Pronunciamentos

09/09/98

Malan: ajuste fiscal é mais profundo do que parece

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse hoje (09.09)  à Rádio Jovem Pan que o ajuste fiscal proposto pelo governo é mais profundo do que aparentou à primeira vista. Malan falou ainda que as pessoas que se derem ao trabalho de se aprofundar no entendimento dessas medidas saberão da importância delas para o país.

Veja abaixo a transcrição da íntegra da entrevista. 

Sem Revisão do Autor

Jovem Pan – Boa tarde. Ministro, o mercado recebeu o programa anunciado nesta terça-feira com uma certa frustração. Muitos analistas acreditam que não passa de mais uma promessa do governo que não conseguiu nem mesmo cumprir totalmente o pacote do ano passado. Foram cumpridas, por exemplo, metas de aumento de receita com elevação de impostos, mas outras, como gastos com pessoal, só tem aumentado e a demissão dos servidores, como estava prevista, não foi feita. O senhor garante que, desta vez, o programa será cumprido? Essas medidas anunciadas pelo governo são fortes o suficiente para adquirir o ajuste fiscal?

Ministro – Olhe, eu não tenho dúvida que os analistas do mercado, na medida em que aprofundem o seu entendimento do que nós fizemos e anunciamos ontem, se darão conta de que são medidas extremamente duras e que as metas que ali estão, no decreto e na medida provisória, serão efetivamente cumpridas porque o governo passa a ter instrumentos legais e institucionais de fazê-las cumprir. Por exemplo, o decreto refere-se ao ano de 1998 apenas e ele assume o compromisso de geração de um superávit primário no Governo Central, isto é importante porque o Governo Central inclui a Previdência, que terá um déficit este ano de perto de R$ 7 bilhões. Quando nós dissemos, portanto, que vamos gerar um superávit de R$ 5 bilhões significa que vai ser um resultado superavitário de cerca de R$ 12 bilhões para compensar o déficit de cerca de R$ 7 bilhões da Previdência. Portanto, é um ajuste fiscal extremamente importante que está sendo proposto aqui. Devo dizer, também, que é um ajuste fiscal que está sendo feito em custeio e investimento do governo. Este corte adicional de R$ 4 bilhões não diz respeito ao orçamento como um todo mas na parte de custeio e investimento que são menos de R$ 40 bilhões, portanto, é um corte adicional de mais de 10% do orçamento de custeio e investimento. E devo notar que não é um corte que vá se desdobrar ao longo de 12 meses. É um corte que será feito nos três meses e três semanas que faltam para terminar o ano. Portanto, ele é extremamente expressivo e será cumprido. Devo notar, também, que nós estamos lidando ali com um programa tradicional no Brasil, que era "restos a pagar", vários ministérios transferiam para o exercício seguinte gastos que, na verdade, deveriam ter sido feitos no ano anterior. Nós estamos dizendo que gastos que não tenham sido efetivamente realizados em 98 não podem ser inscritos em "restos a pagar" para 99 a não ser que sejam efetivamente liquidados até 20 de janeiro de 99. E por último, não menos importante, nós estamos dizendo que aqueles que até 31 de outubro já tenham empenhado compromisso de gasto de 80% desses novos limites estarão proibidos de fazê-lo a não ser através do cancelamento de empenhos já feitos, já realizados. Portanto, eu não tenho dúvida em dizer que, para 1998, as medidas que tomamos são extremamente duras e eficazes e, ao serem publicadas num decreto presidencial, pela primeira vez o governo assume o compromisso de geração de superávit primário e através da criação dessa comissão de controle e gestão fiscal que reúne as pessoas-chaves do ministério da Fazenda e do ministério do Planejamento, elas passam a ter responsabilidade perante os ministros e o governo e o Presidente da República de assegurar a obtenção desses resultados. Nós o faremos. Eu acho que o mercado, os analistas, quando se derem conta disso, perceberão que é uma medida extremamente importante, dura e que muda o regime fiscal no Brasil e introduz o conceito de restrição orçamentária no debate. É sintomático que os analistas que conhecem, que são especialistas nessa área, como por exemplo, o Raul Veloso, Maílson da Nóbrega, Marcílio Marques Moreira, pessoas que já viveram essa experiência, todos reconheceram a dureza e a importância das medidas. Isso para 98, que é um decreto. Para 99 adiante, temos uma medida provisória que diz qual é o superávit primário que será obtido, R$ 8,7 bilhões, no mínimo, assim como R$ 5 bilhões para 98 é o mínimo e já coloca bloqueados cerca de 20% dos recursos para 99, bloqueados para assegurar que a sua liberação, ao longo do ano, só terá lugar se tivermos convencidos de que estamos caminhando para realização desse superávit primário de R$ 8,7 bilhões em 99. Por último, e não menos importante, nós estamos assumindo o compromisso em lei, na verdade a lei determina, a medida provisória tem força de lei quando é publicada e assinada pelo Presidente da República, um compromisso de apresentar ao Congresso Nacional, até 15 de novembro deste ano, um programa fiscal para o triênio 1999/2000/2001, que tem como objetivo a geração de superávits primários crescentes necessários para estabilizar a relação entre a dívida total do setor público e o produto interno bruto da economia brasileira. Eu acho que, apesar da aparente singeleza, quer dizer um decreto com cinco artigos e uma medida provisória com três artigos, elas representam uma profunda mudança no regime fiscal brasileiro, a introdução da restrição orçamentária nessa discussão e o compromisso firme do governo com a austeridade fiscal e metas explicitadas desde já de geração de superávit primária.

Jovem Pan – Seguindo esta linha ministro, então o programa, ele vai servir para compensar o gasto com juros, devido à elevação de juros que acabou onerando a dívida ou a situação vai melhorar, a um curto ou a um médio prazo?

Ministro – Nós estamos dizendo há algum tempo que o Brasil, independentemente da situação internacional, você sabe vem se agravando, independentemente de decisões de curto prazo, transitórias do Banco Central no que diz respeito à taxa de juros, o Brasil não tem alternativa senão realizar um ajuste fiscal que seja crível, duradouro, e que na verdade signifique que o governo federal, mas o mesmo se aplica nos governos estaduais e municipais também, não podem, sistematicamente, realizar gastos que excedam de muito a sua capacidade de arrecadação porque, ao fazê-lo, está simplesmente transferindo o problema para o futuro, aumentando o endividamento, seja interno, seja externo, e correndo o risco de trazer de volta a inflação que na verdade é imposto, é um imposto que é uma forma de tentar resolver esse excesso indesejado de gastos sobre receitas através do imposto inflacionário o que significa mandar a conta para o conjunto da sociedade, principalmente para os mais pobres. A inflação é um imposto inflacionário que é a expressão dessa incapacidade de governos de restringirem os seus gastos à sua capacidade de arrecadação.

Jovem Pan – Depois da elevação dos juros e do governo começar a apertar apertar a suas próprias contas começa-se a duvidar que a meta de crescimento de 4%, anunciada há algum tempo, prevista para o ano que vem, vai ser cumprida ou não. Por quanto tempo é possível manter esse nível, esse aumento dos juros sem que o país corra o risco de entrar em recessão?

Ministro – Eu acho que isso depende de uma avaliação da evolução do contexto internacional. É sabido por quem acompanha o que está acontecendo no mundo, não é apenas na Ásia, nos países em desenvolvimento da Ásia ou no Japão, Hong Kong, Rússia: país que está em um processo de desagregação, um problema gravíssimo, não resolvido na área econômica, financeira, política, institucional, as incertezas e volatividades associadas à bolsa de Nova Iorque, sabe que nós estamos caminhando para uma redução da taxa de crescimento da economia mundial, do comércio mundial, que já estão dados a essa altura por conta do que vem acontecendo no contexto internacional. Seria um tanto ingênuo imaginar que um país como o Brasil pudesse se considerar como uma ilha de auto-suficiência, desconectada do mundo e, portanto, sem receber nenhuma influência de um contexto internacional que vem ser tornando mais adverso do que no passado, seguramente bem mais adverso do que projeções que se faziam há algum tempo. Nós vamos sim, falando francamente, sofrer os efeitos dessa retração da taxa de crescimento da renda mundial, do comércio, da taxa de crescimento do produto do resto do mundo, porque somos parte dele. Isso vai obrigar a uma revisão das nossas perspectivas para o próximo ano. O importante é a continuidade do esforço de reformas estruturais, do processo de reestruturação da estrutura produtiva, reorganização e modernização do Estado, de adequação de gastos à capacidade de receita e de preservação da estabilidade macroeconômica. Nós não hesitaremos em tomar as medidas necessárias para tal. Nós não vamos permitir o retorno da inflação como expressão da nossa incapacidade de responder adequadamente aos desafios do momento presente que vem de fora, não tem nada a ver com fundamentos da economia brasileira, mas nos afeta como a todos os países do mundo.

Jovem Pan – E com relação aos juros dá para fazer alguma previsão?

Ministro – Eu acho que os juros, as previsões de comportamento futuro dos juros dependem da evolução do contexto, do cenário internacional, da nossa situação doméstica, da interação entre o fato de que nós insistimos que a resposta do governo não pode, não deve, não ficará restrita à ação do Banco Central, em termos de elevação dos juros, como demonstramos ontem, é um sinal da nossa expectativa que na medida em que nós caminhemos para mostrar a nossa capacidade de realizar um ajuste fiscal duradouro e crível que nós possamos caminhar para uma redução gradual das taxas de juros.

Jovem Pan – Ministro, tem alguma nova medida por agora, para ser adotada? Depois que o pacote, que o programa foi baixado, o programa de ajuste fiscal, nas últimas medidas que foram adotadas pelo Governo e pelo Banco Central. A bolsa continua em queda e tem saído dólares do país, tem alguma medida sendo adotada por agora?

Ministro – Eu acho que o que nós tivemos ontem, se você me permite, não foi um pacote, foi um decreto e uma medida provisória, que são aparentemente um conjunto reduzido de medidas, mas o seu significado e a sua importância estará sendo percebido na medida em que as pessoas se debrucem sobre ela e tenham uma real dimensão do seu significado e da sua importância. Como eu estou confiante e acredito na capacidade analítica das pessoas, no entendimento da profundidade do que foi feito em termos de mudança do regime fiscal brasileiro, estou convencido de que no momento é ao que nós deveríamos ter feito. Eu não gostaria de especular sobre o que podem vir a ser eventuais respostas futuras do governo, seja uma deterioração da situação internacional, seja desenvolvimento interno da economia brasileira interagindo com a economia internacional. No momento tomamos as decisões corretas e volto a insistir: não compartilho de forma alguma com a visão de alguns que são medidas insuficientes e inadequadas. Quem se der ao trabalho de aprofundar o entendimento se dará conta da importância dessas medidas.

Jovem Pan - Nesse momento de crise que o país está vivendo não é também uma responsabilidade do Congresso Nacional, já que se as reformas tivessem sido aprovadas, há algum tempo, o déficit público não estaria menor? Por exemplo se a Reforma Tributária tivesse sido feita a situação não poderia estar melhor para o país?

Ministro – Eu acho que você está absolutamente correta em sua pergunta quando eu digo que a resposta do país não pode ficar restrita a seja à ação do Banco Central ou do Executivo Federal, nós estamos dizendo claramente que a resposta do país tem que envolver o Congresso Nacional, o Judiciário, a opinião pública, a mídia, algo que transcenda a ação do Estado. A própria sociedade brasileira tem que se dar conta de que é fundamental, nesse período, o reconhecimento e a introdução, no debate público, tanto no que diz respeito a situação do governo federal, tanto dos estados e municípios, esse conceito que eu tenho procurado chamar a atenção: restrição orçamentária e adequação de gastos, todos desejados, legítimos, justificáveis, à capacidade de arrecadação dos vários níveis de governo. Eu acho que o papel do Congresso é fundamental como foi por exemplo, no ano passado, quando desempenhou com enorme rapidez e entendimento das coisas da parte que lhe cabia, não só nas votações de novembro e dezembro, como também na sessão extraordinária de janeiro e fevereiro. Foi a razão pela qual nós tomamos o cuidado de conversar com o senador Antônio Carlos Magalhães assim como o presidente da Câmara, o deputado Michel Temer, explicando porque que estávamos anunciando essas medidas e contamos com o apoio de ambos. Estou seguro que o Congresso saberá compreender, não apenas a importância do que fizemos com esse decreto e essa medida provisória, mas a importância de avançar rapidamente na conclusão da votação da Reforma da Previdência, que eu já fiz referência aos déficits crescentes: era menos de 1 bilhão de dólares há dois anos, 2,7 bilhões no ano passado, caminhando para 7 bilhões nesse ano. É fundamental equacionar a questão da Previdência, como você disse, o envio e a discussão da reforma tributária, da modificação da legislação trabalhista, tudo isso é parte integrante da necessária resposta do país, do país não é só do governo, à situação internacional. No fundo, para resumir, nós temos que ser capazes, nós brasileiros, de mostrar não só a nós mesmos, como também ao resto do mundo, e só mostramos ao resto do mundo quando somos capazes de mostrar a nós mesmos, que nós estamos sendo capazes de equacionar os nossos problemas e de erguemos à altura dos desafios do momento presente que não são pequenos.

Jovem Pan – Obrigada ministro pela atenção.

 

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