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Pronunciamentos
01/07/98
Fala do ministro
Pedro Malan na cerimônia "Real: 4 anos que mudaram o Brasil"
Sem Revisão do Autor
Senhor presidente do Congresso
Nacional, senador Antônio Carlos Magalhães. Senhor presidente da Câmara dos
Deputados, deputado Michel Temer. Meus caros colegas de Ministério da Fazenda
aqui presentes. Caro Paulo Paiva. Meu velho amigo Gustavo Franco, presidente do
Banco Central do Brasil. Demais autoridades aqui presentes. Senhores senadores,
deputados, autoridades, líderes sindicais aqui presentes. Senhoras e senhores.
O Brasil mudou, o Brasil está mudando e o Brasil
continuará a mudar, apesar dos nossos inegáveis e inúmeros problemas. Eu
diria que, por causa também dos nossos inúmeros e inegáveis problemas, porque
hão de ser enfrentados como estão sendo enfrentados não apenas pelo governo,
mas pela sociedade. Ao entrar neste quinto ano de circulação do Real, eu não
quero me estender em demasia sobre os logros alcançados neste período – nós
estamos todos interessados em olhar adiante -, mas nunca será demais ressaltar
que, desde o início, e para alguns de nós o início não foi em 1º de julho
de 1994, o início esteve lá em meados de 1993, quando o então ministro da
Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, conseguiu reunir em torno de si um grupo de
pessoas que foi a massa crítica que permitiu a elaboração, a concepção e a
implementação do programa de estabilização, com o apoio do Congresso e da
sociedade brasileira, desde o início a questão nunca foi um singular e único
e exclusivo objetivo de controlar a vergonhosa inflação que nos humilhava e
nos envergonhava perante o resto do mundo, que via - corretamente - aquele
processo como uma expressão de uma incapacidade nossa de, como país, tratar de
problemas que há muito foram equacionados de uma forma ou de outra no resto do
mundo.
Para nós, desde o início, o programa de
estabilização se confundia com o programa de crescimento, de desenvolvimento,
e de um programa de melhora continuada das condições de vida da maioria da
população brasileira. Sempre o percebemos e o concebemos assim. Estes três
objetivos, a preservação da inflação sob controle, a criação de condições
para o crescimento sustentado, continuado, com mudança estrutural e com aumento
de produtividade, que é base para o crescimento futuro, não como fins em si
mesmos, não como objetivos que se esgotavam em si mesmos, mas como meios para
que o terceiro e fundamental objetivo pudesse ser alcançado, que era esta
melhora das condições de vida.
Hoje, ao iniciar o quinto ano de circulação da
nova moeda, eu gostaria de rapidamente mencionar onde estamos e para onde eu
creio que estamos caminhando como país em cada um desses três grandes e
inseparáveis, devo dizer, objetivos.
No que diz respeito à inflação, 1998 será o
quinto ano consecutivo de inflação numa trajetória de queda. A inflação que
vamos ter este ano, na média dos principais índices, ficará entre 3 e 4%. É
uma taxa de inflação anual que este país não experimentava desde o início
da década dos 50. Já lá se vai meio século. É uma taxa de inflação que nós
tínhamos em torno de três dias antes, nos meses anteriores ao lançamento do
Real, e, obviamente, é um grande logro se levarmos em conta que o Brasil foi o
recordista mundial de inflação, quando se considera a inflação acumulada nos
30 anos que vão do início dos anos 60 ao início dos anos 90. Nós tivemos
entre 88 e 93 uma taxa média de inflação anual superior a 1.000%, chegando a
2.700% em 93, e caminhando para 7.000% em 1994, não fora o lançamento do Real.
Este ganho é um ganho que há de ser preservado. Eu acho que são pelo menos
quatro razões que justificam o empenho nosso, como país, de preservar esse
ganho.
A primeira razão é de eficiência econômica. A
inflação baixa alarga o horizonte de tempo em que decisões de investimento são
tomadas, e é o investimento que assegura a continuidade do crescimento e a geração
de empregos numa economia. A segunda razão é de natureza política. Eu espero
não estar equivocado ao dizer que é isto o que espera de nós, como de
quaisquer governos que venham a nos suceder, a esmagadora maioria da população
brasileira: a preservação da estabilidade do poder de compra da moeda nacional,
que é a estabilidade do poder aquisitivo do salário do trabalhador brasileiro.
A terceira razão é de natureza social. A inflação, disse bem o presidente do
Banco Central, é o pior dos impostos, porque é um imposto compulsório que não
é votado através do Congresso Nacional, mas que incide desproporcionalmente
sobre os mais pobres deste país. Portanto, há uma séria razão de natureza
social para que qualquer governo sério e responsável reafirme o seu
compromisso de manter a inflação sob controle. E tem uma quarta razão, que me
é cara, que é de natureza ética e moral. Hiperinflações, ou inflações de
1.000, 2.000, 3.000%, na verdade, afetam padrões éticos e morais de
comportamento no setor público, no setor privado e nas interações entre o público
e o privado. Eu acho que são quatro razões suficientes para que quaisquer
governos futuros mantenham o compromisso, pensando no país e na maioria dos
pobres deste país, de manter a inflação sob controle. Dito isto, volto a
insistir: não é, nunca foi um único singular objetivo deste governo. Foi
apenas uma condição básica e absolutamente essencial para que outros
objetivos pudessem ser alcançados.
Sobre crescimento, que é o segundo e grande
fundamental objetivo. Assim como 98 é o quinto ano de inflação numa trajetória
de queda, 1998 é sexto ano consecutivo de crescimento sustentado da economia
brasileira - PIB e PIB per capita. Isto pode ser uma coisa trivial, mas
na verdade a última vez que nós tivemos neste país cinco, seis anos
consecutivos de crescimento do PIB por habitante foi na década dos 70. Desde
então, tivemos três anos consecutivos de recessão em 81, 82 e 83, mais um ano
de 1988, em que houve uma taxa negativa de crescimento da renda por habitante
neste país e a inflação bateu em 1.000% pela primeira vez, e depois tivemos
mais três anos consecutivos de recessão, que foram 1990, 1991 e 1992, com a
inflação batendo em 2.700%, caminhando para 5.000% no final desse ano.
Portanto, o fato de que estamos no sexto ano consecutivo de crescimento - e
neste período 93/98 o tamanho da economia brasileira aumentará
quase 25%, quer dizer, nós teremos uma economia que aumentou em termos reais
cerca de ¼ nesses 6 anos - é algo significativo em relação à experiência
de estagnação com inflação que tivemos do início de 1981 até 1993. É um
ganho que não deve ser desprezado. A taxa média de crescimento nos cinco anos
que vão de 93 a 97 foi 4% ao ano. Será menor este ano por razões das medidas
que, transitoriamente, fomos obrigados a tomar por ocasião da crise asiática,
mas o crescimento já está sendo retomado e nós já viraremos 98/99 com uma
taxa de crescimento bem mais elevada.
A pergunta relevante, ao meu ver, e que nós
deveríamos estar nos fazendo, é: nós não podemos crescer mais rapidamente, não
o fizemos já no passado? A resposta é sim. Podemos, vamos fazê-lo e estamos
criando as condições para isso. Deixem-me colocar a questão da seguinte
maneira. Nós deveríamos estar preocupados se estivéssemos crescendo a 4%, que
é a média dos últimos anos, e se estivéssemos produzindo exatamente o mesmo
tipo e a mesma gama de bens e serviços que produzíamos há dez, 15 anos,
exatamente com a mesma tecnologia, exatamente nas velhas plantas industriais,
exatamente nos mesmos lugares, do ponto de vista de sua localização geográfica.
Isso não é verdadeiro. Nós estamos produzindo uma gama muito mais ampla de
bens e serviços, estamos produzindo com um nível tecnológico cada vez mais
elevado, estamos produzindo em plantas modernizadas, e, fundamentalmente, está
havendo um irreversível processo de descentralização e desconcentração da
atividade econômica no agribusiness, na indústria e nos serviços, que
é um fator do aumento da eficiência média da economia, um fator importante de
redução de disparidades da distribuição regional da renda e da riqueza e é
base para um crescimento sustentado no futuro. Portanto, essas condições estão
sendo criadas e é importante perseverar. Eu insisto na palavra sustentado por
muitos e muitos anos à frente porque, acreditem, qualquer um sabe gerar uma
bolha de crescimento. É muito fácil fazê-la, com um pequeno-grande problema:
se faz no curto prazo e por curto prazo. E nós não queremos gerar bolhas de
crescimento que não se sustentam e que têm o efeito de reacender a chama do
processo inflacionário, gerar desequilíbrios adicionais de balanço de
pagamentos e problemas que exigem depois a sua correção num sistema de
ziguezague que não interessa a ninguém. Queremos crescimento sustentado, que
eu acho que é o que teremos neste país.
Mas, assim como inflação baixa, crescimento
sustentado não é o objetivo final em si mesmo. Ambos são absolutamente
essenciais para que o terceiro e fundamental objetivo possa ser alcançado. E eu
queria mencioná-lo rapidamente. Esse objetivo é a melhoria das condições de
vida da maioria da população, que, na verdade, deve ser o objetivo de qualquer
governo, desde que essa tentativa não seja feita às expensas dos outros dois
objetivos, porque ela teria vida curta.
O que é esse processo? Esse processo significa
acesso e incorporação de milhões de brasileiros e brasileiras, não só a
serviços públicos, como também a bens privados. Nós estaremos distribuindo
hoje, eu espero que antes de a gente terminar esta cerimônia, um livro com
informações atualizadas com o que ocorreu depois do Real em termos de acesso
da população brasileira a certo tipo de bens privados e serviços públicos.
Eu não vou me estender, mas eu gostaria de chamar a atenção para alguns
indicadores que são importantes, em particular para responder àqueles que se
julgam, por delegação autoconferida, devo dizer, detentores do monopólio da
preocupação com o social e que procuram atribuir ao governo a falta de
preocupação com essa área, o que é absolutamente uma injusta acusação, não
corroborada pelos fatos.
Para que os senhores tenham uma idéia a referência
aqui é a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, do IBGE, que mostra o número
de domicílios de brasileiros que passaram a ter acesso pela primeira vez -
comparando 1993 com 1996, que é o último ano para o qual existem informações
disponíveis. Por exemplo:
Entre 1993 e 1996, 5 milhões 164 mil lares
brasileiros passaram a ter acesso à rede geral de abastecimento de água. Não
o tinham em 93 e passaram a tê-lo em 96;
1 milhão 646 mil lares brasileiros passaram a
ter acesso à rede coletora de esgotamento sanitário. Não o tinham em 93 e
passaram a tê-lo em 96;
5 milhões 266 mil passaram a ter acesso a
coleta de lixo diretamente. Não o tinham em 93 e passaram a tê-lo em 96;
3 milhões 655 mil passaram a ter iluminação
elétrica, aliás 92,9% dos domicílios brasileiros em 96 tinham acesso a
iluminação elétrica e aumentaram em 3 milhões 655 mil de 96 para 93; e
telefone 2 milhões 796 mil domicílios passaram a tê-lo em 96, não o tinham
em 93.
Esse processo envolve ações do Governo Federal,
de estados e de municípios, e ele terá continuidade, e ele é um elemento - não
quero dizer que é o único -, mas é um indicador de um processo de melhora das
condições de vida da população brasileira. Eu não quero aborrecê-los com
outros dados, mas quero dizer que a mesma PNAD mostra, e os dados estarão sendo
apresentados nesse documento, o número de lares e domicílios brasileiros que
passaram a ter bens como por exemplo:
Fogão - mais 3 milhões 125 mil lares passaram
a tê-lo em 96 e não o tinham em 93;
Rádio - 4 milhões 472 mil;
Televisão em preto e branco - 5 milhões 518
mil;
Televisão em cores - 8 milhões 968 mil;
Geladeira - 4 milhões 591 mil;
Máquina de lavar roupa - 3 milhões 114 mil.
Pode parecer que não é relevante. É um
indicador de melhora das condições de vida da população brasileira. Há inúmeros
outros, eu não quero aborrecê-los aqui com números excessivos. Há
indicadores de crescimento do rendimento médio real do trabalhador ocupado; há
indicadores de melhoria da distribuição de renda associada à retirada da
canga e da carga do imposto inflacionário, que incidia sobre os mais pobres. Eu
não quero entrar em grandes números. Eles estarão disponíveis nessa publicação
que estará sendo distribuída. Eu queria dizer que a outra vertente desse
processo de melhora das condições de vida tem a ver não só com acessos a
bens públicos e privados - serviços públicos e bens privados -, mas com o
processo de consolidação de nossas instituições democráticas do nosso
estado democrático de direito, do respeito aos direitos humanos, da busca de
igualdade perante a lei, de assegurar uma política de tolerância zero contra
discriminações de qualquer natureza; esse fascinante processo de emergência
de instâncias intermediárias entre o Estado e a população, que são essas
organizações da sociedade civil, que surgem muitas delas prestando serviços públicos
importantes que contribuem para a melhoria das condições de vida da população,
e o enorme esforço que esse governo tem feito no investimento do seu bem mais
precioso que é a sua gente é o investimento em educação básica e saúde básica,
que é o melhor investimento em termos de taxa de retorno social que um país
pode fazer, numa perspectiva de médio e longo prazo.
Em resumo, o que eu gostaria de dizer ao entrar
neste quinto ano de circulação da nova moeda é que o Brasil mudou, está
mudando e continuará mudando. E quero expressar a minha confiança de que nós
temos todas as condições de assegurar a continuidade desse processo, que
combina objetivos inseparáveis, volto a insistir, que são a inflação sob
controle, o crescimento sustentado com mudança estrutural e aumento de
produtividade, que é a base de crescimento futuro, e nesse processo, no qual há
ainda muito por fazer, é forçoso reconhecê-lo, de melhoria das condições de
vida da população brasileira. Para isso é fundamental que tenha continuidade
esse processo de mudança da estrutura produtiva que vem tendo lugar há alguns
anos, que tenha continuidade o processo de reorganização do Estado, modernização
do Estado e aumento da sua eficiência operacional, em particular na área
social e na área regulatória. E quando eu falo área social, eu falo nos três
níveis de governo. E a continuidade desse processo de reconstrução político
e institucional do país, ao qual tanto devemos ao esforço cooperativo entre o
Executivo e o Legislativo, aqui tão bem representado pelo senador Antônio
Carlos Magalhães e pelo presidente Michel Temer.
Eu queria concluir lembrando só algo que eu
tenho dito há cinco anos, desde que tive a ousadia de aceitar o convite que me
foi feito em agosto de 93 pelo então ministro da Fazenda e hoje presidente
Fernando Henrique para assumir o Banco Central. Disse na audiência pública a
que comparecemos eu, Gustavo e Francisco Pinto, no Senado Federal, que nós tínhamos
um sentimento de humildade e de preocupação diante da magnitude dos desafios a
enfrentar, que eram particularmente graves naquele momento de meados de 1993.
Mas, ao mesmo tempo, disse que essa humildade, essa preocupação, era temperada
com uma profunda confiança, não em nós, não no Governo Federal, não num
grupo de pessoas que trabalham em Brasília, mas uma confiança no Brasil e no
seu futuro. A confiança de que o Brasil, o Executivo, o Congresso Nacional, o
Judiciário, a sociedade, o povo brasileiro saberia se erguer à altura dos
desafios daquele momento e mostrar que era possível sim que nós déssemos uma
resposta ao resto do mundo e que nós tínhamos condições de, ao longo do
tempo, caminhar para equacionar nossos inúmeros problemas econômicos,
financeiros, políticos, institucionais, sociais - onde residem os grandes
desafios - e culturais, porque o que esse país experimentou ao longo dos últimos
anos é uma mudança também de cultura, de corações e de mentes em relação
à cultura inflacionária, a cultura indexatória, que marcou décadas
anteriores de comportamento tanto no setor público quanto no setor privado.
É nesse processo que estamos. É importante vê-lo
como um processo e não como algo que permite soluções mágicas, piruetas,
demagogias de ocasião e promessas de resolução em curtíssimo prazo de tempo
quando nós estamos lidando com problemas complexos que não são passíveis de
resolução com despachos vice-presidenciais e canetadas presidenciais. Eles
exigem mobilização, convencimento, debate público, e eles exigem uma
continuidade de um aprofundamento da maturidade política e da racionalidade
econômica, que vem marcando as nossas discussões nos últimos anos e que eu
espero que tenha continuidade no futuro.
Muito obrigado a todos e longa vida ao Real.
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