinze dias e ela tem poderes institucionais e legais de atingir as metas que nós estamos propondo. Além disso o presidente determinou, hoje é uma obrigação legal do governo, encaminhar o programa de ajuste fiscal, para o triênio 99/2000/2001. Portanto, a estratégia do Brasil se desdobra em duas vertentes: a primeira a nossa resposta em termos de política econômica interna, área monetária, fiscal, trabalhando com o Congresso Nacional, explicando à opinião pública porque a idéia de restrição orçamentária precisa ser integrada nessa discussão; a ação internacional do Brasil diz respeito a esse esforço de coordenação que eu gostaria, se você me permite falar em seguida, mas eu gostaria de aproveitar essa oportunidade para dar um claro recado aqueles que acham que é possível que o Brasil adote estratégias alternativas para lidar com a atual situação. Por exemplo, eu quero deixar claro que nós não vamos utilizar mecanismos de controle de fluxo de capital, saídas de capital. Nós não vamos fazer uma maxidesvalorização, nós não vamos deixar o câmbio flutuar. Essas sugestões que por vezes aparecem na imprensa estão totalmente descartadas pelo governo brasileiro. Nós vamos trabalhar na direção que já estamos trabalhando: política monetária, sabendo que é temporária a conservação da taxa de juros e na política fiscal para o próximo triênio. É nisso que nós estamos trabalhando, vamos fazer na verdade uma determinação da medida provisória.

Radiobrás – Agora e com relação ao empréstimo – quadro do FMI, que o ex-ministro Marcílio falou hoje que o Sr teria dito a ele que os países da América Latina terão uma linha de crédito como se fosse um cheque especial...

Ministro – Eu não usei essa expressão, pode ter sido uma interpretação do que o ex-ministro deu a uma discussão que tivemos, na verdade uma apresentação que fiz a um grupo de investidores internacionais. Aqui é muito importante fazer uma distinção entre as situações de países como Indonésia, Coréia, Tailândia e Rússia que foram países que receberam expressivas, dezenas de bilhões de dólares de assistência financeira externa. Mas é muito importante: como operações de salvamento, depois de uma crise que já havia se instalado. A situação do brasil e da América Latina é totalmente diferente. O Brasil tem 50 bilhões de dólares de reservas. Esses países quando receberam esse tipo de assistência tinham reservas nulas ou negativas, em alguns deles. Portanto o que nós estamos falando aqui é uma operação que não é de salvamento, é uma operação de natureza preventiva, é um esforço de coordenação internacional no qual o FMI desempenha um papel importante, como elemento coordenador desse esforço de coordenação, na medida em que os países são membros, como é o Brasil, desde a sua fundação como o são os países industriais que já demonstraram em sucessivas declarações, desde a reunião que tivemos com o ministro da Fazenda e presidente do Banco Central dos nove principais países da América Latina, em Washington, com o governo americano e o governo canadense e o Fundo já indicavam, haja vista as declarações do secretário Rubin e do presidente Clinton ontem em seu discurso em Nova Iorque, eles entendem a importância de operações de natureza preventivas de crise, totalmente distintas da natureza de operações de salvamento dessas quatro mais conhecidas que eu já citei anteriormente. Não é definitivamente a situação do Brasil ou de qualquer país expressivo da América Latina. Estamos falando aqui de um esforço de coordenação internacional de prevenção de crises. Aliás é uma oportunidade histórica que nós temos de mostrar a capacidade que o Brasil e outros países da América Latina e das instituições multilaterais e dos governos dos países do G7 em atuar de maneira coordenada e concertada para prevenir uma crise que poderia vir a ocorrer caso essa ação preventiva não tivesse lugar. O ponto aqui, se você me permite: depois da moratória unilateral da Rússia, a avaliação de risco dos países emergentes, em geral, chegou a um nível que nós consideramos totalmente inadequado e que não se justifica com base nos fundamentos das nossa respectivas economias e com base no esforço que fizemos, estamos fazendo e continuaremos a fazer para preservar os ganho que obtivemos ao longo dos últimos. Preservar a estabilidade do poder de compra da moeda nacional, preservar a estabilidade macroeconômica e é isso que importa e é isso que nós vamos fazer. Se há algum custo envolvido nessa defesa do Real eu posso lhe assegurar: o custo de não fazer essa defesa, como mostra os menos 15% de declínio do PIB da Indonésia, menos 6 menos 7 na Coréia, é muito maior que o custo da paralisia, da inação ou de qualquer desses planos alternativos que circulam por aí como imposição de controle de saída de capital, desvalorizações ou flutuações do câmbio.

Radiobrás – Agora nesse exato momento, qual é a avaliação que o sr. faz. O Brasil acabou de privatizar ontem o Bemge, com ágio de 85%, hoje privatizou o Gerasul, os investidores estrangeiros vieram hoje ao seu gabinete, Merril Lynch, Exim Bank...como é que o sr. está vendo o aporte do chamado capital produtivo?

Ministro – Isso é da maior importância porque o investimento direto desse tipo que você fez referência hoje, por exemplo, o leilão da Gerasul foi um investimento de quase 1 bilhão de dólares, é um investimento estrangeiro na economia que vai entrar como fluxo daqui a alguns dias mais. Além disso vamos ter o leilão da Bandeirantes essa semana ainda, teremos ainda ingresso por realizar as compras dos bancos, por exemplo o ABN-AMRO, a privatização do Bemge, que embora não tenha envolvido ingresso de recursos externos, é da maior importância, o ágio foi expressivo. Essas decisões de investimento são decisões que estão sendo tomadas não levando em conta a cotação das bolsas de um dia tal, o que ela pode vir a ser amanhã ou a manchete do jornal do dia. São decisões que estão sendo tomadas olhando médio e longo prazo e são expressões de confiança no Brasil e é sintomático que nós tenhamos mais de 22, 23 bilhões de dólares de investimento direto, nesses últimos doze meses, mais de 60% do nosso déficit em conta corrente, que está baixando, está sendo financiado por investimento direto. Portanto, eu atribuo importância porque são indicadores de mercado tão relevantes ou mais do que esses outros indicadores de mercado quando ele entra em uma espécie de pânico e procura comportamentos defensivos como nós observamos no período recente. Pânicos não se sustentam indefinidamente, esse passará como passaram outros pânicos como em 95 e no final do ano passado. O Brasil seguirá em frente confiante no seu futuro.

Radiobrás – O sr. vê que as bolsas têm sido hoje uma espécie de termômetro, as pessoas estão se balizando muito pelo movimento das bolsas, então tem dia em SP, Bovespa, cai 15%, aí três dias depois a bolsa sobe 10% e isso dá uma sensação de que a economia está totalmente desgovernada. Como é que o sr avalia essas altas súbitas da bolsa. O Brasil pode se balizar pelo movimento das bolsas e dizer que está tudo bem agora, as bolsas estão se comportando normalmente, vai ficar nesse patamar de 9 ou 10%. Qual seria a normalidade?

Ministro – Hoje, no momento em que falamos, eu vi na tela do computador há poucos instantes, estava em torno de 17% de aumento, terceiro dia consecutivo de aumento sexta, ontem e hoje. Eu acho que bolsas têm uma volatilidade natural e a condução da política econômica de um país não pode e não deve ser feita ao sabor dessas volatilidades e flutuações de bolsas. Eu acho que se sustentável esse crescimento, não acredito que seja a essas taxas, isso é uma recuperação de queda expressivas que aconteceram no momento de maior pânico, eu espero que estejamos em vias de superar. Mas a política econômica do país tem que ser feita olhando a médio prazo e não se deixando levar por flutuações e volatilidades de bolsas de valores.

Radiobrás – O sr. disse que a questão dos juros é temporária. Existe a possibilidade de, por exemplo, o FED, dia 29, acenar com a possibilidade de baixar os juros americanos; o sr. acha que o Brasil poderia acompanhar essa tendência e começar de novo o processo de redução da taxa de juros e reduzir o ônus que essa taxa tem na economia?

Ministro - Eu acho que são coisas independentes. Eu espero, tenho dito de público, que no dia 29, que é a reunião do FED, que eles tomem uma decisão de reduzir as taxas de juros americanas, que seria uma contribuição importante para a economia mundial, o comércio mundial , o crescimento da demanda por importações dos Estados Unidos que são em parte a demanda pelas nossas exportações. Eu espero que o façam. Contribuiria para reduzir essa fuga para a qualidade, por títulos americanos, seria algo positivo. Quanto a nossa capacidade de reduzir, como é nossa intenção, a taxa de juros depende fundamentalmente da nossa capacidade de mostrar a nós mesmos que estamos sendo capazes de enfrentar o desafio do nosso ajuste fiscal. Quanto mais rapidamente nós sejamos capazes de fazer um programa fiscal:  forte, crível,   passível de ser implementado, que leve a resultados primários crescentes, a estabilização da dívida pública,  tão mais rapidamente deverão declinar as taxas de juros no país. - Eu acho que são coisas independentes. Eu espero, tenho dito de público, que no dia 29, que é a reunião do FED, que eles tomem uma decisão de reduzir as taxas de juros americanas, que seria uma contribuição importante para a economia mundial, o comércio mundial , o crescimento da demanda por importações dos Estados Unidos que são em parte a demanda pelas nossas exportações. Eu espero que o façam. Contribuiria para reduzir essa fuga para a qualidade, por títulos americanos, seria algo positivo. Quanto a nossa capacidade de reduzir, como é nossa intenção, a taxa de juros depende fundamentalmente da nossa capacidade de mostrar a nós mesmos que estamos sendo capazes de enfrentar o desafio do nosso ajuste fiscal. Quanto mais rapidamente nós sejamos capazes de fazer um programa fiscal:  forte, crível,   passível de ser implementado, que leve a resultados primários crescentes, a estabilização da dívida pública,  tão mais rapidamente deverão declinar as taxas de juros no país.

 

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