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Pronunciamentos
10/09/98
Transcrição da
Entrevista do Ministro Pedro Malan à Rádio CBN
Sem revisão do autor
CBN - Ministro, boa
tarde. Nós sabemos que as bolsas de valores de todo mundo operaram em baixa,
desde o sudoeste asiático, passando inclusive pela Europa e até Estados Unidos.
As fortes quedas na Europa, inclusive, foram atribuídas, entre outros fatores,
a negócios em países da América Latina. E no Brasil, há essa queda na bolsa
de São Paulo e do Rio também. Eu gostaria que o Sr. comentasse o porquê dessa
queda no Brasil e porque ela está sendo maior que em outros países?
Ministro - Como você
notou muito bem, essa queda que nós observamos hoje é uma queda que está
ocorrendo em todas a s bolsas do mundo sem exceção. Eu tenho dito que não é
razoável supor que quando todas as bolsas do mundo caem, que a única bolsa que
esteja imune ou não afetada por isso seja a bolsa brasileira. Há uma espécie
de pânico, uma emotividade muito grande, eu diria que uma certa irracionalidade
coletiva que às vezes assalta certo tipo de mercado e que leva as pessoas a
determinados tipos de comportamento que absolutamente não se justificam. Eu
queria assegurar a você e aos ouvintes da rádio CBN que não vai haver
qualquer alteração na política do governo no que diz respeito a taxa de câmbio.
O presidente Fernando Henrique tem dito e eu queria aproveitar a oportunidade
para reiterar aqui que o governo brasileiro tem condições e tomará as medidas
necessárias para preservar o Real, o programa de estabilização e a
estabilidade de poder de compra do Real. Portanto não tem nenhum cabimento,
nenhum sentido, esse pânico que está assaltando alguns aqui por conta do pânico
que está tomando conta de vários países do mundo, expressados na queda das
bolsas.
CBN - Sim ministro,
a CBN percorreu sete lojas de câmbio do centro, por exemplo do Rio de Janeiro,
com cotações de R$ 1,31 para a compra e R$1,45 para a venda, que está
suspensa. O Sr. está dizendo que esses dados não preocupam o Sr?
Ministro - Eu diria
o seguinte, com todo a tranqüilidade, as pessoas que estão apostando nessa
possibilidade vão perder dinheiro, eu lamento que por conta de um açodamento,
de uma impaciência, de uma pura emotividade, pânico, resolvam tomar decisões
dessa natureza que os fará perder dinheiro. Isso é o que eu tinha a dizer. O
governo não vai deixar de lado a sua firme determinação de defender o Real e
de assegurar a continuidade do programa de estabilização que na verdade
interessa à maioria da população brasileira. A preservação do poder
aquisitivo do Real que é a preservação do salário do trabalhador brasileiro.
CBN - Como
fundamentar essa argumentar essa fundamentação de que vão perder dinheiro,
essas pessoas...
Ministro - Por que
pessoas que estão comprando moeda estrangeira, a essa taxa, o estão fazendo na
expectativa de que as taxas chegarão a esses níveis por alguma razão. Nesses
sentido é que eu acho que existe uma expectativa equivocada, e quem está
fazendo essas compras achando que são uma grande proteção ou um grande
investimento, vai infelizmente ter uma decepção grande.
CBN - Justamente
porque o Sr. está falando sobre esse aspecto ministro, eu gostaria de perguntar
o seguinte: o Sr. considera que o mercado e essas pessoas a quem o Sr. está se
referindo, essas pessoas não estariam apostando naquelas medidas tomadas pelo
governo brasileiro essa semana? Seria isso?
Ministro - Eu acho
que é mais do que isso. Eu acho que, as medidas, como eu já tive aqui mais de
uma ocasião de expressar aqui a nossa serena, firme e tranqüila convicção, não
foram interpretadas corretamente por parte do mercado, que reagiu de uma maneira
instintiva, emotiva, sem sequer se dar ao trabalho de analisar o seu significado.
E se me permite, rapidamente, quando nós dissemos para 1998, este ano, que nós
estamos assumindo um compromisso de geração de um superávit primário de R$ 5
bilhões de reais, isto é para o Governo Central, mas este ano nós vamos ter
um déficit quase de R$ 7 bilhões da Previdência, que é parte integrante do
Governo Central. Isso significa que nós estamos assumindo um compromisso de
gerar um superávit primário do Tesouro Nacional da ordem de R$ 12 bilhões nos
três meses e três semanas que faltam para concluir esse ano. Esse é um
programa extremamente duro, não fazemos corte adicional de R$ 4 bilhões não
é no orçamento como um todo, é no orçamento de custeio e investimento do
governo, que são R$ 38 bilhões. Isso é um corte de mais de 10%em três meses
e três semanas. Estamos impondo limitações ao "restos a pagar",
quer dizer, na transferência de gastos de 98 para o ano de 99. Estamos
limitando em 80%, até 31 de outubro, os empenhos realizados e quem chegar até
os 80% não poderá empenhar mais nada em novembro e dezembro a não ser que
cancele empenhos anteriores. Estamos criando essa comissão de gerenciamento e
controle fiscal que tem poderes para fazer cumprir esta meta e responsabilidade
perante os ministros e o Presidente da República por fazê-lo cumprir. Para o
ano que vem, já definimos o valor de superávit primário levando em conta o déficit,
qualquer que ele seja, da Previdência, é mais uma razão para reiterar minha
expectativa para que o Congresso se mova rápido para aprovar a quarta e última
votação que falta da reforma Constitucional da Previdência e já bloqueamos
cerca de 20% dos recursos do orçamento de 99 para assegurar o cumprimento dessa
meta. Assumimos o compromisso, por último, em lei, de enviar ao Congresso em
novembro, até o início de novembro, um programa de ajuste fiscal para o triênio
99/2000/2001, que tem o objetivo de estabilizar a relação dívida Produto
Interno Bruto da economia brasileira neste período. É um programa duro e é
sintomático que as pessoas que entendem de finanças públicas no Brasil, dou
um exemplo aqui, Maílson da Nóbrega, Raul Veloso, Marcílio Marques Moreira,
tenham feito uma avaliação extremamente positiva, como fez hoje o vice-Diretor
do Fundo Monetário Internacional, depois de analisar à medida que o Brasil vem
reagindo de forma apropriada a essa turbulência internacional que nos está
vindo de fora, que não tem a ver com deficiências da economia brasileira ou
com falta de ação decidida e determinada por parte do governo para defender e
preservar o Real. Nós continuaremos empenhados nisso e o Presidente tem dito
que nós não hesitaremos em tomar medidas que se façam necessárias para
preservar o Real.
CBN - Ministro,
confirma a informação, por favor. O governo chegou a oferecer hoje juros de
31,5% em algum momento?
Ministro - Hoje
houve um leilão informal de DBC, em que os juros chegaram a 31,5%. É verdade.
CBN - Bom, ministro,
para concluir esta nossa entrevista, o Diretor de Política Monetária do Banco
Central, Francisco Lopes, diz que as reservas brasileiras estão em US$ 55 bilhões
e a imprensa fala em saídas fortes nos últimos dias. Qual é ministro, o fôlego
das reservas para enfrentar este momento?
Ministro - Eu acho
que nós temos um nível bastante razoável e confortável de reservas. São
poucos os países do mundo que têm reservas do nível que tem o Brasil agora e
elas são suficientes para defender de maneira adequada o Real e a política
cambial do governo, que volto a insistir, não será alterada, e, portanto, estão
correndo risco aqueles que estão apostando na alteração dessa política.
CBN - O senhor tem
informações de saída de capitais hoje e pode nos dizer alguma coisa em relação
a esse tema, ministro?
Ministro - Eu não
acompanho isso numa base diária mas eu acho que essas coisas têm que ser
vistas ao longo de alguns dias. Foi assim na crise de março de 95, na crise do
México, foi assim na crise de outubro do ano passado, quando nós temos esse
meio pânico em escala internacional, essa queda generalizada de bolsas, essa
incerteza, a fuga para a qualidade, fuga para papéis do Tesouro Americano. Há
certos dias em que são necessários, até que se normalize o fluxo e, portanto,
eu acho que não devemos ficar sobressaltados com os indicadores de apenas
algumas horas de um dia.
CBN - Ministro,
muito obrigado pela entrevista.
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