Pronunciamentos

10/09/98

Transcrição da Entrevista do Ministro Pedro Malan à GloboNews

Sem revisão do autor

GloboNews – Ministro o mercado reagiu com cautela às medidas anunciadas pelo Governo, alguns analistas afirmam que as medidas chegaram com atraso outros desconfiam do resultado dessas medidas, há ainda aqueles que desconfiam da credibilidade do Governo nesse momento. Desde outubro do ano passado, no auge da crise asiática, o Governo lançou um pacote fiscal com 51 medidas que não foi seguido à risca. Hoje, o Senhor declarou que o mercado ainda reconhecerá a importância dessas medidas de ajuste fiscal, porquê?

Ministro – Estou convencido que o mercado, na medida em que se concentre em aprofundar o seu entendimento sobre essas medidas chegará a essa conclusão. Deixe-me tentar explicar as razões pelas quais acho isso. A primeira delas é a seguinte: é uma medida importante no sentido em que nós estamos fixando um superávit primário para o Governo Central que inclui a previdência social, que vai ter um déficit de 7 bilhões de reais neste ano. Portanto nós estamos dizendo que vamos gerar um superávit primário na parte do Governo Central, que não é a Previdência, da ordem de R$ 12 bilhões, o que é um superávit primário expressivo. Em segundo lugar, nós vamos fazer um corte adicional da ordem de R$ 4 bilhões, não sobre o orçamento total, mas sobre a parte custeio e investimento que é de pelo menos de 40 milhões. Portanto, é um corte de mais de 10% sobre a parte de custeio e investimento e não vai ser diluído ao longo de 12 meses, vai ser um corte que vai ser feito nos 3 meses e 3 semanas que restam para terminar o ano. Ao resolvermos a questão do "restos a pagar", transferência de gastos para o exercício seguinte, estamos impondo o limite até 31 de outubro deste ano, quem tiver comprometido mais de 80%, só pode comprometer mais desde que cancele algum empenho anterior. Isto, para 98, é um ajuste expressivo e as pessoas se darão conta disso. Para 99, nós temos um superávit primário também cobrindo o déficit da Previdência de R$ 8,7 bilhões. Estamos já colocando bloqueados 20% do total para assegurar o cumprimento desta meta. E, por último, estamos assumindo o compromisso em lei de encaminhar ao Congresso Nacional, até 15 de novembro, programa para o triênio 1999/2001, que terá como objetivo assegurar a estabilização da razão dívida líquida com proporção do PIB. Isso será feito e portanto eu acho que isso é uma mudança muito expressiva no regime fiscal brasileiro.

GloboNews Agora, Ministro, além do mercado aqui no Brasil, os jornais internacionais também acharam as medidas modestas. Se essa desconfiança tanto do mercado, dos investidores, dos analistas, continuar, o governo pode adotar novas medidas ou vai ser possível convencê-los de que essas medidas são suficientes?

Ministro - Eu acho que acharam modestas porque, de alguma maneira, se gerou e é normal, no mercado essas coisas acontecem, um grau de expectativa absolutamente exacerbado quanto a uma magnitude de um ajuste fiscal: eu cheguei a ver uma manchete de um jornal daqui que falava em cortes em mais de R$ 20 bilhões no orçamento de custeio e investimento. Isso significa um corte de mais de 50% nos últimos três meses do ano. Isso não é uma coisa realista, plausível, eu acho que alguns do mercado e da mídia, devo dizer, se deixaram levar por um processo de expectativas e aí quando vem algo que é realista, que faz sentido, que introduz de maneira muito expressiva a restrição orçamentária no debate político e econômico neste país, acho que ficou um pouco aquém das suas expectativas que haviam sido exacerbadas por razões que freqüentemente ocorrem nesta área. Eu acho que acharam modestas porque, de alguma maneira, se gerou e é normal, no mercado essas coisas acontecem, um grau de expectativa absolutamente exacerbado quanto a uma magnitude de um ajuste fiscal: eu cheguei a ver uma manchete de um jornal daqui que falava em cortes em mais de R$ 20 bilhões no orçamento de custeio e investimento. Isso significa um corte de mais de 50% nos últimos três meses do ano. Isso não é uma coisa realista, plausível, eu acho que alguns do mercado e da mídia, devo dizer, se deixaram levar por um processo de expectativas e aí quando vem algo que é realista, que faz sentido, que introduz de maneira muito expressiva a restrição orçamentária no debate político e econômico neste país, acho que ficou um pouco aquém das suas expectativas que haviam sido exacerbadas por razões que freqüentemente ocorrem nesta área.

GloboNews A economia possível deste ano está na ordem de R$ 4 bilhões através dessas medidas de ajuste. As despesas do governo com juros em função da elevação de juros para 19 e de 19 para 29,75%, segundo cálculos, chegaria a R$ 12 bilhões. Não fica um rombo muito maior do que o buraco...

Ministro – Essa estimativa está absolutamente equivocada. Isso aí equivale a uma estimativa de R$ 3 bilhões por mês multiplicado por quatro meses. As nossas estimativas são da ordem de metade deste valor. E depois, o objetivo nosso não é seguramente tentar gerar um superávit primário que esteja sempre compensando, no calor do momento, as eventuais elevações de taxas de juros, de maneira transitória, que tenham que ser feitas. Nós temos que fazer o ajuste fiscal do país porque temos que fazê-lo. Temos que ter esta cultura de respeito à restrição orçamentária no governo federal, estadual e municipal. É que governos, qualquer que seja o nível, qualquer que seja o país, não podem sistematicamente gastar mais do que arrecadam. Isso significa aumento de endividamento, que são gastos futuros, ou a volta da inflação, que é um imposto inflacionário, mecanismo que nós usamos de maneira vergonhosa e farisaica durante três décadas neste país, que significa mandar a conta para os mais pobres através do imposto inflacionário. Se nós não queremos reacender a chama do processo inflacionário e sabemos que temos limites ao endividamento público, seja interno, seja externo, nós não temos alternativas senão procurar adequar gastos à capacidade de arrecadação. Isso vale para municípios, estados e governo federal.

GloboNews – (Joelmir Betting) – Senhor Ministro, no déficit público, que é a nossa verdadeira raiz da vulnerabilidade interna e externa, o Brasil estaria pagando tributos políticos a dois excessos de zelo contábil. O primeiro: o da abrangência do déficit, que ao contrário da maioria dos países, inclui União, estados e municípios, estatais e Previdência e o segundo, o da transparência do déficit, porque, nos últimos quatro anos, incorporamos todos os esqueletos escondidos nos armários da União, dos estados, dos municípios, das estatais, começando pelo Banco do Brasil, passando pelo Banespa e alcançando o próprio Banco Central. Então, porque não explicar tudo isso claramente, aqui dentro e lá fora, inclusive à Moody’s, a tal de Moody’s, sabe disso?

Ministro – Olha, o ponto que foi levantado é um ponto da maior importância e nós temos procurado, Joelmir, há muito tempo chamar a atenção de analistas internacionais, das instituições multilaterais e, aqui dentro, no debate político com freqüência este ponto é esquecido. Você notou muito bem, na maioria dos países do mundo o resultado fiscal é o resultado do Governo Central, inclui Executivo Federal e, no máximo, a Previdência. Nossas estatísticas incluem isto e mais o resultado de 27 estados, 5.520 municípios e mais a totalidade das empresas públicas federais, estaduais e municipais, além disso, como Joelmir notou, nós estamos explicitando esqueletos que estavam no armário, legados do passado, ele mencionou todos aqui, no sentido de conferir transparência à magnitude do nosso problema fiscal. É, realmente, terrível ver a simplicidade, a desinformação e a falta de comparabilidade internacional quando eu vejo, por exemplo, o nosso déficit, as nossas estatísticas, que tem esse grau de cobertura, comparados com as estatísticas de outros países que dizem, única e exclusivamente, respeito ao Governo Central. Falam com freqüência comparação nossa com a Rússia, que teria um déficit só da parte federal da ordem de 7% do PIB. Esquecem que é uma federação que tem inúmeras entidades, não existe informação apropriada, não são consideradas as empresas e, no entanto, eu vejo com freqüência uma comparação: o Brasil é a Rússia, um país em desagregação econômica, financeira, política e institucional e, portanto, o Brasil, como tem um déficit público parecido, embora medido de forma totalmente diferente, está sujeito a reproduzir a experiência da Rússia. Isso eu acho ingenuidade, desinformação, para não usar outras expressões.

GloboNews (Jorge Vidor) – Ministro, pelas discussões que o senhor já teve aqui e pelas reportagens que já saíram no jornal, o senhor deve estar percebendo que o governo está tendo uma grande batalha de comunicação, já que é essa batalha que vai definir se o governo reconquista a credibilidade dos investidores ou não. Amanhã, o Banco Central deve divulgar estatísticas defasadas sobre o déficit público, que se referem a junho. Tudo indica que foi um péssimo mês para as contas públicas. Ora, se o governo divulgar essas informações, claro que elas têm uma metodologia e têm uma certa defasagem, o governo se prendeu ao formalismo de manter aquelas informações paradas em junho, sem uma análise. Que traga valores presentes e diga como está a situação do déficit público hoje, talvez, isso vá ter um efeito muito negativo no mercado. Nós não sabemos, por acaso, quanto está o superávit primário hoje do governo e quanto é o esforço fiscal que realmente terá que ser feito até o final do ano. O senhor não podia então adiantar alguma coisa sobre isso?

Ministro – Eu acho que a divulgação desse resultado é importante e será feita amanhã, não só pelo Banco Central como também para o Governo Central, pelo ministério da Fazenda. Agora, eu acho que nessa questão, é importante olhar não através do espelho retrovisor, olhando o que já aconteceu, mas tentar olhar para frente também. As nossas estatísticas estão capturando o efeito da elevação dos juros que teve lugar por ocasião da crise asiática, elas estão refletidas no componente de juros nominais do déficit público consolidado. É preciso fazer algum exercício para frente para mostrar como essa questão vai evoluir e é preciso, fundamentalmente, entender que nós estamos trabalhando, há alguns anos, na direção, por exemplo, de reduzir componentes importantes deste déficit. No que diz respeito a empresas públicas, nós estamos avançando na privatização. Eu digo com serena e tranqüila convicção que nós vamos reduzir a contribuição do conjunto de empresas públicas para o déficit consolidado através da continuidade do processo de privatização. No que diz respeito a estados, nós passamos dois anos negociando a dívida deles e temos acordos com 24 dos 27 estados e mais um protocolo com o Distrito Federal que está sendo cumprido, que me permitem dizer, também com convicção, que nós vamos reduzir ao longo dos próximos meses e anos a contribuição de estados e municípios para o déficit fiscal consolidado. Nós temos um grande desafio não resolvido mas que não é do governo, é da sociedade, de resolver problemas do desequilíbrio estrutural crescente da Previdência nos seus múltiplos regimes, este é o grande desafio hoje. Eu olho essa questão e é a razão pela qual colocamos um horizonte em três anos, não na perspectiva de um resultado mensal de déficit ou dois meses ou três meses, mas na perspectiva dos próximos meses e anos. Nós teremos necessidade, como fizeram os países europeus, que tiveram alguns anos para se ajustar aos 3% de Maastrich que acordaram, nós vamos precisar também de uns dois, três anos, para reduzir a cerca da metade o atual déficit que nós temos. Nós temos toda a condição de fazê-lo se resolvermos a grande interrogação que é hoje o crescente déficit da Previdência Social no Brasil.

GloboNews – (Joelmir Betting) - Senhor Ministro, voltando ainda para a cena internacional. De susto em susto, e os sustos vão continuar, a crise global não estará produzindo as condições políticas finalmente adequadas para uma nova Bretton Woods de uma nova ordem monetária internacional sob a arbitragem de um novo FMI, essa disciplina pactuada não será a única solução para a fuzarca financeira global e qual seria o papel do Brasil nessa negociação?

Ministro - Olha, eu acho que o Joelmir tem razão ao notar que está havendo uma deterioração no cenário internacional que deixou de ser visto hoje como acumulação de problemas específicos nos países em desenvolvimento da Ásia, como Tailândia, Indonésia, Coréia, no Japão, segunda maior economia do mundo, há anos sem conseguir equacionar de forma consistente seus problemas, na Rússia, a desagregação, as incertezas e a volatilidade da bolsa norte-americana e o Presidente do FED reconheceu explicitamente num discurso sexta-feira passada, que seria ingenuidade imaginar que os EUA possam ter o seu esplêndido isolamento extraordinário que sempre tiveram ao longo dos últimos anos num quadro de um mundo com problemas crescentes. De modo que eu acho que na medida que a crise e o sentimento e a percepção me aguça, é inexorável que se mobilizem corações, mentes, espíritos e governos que continuam e que continuarão a ser agentes protagônicos para algo que eu não sei se terá essa característica de um novo arranjo do sistema, mas seguramente por uma ação mais coordenada e mais concertada para lidar com as dificuldades do momento presente, eu acho que transcenderão ações isoladas, como por exemplo, as que eu espero que ocorram no dia 29 de uma redução da taxa de juros norte-americana e o grau de concertação requerido dadas as perspectivas dos próximos meses exigirá uma coordenação maior. Olha, eu acho que o Joelmir tem razão ao notar que está havendo uma deterioração no cenário internacional que deixou de ser visto hoje como acumulação de problemas específicos nos países em desenvolvimento da Ásia, como Tailândia, Indonésia, Coréia, no Japão, segunda maior economia do mundo, há anos sem conseguir equacionar de forma consistente seus problemas, na Rússia, a desagregação, as incertezas e a volatilidade da bolsa norte-americana e o Presidente do FED reconheceu explicitamente num discurso sexta-feira passada, que seria ingenuidade imaginar que os EUA possam ter o seu esplêndido isolamento extraordinário que sempre tiveram ao longo dos últimos anos num quadro de um mundo com problemas crescentes. De modo que eu acho que na medida que a crise e o sentimento e a percepção me aguça, é inexorável que se mobilizem corações, mentes, espíritos e governos que continuam e que continuarão a ser agentes protagônicos para algo que eu não sei se terá essa característica de um novo arranjo do sistema, mas seguramente por uma ação mais coordenada e mais concertada para lidar com as dificuldades do momento presente, eu acho que transcenderão ações isoladas, como por exemplo, as que eu espero que ocorram no dia 29 de uma redução da taxa de juros norte-americana e o grau de concertação requerido dadas as perspectivas dos próximos meses exigirá uma coordenação maior.

GloboNews – (Adriana Mota) - Ministro, hoje o Presidente Fernando Henrique disse, numa reunião a portas fechadas com pastores evangélicos, que falta ao Japão criar um PROER para enfrentar essa situação financeira internacional. O que o Senhor acha disso?

Ministro - Eu acho que eles têm créditos ruins no seu sistema financeiro, as estimativas variam de US$ 700 bilhões a US$ 1 trilhão e até agora têm se mostrado incapazes de apresentar uma solução coerente e consistente para o equacionamento deste problema com o qual convivem há alguns anos e que se torna mais grave a medida que passa o tempo. Como é uma economia com PIB de US$ 4,2 trilhões ou US$ 4,3 trilhões, não há dúvidas da capacidade que teriam, a um custo que vai ser elevado, de equacionar essa questão através de um mecanismo como o PROER ou outros que foram utilizados em outros países, em outros conceitos, mas que seguramente precisa ser feito, assim como precisam relançar o crescimento de sua economia, porque não há perspectiva de retomada do crescimento da região asiática, sem uma retomada do crescimento da daquela que é por larga margem, a maior economia da região. - Eu acho que eles têm créditos ruins no seu sistema financeiro, as estimativas variam de US$ 700 bilhões a US$ 1 trilhão e até agora têm se mostrado incapazes de apresentar uma solução coerente e consistente para o equacionamento deste problema com o qual convivem há alguns anos e que se torna mais grave a medida que passa o tempo. Como é uma economia com PIB de US$ 4,2 trilhões ou US$ 4,3 trilhões, não há dúvidas da capacidade que teriam, a um custo que vai ser elevado, de equacionar essa questão através de um mecanismo como o PROER ou outros que foram utilizados em outros países, em outros conceitos, mas que seguramente precisa ser feito, assim como precisam relançar o crescimento de sua economia, porque não há perspectiva de retomada do crescimento da região asiática, sem uma retomada do crescimento da daquela que é por larga margem, a maior economia da região.

Globo News - (Franklin Martins ) - Ministro, vamos supor e estamos todos torcendo por isso, que o governo consiga vencer essa queda de braço com o mercado e que o mercado se convença de que realmente o ajuste fiscal vai no rumo certo, ou seja, recuperar a credibilidade. A minha pergunta é que acho que está menos no mercado, menos nos economistas, está mais nas pessoas comuns que é o seguinte: todo mundo acha que o Real é uma coisa fantástica, todo mundo acha ótimo ter uma moeda estável que tenha poder de compra, poder aquisitivo garantido, etc e tal. Mas nós tivemos em outubro do ano passado a crise da Ásia e em função disso o governo teve que elevar os juros e isso produziu o arrefecimento da atividade econômica e, na esteira, o desemprego. Agora quando a situação começava a dar algum sintoma de que podia sair, nós estamos tendo essa crise mais uma vez o governo precisa subir os juros, vem desaquecimento e vem mais desemprego. Então será que nós estamos fadados a ter uma boa moeda, uma moeda com poder de compra, mas que a cada ano, a cada dez meses, somos obrigados a dar uma paulada e meter o freio na economia e gerar desemprego. Existe uma saída para essa armadilha?

Ministro - Acredito que a saída se desdobra em duas vertentes. Uma é a ação doméstica do Brasil, eu acho que há um custo na reação, em termos de medidas domésticas e em termos de políticas, que não pode, que não deve se restringir à ação do Banco Central, que deve envolver o Executivo Federal através do tipo de medidas que tomamos ontem, que não são tímidas que vou voltar a insistir mais uma vez aqui, através da ação do Congresso Nacional. É sintomático que nós tenhamos consultado, comunicado e conversado com o Presidente do Senado, o Presidente da Câmara e o Presidente do Supremo Tribunal Federal sobre as razões que nos levaram a tomar as medidas que tomamos. A observação que eu faria aqui, Franklin, é a seguinte: os países que não tiveram capacidade de responder a isso, veja a Indonésia que vai ter uma queda de produto de menos 15% este ano, Coréia e Tailândia que não responderam a tempo, Rússia. É sempre possível chamar a atenção para o custo que existe numa resposta a um evento externo fora do seu controle, eu lhe asseguro que o custo da não resposta, da inação, da paralisia, de uma postura de se considerar vítima de um evento externo fora de controle, é muito maior que o custo da adoção de medidas para lidar com a turbulência. A outra vertente é uma ação internacional. O Brasil tem estado ao longo dos últimos anos cada vez mais ativo nos vários foros internacionais que participa, inclusive sendo convidado pela 1ª vez na história a participar de alguns deles como o Banco de Compensações Internacionais, que é o Banco Central dos Bancos Centrais na Basiléia; no G-7 mais outros países em desenvolvimento. O Brasil tem uma credibilidade, uma confiabilidade como país que é crescente ao longo dos últimos anos e que não teria se nós não tivéssemos sido capazes de nos livrarmos do flagelo inflacionário que é uma expressão correta, ao meu ver, de uma incapacidade de um país de lidar com um problema básico e de viver sem impor o ônus do imposto inflacionário sobre a maioria de sua população. Eu acho que com a inflação em baixa nós passamos a poder não só ter mais respeito internacional como passamos a poder discutir seriamente, como introduzir a idéia de restrição orçamentária, que é corriqueira em qualquer país sério e responsável no mundo, no nosso debate tanto político quanto econômico. Fazer isso em vez de fingir que isso não era o problema como nós fingimos durante quase três décadas, usando a inflação para nos iludir a todos. Achávamos que nós estávamos vivendo sem precisar levar em conta a restrição orçamentária, o que era uma grande ilusão. Acabou a ilusão, vamos enfrentar de frente o nosso problema. - Acredito que a saída se desdobra em duas vertentes. Uma é a ação doméstica do Brasil, eu acho que há um custo na reação, em termos de medidas domésticas e em termos de políticas, que não pode, que não deve se restringir à ação do Banco Central, que deve envolver o Executivo Federal através do tipo de medidas que tomamos ontem, que não são tímidas que vou voltar a insistir mais uma vez aqui, através da ação do Congresso Nacional. É sintomático que nós tenhamos consultado, comunicado e conversado com o Presidente do Senado, o Presidente da Câmara e o Presidente do Supremo Tribunal Federal sobre as razões que nos levaram a tomar as medidas que tomamos. A observação que eu faria aqui, Franklin, é a seguinte: os países que não tiveram capacidade de responder a isso, veja a Indonésia que vai ter uma queda de produto de menos 15% este ano, Coréia e Tailândia que não responderam a tempo, Rússia. É sempre possível chamar a atenção para o custo que existe numa resposta a um evento externo fora do seu controle, eu lhe asseguro que o custo da não resposta, da inação, da paralisia, de uma postura de se considerar vítima de um evento externo fora de controle, é muito maior que o custo da adoção de medidas para lidar com a turbulência. A outra vertente é uma ação internacional. O Brasil tem estado ao longo dos últimos anos cada vez mais ativo nos vários foros internacionais que participa, inclusive sendo convidado pela 1ª vez na história a participar de alguns deles como o Banco de Compensações Internacionais, que é o Banco Central dos Bancos Centrais na Basiléia; no G-7 mais outros países em desenvolvimento. O Brasil tem uma credibilidade, uma confiabilidade como país que é crescente ao longo dos últimos anos e que não teria se nós não tivéssemos sido capazes de nos livrarmos do flagelo inflacionário que é uma expressão correta, ao meu ver, de uma incapacidade de um país de lidar com um problema básico e de viver sem impor o ônus do imposto inflacionário sobre a maioria de sua população. Eu acho que com a inflação em baixa nós passamos a poder não só ter mais respeito internacional como passamos a poder discutir seriamente, como introduzir a idéia de restrição orçamentária, que é corriqueira em qualquer país sério e responsável no mundo, no nosso debate tanto político quanto econômico. Fazer isso em vez de fingir que isso não era o problema como nós fingimos durante quase três décadas, usando a inflação para nos iludir a todos. Achávamos que nós estávamos vivendo sem precisar levar em conta a restrição orçamentária, o que era uma grande ilusão. Acabou a ilusão, vamos enfrentar de frente o nosso problema.

Globo News - (André Trigueiro) - Ministro, há uma imensa expectativa, talvez nunca tantos torcerão tanto para uma redução da taxa de juros nos EUA, só saberemos no dia 29. Eu queria saber a expectativa do Senhor em relação a esse assunto e qual o real impacto de uma eventual redução na economia brasileira nesse momento da crise?

Ministro - Bom, eu tenho mais que expectativas, o Brasil tem tido uma posição muito explícita em foros internacionais. Tivemos a oportunidade de dizer isso claramente ao Tesouro americano e ao Federal Reserve na reunião que tivemos semana passada em Washington, vários ministros da América Latina disseram isso também, sabemos que essa decisão é decisão do governo americano, levando em conta a sua situação. Mas eu acho que existe uma crescente preocupação em levar em conta não só os efeitos sobre a economia doméstica nos EUA, mas também as implicações internacionais de uma decisão como essa. Acho que ela teria o efeito de lidar com essa desaceleração da atividade econômica no mundo, do comércio internacional, da própria economia americana que estará caminhando para uma desaceleração do crescimento, inexoravelmente. Essa redução teria o efeito de reduzir essa desaceleração. Nós estamos falando aqui de uma economia que importa US$ 1 trilhão por ano, portanto o fato dela estar crescendo é um enorme mercado para países que necessitam ampliar suas exportações. A redução tem o efeito de reduzir custos nos serviços da dívida externa denominada em dólar e, portanto, é uma medida que nós deixamos claro que achamos que é a coisa apropriada a ser feita neste momento, sabendo que a decisão é deles. - Bom, eu tenho mais que expectativas, o Brasil tem tido uma posição muito explícita em foros internacionais. Tivemos a oportunidade de dizer isso claramente ao Tesouro americano e ao Federal Reserve na reunião que tivemos semana passada em Washington, vários ministros da América Latina disseram isso também, sabemos que essa decisão é decisão do governo americano, levando em conta a sua situação. Mas eu acho que existe uma crescente preocupação em levar em conta não só os efeitos sobre a economia doméstica nos EUA, mas também as implicações internacionais de uma decisão como essa. Acho que ela teria o efeito de lidar com essa desaceleração da atividade econômica no mundo, do comércio internacional, da própria economia americana que estará caminhando para uma desaceleração do crescimento, inexoravelmente. Essa redução teria o efeito de reduzir essa desaceleração. Nós estamos falando aqui de uma economia que importa US$ 1 trilhão por ano, portanto o fato dela estar crescendo é um enorme mercado para países que necessitam ampliar suas exportações. A redução tem o efeito de reduzir custos nos serviços da dívida externa denominada em dólar e, portanto, é uma medida que nós deixamos claro que achamos que é a coisa apropriada a ser feita neste momento, sabendo que a decisão é deles.

Globo News - (George Vidor) - Ministro, o Senhor, como jovem economista, participou muito daqueles debates, em uma outra época em que o Brasil estava concentrado na questão da inflação que era o choque contra a inflação versus a política gradual. Parece que essa discussão está sendo travada agora na questão da política fiscal. Nós não vamos ter condição de continuar nos financiando com o tal do capital nômade, esse capital volátil. Tudo indica que o Brasil terá que reduzir, de imediato, seu déficit em conta corrente com o exterior que esse ano está projetado para US$ 30 bilhões. Qual o déficit em conta corrente possível para o ano que vem?

Ministro - Eu acho que, primeiro obrigado pelo jovem, eu acho que o déficit razoável para o ano que vem é o déficit menor do que o que temos hoje, obtido através de uma expansão das exportações, com uma redução na taxa de crescimento das importações e de, principalmente, financiado, como está sendo até o momento, através de fluxo de capital de melhor qualidade como é o investimento direto que financiou 61% do déficit da conta corrente até o momento. Aliás, devo dizer que nos primeiros cinco dias úteis desse mês até ontem, 08 de setembro, haviam ingressado mais de US$ 1,2 bilhões de investimento direto na economia brasileira. Isso é um indicador de mercado tão relevante quanto qualquer outro, principalmente porque ele sinaliza expressão de confiança de médio e longo prazo no país e seu futuro. Eu acho, Vidor, que nós temos que reduzir esse déficit: a redução da contribuição da poupança externa, ao mesmo tempo em que é importante que ele tenha uma trajetória de queda, não que se fixe em um valor. Ao mesmo tempo em que nós elevamos a poupança interna que tem dois componentes: a poupança privada, que tenho certeza que teve um enorme estímulo se nós conseguirmos caminhar na direção da reforma da previdência, e a outra é a redução da poupança negativa, da despoupança do setor público, que é o déficit público consolidado, objeto das medidas não tímidas, volto a insistir, que adotamos ontem, através de um decreto e de uma medida provisória. - Eu acho que, primeiro obrigado pelo jovem, eu acho que o déficit razoável para o ano que vem é o déficit menor do que o que temos hoje, obtido através de uma expansão das exportações, com uma redução na taxa de crescimento das importações e de, principalmente, financiado, como está sendo até o momento, através de fluxo de capital de melhor qualidade como é o investimento direto que financiou 61% do déficit da conta corrente até o momento. Aliás, devo dizer que nos primeiros cinco dias úteis desse mês até ontem, 08 de setembro, haviam ingressado mais de US$ 1,2 bilhões de investimento direto na economia brasileira. Isso é um indicador de mercado tão relevante quanto qualquer outro, principalmente porque ele sinaliza expressão de confiança de médio e longo prazo no país e seu futuro. Eu acho, Vidor, que nós temos que reduzir esse déficit: a redução da contribuição da poupança externa, ao mesmo tempo em que é importante que ele tenha uma trajetória de queda, não que se fixe em um valor. Ao mesmo tempo em que nós elevamos a poupança interna que tem dois componentes: a poupança privada, que tenho certeza que teve um enorme estímulo se nós conseguirmos caminhar na direção da reforma da previdência, e a outra é a redução da poupança negativa, da despoupança do setor público, que é o déficit público consolidado, objeto das medidas não tímidas, volto a insistir, que adotamos ontem, através de um decreto e de uma medida provisória.

Globo News - (Joelmir Betting) - Senhor Ministro, vamos falar agora da economia real, a economia dos projetos, dos negócios, dos empregos, dos salários. Pesquisa de uma consultoria americana , divulgada ontem, revela que o Brasil é o melhor mercado do mundo, fora dos EUA, para futuros investimentos no setor produtivo. Na avaliação não da Moody's, mas na avaliação das 150 empresas globais americanas, européias e japonesas pesquisadas. O que o Senhor diz a respeito disso?

Ministro - Olhando o mundo a nossa volta, o que está acontecendo na Ásia, na Rússia, não vou falar de África, dos experimentos nucleares do Paquistão, do Oriente Médio, Irã e Iraque, eu acho o seguinte: nós temos aqui nessa região, eu me refiro aqui ao Brasil, Argentina, Chile, entre outros; nós somos privilegiados no sentido de que temos uma região desnuclearizada, desmilitarizada, não temos conflitos de fronteira, não temos rivalidades étnicas e fundamentalismos religiosos que se traduzem freqüentemente em grandes instabilidades políticas. Temos virtualmente a mesma língua, não temos dezenas de dialetos que não se comunicam entre si. Somos democracias consolidadas ou em processo de consolidação, temos estabilidade política, instituições que funcionam e uma cultura da estabilidade que está progressivamente deitando raízes e eu não tenho dúvidas de que isso é percebido. Essa pesquisa, que eu não tinha conhecimento, é uma mostra de pessoas que não estão olhando a cotação da bolsa do dia ou a manchete do jornal de ontem ou de hoje, estão olhando anos à frente, percebem o enorme potencial que nós estamos construindo aqui. Estive hoje com o Ministro das Relações Exteriores da Argentina, estamos falando de um mercado que tem US$ 1,3 trilhão, quando se combina o produto desses países que não é um mercado irrelevante para qualquer decisão de investimento, de qualquer empresa internacional, de qualquer porte, em qualquer parte do mundo. Portanto a nossa responsabilidade é não insistir nessa diferenciação e mostrar a questão que eu sempre insisto, fundamentalmente, que nós brasileiros temos capacidade de equacionar nossos próprios problemas, eu acho que é isso que nós estamos tentando demonstrar há mais de quatro anos. - Olhando o mundo a nossa volta, o que está acontecendo na Ásia, na Rússia, não vou falar de África, dos experimentos nucleares do Paquistão, do Oriente Médio, Irã e Iraque, eu acho o seguinte: nós temos aqui nessa região, eu me refiro aqui ao Brasil, Argentina, Chile, entre outros; nós somos privilegiados no sentido de que temos uma região desnuclearizada, desmilitarizada, não temos conflitos de fronteira, não temos rivalidades étnicas e fundamentalismos religiosos que se traduzem freqüentemente em grandes instabilidades políticas. Temos virtualmente a mesma língua, não temos dezenas de dialetos que não se comunicam entre si. Somos democracias consolidadas ou em processo de consolidação, temos estabilidade política, instituições que funcionam e uma cultura da estabilidade que está progressivamente deitando raízes e eu não tenho dúvidas de que isso é percebido. Essa pesquisa, que eu não tinha conhecimento, é uma mostra de pessoas que não estão olhando a cotação da bolsa do dia ou a manchete do jornal de ontem ou de hoje, estão olhando anos à frente, percebem o enorme potencial que nós estamos construindo aqui. Estive hoje com o Ministro das Relações Exteriores da Argentina, estamos falando de um mercado que tem US$ 1,3 trilhão, quando se combina o produto desses países que não é um mercado irrelevante para qualquer decisão de investimento, de qualquer empresa internacional, de qualquer porte, em qualquer parte do mundo. Portanto a nossa responsabilidade é não insistir nessa diferenciação e mostrar a questão que eu sempre insisto, fundamentalmente, que nós brasileiros temos capacidade de equacionar nossos próprios problemas, eu acho que é isso que nós estamos tentando demonstrar há mais de quatro anos.

GloboNews – (Adriana Mota) - Ministro, o Senhor me permita uma pergunta pessoal, como cidadão, onde o Senhor aplicaria o seu dinheiro hoje?

Ministro - Eu vou pedir a sua autorização, a sua licença, para, devido a posição que eu ocupo, essa pergunta me é feita com muita freqüência, mas eu prefiro não expressar minha opinião, porque ela pode se prestar a interpretações que eu não gostaria de ver, perdão - Eu vou pedir a sua autorização, a sua licença, para, devido a posição que eu ocupo, essa pergunta me é feita com muita freqüência, mas eu prefiro não expressar minha opinião, porque ela pode se prestar a interpretações que eu não gostaria de ver, perdão

Globo News - Ministro, muito obrigado por sua participação no Jornal das Dez e uma boa noite.

 

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