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Pronunciamentos
08/09/98
Transcrição da fala
do ministro Pedro Malan anunciando à imprensa a publicação do decreto e da
medida provisória que fixam metas fiscais nominais para 1998 e 1999
Sem Revisão do Autor
Eu queria organizar essa apresentação inicial
em três temas. O primeiro deles é explicar a decisão do governo, que estamos
anunciando hoje, que estará publicada no Diário Oficial de amanhã sob a forma
de um decreto e uma medida provisória, que representam um passo extremamente
importante no processo de mudança no regime fiscal brasileiro no qual está
empenhado o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A segunda parte
dessa breve apresentação, eu gostaria de situar essa decisão no contexto mais
amplo daquilo que consideramos um problema macroeconômico fundamental que
enfrentamos hoje no país e por último, eu gostaria de explicar porque o atual
contexto internacional marcado por turbulências e incertezas que o mundo há décadas
não conhecia exige uma resposta firme e determinada no Brasil e que é uma
expressão da nossa confiança, não só na nossa capacidade de enfrentar esse
período de turbulências, como também não menos importante, nossa confiança
no Brasil e no seu futuro.
Começando sobre a decisão tomada pelo governo,
expressa nesse decreto e nessa medida provisória, eu queria lembrar de passagem
aqui, que obviamente vocês tiveram a oportunidade de ler a nota à imprensa,
que não se trata, em definitivo, de um pacote na acepção que o termo passou a
ter na cultura da mídia brasileira. Pacote estava associado a um conjunto de
medidas que, de surpresa, cai sobre os ombros do cidadão, do contribuinte, da
empresa, do trabalhador brasileiro. Essa decisão é uma decisão que tem a ver
com a forma pela qual o governo se organiza internamente para permitir o
respeito à restrição orçamentária que não tem qualquer conotação de
natureza política, ideológica. Qualquer governo sério e responsável, em
qualquer país do mundo, está sujeito a ela e eu gostaria que essa restrição
orçamentária tivesse deitado mais raízes entre nós porque tanto a maturidade
no debate político quanto a racionalidade do debate econômico são ampliadas
quando esse conceito básico está incorporado ao debate público. O que nós
estamos fazendo aqui são três coisas fundamentais. Em primeiro lugar, no
decreto nós criamos uma Comissão de Controle e Gestão Fiscal, que é um órgão
que o ministro Paulo Paiva, quanto eu, quanto o governo, atribui uma enorme
importância. É um conselho constituído por representantes do ministério da
Fazenda e do Planejamento, que terá responsabilidade perante o ministro e
perante o governo de assegurar a obtenção das metas fiscais acordadas. Nós
estamos definindo neste decreto, além da criação dessa comissão, nós
estamos definindo a meta mínima, quero sublinhar que o mínimo, a meta mínima
de superávit fiscal primário para o Governo Central, vale dizer Executivo
Federal mais Previdência, para o ano de 1998, e essa meta mínima foi
estabelecida em R$ 5 bilhões, além disso o decreto, no seu artigo segundo,
modifica a redação de cinco artigos do Decreto 2.451 do início deste ano, que
trata da programação orçamentária e financeira para o exercício,
proporcional num corte adicional de gastos em outras despesas correntes e de
capital da ordem de R$ 4 bilhões para assegurar o resultado mínimo pretendido.
A redução dessas despesas será efetivada mediante a fixação de novos
limites para a execução orçamentária com reduções sobre os limites atuais,
anteriormente estabelecidos, de 7% para atividades e 20% para projetos e, para
que as restrições impostas no corrente exercício não se transformem em dispêndios
adicionais através de restos a pagar para 1999, nós estamos criando barreiras
à inscrição de despesas no item "restos a pagar", limitando-as aos
gastos efetivamente realizados em 98 e cuja liquidação definida através do
atestado de execução, pelo ordenador de despesas, não ultrapasse a data de 20
de janeiro de 1999. Além disso, o decreto permite, aos ministros da Fazenda e
do Planejamento, promover reduções adicionais nos limites estabelecidos
preservando-se, no entanto, aos ministérios da Saúde e da Educação, um mínimo
equivalente à média mensal dos gastos liberados para o período de janeiro a
agosto de 98 e, por último, o decreto determina que, até 31 de outubro de
1998, não poderão ser empenhadas despesas que ultrapassem 80% dos novos
limites anuais. Órgãos e unidades orçamentárias que já tiverem alcançado
este teto só poderão realizar novos empenhos mediante o cancelamento de
empenhos já emitidos. Essa medida representa um freio imediato à realização
de gastos reforçando a eficácia das demais disposições do decreto.
Além deste decreto, nós estamos publicando
amanhã no Diário Oficial da União uma medida provisória a qual atribuímos
particular importância. Ela fixa que a meta de superávit primário para o
Governo Central, bem como determina limites nominais para gastos no orçamento
de custeio e investimento, a meta mínima, volto a insistir, é mínima, de
superávit primária para 1999 é de R$ 8,7 bilhões, e além disso nós estamos
estabelecendo limites nominais para gastos do OCC. Devo notar, também, que nós
estamos modificando a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 99, estabelecendo
mecanismos de programação orçamentária e financeira, necessárias à
garantia da meta estabelecida e, mais importante, a medida provisória tem força
de lei, determina que o Executivo apresentará ao Congresso Nacional, até 15 de
novembro deste ano, um programa de ajuste fiscal para o triênio 99/2001 e que
deverá necessariamente ter metas de superávit primário que deverão ser
crescentes no triênio e compatíveis com o objetivo de estabilização da relação
entre dívida pública líquida e o produto interno bruto da economia brasileira.
A medida provisória também estabelece mecanismos de programação bimestral de
gastos em orçamento, custeio e investimentos, prevendo revisões na mesma
periodicidade que ajustem os gastos para garantir o resultado primário. Para
assegurar que estamos determinados a atingir esse objetivo, fica determinada a
indisponibilidade inicial de 20% das dotações relativas ao orçamento de
custeio e investimento, cuja liberação dependerá da comprovação, a cada
dois meses, ao longo do exercício, o cumprimento da meta estabelecida. O ponto
que eu queria ressaltar nessa questão é que nós estamos não só assumindo
compromissos firmes mas dotando o governo de meios e instrumentos legais e
institucionais para que esses compromissos possam ser efetivamente alcançados.
Esse é o espírito da decisão tomada e estamos, volto a insistir, convencidos
de que ela representa um importante passo na direção de mudança do regime
fiscal da economia brasileira. Essa é a primeira parte que eu gostaria de fazer.
A segunda, eu acho que é importante situar essa
decisão no contexto mais amplo daquilo que nós consideramos, que não é de
hoje, consideramos de longa data o problema macroeconômico central da economia
brasileira hoje. Eu posso resumir da seguinte maneira: nós temos que reduzir o
peso relativo na composição da poupança total da economia brasileira, da
poupança externa e aumentar o peso relativo da poupança interna no
financiamento do desenvolvimento econômico-social do país. O que significa
isto? Isto significa reduzir, o que estamos fazendo já, o déficit do balanço
de pagamentos em conta corrente como proporção do PIB, eu digo que estamos
fazendo, porque ele chegou ao seu pico, 4,2% no ano passado, está agora em
cerca de 3,5% e nós estamos comprometidos a dar continuidade a esta gradual
redução do déficit do balanço de pagamento em conta corrente, que é a
poupança externa, a contribuição da poupança externa para o financiamento do
desenvolvimento e na verdade o nome do jogo é aumentar, em termos relativos, a
poupança interna e reduzir o peso relativo da poupança externa no conjunto da
poupança total do país. Pois bem, o que é a poupança interna? A poupança
interna tem dois componentes. É a poupança privada, que vem aumentando, ainda
que gradualmente, e continuará aumentando porque a estabilidade contribui para
isso, assim como os novos mecanismos de estímulo num horizonte de médio e
longo prazo, que a própria inflação baixa propicia. Portanto, nós estamos
convencidos de que aumentaremos, de forma gradual ao longo do tempo, a poupança
interna como financiamento do desenvolvimento econômico-social do país,
reduziremos a poupança externa e o segundo componente da poupança interna, na
verdade, é uma despoupança, é uma poupança negativa, que é o déficit público
consolidado. Esta é a razão pela qual nós dissemos, e não é de hoje,
dissemos a primeira vez em julho de 1993, quando lançamos o Programa de Ação
Imediata, que o grande, o fundamental desafio que nós tínhamos como sociedade
era lidar, com o que chamamos na época, o relativo descalabro administrativo e
financeiro a que estavam relegadas as contas públicas no país em larga medida
derivadas de uma inflação, de uma hiperinflação praticamente, que nos
humilhava, envergonhava perante o resto do mundo e que era uma expressão de uma
incapacidade nossa, como sociedade, de equacionar um problema básico que é
assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda nacional, que é a
estabilidade do poder aquisitivo do salário do trabalhador brasileiro.
Uma vez controlada a inflação, nós podemos
tratar agora a sério, de maneira responsável, e entender o que estamos
tratando, qual é a natureza dos desafios a enfrentar na área fiscal. Mas eu
queria situar o quadro macroeconômico básico. Por que é preciso fazê-lo?
Porque, dado o contexto internacional, que vou me referir rapidamente em seguida,
fica claro que nós temos que reduzir a poupança externa como componente da
poupança agregada na economia. Vale dizer, reduzir o déficit do balanço de
pagamento em conta corrente. Para tal, nós precisamos aumentar a poupança
interna, que significa aumentar a poupança privada e reduzir a despoupança, a
poupança negativa do setor público, que é o déficit público consolidado.
Esta é a resposta macroeconômica apropriada à situação atual, ao que
dissemos há tempos, continuamos dizendo, e agora com mais empenho, dada a
turbulência do contexto internacional mais adverso, que não só nós, que o
mundo está enfrentando que mencionarei já em seguida. Não quero dizer, de
forma alguma, que só exista uma resposta macroeconômica desse tipo que fiz
referência à situação atual. Nós estamos trabalhando há tempos, e dizendo
o que estávamos fazendo no sentido de promoção das exportações brasileiras,
com aumento da produção exportável e da produção doméstica eficientemente
competitiva com importações. Há anos que estamos fazendo isso. O que o José
Roberto Mendonça de Barros estará anunciando hoje, ele está anunciando não
porque tenha sido feito ao arrepio do momento, ao longo do fim de semana, está
há meses e meses trabalhando nisso, é um programa da maior importância, que
tem a ver com esse esforço de promoção de exportação, desenvolvimento de
uma cultura exportadora no Brasil, nós não a tínhamos, em particular o
pequeno e médio empresário, isso enquadra no contexto de duas vertentes que
estamos há anos trabalhando, não é nada recente que tenha a ver com a situação
internacional. Vocês devem estar lembrados que há anos que nós começamos a
discussão da desoneração do ICMS nas exportações de produtos primários e
semi-elaborados, na criação de novos mecanismos de financiamento do BNDES para
atividades exportadoras. O ressarcimento do PIS e do Cofins para atividade
exportadora, na ampliação dos recursos do grau de cobertura dos mecanismos do
Proer, no Fundo de Aval, na criação da Companhia de Seguro de Crédito à
Exportação Brasileira, nos trabalhos do Fundo de Aval do BNDES, nos trabalhos
que o Banco do Nordeste vem fazendo para desenvolver uma mentalidade, uma
cultura de uma atividade exportadora na região nordestina. Isso faz parte de um
esforço que representa, há anos, a nossa preocupação com o desenvolvimento e
o crescimento das exportações brasileiras em termos de medidas políticas
voltadas especificamente para tal.
Não menos importante tem sido o esforço também,
de anos, na área do que nós chamamos de redução do Custo Brasil, redução
dos nossos vergonhosos custos portuários, investimento em infra-estrutura, em
transporte, na logística transporte-portos, na redução de custos de
transporte para a produção exportável no Brasil. José Roberto tem dito, há
tempos, com muita propriedade, que as nossas exportações são mais intensivas
em infra-estrutura do que as nossas importações e, portanto, investimento que
nós estamos fazendo em redução do Custo Brasil, melhoria, redução do custo
portuário, melhoria do sistema de transporte, na interação transporte-portos,
na verdade, a médio prazo, beneficiam nossas exportações por razões
conhecidas. Portanto, há medidas de política e há um esforço mais estrutural
da redução do Custo Brasil e que são parte integrante de um esforço maior de
ajuste. A redução do déficit conta corrente da balança de pagamento se dá
também com atividades nesta área de aumento com a perspectiva de tempo
apropriado, que não é de uma semana, um mês, dois meses, mas de meses e anos
à frente, de aumento da produção exportável no Brasil, de aumento, não
menos importante, da produção doméstica, que eficientemente compete com
importações potenciais. Esta é a estratégia, este é o rumo que nós
continuaremos a trilhar pelos próximos meses e anos se assim decidir a maioria
no próximo mês. Além disso, eu gostaria de mencionar na terceira parte dessa
introdução, que é o atual contexto econômico internacional, quem quer que se
tenha dado ao trabalho, e eu acho que a imprensa brasileira tem feito um bom
trabalho no sentido de mostrar o está acontecendo no mundo, e eu acho que há
uma percepção clara de que nós estamos hoje vivendo uma situação de turbulência,
num contexto internacional adverso e que exige três coisas da parte do Brasil:
A primeira delas é a nossa determinação em continuarmos no esforço de mudanças
estrutural, vale dizer, de restruturação produtiva, de reorganização do
Estado e de recondução institucional do país, que são mudanças estruturais,
e aqui eu incluo as reformas constitucionais em andamento, que são parte
integrante desse processo de integração do Brasil, num sentido mais
competitivo no mundo em que vivemos. Nós não vamos abrir mão da nossa
determinação em dar continuidade a esse processo, já o demonstramos em mais
de uma ocasião, inclusive com a adoção de medidas de políticas econômicas
internas, do tipo que nós estamos anunciando hoje, que o José Roberto estará
anunciando hoje à tarde, e de outras que nós tomamos no passado e estamos
tomando hoje, e que não hesitaremos em tomar no futuro para preservar os ganhos
que tivemos ao longo dos últimos anos, com o processo de mudança estrutural
por que vem passando a economia brasileira. Eu não vou me reportar aqui às
decisões que tomamos para fazer face à crise da Ásia, de outubro do ano
passado, mas quero repetir aqui o que tenho dito, com clareza, o presidente
Fernando Henrique Cardoso: "Nós não hesitaremos em tomar as medidas
necessárias para lidar com este contexto internacional e as turbulências que
estamos atravessando. Medidas internas, domésticas, que sabem todos, não podem
ficar restritas à ação do Banco Central, restritas às ações do Executivo
Federal apenas, têm que envolver o Congresso Nacional como fizemos no ano
passado e continuaremos a fazer agora. O presidente do Congresso, do Senado, Antônio
Carlos Magalhães, assim como o presidente da Câmara foram comunicados do teor
dessa decisão que estamos anunciando hoje previamente. É uma atitude de
respeito para com o Legislativo, é uma manifestação da importância que
atribuímos à resposta do Legislativo brasileiro à situação atual, estou
confiante que virá. Não pode ficar restrito exclusivamente à ação do
Executivo e do Congresso, ela tem que ser uma resposta do país, vale dizer, do
Estado e da Sociedade, percebendo a importância de preservar os ganhos tão
arduamente conquistados ao longo dos últimos anos e que se traduzem nessa
preservação do poder aquisitivo do salário do trabalhador brasileiro na
continuidade desse esforço de lançar as bases através do aumento de
produtividade que é a base de crescimento futuro, da reestruturação produtiva
do Brasil passou, está passando, e que continuará passando.
Por último, e não menos importante, esse
processo de melhora continuada das condições de vida da maioria da população
brasileira. Nós não vamos nos afastar desses objetivos, isso exige respostas
internas, em termos da condução da política econômica do Brasil, na sua
dimensão de curto, médio e longo prazo, e exige também uma ação
internacional mais profunda do Brasil que vem tendo lugar. Desde o início de
1995 o presidente Fernando Henrique Cardoso tem se empenhado em chamar a atenção
e mostrar o empenho do Brasil, ter uma presença mais ativa em fóruns
internacionais onde se discute algo que passou a ser essencial no momento atual.
É fundamental que além dessas respostas individuais de cada país, que haja um
grau de coordenação nos principais países do mundo no sentido de criar um
ambiente internacional menos adverso do que hoje prevalece. Eu estou confiante
de que esse processo de consulta e de coordenação está em gestação hoje, há
uma clara percepção das repercussões internacionais de medidas ditas, até
pouco tempo atrás, de economia-política doméstica, eu espero que a próxima
reunião do Federal Open Market Committee norte-americano caminhe na direção
de uma redução da taxa de juros norte-americana como um apenas componente
desse processo de melhoria do contexto internacional, assim como estão em
discussão, ainda em caráter preliminar no momento, mecanismos que permitam
lidar com o contexto internacional mais adverso através de uma maior coordenação
entre os principais países desenvolvidos e em desenvolvimento relevantes nos
dias de hoje. Eu nunca pedi desculpas a ninguém por considerar o Brasil um país
em desenvolvimento no mundo de hoje, haja vista o enorme interesse que a evolução
da economia brasileira, a resposta da política econômica brasileira e a
continuidade desse processo desperta, não nos nossos vizinhos da América
Latina que sabem quão importante é a preservação do sentido de rumo e direção
da economia brasileira, como também de outros parceiros internacionais que
sabem reconhecer o peso específico do Brasil, da bolsa brasileira, tanto
Bovespa quanto a Bolsa de Mercadorias e Futuros, títulos da dívida brasileira
transacionados no mercado internacional pelo seu volume, liquidez,
negociabilidade, volume de investimento diretor na economia brasileira, que devo
dizer, é o indicador tão ou mais importante quanto de outros indicadores de
mercados que são expressos em certos pânicos e irracionalidades coletivas que
por vezes assaltam corações e mentes mais frágeis, que refletem cotações diárias
de bolsas ou manchetes do dia. Existe uma percepção de mercado sobre o Brasil
e seu futuro que se expressa no fato de que, no início dessa década, nós atraíamos
menos de 1 bilhão de dólares de investimentos diretos na economia brasileira.
Não é capital volátil ou de curto prazo, investimentos diretos na economia
brasileira que nesse ano, nos 12 meses terminados em 31 de agosto, superou, e
bem, a marca dos 20 bilhões de dólares. Isso é uma indicação de mercado,
ninguém obriga que essas decisões sejam tomadas, que representam expressões
de confiança no Brasil, na região e no seu futuro, olhando não o amanhã, a
próxima semana, mês; mas meses e anos à frente. Eu acho que essas indicações
para nós às vezes têm mais importância do que certos pânicos localizados,
movidos por instinto de rebanho, bandwagon effect, para usar uma expressão
de uma língua alienígena, como diriam alguns, que na verdade às vezes tomam
de assalto mercados financeiros internacionais, tanto na expansão quanto na
contração. Eu acho que exatamente nesse momento os governos, que não podem
ser somente os de países em desenvolvimento, exerçam o seu papel de mostrar
que não há razão para pânicos, irracionalidades, que não há nada que mudou
de um dia para outro nos fundamentos de uma determinada economia que justifique
o pânico, o instinto de manada que freqüentemente assalta certa parte desses
mercados. Nós estamos confiantes que esse processo de consulta e coordenação
que está tendo lugar e se desdobrará ao longo das próximas semanas e que nós,
nós comunidade internacional, seremos capazes de lidar com essa turbulência, não
só através de ações de política doméstica em cada país, mas também através
de uma ação mais concertada no contexto internacional.
O tempo é curto para que eu procure transmitir o
que eu acho que está acontecendo no mundo. Muito rapidamente apenas dizer que não
é correta a percepção que são problemas apenas localizados aqui e ali. Nós
estamos lidando com uma percepção de que há uma deterioração no quadro
internacional que vem de um juntar de problemas variados, por exemplo, a crise
percebida há um ano e pouco em países como em seqüência: Tailândia, Malásia,
Indonésia, Coréia que hoje, nesse ano, estarão experimentando recessões na
Indonésia de –15% deve ser a taxa de crescimento do seu produto, -6% em Tailândia
e Coréia, algo próximo a isso na Malásia; é uma parte integrante de um
contexto mais amplo que naquela região tem a ver com o fato de que o a maior
economia da região não vem sendo capaz de equacionar dois problemas
fundamentais sem os quais é difícil imaginar uma recuperação sustentada da
economia asiática. O primeiro é uma retomada sustentada do crescimento, desde
que a bolha japonesa estourou no final de 89, início de 90, o crescimento da
economia japonesa deixa a desejar, nos últimos anos em torno de 1% ao ano, em
recessão no momento, créditos ruins no seu sistema financeiro estimados em
algo entre 700 e 1 trilhão de dólares norte-americanos. O esquema de sua
resolução até hoje não apresentado claramente de forma consistente, essa
combinação de problemas não resolvidos há anos tem levado a uma depreciação
do Ien em relação ao dólar norte-americano que contribuem seguramente, não
para resolver problemas na região, mas para despertar inquietações e no caso
de Hong Kong uma recessão, no caso da China inquietações sobre a preservação
da taxa de câmbio em relação ao dólar, é o contexto de enormes incertezas
na região, mas não restrita a ela. Hong Kong era até pouco tempo atrás a
terceira maior bolsa do mundo em termos de volume de negócios e portanto tem um
efeito sobre outras bolsas e outros mercados. Não vou mencionar a Rússia em
evidência no momento, um país com um quadro gravíssimo de deterioração econômica,
política e institucional, sem governo: seu primeiro-ministro acabou de ser
vetado pela segunda vez pelo parlamento russo, a inflação se acelera, a
desvalorização do Rublo fugiu de controle e portanto há uma enorme incerteza
agravada com a decisão russa de uma moratória unilateral que lançou uma
sombra de incertezas sobre o chamado conjunto de países e mercados emergentes
dando a idéia de que talvez possam seguir o exemplo dessa economia o que não
acontecerá no nosso caso, assim como não acontecerá o que aconteceu
recentemente com a Malásia que impôs restrições a fluxos de capital, essa não
é a nossa política, não será a nossa política, mas o fato de que um país
emergente o tenha feito gera dúvida e incertezas sobre a intenção de outros
países possam eventualmente vir a seguir o mesmo caminho. Isso se reflete no spread
, no diferencial, nos papéis desses países em relação aos papéis do Tesouro
Americano que é uma das razões das dificuldades atuais e nós nos recusamos a
aceitar que esse diferencial seja o único, singular e relevante indicador de
mercado sobre os fundamentos da nossa economia. Isso é um pânico, uma
irracionalidade coletiva que passará assim que nós e o mundo mostrarmos que não
há razão para esse pânico e essa irracionalidade passageira. Eu não vou
falar sobre a Europa voltada para a construção e lançamento do Euro, em 1º
de janeiro do ano que vem e quero chamar a atenção para o fato de que existem
dúvidas e incertezas sobre aquilo que Greenspan chamou atenção há quase dois
anos, em dezembro de 96, pela primeira vez usou a expressão "exuberância
irracional" para caracterizar uma inflação de preços de ativos na bolsa
norte-americana e dizer que uma correção seria devida sim em algum momento do
futuro,. Eu queria chamar atenção para duas características das crises que nós
tivemos na última semana de outubro de ano passado e essa agora da semana
passada, nessas duas os problemas não foram derivados de percepções em alguns
mercados emergentes apenas. Em outubro de 1997 o que nós tivemos foi uma percepção
de que algo mais grave, mais amplo, mais sistêmico e talvez estivesse em gestação.
A bolsa de Hong Kong, naquela época a terceira maior do mundo, perdeu quase 30%
de seu valor em apenas uma semana, de 20 a 27 de outubro de 97. No dia 27 de
outubro a bolsa de Nova Iorque teve a maior queda da sua história medida em
queda de números de pontos do índice Dow Jones, que é o que a maioria dos
investidores americanos olha. Aquela queda, que foi precedida pela queda das
bolsas européias, levou a uma percepção de que algo mais amplo no mundo, essa
fuga para qualidade na busca de portos seguros ou a percepção de dificuldades
da economia mundial em seu conjunto. Na semana passada, segunda, 31 de agosto, a
bolsa de Nova Iorque teve a segunda maior queda da sua história em termos índice
Dow Jones. De novo nós tivemos aquela percepção, por parte de alguns, a que
se juntou à moratória russa e essas discussões sobre o controle de câmbio
uma percepção de que algo mais amplo talvez estivesse em gestação e a busca
de portos seguros. Essa é a razão pela qual eu acho que nós teremos em breve
um resposta mais concertada dos principais países do mundo porque é inimaginável
pensar, e Greenspan o disse em seu último discurso na semana passada, que é
impensável imaginar que os Estados Unidos possam imaginar que eles possam
preservar o brilhante desempenho que marcou o desempenho da economia brasileira
nos últimos anos em contexto de um mundo com problemas que, na falta de uma ação
coordenada de governo, podem tender a se agravar. Portanto eu acho que o espírito,
só para concluir, que presidiu a reunião da semana passada do qual
participaram os ministros da Fazenda dos Estados Unidos e Canadá, vice-presidente
do FED, presidente do Banco Central do Canadá, foi uma discussão extremamente
produtiva e construtiva do qual surgiram inúmeras sugestões de mecanismos que
estão sendo conversados e discutidos, estarão sendo ao longo dos próximos
dias e semanas, e eu quero expressar aqui a minha confiança de que o mundo não
assistirá inerte, paralisado, a uma eventual deterioração da situação
internacional. Isso não quer dizer que seja razoável que nós assumamos uma
postura de nos considerarmos vítimas passivas de eventos externos, fora de
nosso controle, e que não passamos o que tenha que ser feito aqui e eu vou
dizer com toda serena e tranqüila convicção: o que nós estamos fazendo hoje
é o que nós deveríamos fazer independentemente do contexto internacional.
Esse processo de mudança do regime fiscal, de modernização do Estado, de
reorganização do Estado, de aumento de suas eficiência operacional, de
preocupação com a qualidade do gasto público, não só com o volume, mas com
a eficiência do uso de recursos escassos, com a preocupação que é a preocupação
da maioria da população brasileira com a quantidade e qualidade dos serviços
que lhe são oferecidos, na verdade a contrapartida dos impostos que eles pagam.
Eu acho que nós estamos mudando a maneira pela
qual o governo federal, os governos estaduais, municipais essas questões de
restrição orçamentária estão e estarão sendo tratadas; eu volto a dizer,
isso ao meu ver significa um gradual caminhar no sentido de elevar a taxa de
maturidade do debate político, de racionalidade no debate econômico no país.
O que nós estamos fazendo hoje é um passo nessa direção que se segue a
outros passos que estamos tomando ao longo de anos, e que não tenham dúvida,
ao quais se seguirão outros passos, porque o presidente Fernando Henrique
Cardoso tem dito e o reafirmou por escrito, quem duvida eu sugiro que leia os
parágrafos de 23 a 63 da mensagem que ele enviou ao Congresso na segunda-feira,
31 de agosto, em que diz com todas as letras que o seu Governo não hesitará em
tomar as medidas necessárias para preservar o Real, estabelecer as bases do
crescimento sustentado da economia e assegurar a melhora das condições de vida
da maioria. O que estamos fazendo hoje é um passo nessa direção e reservamos
o nosso direito de continuar a tomar os passos que nos pareçam necessários
para dar continuidade a esse processo de reestruturação produtiva. Notem que o
professor José Roberto Mendonça de Barros estará apresentando hoje em termos
do programa de exportações brasileiras e as medidas que continuaremos nos
reservando o direito de adotar para reorganizar e modernizar o Estado e o setor
público brasileiro, porque achamos que isso que espera de nós a esmagadora
maioria da população brasileira. Era isso que eu gostaria de dizer, eu queria
com a sua permissão passar a palavra ao ministro Paulo Paiva.
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